Seguindo-se o pensamento crítico de Silviano Santiago, a literatura latino- americana encontra-se em um entre-lugar. Isso implica em ser interpretada como um simulacro de um modelo considerado superior, original, no qual ela deve se espelhar. Assim, a crítica feita a essa literatura acaba por ter o caráter comparativista, que busca identificar na obra suas referências ao modelo superior (no caso, o eurocêntrico), assim como colona Nitrini (2000) em seu panorama da Literatura Comparada no Brasil. Santiago, em sua produção acadêmica, mostra-se contrário a essa postura crítica, já que ela reduz a produção literária genuína da América Latina e não contribui para o fortalecimento de uma tradição literária própria.
Dessa forma, o que se percebe na abordagem feita pelo crítico é justamente a busca de legitimar essa literatura, de valorizar o que nela é único, genuíno, com o objetivo de fortalecer uma tradição literária latino-americana. Em "Jovens autores em espanhol" (02 abr. 2011), Santiago fala da antologia Los Mejores Narradores Jóvenes en Español, que reúne a produção literária de novos autores em língua espanhola, não somente latino-americanos, mas também espanhóis. A escolha de Silviano em abordar esses novos nomes, que ainda estão em processo de legitimação no campo literário e no campo crítico, sinaliza uma busca pela legitimação da própria literatura latino- americana. Ao valorizar essa nova produção e, enquanto crítico acadêmico, ter uma atitude legitimadora, contribui para o fortalecimento de uma tradição literária que se forma nos países hispânicos, sobretudo na América Latina. Santiago faz de sua capacidade de legitimação um exemplo para o que considera como crítica ideal.
O que se pode destacar da abordagem feita por Silviano é que, ao falar de uma vanguarda literária na América latina, ele se reporta a uma tradição literária autóctone, genuinamente latino-americana. Assim, Santiago consegue se desprender do caráter comparativista que marca a crítica literária feita em relação não só à literatura latino- americana, mas a todas as literaturas que se desenvolvem em áreas periféricas. Se, por um lado, a literatura comparada tende a buscar na obra latino-americana suas origens do modelo eurocêntrico, Santiago busca em Gabriel García Marquez, Julio Cortázar e Mario Vargas Llosa as origens dessa nova literatura na América Latina.
Nos anos 1960, a agente literária Carmen Balcells, chamada de a Mamá Grande pelo Nobel García Márquez, descobre no porto de Barcelona o ovo de Colombo da literatura hispano-americana. Em Paris, a agente Ugné Karvalis, companheira de Julio Cortázar, o estala na manteiga quente da editora Gallimard. Em Cuba, a América Latina de Che Guevara inspira Haydée Santamaría a fundar em 1959 o Itamaraty cultural da revolução, a Casa de las Américas (a língua portuguesa e a francesa do Caribe só terão vez e voz na gestão tardia de Roberto Fernández Retamar). Carmen, Ugné e Haydée são as principais responsáveis na divulgação dos autores hoje considerados como pertencentes ao boom literário hispano-americano. O já idoso e renegado Mario Vargas Llosa recebe em 2010 o Prêmio Nobel. Fecha- se o ciclo Carmen Balcells? Domiciliada em Londres e em Barcelona, a influente revista Granta acaba de conceder cidadania a 22 netos das três madrinhas, todos nascidos depois de 1975. Com direito à edição em inglês, reúne em antologia Los Mejores Narradores Jóvenes en Español. Ao retirar o foco de luz do tabuleiro dos estados-nações, questiona-se a organização clássica da diversidade cultural europeia e hispano-americana. Esta se representa pelo uso pessoal e literário da herança comum, a língua de Cervantes. Jovens espanhóis se misturam a outros mexicanos e argentinos. (SANTIAGO, 02 abr. 2011, ver ANEXO A)
Outra consideração feita por Santiago a ser destacada é o reconhecimento que esta é uma literatura que transpõe as fronteiras nacionais dos países. Quando ele diz "questiona-se a organização clássica da diversidade cultural europeia e hispano- americana", o questionamento reside exatamente no fato de esse rompimento de fronteiras romper também com a sistemática que submete a literatura latino-americana à tradição europeia e estabelece hierarquias de literaturas tradicionais e influenciadas.
Ainda em relação à "Jovens autores em espanhol", Santiago menciona em um trecho que "Os 22 convocados não compartilham os ideais dos avôs, escritores militantes na esquerda ou na direita. Desiludidos com a luta política, iludidos com as transgressões em arte, os novos transitam entre literatura e cinema". Entende-se então que o crítico considera a transgressão artística uma ilusão. Ao afirmar que a tradição literária na América Latina tinha uma preocupação política, Santiago reconhece nela o esforço de ser legitimada enquanto uma arte genuinamente latino-americana. Ele ainda reconhece a tradição latino-americana nas vertentes lançadas por elas, como o Realismo Fantástico.
controla como radar o espaço narrativo. É o caso do conto Un Hombre Llamado Lobo, de Oliverio Coelho, onde o clássico Pedro Páramo, de Juan Rulfo, monitora a procura do pai, perdido numa cidade fantasma. O realismo fantástico ainda cobra porcentagem, como no conto De la Puerta y los Seres Extraños, de Sonia Hernández. (SANTIAGO, 02 abr. 2011, ver ANEXO A)
Partindo para uma crítica focada em um autor e obra específica da literatura latino-americana, em "Todas as nações de 2666" (05 fev. 2011), Santiago aborda o romance 2666, de Roberto Bolaño, autor que, segundo o crrítico, poderia ser localizado também em um entre-lugar dentro da literatura da América Latina, nem tanto na considerada literatura tradicional do continente, também não pertencente à vanguarda abordada em "Jovens autores em espanhol". Silviano então vê em Bolaño a figura do representante de uma nova tradição literária na América Latina que começa a ganhar legitimidade.
O romance 2666, escrito pelo chileno Roberto Bolaño (1953-2003), é enorme. Traduzido e publicado no Brasil, há que franquear-lhe algum espaço. Sua leitura não cabe numa coluna. Cabe a digressão sobre traços formais do novo cosmopolitismo literário por ele representado. O mais saliente dos traços é o retorno do personagem. (SANTIAGO, 05 fev. 2011, ver ANEXO A)
O destaque dado por Silviano Santiago nesta análise é à composição temporal do romance. O crítico explica como o autor traça duas linhas temporais diferentes ao longo da obra, uma que engloba o enredo geral, de forma linear, e outra que explora a biografia de cada um dos personagens, ou seja, são várias linhas secundárias que retornam à linha principal. Silviano considera a linearidade do enredo principal "pouco caprichosa", o que parece indicar uma preferência pela não-linearidade nas obras.
A conta do retorno do personagem ao romance do novo milênio é paga pela representação em nada baralhada e pouco caprichosa do tempo narrativo. O tempo se desenvolve pela horizontalidade. É linear-evolutivo, como em romance flaubertiano. Fato saliente é a volta de personagem menor ao núcleo estável da narrativa, ou o momento em que um deles, o Almafitano, por exemplo, domina o segundo dos cinco volumes. Até então incompleta, a biografia do personagem menor se arredonda por nova perspectiva
espaciotemporal. Ao reaparecer, o personagem menor interrompe o tempo narrativo horizontal pela sua verticalização e obriga o leitor a reconsiderar a linearidade temporal tomada de empréstimo ao romance realista-naturalista. O narrador subordina o recurso à onipresença de Deus e o nomeia como "a coincidência". (SANTIAGO, 05 fev. 2011, ver ANEXO A)
Mesmo reconhecendo essa característica na obra e atribuindo a Bolaño o espaço em "um novo cosmopolitismo literário", essa crítica é um caso no qual Santiago vale-se de comparações entre a obra e o modelo da literatura tradicional europeia e norte- americana. Esse é um aspecto curioso de sua crítica, pois ele condena justamente esse tipo de crítica em sua obra acadêmica, mas por vezes a pratica no exercício da crítica na imprensa.
A vontade de compor um romance por personagem acarreta, por um lado, o desinteresse em concebê-lo como exercício curto de escrita lúdica, na esteira de Jorge Luís Borges e de epígonos como Enrique Vila-Matas. E acarreta, por outro lado, a retomada da narrativa por biografia(s) explícita(s), característica saliente e nobre da ficção inglesa setecentista de Daniel Defoe e Laurence Sterne. (...) O detalhe torna o romance de Bolaño herdeiro do célebre final do já citado O Tesouro da Sierra Madre, de John Huston, inspirado por sua vez em Greed, de Erich von Stroheim. A originalidade da narrativa global está na soma das existências trágicas ou tragicômicas. (...) Na estética romanesca, Gustave Flaubert tornou indispensável o uso da elipse. Em A Educação Sentimental (1869) o narrador não descreve as várias viagens de Frédéric Moreau. Só diz que "Ele viajou, conheceu a melancolia dos navios...". O narrador de Bolaño é também econômico. Atente-se para a passagem em que a narrativa evita o longo diálogo entre Pelletier e Espinosa, ou o jogo de campo e contracampo, como se diz em linguagem cinematográfica. O leitor não tem acesso ao texto integral da conversa sem-fim. (SANTIAGO, 05 fev. 2011, ver ANEXO A)
O que pode explicar essa postura de Santiago em se utilizar do comparativismo, mesmo combatendo-o, é o fato de ele ser um crítico inserido em um campo que, segundo ele mesmo, utiliza amplamente este valor crítico. Estando inserido e legitimado dentro deste campo, Santiago não se dissocia de todo dos valores deste campo, devido as próprias relações de interdependência existentes dentro dele (BOURDIEU, 1992).
Outra coluna em que a abordagem da literatura latino-americana é clara é "Os caninos de animal predador" (09 jul. 2011), também dedicada à obra de Roberto
como objeto de crítica. O que se destaca da abordagem dada por Silviano é o questionamento de como a obra fez sucesso no mercado literário.
O êxito da coletânea Entre Parênteses é uma incógnita. Publicada na Espanha pela Anagrama, ela reúne os textos críticos curtos do romancista chileno Roberto Bolaño, escritos entre 1998 e 2003. A primeira edição é póstuma e data de 2004 e a quinta, de 2011. Romances de sucesso não chegam a cinco edições em sete anos. Publicados em jornal, os artigos de Bolaño não se dirigem aos pares e ainda menos ao público universitário. Passam por cima dos autores, dos professores e dos pós-graduandos, para baterem papo com o compulsivo leitor contemporâneo de literatura. Se ele sobrevive hoje em número reduzido, como Bolaño conseguiu sensibilizá-lo aos montes e seduzi-lo em cinco edições sucessivas? (SANTIAGO, 09 jul. 2011, ver ANEXO A)
O interessante desta passagem é a afirmação do crítico de que os artigos de Bolaño não se dirigem ao público especializado, mas ao leitor comum. Uma das hipóteses já levantadas nesta pesquisa é a de que a crítica de vertente acadêmica perdeu sua capacidade de dialogar com o grande público por causa de seu estilo técnico, direcionado aos próprios acadêmicos. Dessa forma, a crítica de Bolaño se distanciaria da vertente acadêmica por sua capacidade de diálogo. Ao afirmar isso, Santiago também reflete sobre a capacidade de diálogo da crítica não-acadêmica. Ele explica o êxito de Bolaño aproximando-o do estilo dos críticos impressionistas já estudados anteriormente, considerando que sua crítica tem um tom de crônica e até de narrativa.
Se o bate-papo com o leitor de literatura se dá no lugar e data em que ele naufraga, há que analisar a habilidade do crítico ao dobrar o Cabo das Tormentas. Entre Parênteses prova que o leitor de resenha de livro não é o bom-moço disciplinado que sai em busca de um acessível manual de história da literatura universal, oferecido em conta-gotas. (SANTIAGO, 09 jul. 2011, ver ANEXO A)
A observação de Silviano é uma forma de valorização não só da literatura latino- americana, como de seus leitores, que estariam menos passivos diante das obras literárias e mais de acordo com o tipo de leitor que ele defende em sua obra acadêmica e que afirma ser missão da crítica formá-lo.
Estes teóricos esquecem que a eficácia de uma critica não pode ser medida pela preguiça que ela inspira; pelo contrário, ela deve descondicionar o leitor, tornar impossível sua vida no interior da sociedade burguesa e de consumo. A leitura fácil dá razão às forças neocolonialistas que insistem no fato de que seu país se encontra na situação de colônia pela preguiça de seus habitantes. O escritor latino- americano nos ensina que é preciso liberar a imagem de uma América Latina sorridente e feliz, o carnaval e a fiesta, colônia de férias para o turismo cultural. (SANTIAGO, 2000, p. 26)