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7. FINDINGS AND ANALYSIS

7.5 D ISCUSSION OF R ESULTS

7.5.3 Speed of Adjustment Estimators

O entre-lugar é um conceito recorrente na obra acadêmica de Silviano Santiago. Ao refletir sobre a literatura latino-americana e sua condição de colonizada culturalmente, Santiago entende que o discurso literário do continente é um simulacro, uma cópia que tem como base um modelo de desenvolvimento, que é o europeu, e isso

se reflete na criação artística e literária. Ou seja, a literatura europeia dos colonizadores é um modelo a ser seguido e a latino-americana esforça-se para atingir esse modelo.

Enquanto crítico, Santiago considera que a originalidade da literatura latino- americana está justamente em seu surgimento enquanto expressão artística, mas que essa origem é suprimida pelo modelo posto como ideal. Assim, o autor latino-americano tem que se apropriar desse modelo superior, dinâmica na qual sua obra é considerada inferior por uma crítica de caráter comparativista. Santiago critica com veemência esse tipo de postura.

Tal tipo de discurso crítico apenas assinala a indigência de uma arte já pobre por causa das condições econômicas em que pode sobreviver, apenas sublinha a falta de imaginação de artistas que são obrigados, por falta de uma tradição autóctone, a se apropriar de modelos colocados em circulação pela metrópole. Tal discurso crítico ridiculariza a busca dom-quixotesca dos artistas latino-americanos, quando acentuam por ricochete a beleza, o poder e a glória das obras criadas no meio da sociedade colonialista ou neocolonialista. Tal discurso reduz a criação dos artistas latino-americanos à condição de obra parasita, uma obra que se nutre de uma outra sem nunca lhe acrescentar algo de próprio; uma obra cuja vida é limitada e precária, aprisionada que se encontra pelo brilho e pelo prestígio da fonte, do chefe de escola. (SANTIAGO, 2000, p. 17-18)

Das colunas de crítica que compõem o corpus da pesquisa, o entre-lugar é identificado na abordagem de obras e temas que remetem a essa situação colonizada da literatura e do discurso latino-americano. Em "Alquimia poética e utopia" (28 mai. 2011), Santiago comenta a obra poética de Oswald de Andrade. Em Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade, o poeta se utiliza de um caráter oral e de uma gramática considerada normativamente errada para tentar expressar genuinamente a fala do brasileiro. Santiago considera a exigência do "falar correto" como uma herança dessa tradição eurocêntrica importada pela literatura latino-americana.

O escritor modernista brasileiro também tem o fingimento como alicerce da poesia. No entanto, de Fernando Pessoa se distancia por colocar como epicentro da escrita poética não a distorção da dor sentida, mas a desconfiança em relação ao nível de exigência formal requerido do adulto no uso da língua nacional e da linguagem poética. Em rebeldia contra o saber escolar que o constituiu como cidadão e contra a tradição literária eurocêntrica que o constituía como artista da palavra, o modernista finge observar o mundo com olhos de criança e

finge imitá-la na redação. Contraditória e autenticamente, estaria escrevendo poesia de e para cidadão adulto brasileiro. (SANTIAGO, 28 mai. 2011, ver ANEXO A)

É interessante a forma como o crítico relaciona o recurso utilizado por Oswald de Andrade de se fazer criança em seus poemas, de forma a atingir como público o brasileiro adulto. Na ótica de Santiago, são dois personagens - a criança e o brasileiro adulto - que não se utilizam do padrão culto da língua, apesar de terem domínio do idioma. Apesar disso, Santiago não considera essa linguagem da poesia modernista autêntica, genuína. É um recurso de humor no qual o falar errado é colocado como referência da brasilidade buscada pelo modernismo. É o "fingimento" de Fernando Pessoa aplicado por Oswald de Andrade a fim de aproximar-se da fala do brasileiro comum daquele período.

O caderno escolar de Oswald tem em comum com os dois exemplos o trato com o desconhecido, que se expressa pelo desejo de "ver com olhos livres" e de sentir a "alegria dos que não sabem e descobrem" (como está no Manifesto da poesia pau-brasil). Bem acabada, a linguagem poética do caderno de Oswald é, no entanto, mal torneada por ser fingidamente inocente e ingênua, decidida a desconcertar o leitor pela varinha de condão do humor e da surpresa. O poeta não está onde você acredita que ele deveria estar. (SANTIAGO, 28 mai. 2011, ver ANEXO A)

O "ver com olhos livres" colocado por Santiago é exatamente a experiência de produzir poesia e literatura sem ter como modelo o eurocêntrico, de ter liberdade de criar sem uma referência literária superior.

Já o posicionamento de Silviano é justificável se levarmos em conta o ideal modernista brasileiro, expresso no Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade e comentado pelo crítico em "A comida da arte e da ciência" (23 jul. 2011). Para eles, a arte brasileira deveria buscar no modelo europeu a inovação das vanguardas e adaptá-las ao seu contexto, ressignificando-as. Santiago divide essa antropofagia em duas: a alta, que tornaria o brasileiro sujeito de si mesmo e de sua cultura, e a baixa, que instalaria aqui um modelo eurocêntrico de dependência cultural.

A alta antropofagia recobre, por metáfora, o pioneirismo da reflexão sobre a cultura no Brasil e o avanço iminente da nossa arte de vanguarda, contanto que as raízes indígenas sejam preservadas com alegria e assumidas sem preconceito etnocêntrico. (...) Ainda abusando da metáfora, o manifesto reza que a baixa antropofagia está "aglomerada nos pecados de catecismo - a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados". Oswald alerta: "É contra ela que estamos agindo". A distinção inicial se desdobra. A baixa antropofagia tomou os brasileiros por objeto, transformando-nos em povo culto e cristianizado. A alta nos elevará à condição de sujeito da história nacional, capaz de atualizar a pujança recalcada de povo primitivo e selvagem. Distinções e preferência visam a limpar o porvir brasileiro do entulho civilizatório com que a Europa nos distinguiu durante a colonização. (SANTIAGO, 23 jul. 2011, ver ANEXO A)

O entre-lugar, colocado por Silviano Santiago, é um reflexo do desenvolvimento irregular e não planejado pelo qual os países da América latina passaram, uma implicação artística e literária que deriva da forma como o continente foi colonizado e teve seu desenvolvimento industrial tardio. Culturalmente, ele é expresso na coluna por uma busca em superar essa baixa antropofagia, atingindo sua vertente alta.

Em "Cara de um, focinho de outro" (07 ago. 2010), Santiago comenta uma compilação de ensaios que analisam o desenvolvimento de diferentes áreas do mundo de forma comparativa, assumindo a existência de um modelo superior de desenvolvimento, que é o dos países desenvolvidos do bloco que compreende a América do Norte e a Europa, tal como ocorre com o campo artístico, de acordo com o conceito do entre-lugar.

Nos simpósios internacionais, acostumei-me a perceber o modo como a América Hispânica era sobreposta à América Latina, obrigando a língua portuguesa e a cultura brasileira a se afirmarem solitariamente. (...) Hoje, as novas gerações desfazem o déficit identitário. Alavancados pela esperança do Mercosul, os jovens pesquisadores universitários hispânicos e brasileiros transitam com conhecimento pelas duas línguas europeias nacionais e as várias indígenas e africanas, pelas histórias locais concorrentes, pelos conjuntos distintos de tradições, perfazendo, aí sim, uma única história, em muito semelhante à dos Estados Unidos, onde são as diferenças que saem em busca da afirmação identitária. Isso significa que as "fronteiras políticas, as disputas incontáveis, as barreiras geográficas e os eventos aleatórios" estejam sendo minimizados, embora ainda existam e pipoquem. Este é, por exemplo, o caso do contencioso entre Colômbia e Venezuela. (SANTIAGO, 07 ago. 2010, ver ANEXO A)

Dessa forma, o discurso como um todo da América Latina é um discurso localizado no entre-lugar proposto por Santiago: por ser colonizado, é sempre relacionado a um referencial considerado como modelo ideal. Mas por causa disso, é um discurso que se esforça em afirmar sua identidade com o que tem de próprio, de único. Isso leva o crítico a condenar a análise que encara o modelo único de desenvolvimento, em detrimento de modelos múltiplos.

Em "Apreender o clima de apreensão" (08 jan. 2011), essa situação do desenvolvimento da América Latina é interpretada pelo crítico como uma metáfora utilizada por Ricardo Piglia no romance Blanco Nocturno. Nele, Silviano Santiago relaciona a chegada de um estrangeiro à chegada do modelo de desenvolvimento eurocêntrico às áreas periféricas do mundo - no caso, à Argentina -, o que era a causa de incerteza e a apreensão dos que eram subordinados a esse sistema.

Ao apreender o clima de apreensão por que passa a cidade depois da chegada dum forasteiro gringo, Tony Durán, o texto retrata o comum e o torna inteligível. Por olhar o dia a dia pela ameaça do forasteiro, a escrita ficcional evidencia isolamento, atraso e os delírios induzidos pela especulação imobiliária e pela industrialização no campo. (...) É a descendência masculina dos Belladona, com destaque para Luca, o bastardo, que naturaliza apreensivamente nos pampas a modernização industrial primeiro-mundista. A importação do know-how técnico é salientada por processo de apreensão semelhante ao comportamental. "Copiar-adaptar-enxertar-inventar", explicita o romance, bem na tradição brasileira iniciada por JK e o Iseb. No delírio empresarial de Luca estão também embutidos os óculos infravermelhos. Através de Tony, das gêmeas e de Luca, o leitor passa a enxergar o "branco noturno"? O enigma do subdesenvolvimento platino nos anos 1970 e suas múltiplas e delirantes versões. (SANTIAGO, 08 jan. 2011, ver ANEXO A)

Ao abordar as "múltiplas e delirantes versões do subdesenvolvimento", Santiago reafirma seu propósito de ser contrário aos modelos únicos e universais, característica que se torna evidente em outros grupos temáticos de suas críticas.