Segundo G. Neimeyer (1995), as experiências potenciais de vida são simultaneamente magnéticas e elásticas: magnéticas na medida em que atraem novos significados ao longo do tempo e elásticas porque expandem-se para ajudarem na efectivação de novas experiências. Na mesma linha de pensamento, os problemas correntes do cliente, que argumentam a procura de ajuda psicoterapêutica, representam “janelas” para o sistema de construção, constituindo a psicoterapia construtivista uma potencial oportunidade para a compreensão progressiva e mais viável de si, dos outros e do mundo.
Numa perspectiva construtivista, a psicoterapia pode ser definida como o intercâmbio e negociação de significados intra e interpessoais. O seu objectivo último é a articulação, elaboração e revisão das construções elaboradas pelo cliente, perspectivando a organização da sua experiência e acções. Apesar das abordagens construtivistas em psicoterapia poderem ter diferentes objectivos específicos, todas elas perspectivam, a um nível mais abstracto, o desenvolvimento de um mapa que comporte as construções não articuladas (e que, portanto, provocam o problema ou mal-estar) e gere cursos alternativos viáveis de acção.
A intervenção psicoterapêutica ajuda o cliente a explorar possíveis “avenidas para o movimento” (R. Neimeyer, 1995a, p.3), respeitando todavia os princípios organizadores sobre os quais está sustentada a sua vivência, ou seja, os quadros de referência que permitem a continuidade e unicidade na sua identidade e existência. A
psicoterapia pode ser, então, entendida como uma forma de colaboração na construção e reconstrução de significados, no contexto de uma relação temporária, enquadrada num processo desenvolvimental, que continua depois da sua finalização.
A psicoterapia tem como objectivo a transformação na construção da experiência pelos clientes mediante o diálogo colaborativo. A mudança psicoterapêutica não resulta da aplicação de uma técnica específica, mas da criação de uma forma particular de relação humana (Botella, 2001a,b). A capacidade transformativa da prática psicoterapêutica deriva do diálogo através do qual o cliente e o terapeuta negoceiam significados no âmbito do uso da linguagem no contexto relacional.
O terapeuta é concebido como um colaborador no processo de (re)construção de significados e da história de vida do cliente (Lax, 1992; Stephenson & Haylett, 2000). O terapeuta construtivista respeita e considera seriamente a perspectiva do cliente. Ou seja, considerando o sistema de conhecimento pessoal do cliente, o terapeuta procura compreender o problema e o mundo segundo a perspectiva dele. Paralelamente a esta atitude de abertura e aceitação, o questionamento sistemático no processo terapêutico constitui um meio privilegiado para a compreensão do mundo experiencial do cliente (R. Neimeyer, 1995a). Decorrente da curiosidade e fascínio pela perspectiva do cliente e suas implicações, o questionamento sistemático permite desenvolver uma forma de “empiricismo colaborativo” (G. Neimeyer, 1995, p. 114) por via de uma relação de trabalho que envolve o cliente num processo de exploração sob a forma de hipóteses.
A linguagem de hipóteses pode ser útil ao conciliar a preservação das compreensões do cliente com a exploração de possibilidades alternativas. Esta preservação versus alteração de significados é central no ser humano e, portanto, também na psicoterapia. A psicoterapia construtivista enquanto exploração de hipóteses e revisão pessoal deve permitir a participação activa do cliente no processo de construção de significados. Nesta perspectiva, trata-se de um veículo interactivo para a negociação de novos significados, a partir da acção, participação e manipulações do mundo.
Por outro lado, a ênfase na construção de significado a partir da experiência remete para a importância dos processos criativos, não só do cliente, mas também do terapeuta. Assim, a criatividade do terapeuta torna-se um elemento essencial na psicoterapia. Efectivamente, do posicionamento epistemológico no construtivismo
decorre que a prática psicoterapêutica é diferente com cada cliente, o que requer criatividade ou, por outras palavras, “reinventar a roda” (Raskin, 1999, p. 344).
Para além da consideração da perspectiva do cliente e do questionamento sistemático através do desenvolvimento de processos criativos, a psicoterapia construtivista enfatiza as bases dialógicas e discursivas da interacção do cliente com o seu contexto social e cultural. Este foco deriva do facto do processo de construção de significados por parte do indivíduo influenciar e ser influenciado pelas convenções linguísticas e pelas narrativas culturais do contexto onde se insere (R. Neimeyer, 1995a).
As estratégias psicoterapêuticas podem ser entendidas como rituais de co- construção de significados, como veículo para a reorganização da experiência do cliente e, deste modo, nunca separadas do contexto social e cultural. Por outras palavras, a mudança psicoterapêutica deriva, mais do que da aplicação de uma dada técnica per se, do significado que se constrói a partir do seu uso ao longo do processo de psicoterapia, e este significado é construído colaborativamente pelo cliente e terapeuta, inseridos num contexto sócio-cultural.
Não obstante esta caracterização global das psicoterapias construtivistas, R. Neimeyer (1993, 1995c) propõe quatro metáforas para ilustrar a diversidade de abordagens possíveis3 dentro do construtivismo. Assim, a psicoterapia pode ser definida como (a) ciência pessoal, (b) desenvolvimento do eu, (c) reconstrução narrativa e (d) elaboração conversacional.
Na concepção da psicoterapia como ciência pessoal, cliente e terapeuta são considerados investigadores que trabalham significados colaborativamente. Ao conceber o indivíduo como agente activo ou fonte principal na construção de significados, Kelly (1955, 2001) propõe a metáfora do cliente como cientista, que testa as suas construções de um modo continuado. O cliente é convidado a protagonizar um novo papel na sua vida, testando alternativas e inventando novas construções das situações e relações. Neste processo, o terapeuta actua, não como um técnico que procede à aplicação de um tratamento previamente definido, mas como alguém que experimenta e investiga, tal como o cliente. É por via da criatividade que este processo se desenvolve. Por outras palavras, a construção partilhada de hipóteses, que o processo
terapêutico vai confirmando ou desconfirmando, requer um envolvimento criativo do cliente e do terapeuta (Raskin, 1999).
A psicoterapia enquanto desenvolvimento do eu consiste num processo criativo e partilhado na definição, exame, revisão e expansão de diversas auto-construções. Esta definição contesta a concepção de um eu unificado, argumentando a sustentabilidade de diferentes possibilidades, que para além de diferentes, são transitórias e úteis em diferentes contextos. Deste modo, a psicoterapia tem por objectivo a construção de eus, que continuamente inventados, perspectivam conferir significado à experiência do cliente. Por consequência, o papel do terapeuta não é descobrir a “essência” do cliente, mas ajudar na invenção de auto-construções, pelo que a criatividade, também no âmbito desta metáfora, se revela essencial (Raskin, 1999).
A psicoterapia como reconstrução narrativa coloca o seu foco no modo como os clientes constroem histórias a partir da sua experiência e no modo como essa construção narrativa influencia a própria experiência (Gonçalves, 1995, 2000). No âmbito desta metáfora, a psicoterapia é um processo criativo que permite transformação por via do contar e recontar histórias pessoais. É deste modo que os clientes constroem alternativas para a sua experiência ou, por outras palavras, se envolvem num processo de re-autoria (White & Epston, 1990).
Por fim, no âmbito da metáfora da psicoterapia como elaboração conversacional, a ênfase é colocada na linguagem e no diálogo. Os proponentes desta abordagem concebem a psicoterapia como uma actividade dialógica (Szasz, 1998), que tem por objectivo atender e valorizar o funcionamento e os relacionamentos interpessoais dos clientes através do discurso e da negociação (Anderson & Goolishian, 1992). A psicoterapia revela-se, assim, um processo criativo, conversacional e colaborativo, que ajuda os clientes a redefinirem, linguisticamente, a sua experiência.
Independentemente da diversidade no âmbito da psicoterapia construtivista, os processos de construção de significado constituem o sustentáculo da prática psicoterapêutica. O significado é organizado pelas histórias ou narrativas nas quais o indivíduo contextualiza a sua experiência e a psicoterapia constitui um veículo para a sua construção de um modo colaborativo. Por esta razão, de seguida focaremos a atenção na narrativa e no seu papel na psicoterapia.