3. METHODOLOGY
3.2 Method
3.2.2 Speakers
Nos diversos temas de pesquisas relacionados aos transportes, tanto de passageiros como de cargas tais como transporte e desenvolvimento econômico, mobilidade urbana, acidentes de trânsito, condições de tráfego, transportes de cargas, entre outros, a abordagem dos conceitos basilares da geografia como espaço, território e região é necessária para a compreensão holística de tais problemas. Além disso, evidencia-se que as propostas de melhorias, que resultam com frequência de tais pesquisas, associam as variáveis físicas, econômicas, sociais e ambientais, que se apresentam interconectadas no espaço justificando o interesse e as contribuições dos geógrafos no estudo dos diversos temas relacionados aos transportes.
Desta forma, identifica-se que desde o surgimento da geografia, enquanto saber cientifico, ela tem se dedicado a análise do transporte visando a explicação da realidade territorial (PONS e REYNÉS, 2004).
Assim, é notório o interesse dos geógrafos pelo estudo dos transportes, dado que as infraestruturas de transporte (tais como terminais e estações), bem como as redes (viária, ferroviária, marítima e aérea) ocupam um lugar importante no espaço e constituem a base de um sistema complexo espacial. Além disso, uma vez que a geografia procura explicar as relações espaciais, as redes de transporte são um interesse específico, porque elas são o suporte principal dessas interações (RODRIGUE, 2009).
[...] o centro do interesse dos geógrafos dos transportes está sobre a localização e o padrão geográfico dos sistemas de transportes e a magnitude do movimento ou interação espacial ao longo dos elementos de tais sistemas (BLACK, 2003, p. 4).
Visto que a geografia, através de seus diversos campos de atuação, busca compreender as interações humanas com o meio ambiente, o transporte apresenta- se como uma das atividades através da qual os seres humanos impactam consideravelmente o meio.
Desta forma a Geografia dos transportes, enquanto uma subdivisão da ciência geográfica pode ser definida como o estudo do aspecto espacial do transporte (KNOWLES, 2008). Ou mesmo como o estudo dos movimentos diversos, necessários à vida em sociedade, seus modelos espaciais, estruturas, redes e a dinâmica espacial que estas geram sob uma perspectiva geográfica (PONS e REYNÉS, 2004).
Quanto a base da Geografia dos Transportes, esta se remete ao desenvolvimento dos estudos locacionais realizados pela Geografia Humana, Regional e econômica, com destaque para esta última dado o relacionamento entre desenvolvimento econômico e os sistemas de transportes, tema que será abordado mais detalhadamente ao longo deste capítulo.
Sobre a origem da Geografia dos Transportes enquanto disciplina de interesse, Santos e Souza (2010) destacam que apesar do interesse da ciência pelos meios de transportes e circulação de pessoas e mercadorias ter se intensificado nos últimos cinquenta anos não se sabe ao certo, quando os geógrafos começaram a desenvolver a Geografia dos Transportes. Porém, os indícios de interesse pelo tema, existem desde a Geografia Clássica.
(...) o tema foi tratado pelos clássicos, basicamente pelos franceses, como La Blache, Jean Brunhes, Capot Rey e Max Sorre. Sendo a Geografia dos Transportes em meados da década de 50 classificada pelas escolas:
i. Alemã: enfatizava aspectos políticos. Expoente: F. Richthofen;
ii. Francesa: enfatizava a circulação e o gênero de vida. Expoente: La Blache;
iii. Anglo-saxônica: enfatizava a relação entre transporte e a geografia econômica. Expoente: E. Ullman (NOGUEIRA,1994 apud SANTOS e SOUZA, 2010, p. 04).
Na construção do arcabouço teórico metodológico da disciplina, uma ampla discussão ocorre sobre os conceitos de circulação, comunicação e transportes. Sobre esta questão e, após analisar os trabalhos de Silveira (2011), Pacheco (2001) e Silva Júnior (2004), Arantes (2012) propôs baseado no estudo dos três conceitos, uma nova abordagem chamada pelo autor de Estudo da Interação Espacial. Este podendo ser entendido como as partes da ciência geográfica dedicadas a compreensão dos aspectos dinâmicos do espaço, por meio das noções de circulação, transportes e comunicações (ARANTES, 2012, p. 72).
Adiante em seu trabalho, Arantes (2012) apresenta com base nesta perspectiva o que seria, segundo o autor, a Geografia da Circulação, a Geografia das Comunicações e dos Transportes, como:
A geografia da circulação estuda a lógica que opera os deslocamentos e as combinações (interações) de pessoas e materiais (deslocamento físico) e de informações (deslocamento imaterial) no espaço. Já a Geografia das Comunicações, como uma especialidade da circulação que se preocupa com o estudo dos sistemas de comunicações no espaço, possui um quadro temático mais específico, que engloba a localização e a densidade de sua rede infraestrutural, a tipologia dos veículos de comunicação, seu controle e suas limitações técnicas, o tipo de informações veiculadas, os propósitos das transações informacionais, sua relação com o sentido geral da lógica circulatória em que se encontram associados, a quantidade e a qualidade dos fluxos de informações e suas implicações nas diversas escalas (local, regional, nacional e global) e nas espacialidades (lugar, região, território). Já dedicada ao entendimento dos sistemas de transporte espacialmente constituídos, agrupando um itinerário de pesquisas voltadas para a explicação de suas formas e de suas funções espaciais nas estruturas ambientais, políticas, sociais, culturais e econômicas do processo histórico que constitui (ARANTES, 2012, p. 72).
Entre as áreas de interesse da Geografia dos Transportes, destacam-se as redes de transportes, suas localizações, estruturas, incluindo as ligações e interligações dos vários trechos da rede e o relacionamento com outras redes; sua continuidade e intermitência bem como suas transformações ao longo do tempo, seus fluxos (incluindo os estudos de previsão e simulação de demanda) e a intensidade em que ocorrem; a hierarquização do território a partir da composição das redes e sua influência sobre o desenvolvimento econômico da região, que acaba por contribuir com a competitividade de alguns nós em detrimento de outros (POTRYKOWSKI e TAYLO, 1984; PONS e REYNÉS, 2004)
Para Knowles (2008), os estudos resultantes da Geografia dos Transportes podem ser agrupados em duas principais áreas. Estariam na primeira, aqueles cujo interesse concentra-se na geografia dos sistemas de transportes que ocupam uma porção considerável do espaço e dos quais a forma, layout e extensão são determinadas pela topografia (montanhas, rios, etc.), condições econômicas, capacidade tecnológica, situações sociopolíticas e pela distribuição espacial dos pontos interconectados pelo sistema de transportes. Como exemplo, o autor cita os EUA, que possui uma grande quantidade de espaço viário, refletindo (entre outras coisas) a liberdade individual de deslocamento, promovida pelo alto uso do carro particular em detrimento dos meios de transporte publico.
A segunda área, segundo o autor, concentra-se no estudo dos impactos resultantes dos sistemas de transportes visando compreender a localização dos fenômenos no tempo e no espaço, dado que o transporte é um dos fatores que mais interfere e explica a distribuição das atividades sociais e econômicas (KNOWLES, 2008, pg. 34).
Visto as áreas de interesse da Geografia dos Transportes enquanto disciplina esta, em seu arcabouço teórico e metodológico, além dos conceitos e métodos da própria ciência Geográfica, utiliza-se de conceitos e métodos de outras ciências tais como a economia, a matemática, a engenharia, entre outras que possibilitam uma análise holística das temáticas dos transportes.
Independente do tema em estudo dentro da Geografia dos Transportes, os termos oferta e demanda são frequentemente mencionados. Assim, importante se faz entendê-los, visto que estes conceitos funcionam como reguladores na busca do equilíbrio entre custos dos sistemas de transportes e qualidade do serviço ofertado, esta última sendo medida através dos indicadores de nível de serviço9, seja no
transporte de cargas (que compõe o nível de serviço logístico), nos transportes públicos, nos estudos relacionados as condições das calçadas, das vias etc.
A oferta de transporte representa a capacidade das infraestruturas instaladas de corresponderem às expectativas, tanto da população que anseia por mobilidade, como das organizações públicas e privadas que necessitam da circulação de mercadorias pelo território, através dos diferentes modos de transporte (PONS e REYNÉS, 2004).
Já a demanda por transporte, é definida pela própria necessidade dos usuários mencionados anteriormente de acessarem os locais de interesse, sendo influenciada pelo contexto econômico, particularidades financeiras dos usuários e características do que é transportado. Como exemplo no transporte de mercadorias, a atividade econômica dos estabelecimentos, os produtos a serem transportados, seu peso e volume bem como a localização da produção, entre outras variáveis, caracterizam a demanda gerada (PONS e REYNÉS, 2004).
9 Representa a qualidade com que o fluxo de bens e serviços é gerenciado. Ou mesmo o somatório
das atividades relacionadas com a transação dos produtos ou prestação de serviços que permitem a disponibilização dos mesmos no momento e condições esperadas pelos clientes (BALLOU, 2006).
Atualmente, principalmente nos países em desenvolvimento cujos sistemas de transportes de passageiros e as condições logísticas em geral (incluindo todos os modais) apresentam grande oportunidade de melhorias, verifica-se o aumento da demanda por sistemas de transportes cada vez mais integrados, em termos físicos e tarifários (que possibilitem a complementariedade e flexibilidade entre os modos) com níveis de serviço e de segurança satisfatórios.
Retomando a discussão sobre a Geografia dos Transportes, no Brasil, comparado a outros países como os Estados Unidos, esta despertou tardiamente o
fortalecimento dos demais profissionais relacionados ao setor (engenheiros, arquitetos e administradores, entre outros) perante o mercado de trabalho.
Esta defasagem do Brasil na formação de Geógrafos dos Transportes, comparado a outros países, serviu de estímulo para o trabalho de Santos e Souza (2010). Estes autores identificaram, através da análise das grades curriculares dos cursos de graduação em Geografia das universidades federais do país, que (até a data de publicação da pesquisa) somente 11 universidades do total de instituições que ofereciam o curso de geografia (41), e que disponibilizavam através de seus
websites a grade curricular dos cursos (21) ofereciam a disciplinas relacionadas ao
estudo da Geografia dos Transportes. Ressalta-se que tais disciplinas, dentro dos cursos de graduação em Geografia, apresentavam um enfoque maior nas temáticas do trânsito e transporte urbano.
Outra evidência dos autores foi com relação às nomenclaturas e conteúdos, que, variavam consideravelmente apesar de possuírem aspectos parecidos, relacionados ao Estudo dos Transportes e circulação de pessoas e cargas, sendo denominadas por Geografia da Indústria, Geografia da Circulação, Geografia dos
Serviços, Geografia dos Transportes, Geografia do Comércio e Circulação, Introdução aos Transportes, Geografia industrial, Geografia do Comércio e Serviços e Geografia das Redes e dos Territórios (SANTOS e SOUZA, 2010).
Com relação aos estudos sobre o transporte de cargas e distribuição de mercadorias, dentro da Geografia dos Transportes, como bem menciona Rodrigue (2009), estes são bem menos numerosos e expressivos se comparados aos destinados a compreender os sistemas de transportes de passageiros e as questões de mobilidade individual.
Destarte, verifica-se que embora este tema envolva diversas variáveis temporais e espaciais, sendo de grande importância a análise geográfica em sua compreensão, ele foi negligenciado por muitos anos nos estudos geográficos urbanos e regionais, sendo abordado com mais profundidade somente em publicações consideradas como manuais de Geografia dos Transportes, entre as quais destacam-se Hanson (1995), Taaffe et al. (1996) ou Hoyle e Knowles (2001).