6. DATA
6.3 D ESCRIPTIVE S TATISTICS
6.3.1 Firm Spesific Descriptive Statistics
Como já foi analisado nos capítulos anteriores, a migração da crítica literária brasileira para o campo universitário deu-se principalmente nas décadas de 1950 e 1960. Nele, a análise crítica contribuiu para a institucionalização dos estudos em literatura comparada. Como expõe Nitrini (2000), esse processo de reconhecimento da literatura comparada contou com os esforços de Antonio Candido, em São Paulo, e de LaFayette Cortes, no Rio de Janeiro. Também não se pode negar a contribuição de Afrânio Coutinho, um dos precursores do New Criticism no Brasil e fundador da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Nitrini (2000) afirma que a institucionalização da literatura comparada no Brasil foi contemporânea ao movimento contrário à "escola francesa" de literatura. Porém, é possível associar o caráter comparativista da literatura comparada à crítica estruturalista, já que ambos têm como recurso principal a relação da obra estudada a um alhures, ainda que a literatura comparada tenda a sempre associar a obra a uma outra manifestação literária - ainda que existam exceções -, e que seu objetivo final não é verificar as estruturas do discurso literário, mas sim as influências e peculiaridades de cada obra/autor, ideia que se aproxima do pensamento de Barthes, o qual considera que o valor literário se dá à medida que a obra modifica seu modelo.
Apesar de ter sua institucionalização marcada nesse período, Nitrini (2000) analisa que a literatura comparada no Brasil teve início em um período bem anterior a esse, na época em que se iniciou o projeto da formação de uma literatura genuinamente brasileira. Isso se deve ao fato de o fazer literário no Brasil ter em si o projeto de se construir uma literatura nacional. Por isso, afirma que "A literatura comparada no Brasil entremeia-se, pois, com a história da literatura brasileira" (2000, p. 189)
Como consequência disso, a autora afirma que a crítica também sustentou um caráter comparativista. Os críticos impressionistas se utilizavam de recursos de comparação em suas análises e críticas de rodapé. Nitrini (2000) coloca ainda que os modelos críticos mais apreciados pela nova crítica brasileira foram o New Criticism e a estilística. Também que um de seus objetivos era fazer com que a literatura brasileira não se colocasse mais como uma literatura colonizada, abandonando a visão de que a literatura europeia é uma literatura superior.
Destacam-se desse período inicial da literatura comparada a publicação, em 1949, de "Literatura Universal", de J. D. Leoni, obra de caráter didático que realiza um estudo da história comparada das diferentes literaturas do mundo. Em 1957, é publicado "Formação da Literatura Brasileira", de Antonio Candido, marco nos estudos de historiografia literária, no qual o autor expõe sua visão sistemática da literatura - o que ainda será analisado neste capítulo - e que iniciou uma tradição nos estudos de literatura comparada no Brasil.
Dos estudos destacados por Nitrini (2000), observa-se que, de uma forma geral, foram estudos que buscaram aplicar os métodos comparativistas, ao invés de refletirem sobre a criação de novas metodologias. Foram estudos instrumentalistas. dentro da perspectiva de
buscar uma identidade à literatura brasileira, os estudos concentraram-se na análise da influência de autores europeus e norte-americanos nas obras brasileiras. Alguns também se dedicaram a comparações entre a literatura brasileira e a latino-americana.
Nitrini (2000) dedica análise mais profunda às contribuições intelectuais de Antonio Candido, Silviano Santiago (um dos críticos que compõem o corpus de análise desta pesquisa), Haroldo de Campos, Roberto Schwarz e o projeto Léryy-Assu, idealizado por Leyla Perrone-Moisés junto à Universidade de São Paulo.
Introdutor da literatura comparada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Antonio Candido conquistou grande importância nos estudos de literatura e obteve destaque no capo acadêmico pelo caráter dialético de sua crítica. Em sua concepção de literatura, Candido combina a visão estética à histórica, valorizando a importância do social nos aspectos estéticos da obra literária. Acerca de Antonio Candido, Süssekind (2003, p. 26-27) afirma:
Exemplar, neste sentido, é Literatura e sociedade (1965), onde discute a separação entre fatores externos e internos ao texto literário. Pois, segundo Candido, trata-se de levar em conta o elemento social, "não exteriormente, como referência", "nem como enquadramento" (como sugere a imagem da "moldura" em Afrânio [Coutinho]) para situar historicamente o livro, "mas como fator da própria construção artística". A questão seria trabalhar com um paradoxo: "o externo se torna interno e a crítica deixa de ser sociológica, para ser apenas crítica."
Sua obra - "Formação da Literatura Brasileira" - também é compreendida como uma reflexão sobre a própria literatura comparada e de como ela poderia formar uma crítica adequada à literatura latino-americana da época. Ela se sustenta na seguintes ideias principais: primeiramente, a literatura brasileira é um sistema, no qual há uma interação entre o autor, a obra e o público; em segundo lugar, a aproximação entre história e estética na análise literária, o que demonstra como a crítica determinista é inviável e que é possível a união entre crítica e história. No caso específico de "Formação da Literatura Brasileira", Candido se dedica também à análise do Arcadismo na literatura brasileira.
A visão dialética de Antonio Candido o permite refletir sobre as literaturas brasileiras e latino-americanas, o que o faz concluir que elas estão empenhadas na construção da
com a independência deles no século XIX, fato que acrescentou a busca pela liberdade através da literatura.
Ao analisar a questão da influência, Candido considera que a dependência existente na literatura latino-americana deve-se ao atraso cultural do continente em relação à cultura europeia. Ainda assim, pondera que a literatura da América Latina sempre se configurou como dependente, não reivindicando para si a posição dominante. Ou seja, a dependência é um fator constituinte dela e é encarada como uma contribuição cultural. Assim, observa que sua legitimação artística - colocada como maioridade - acontece à medida que entra em uma dinâmica mútua de interferências nas literaturas do mundo.
Enquanto Antonio Candido tem como objeto de suas análises a questão da influência, tão comum à literatura comparada brasileira, teóricos como Silviano Santiago e Haroldo de Campos compartilham de visões opostas à ideia de influência. Silviano Santiago, crítico que, juntamente a Sérgio Augusto, compõe o corpus de análise desta pesquisa, concorda que o método de análise da literatura latino-americana deve ser o comparatista. Porém, considera que há uma visão etnocêntrica entre a literatura da América Latina e a Europeia.
Santiago baseia-se na classificação de Barthes dos textos "legíveis" (incontestáveis, que não podem ser reescritos - os clássicos) e "escrevíveis" (que fomentam outros novos textos) e considera que o lugar da literatura latino-americana é o da procura por um texto escrevível, ou seja, o da assimilação da literatura e cultura europeia e o da subversão de sua ordem, estabelecendo assim sua unidade cultural própria. Para Santiago, a ênfase da crítica deve ser, então, a de averiguar o quanto a obra literária submetida consegue se diferenciar e se sobrepor à literatura dominante. As ideias de Silviano Santiago serão analisadas mais detalhadamente no estudo de suas colunas que compõem o corpus da pesquisa.
Já Haroldo de campos considera que não existe relação entre os sucessos artístico e econômico, ou seja, o êxito artístico não estaria subordinado à prosperidade econômica. Por isso, a literatura latino-americana não estaria "condenada" à dependência. Assim, Campos questiona os estudos historiográficos que tentam investigar e constituir uma unidade de um legado comum à literatura. Para ele, toda tentativa do tipo chega a uma conclusão média e convencional. Sendo assim, questiona o momento em que a literatura brasileira tornou-se realmente brasileira. Adotando uma visão universalista, considera que o início da literatura brasileira coincide com a origem de todas as literaturas ocidentais.
Se Silviano Santiago e Haroldo de Campos caminham contra a perspectiva de Antonio Candido e se aproximavam de uma visão desconstrutivista da literatura latino-americana, Roberto Schwarz retoma as ideias de influência em seus posicionamentos. De acordo com ele, existe a cópia dos modelos europeus por parte da literatura da América Latina devido a uma série de "constrangimentos históricos".
Segundo Schwarz, ao longo do desenvolvimento da crítica literária brasileira, houve duas atitudes que fizeram com que ela não refletisse sobre esses constrangimentos históricos. A primeira foi a importação de tendências críticas estrangeiras, o que a impediu pensar em um legado crítico brasileiro. A segunda foi a rejeição às influências externas, o que ele interpreta como uma atitude que não resultou efeito algum. Para o autor, há que se pensar dialeticamente, ou seja, considerar que a imitação, a cópia, é uma consequência das desigualdades sociais do meio em que a literatura se desenvolve. Em uma visão marxista, ele considera que a visão do crítico deve ser dialética, vendo a influência também sob o ponto de vista político, visão essa próxima do posicionamento de René Wellek acerca da crítica norte- americana.
Por fim, há que se destacar o Projeto Levryy-Assu dentro dos estudos de literatura comparada no Brasil. Implantado na Universidade de São Paulo por Leyla Perrone-Moisés em 1978, o projeto teve o objetivo de analisar como as influências francesas foram assimiladas pela literatura brasileira. Essa análise contava com a perspectiva antropofágica de Oswald de Andrade, a qual visa "digerir" e incorporar outras culturas a própria literatura. O projeto encarava a literatura comparada como dependente de uma visão da tradição, o que explica seu interesse pela tradição francesa. E, ao contrário de outras perspectivas, tinha seu foco na assimilação e transformação da literatura brasileira, e não nas obras literárias em si.
Após verificar todas essas tendências que existiram no percurso na literatura comparada no Brasil, Nitrini (2000) expõe que nos últimos anos cresceram os estudos de literatura comparada que envolvem literaturas não-canônicas, tais como a africana, a portuguesa, a canadense e a própria latino-americana.
Mais recentemente, nos anos 1990, o que se percebe é o crescimento dos estudos que se utilizam do desconstrutivismo, do pós-modernismo e dos estudos culturais. De acordo com a autora, há uma preocupação com a descaracterização da literatura comparada. Ainda assim, permanece com o objetivo de se analisar a literatura latino-americana e, mais precisamente, a
brasileira, sem a perspectiva de ser uma literatura colonizada, mas sim uma expressão artística de presença e relevância entre as literaturas do mundo.