A psicoterapia é caracterizada como um campo de investigação em constante desenvolvimento, com ênfase na mudança e sujeita a posicionamentos diversos e, até mesmo, controversos. Simultaneamente, assiste-se a diversas e novas formas de proporcionar e se processar a psicoterapia, ou seja, a prática psicoterapêutica também está em constante movimento. Considerando a diversidade de orientações teóricas, a multiplicidade de abordagens psicoterapêuticas, também se assiste a uma variedade na forma de se investigar a psicoterapia, os seus resultados e processos.
A investigação em psicoterapia pode ser organizada em duas grandes modalidades: a investigação dos resultados terapêuticos, que perspectiva conhecer a extensão na qual o indivíduo muda na sequência do seu envolvimento na psicoterapia, e a investigação dos processos, que procura compreender o que ocorre na psicoterapia que permite a mudança (Elliott, Slatick & Urman, 2001).
A relação entre a prática e a investigação tem vindo a ser acentuada, desde longa data, por estudos de eficácia da psicoterapia. Estes estudos de eficácia têm como finalidade a explicação de relações globais entre variáveis particulares da psicoterapia e a mudança final. Os planos de investigação obedecem aos princípios de controlo, rigor e
exactidão. O procedimento metodológico envolve a avaliação de variáveis das intervenções psicoterapêuticas, num momento específico, e a avaliação dos resultados terapêuticos, noutro momento (Fernandes, 2001).
Apesar de diferentes investigações centradas nos resultados psicoterapêuticos demonstrarem a eficácia de diversas intervenções psicoterapêuticas, pouco informam acerca de como a mudança ocorre, dentro e fora do contexto terapêutico. As limitações metodológicas dos estudos comparativos de resultados psicoterapêuticos podem argumentar a ausência de diferenças de eficácia entre as diversas abordagens de psicoterapia – o chamado veredicto dodo bird (Efran, Lukens & Lukens, 1990; Bergin & Garfield, 1994; Machado, 1996; Kopta, Lueger, Saunders & Howard, 1999; Fernandes, 2001).
Por outras palavras, o conhecimento da eficácia da psicoterapia não permite saber sobre como ela é construída, nem sobre como ela se processa especificamente em cada abordagem terapêutica. Adicionalmente, Stiles, Shapiro & Elliott (1986) referem que não se conhece exactamente o que torna a psicoterapia efectiva.
A dificuldade em encontrar diferenças consistentes neste tipo de investigação conduziu ao aumento de estudos dos processos de mudança (Wiser, Goldfried, Raue & Vakoch, 1996). Estes estudos, ao contrário dos estudos de eficácia, têm como objectivo melhor compreender os processos de mudança, ao longo da psicoterapia, em diferentes abordagens psicoterapêuticas. Por outras palavras, são estudos que perspectivam a compreensão dos processos terapêuticos, contextualizados no espaço e tempo, e a sua relação com a mudança.
Conclui-se, assim, que não obstante o objectivo comum, de se estudar a mudança humana, às duas modalidades de investigação – investigação centrada nos resultados e investigação centrada nos processos terapêuticos – decorrem diferentes objectivos e métodos. Assim, enquanto que a investigação centrada nos resultados perspectiva a avaliação da eficácia terapêutica, a investigação centrada no processo centra-se na compreensão dos processos que implicam os resultados psicoterapêuticos, ou seja, os elementos da terapia responsáveis pela mudança (Machado, 1996).
Tradicionalmente, a investigação dos processos de mudança era de natureza causal e, na sua maioria, quantitativa, reflectindo a influência do positivismo e o desejo de testar relações causais. Como consequência, o processo terapêutico era avaliado no
sentido de predizer resultados. Por esta razão, as investigações dos processos de mudança assumiam geralmente a forma de estudos centrados na articulação dos processos e resultados, nos quais os processos inerentes às sessões psicoterapêuticas eram avaliados em termos de índices de quantidade e intensidade. Nesta linha de investigação, alguns estudos remetem para um conjunto de princípios de mudança, independentemente da orientação psicoterapêutica, tais como as expectativas em relação à terapia, a relação terapêutica, o insight e a construção de alternativas pelo cliente na compreensão de si e do ambiente (Wiser et al., 1996).
Na última metade do século XX, diferentes teorias têm procurado descrever que ingredientes terapêuticos são responsáveis pela mudança no indivíduo. Estes mecanismos de mudança são referidos na literatura como factores comuns às diferentes escolas psicoterapêuticas (Hanna & Ritchie, 1995). A procura deste conjunto de factores comuns tem como horizonte o desenvolvimento de uma taxonomia dos processos efectivos de mudança (Martin, 1994).
A título de exemplo, Hanna e Ritchie (1995) realizaram um estudo exploratório, com 18 participantes, aos quais era pedido que comparassem a sua experiência pessoal de mudança com um conjunto de constructos relativos aos factores comuns decorrentes da literatura. Os resultados indicaram como factores comuns mais significativos o insight ou uma nova compreensão, o confronto do problema e uma nova percepção do problema/stress.
A consideração de “mecanismos” de mudança no processo terapêutico é tida como relevante, não só para o estudo do modo como operam tais “mecanismos”, produzindo diferentes resultados, como também para o estudo das similaridades e diferenças entre diversas perspectivas psicoterapêuticas. Wiser et al. (1996) estudaram comparativamente processos de mudança em psicoterapias tradicionais – terapia cognitivo-comportamental e terapia psicodinâmica. Os resultados deste estudo demonstraram um aumento gradual da consciência do cliente para aspectos intra e interpessoais, em ambas as modalidades psicoterapêuticas. Contudo, também traduziram diferenças na conceptualização de variáveis do cliente e de “indicadores” de mudança terapêutica. Assim, enquanto que a terapia cognitivo-comportamental pareceu ser relativamente optimista, colaborativa e orientada quer para o presente, quer para o futuro, a terapia psicodinâmica pareceu lidar mais com padrões interpessoais problemáticos, ser mais pessimista e orientada para o passado.
A investigação quantitativa e experimental continua a exercer uma forte influência na ciência psicológica dos nossos dias. A urgência em demonstrar que a psicoterapia produz resultados positivos e permite mudança – necessidade que conduziu aos estudos de eficácia e à procura de ingredientes psicoterapêuticos – não tem invalidado uma maior sofisticação na investigação, quer dos resultados, quer dos processos. Por esta razão, uma maior atenção tem sido orientada para a significância clínica, por contraponto à significância estatística (Garfield & Bergin, 1994). Ao passo que a significância estatística permite avaliar se há ou não resultados positivos, a significância clínica refere-se à importância prática ou aplicada da psicoterapia (Kazdin, 1994). Esta significância clínica é calculada através de métodos também eles quantitativos e estatísticos que permitem conhecer o grau com que o indivíduo muda (Lambert & Hill, 1994).
O reconhecimento da importância das investigações quantitativas não invalida críticas. Este tipo de investigação apresenta contradições e limitações, especialmente quando se pretende transferir o foco na avaliação de variáveis globais para um foco em fenómenos específicos e de maior utilidade psicoterapêutica. Para além de não existirem posicionamentos consensuais na actualidade quanto à investigação quantitativa sobre os processos e resultados psicoterapêuticos, as limitações e resultados contraditórios neste tipo de estudos vêm reforçar a importância dos métodos qualitativos na compreensão da mudança terapêutica (Elliott, Slatick & Urman, 2001). Alguns autores (e.g. Alexander, Holtzworth-Munroe & Jameson, 1994) referem a possibilidade válida de se considerar uma abordagem eclética de investigação, ou seja, uma metodologia que concilie as duas formas divergentes, que pode resultar numa complementaridade na compreensão da psicoterapia.