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A investigação qualitativa sustenta-se em dados linguísticos para a construção de compreensões acerca da experiência. O posicionamento epistemológico nesta abordagem de investigação não permite falar de fidelidade (replicabilidade das observações) e de validade (replicabilidade das observações), tal como sucede na investigação quantitativa (Stiles, 1993). A investigação qualitativa não pretende generalizações e rejeita a objectividade. Em alternativa, aceita que as compreensões vão sendo construídas e alteradas ao longo da processo investigativo. Efectivamente, o assumir da subjectividade do investigador, mais que o controlo da mesma, é uma particularidade da investigação qualitativa na psicoterapia.

No entanto, o carácter compreensivo e interpretativo destas abordagens não deve excluir as preocupações de rigor e a necessidade de validar os produtos dos estudos. A investigação deve ser credível e útil para as partes que nela participam. Neste sentido, são necessários critérios de validação da qualidade e rigor das investigações, que garantem a sua viabilidade e utilidade. Apesar da investigação qualitativa não pretender generalizações, esta deve ser validada (Stiles, 1993).

A credibilidade da análise dos dados na investigação qualitativa deriva de um conjunto de estratégias que permitem segurança metodológica. Algumas orientações (Maxwell, 1992; Riessman, 1993; Stiles, 1993; Elliott, 1999; Morrow, 2005) são sugeridas na literatura para a validação da investigação qualitativa.

A investigação qualitativa, em particular a que se sustenta em posicionamentos construtivistas, enfatiza o papel do investigador como co-construtor de significado, assumindo, como já referido, a subjectividade como característica inerente ao seu processo. Para gerir esta subjectividade no processo investigativo, algumas estratégias podem ser utilizadas como critérios para a qualidade e credibilidade do estudo. A reflexividade é uma possibilidade que permite ao investigador compreender como a sua própria experiência e compreensões afectam o processo de investigação. Para tal pode utilizar um jornal reflexivo, registando as suas experiências, reacções e compreensões, ou consultar outros investigadores, recolhendo potenciais perspectivas convergentes ou divergentes. Outra estratégia pode ser o que se designa de triangulação, estratégia pela qual múltiplas perspectivas são levadas em consideração. Procede-se à recolha de informação utilizando diferentes fontes acerca do fenómeno em estudo, múltiplos

métodos (e.g. entrevistas, observação participante, notas de campo) e considerando múltiplas compreensões possíveis (Morrow, 2005).

Maxwell (1992) refere que na investigação qualitativa do mesmo modo que são possíveis múltiplas compreensões dos fenómenos, também são possíveis formas diferentes de validar os estudos. O autor propõe cinco modos de validação dos estudos qualitativos: a validade descritiva, a validade interpretativa, a validade teórica, transferibilidade e a validade avaliativa.

A validade descritiva enfatiza a precisão de descrições acerca de acontecimentos ou situações específicas. Neste tipo de validação, o significado não está em questão, pelo que não é difícil encontrar acordo inter-subjectivo. A validade descritiva não é independente da teoria. Alternativamente, a validade interpretativa, centra-se no significado. O seu objectivo é a compreensão do fenómeno em estudo tendo por base, não a perspectiva do investigador, mas a perspectiva dos participantes cuja experiência se pretende estudada. Trata-se, portanto, de uma abordagem pela qual os significados são construídos pelo investigador mas com sustentáculo na linguagem dos participantes. Por outro lado, a validade teórica refere-se explicitamente às construções teóricas que o investigador traz consigo ou desenvolve durante o estudo. O seu objectivo é mais ambicioso do que a descrição das perspectivas dos participantes. É sua pretensão a explicação dos fenómenos. Estes três tipos de validação são o que mais estão envolvidos nos estudos qualitativos.

Ainda são referidos mais dois tipos de validação da investigação qualitativa. Neste tipo de investigação, a transferibilidade desempenha um papel diferente daquele que se pretende na investigação quantitativa. Na investigação qualitativa, esta estratégia de validação significa a extensão das compreensões dos fenómenos em estudo, envolvendo habitualmente o desenvolvimento de uma teoria que faça sentido não só para os participantes no estudo mas demonstre como o mesmo processo, em diferentes situações, pode conduzir a diferentes resultados. Por outro lado, a validade avaliativa envolve a avaliação dos fenómenos em estudo. Trata-se de uma estratégia pela qual se pretende, não descrever ou interpretar, mas avaliar o que se está a estudar. A validade avaliativa, tal como a transferibilidade não tão centrais na investigação qualitativa como a validade descritiva, interpretativa e teórica.

Stiles (1993) elaborou uma tipologia de critérios de validação dos dados qualitativos baseada em dois factores: (a) locus do impacto das compreensões (leitor, participante ou investigador/teoria) e (b) tipo de impacto (acordo com conhecimentos prévios ou mudança na compreensão do que está em estudo). O autor especifica como estratégias de validação: a coerência narrativa, a auto-evidência do estudo, validade certificada, validade catalítica, consenso entre investigadores e validade reflexiva. O Quadro 1 ilustra a organização destas estratégias de acordo com os dois factores referidos.

Tipo de impacto

Locus do impacto Acordo com teoria prévia Mudança/Novidade Leitor Coerência narrativa Auto-evidência

Participante Validade certificada Validade catalítica

Investigador e teoria Consenso Validade reflexiva

Quadro 1 – Tipologia de validação na investigação qualitativa (adaptado de Stiles, 1993)

A coerência narrativa refere-se à aparente qualidade das compreensões construídas no estudo. Assim, existe coerência quando existe consistência narrativa, ou seja, compreensão das relações entre diferentes elementos do material em estudo. Para o leitor, toda a narrativa da investigação é coerente e faz sentido. Também na perspectiva do leitor, o estudo pode permitir mudança e novidade ao responder a uma questão de investigação. A auto-evidência é uma estratégia de validação da investigação qualitativa que ajuda o leitor (tal como o investigador) a dar sentido à sua experiência. Deste modo, o leitor considera a narrativa da investigação auto-sustentada na construção de compreensões acerca do que está em estudo.

A validade certificada da investigação consiste em apresentar e negociar com os participantes as compreensões que emergem do estudo. Deste modo, é pedido aos indivíduos cuja experiência se pretende estudar que participem na construção das compreensões. Por outro lado, a validade catalítica da investigação permite não só apresentar e negociar com os participantes as compreensões do estudo, mas também produzir mudança nos próprios. Pretende-se não só recolher, mas também reflectir, analisar e reconstruir material narrativo com os participantes. À medida que o processo decorre, os participantes vão não só alargando as suas histórias, mas igualmente

transformando-as. Neste sentido, a investigação não consiste apenas em desvendar ou conhecer histórias, mas fazer parte delas.

O consenso entre investigadores é uma estratégia de validação da investigação qualitativa pela qual diferentes investigadores familiariza-se com o material narrativo original que se pretende estudar, elaboram compreensões individuais e, depois em conjunto, discutem pontos de acordo e desacordo. Emerge, deste modo, o consenso que reflecte julgamentos de diferentes investigadores, que vão jogando entre o material original e as compreensões. Por fim, a validade reflexiva refere-se à forma como a teoria vai sendo modificada pelos dados empíricos. Por via desta estratégia, constrói-se uma relação dialéctica entre a teoria e o material narrativo original, de forma que novas ideias emergem. Mais do que testar ou comprovar uma teoria, o objectivo é ser-se auto- crítico e reflexivo de tal modo que a teoria vai gradualmente mudando devido a novos dados e novas compreensões.

Elliott (1999) sugere a segurança metodológica por intermédio de estratégias como (a) a categorização com base em exemplos, (b) uma postura investigativa liberta de modelos teóricos, (c) múltiplos juízes, (d) auditores externos, (e) triangulação usando informação qualitativa e (f) o uso de representações visuais para integrar os resultados.

A validação das análises qualitativas envolve, segundo Riessman (1993), quatro características centrais: a plausibilidade, a correspondência, a coerência e o uso pragmática. A plausibilidade da análise está presente quando esta se revela verosímil, persuasiva e convincente. Por outro lado, quando os participantes que contribuem para os estudos, facultando dados narrativos, se revêem na teoria construída de um modo localizado, está a ser garantido o critério da correspondência. A credibilidade dos dados deriva, portanto, da devolução das construções que os investigadores elaboram àqueles que contribuíram para essas construções. Fala-se de coerência quando a análise se evidencia congruente e coerente. Idealmente, esta coerência envolve três níveis: global, local e temático. A coerência é global quando a análise permite responder a objectivos latos da investigação; é local quando mais especificamente permite relacionar diferentes aspectos da narrativa e é temática quando aborda diferentes temas associados. No sentido de garantir a coerência, a investigação deve considerar e questionar os seus objectivos em função das narrativas particulares e temas recorrentes em torno do fenómeno em estudo. Por fim, o uso pragmático é o critério pelo qual os estudos

proporcionam informação que permite aos outros avaliar a sua credibilidade, nomeadamente, através da descrição e especificação do modo como as compreensões foram desenvolvidas.

Em jeito de conclusão, a subjectividade é uma característica central na investigação qualitativa, que se pretende rentabilizada ou em alguma medida controlada, mas não aniquilada. Não se pretende anular o facto dos dados que se recolhem e os processos de análise em que se baseia a investigação qualitativa terem inerentes características subjectivas. Toda investigação está sujeita a enviesamentos. O que difere a investigação qualitativa e a investigação quantitativa são os modos próprios com que abordam a subjectividade, em muito influenciados pelas perspectivas epistemológicas de base.

No âmbito da investigação qualitativa, poder-se-á utilizar estratégias de gestão da subjectividade, como por exemplo, a reflexividade do investigador que pode potenciar a coerência e a auto-evidência na construção de compreensões acerca do fenómeno em estudo, a triangulação, o recurso a auditores externos ou a um grupo de consenso, a negociação e análise das compreensões construídas com os participantes, e o estabelecimento de uma relação dialéctica e de movimento constante entre os dados e as compreensões.

A validação não é, portanto, um aspecto meramente inerente à legitimidade da investigação quantitativa. Efectivamente, a investigação qualitativa tem os seus próprios procedimentos de validação. Existe um conjunto diversificado de estratégias que pretende sustentar o desenvolvimento de estudos de qualidade, credíveis, viáveis e úteis no âmbito da investigação qualitativa.

A investigação qualitativa implica processos criativos e exaustivos, que requerem do investigador um envolvimento intensivo (Rennie & Frommer, 2001). No âmbito da investigação qualitativa em psicoterapia, admite-se que a compreensão acerca da prática psicoterapêutica influencia o que se investiga e, por sua vez, a investigação reflecte-se e modifica o que se compreende da prática. É precisamente esta ligação estreita e subjectiva que permite à investigação qualitativa estar próxima e constituir-se potencialmente útil para a prática psicoterapêutica.

PARTE C