• No results found

3.3 Results

3.3.2 The Spot Market

posicionamentos interpessoais.

O modo como os psicoterapeutas narrativos desenvolvem os processos terapêuticos, por recurso a diversas ferramentas retóricas que colocam ênfase na narrativa como construção colaborativa e como desempenho, pode ser diversificado. Não obstante, têm um foco comum – a significação.

2.3. Psicoterapia como contexto para a construção de

significado

Nos pontos anteriores deste capítulo focamos na concepção da psicoterapia como um processo relacional e colaborativo que, pela narrativa, permite a negociação e construção de significados acerca da experiência humana, em geral, e acerca da experiência psicoterapêutica, em particular.

Como foi mencionado, o pensamento pós-moderno, e em particular o construtivismo, sustenta-se na ideia de que o indivíduo constrói significados, ao invés de descobrir uma realidade externa como se defende numa lógica moderna. A Psicologia construtivista teoriza e investiga como os seres humanos constroem

significados para a compreensão da experiência. Porque existem diferentes constelações teóricas e de investigação dentro do construtivismo, como também já foi referido, alguns autores (e.g. Raskin, 2002) preferem falar de “psicologias construtivistas” (p. 1). Se por um lado, esta variedade de avenidas dificulta a determinação de uma orientação teórica única e consistente, por outro lado, contribui para a utilização de linguagens idiossincráticas e, portanto, para uma liberdade na forma como se expressam e significam conceitos. Não obstante as diferenças, todas as abordagens construtivistas centram-se na construção do significado.

Hoyt (2002) oferece uma metáfora interessante para o construtivismo narrativo, ilustrativa da proactividade do indivíduo na construção de significados – metáfora dos três treinadores de baseball que discutem as suas tácticas. O primeiro treinador – o objectivista – diz “I call’ em the way they are”; o segundo treinador – o ético honesto – diz “I call’ em the way I see’ em”; o terceiro – o contrutivista narrativo – diz “They ain’t nothin’ until I call’ em” (p.280). Por outras palavras, existem diferentes possibilidades para a construção de significados, sabendo que a forma como olhamos influencia o que vemos e o que vemos influencia a forma como olhamos.

Numa perspectiva pós-moderna, não é possível um conhecimento directo ou descrição objectiva de uma realidade externa. Aquilo que o indivíduo conhece, conhece- o através da sua experiência. Com base nesta consideração, Epston, White e Murray (1992) questionam “Qual é o processo pelo qual desenvolvemos e compreendemos o mundo, e lhe atribuímos significado?” (p. 96). A resposta, segundo os autores, está nas narrativas/histórias. Assim, as histórias são fundamentais porque situam e organizam a experiência do indivíduo, permitindo-lhe construir significados. Esta ideia de que o processo pelo qual se explora e se organiza a experiência nas histórias facilita a construção de significado é partilhada por outros autores (e.g. Sommer & Baumeister, 1995; O. Gonçalves, 2000; Botella, 2001a,b).

Os sistemas humanos envolvem-se numa procura proactiva de significado para a experiência. Este processo envolve a construção da experiência através da narrativa na medida em que é através da narrativa que criamos e experienciamos significados. Atribuir significados à experiência depende, portanto, de actos interpretativos entendidos como construções associadas a práticas discursivas conversacionais. Assim,

Outros autores, como Newman e Holzman (1999), propõem outra perspectiva sobre as narrativas e a construção de significado. Eles consideram que é mais provável que o indivíduo tenha de construir significado para situar a sua experiência nas histórias do que o indivíduo ter de situar a sua experiência nas histórias para poder construir significado. De acordo com estes autores, a ideia de que para atribuir significado à experiência é necessário organizá-lo nas histórias dos indivíduos pressupõe que a significação é ou deve ser consistente, sistemática e racional. Como os autores não partilham desta ideia, propõem a ênfase no processo de criação de histórias, mais do que na própria história (resultado do processo de construção). É neste processo narrativo que o indivíduo constrói significados.

Independentemente da consideração da narrativa como resultado ou processo da significação, a psicoterapia constitui uma oportunidade para o cliente, no contexto de uma relação situada com o terapeuta, co-construir significados. No capítulo anterior, a psicoterapia foi apresentada como um contexto com os objectivos de (a) compreender a natureza discursiva, narrativa e relacional da experiência humana e (b) co-construir mudanças narrativas (Botella, Pacheco & Herrero, 1999; Botella, 2001a,b). O facto do cliente consciencializar-se da natureza discursiva, narrativa e relacional da sua experiência permite-lhe estar mais receptivo, aberto e activo em relação a novas possibilidades. Considerando que existem diferentes construções e que estas produzem diferentes versões sobre a experiência, o cliente colocará mais hipóteses e fará escolhas acerca das histórias que prefere. Esta flexibilidade será a base para o compromisso do cliente com as suas narrativas e para a intencionalidade na construção da mudança. Nesta linha de pensamento, faz sentido centrar a psicoterapia no conhecimento local, ao invés de manuais estandardizados de intervenção psicoterapêutica, perspectivando a mudança nos processos de construção de significado.

Quando o cliente inicia uma psicoterapia, traz consigo narrativas sobre a sua experiência de vida, das quais é protagonista e autor (Polkinghorne, 1988). O terapeuta interessa-se, ouve activamente e procura compreender estas narrativas do cliente. À medida que se processa a psicoterapia, novas narrativas são negociadas e construídas na conversação terapêutica.

O processo de negociação de significados em psicoterapia situa-se na relação terapêutica, a partir da consideração das construções quer do cliente, quer do terapeuta.

É, portanto, a partir da participação dos dois elementos que emerge a co-construção de conhecimento narrativo. A concepção da relação terapêutica como colaboração entre o cliente e o terapeuta pressupõe um saber mútuo e complementar, o que confere responsabilidade a ambos os participantes (Feixas & Villegas, 2000). Com base na experiência decorrente da prática clínica, Fernandes (2001) sugere que, como o cliente chega à psicoterapia colocando-se numa posição demissionária de saber, o papel inicial do terapeuta é negociar a posição de cada um no processo de construção narrativa, de forma a devolver ao primeiro poder proactivo. O terapeuta passa, então, a colaborar no desenvolvimento de novas histórias sobre a sua vida. Por outras palavras, a colaboração no processo de negociação e construção de significados começa por ser proposta pelo terapeuta, mas gradualmente o cliente vai entrando no jogo colaborativo, experienciando poder sobre as suas histórias.

Newman e Holzman (1999) sublinham a importância do processo de construção múltipla de narrativas na psicoterapia. Efectivamente, se considerarmos que o indivíduo constrói criativamente significados e narrativas, não se pode reclamar legitimidade ou primazia a uma história sobre outra. Assim, a psicoterapia deve ser suficientemente flexível de forma a permitir aceitar a mutabilidade, incerteza e imprevisibilidade do jogo infinito que é a vida (Fernandes, 2001). Ao fazê-lo permitirá também a criação de alternativas múltiplas. Estas narrativas co-construídas no contexto terapêutico são, não definitivas, mas viáveis e úteis para o cliente inserido num determinado contexto sócio- cultural.

Resumidamente, a psicoterapia enquanto contexto para a construção de significados sustenta-se:

a) Na consideração das narrativas que o cliente constrói a partir da sua experiência;

b) Na participação partilhada pelo cliente e terapeuta na negociação de significados e

c) Na utilidade das narrativas, quer do cliente, quer do terapeuta na construção de significados alternativos.

Em síntese, e posicionando a nossa perspectiva numa epistemologia construtivista, entendemos que não é possível ao indivíduo conhecer a realidade independentemente das suas construções. Assim, podemos conceber estas construções

âmbito da negociação interpessoal e social. O conhecimento é considerado consequentemente mais ou menos viável/útil ao indivíduo inserido num contexto sócio- cultural. As principais implicações deste posicionamento são:

a) Uma visão contextualizada do mundo, isto é, a consideração de que o mundo está em constante mudança na medida em que é activamente construído;

b) A concepção do conhecimento como um processo de construção e reconstrução de significados pessoais e sociais;

c) A consideração da utilidade pragmática e preditiva do conhecimento (na medida em que não há verdades absolutas);

d) A visão do ser humano como proactivo e orientado para o futuro (ou seja, para novas construções de significados);

e) A existência de uma relação dialéctica entre o indivíduo e o contexto social, sustentada numa influência recíproca e multidimensional (Botella, 1994).

A psicoterapia enquanto contexto para a construção de significados tem esta abordagem como sustentáculo, constituindo uma oportunidade particular para a mudança na experiência dos indivíduos.