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2. THEORETICAL BACKGROUND

2.1 Sociolinguistic framework

Levantar e analisar o pensam ento das professoras sobre a questão da form ação contínua e as necessidades form ativas no contexto do seu desenvolvim ento profissional se constituiu em um a tarefa significativa e interessante. As entrevistas em grupo fizeram em ergir dados sobre a vida das professoras, sobre o seu trabalho, suas angústias e tam bém alegrias em atuar com o docentes nas escolas públicas m ineiras.

Quando questionadas sobre o que falta, o que querem m udar e o que desej am em relação a suas práticas, as posições das entrevistadas, apresentadas e debatidas nos grupos de discussão, são claras e propositivas. Elas enfatizam as insatisfações com as condições de trabalho e apontam as perspectivas para superar os problem as que dem andam soluções para a m elhoria da prática pedagógica e, conseqüentem ente, da qualidade da escola.

A discussão teórica feita no prim eiro capítulo deste trabalho sobre a form ação contínua, as necessidades das professoras e o desenvolvim ento profissional foi de grande im portância no m om ento do levantam ento dos dados, particularm ente na realização das entrevistas grupais. A teoria orientou a condução dos questionam entos no sentido de levar as professoras a falar sobre os problem as, desafios e cam inhos para a sua prática. Foi em ocionante perceber com o se expressam em relação às dificuldades da profissão e ao m esm o tem po com o são capazes de analisar o contexto em que se encontram e as trilhas possíveis para o seu desenvolvim ento profissional. Confirm am - se assim as palavras de Sacristán ( 1993, p. 71) , ao afirm ar que ver o professor

com o profissional significa considerá-lo capaz de criar sua própria agenda de

desenvolvim ent o profissional.

Quando as professoras são questionadas sobre as satisfações e insatisfações na profissão que exercem , as respostas enfatizam dois aspectos fundam entais: a satisfação com o trabalho docente está relacionada com o desenvolvim ento do aluno e a insatisfação está relacionada às dificuldades enfrentadas no contexto das condições de trabalho na escola. De um m odo geral, o tem po gasto nos grupos de discussão para falar sobre as insatisfações e dificuldades da profissão foi m uito m aior do que o destinado à expressão do que gera prazer e satisfação na atividade docente. Os depoim entos a seguir m ostram com o as professoras se referem à questão.

Eu gosto de dar aulas, eu gosto de conviver com os alunos. A profissão é a m inha vida. Mas existe o desprazer, as fontes de desprazer são tantas na nossa profissão que fica até difícil de enum erar. Hoj e nós não som os valorizados em relação à situação financeira, com o tam bém por pais e alunos. A fam ília acha que a escola é responsável pela educação total dos filhos, e nós não dam os conta disso. As salas são superlotadas. Alfabetizar e ensinar em um a sala superlotada é m uito difícil. ( Entrevista em grupo – Escola D)

Falar em satisfação profissional hoj e é até m uito com plicado. A gente tem enfrentado m uitas barreiras. Mas eu acredito m uito na educação, na educação escolar, porque a fam iliar, infelizm ente a gente não pode contar com isso m ais. Eu ainda tenho um certo encantam ento pela profissão. Eu trabalho com 4a série e sint o que estou conseguindo chegar a algum lugar com eles. Eles são tão carentes, e isso m e m otiva a realizar um bom trabalho. Não está sendo fácil. Nessa escola, por exem plo, nós não tem os nem um a cadeira decente para o nosso aluno sentar. Por isso às vezes se cobra m uita qualidade, m as eu pergunto com o chegar a essa qualidade com a infra- estrutura que nós tem os. O professor tem de ser um m ágico. Eu, com o profissional, gostaria de fazer m ais, e isso m e gera insatisfação, eu gostaria de fazer m ais pelas crianças. ( Entrevista em grupo – Escola B)

As condições de trabalho das professoras são m uito adversas em todas as escolas estudadas. De um m odo geral se referem à situação salarial,

à escassez de recursos, à falta de m ateriais pedagógicos, às instalações físicas da escola, à inadequação da j ornada de trabalho, às condições de form ação, à falta de espaços coletivos para discussão, à falta de reconhecim ento do trabalho que executam , ao baixo envolvim ento da fam ília com a educação escolar dos filhos, etc. Nas entrevistas grupais as professoras enfatizaram que as condições de trabalho oferecem poucas possibilidades para a sua prática e que o trabalho nas escolas é desenvolvido com pouco entusiasm o porque ser criativo e inovador são qualidades pouco incentivadas e reconhecidas.

As professoras deram atenção especial à crítica aos recursos e equipam entos disponíveis, que não atendem as suas necessidades. A inadequação das instalações físicas da escola foi fortem ente associada à baixa qualidade do ensino público atualm ente. Essa crítica liga- se diretam ente a outra questão m uito presente nos quatro grupos de discussão: a desvalorização social da profissão docente. As professoras referem - se sobretudo ao baixo reconhecim ento por parte da sociedade ao trabalho do professor, o que pode ser visualizado através das condições indispensáveis para a sua atuação e tam bém para a sua form ação. Esse ponto de vista é expressado nos depoim entos a seguir.

Neste ano, foi a prim eira vez que eu vi enfatizar na televisão que existe professor nesse país. Eu j á estou com vinte anos de profissão e foi a prim eira vez que eu vi isso acontecer. Eu gostaria que a nossa profissão fosse m ais reconhecida pela sociedade. É um a profissão tão im portante e a sensação que eu tenho é de que a gente não tem valor. Eu gostaria de fazer tantas coisas para m elhorar a m inha profissão, gostaria de viaj ar m ais, de participar de cursos, de com prar livros, de assinar um j ornal. O m eu salário não dá para fazer isso. Eu gostaria de receber um salário m elhor e de ser m ais valorizada, de poder dizer com orgulho que eu sou um a professora. ( Entrevista em grupo – Escola B)

Eu gostaria de estudar, fazer um a faculdade. Mas, com o? Eu não tenho dinheiro para pagar os meus estudos e não consigo entrar em um a universidade pública. Eu gostaria de ser m elhor inform ada, não tenho dinheiro para assinar revistas, j ornais e a bem da verdade nem tenho tem po para ler. Eu tinha de ter acesso à Internet. Sei que o m eu crescim ento depende disso. ( Entrevista em grupo – Escola D)

A baixa valorização da profissão, os baixos salários e as condições de trabalho adversas às quais estão subm etidas são considerados por elas com o fatores que afetam diretam ente as possibilidades de levar adiante o seu processo de form ação. Reclam am principalm ente de que a qualificação profissional fica às custas do próprio professor, pois faltam condições obj etivas que lhes perm itam um a m elhoria da carreira e da situação financeira. Na visão das entrevistadas, as oportunidades oferecidas contribuem pouco para o crescim ento pessoal e profissional do professor. Desse m odo, fica claro que visualizam a questão da form ação ( inicial e continuada) articulada a um processo de valorização pessoal e profissional.

Tam bém expressaram que são raras as oportunidades de com partilhar com os outros os resultados do seu trabalho e que faltam , dentro das escolas, contribuições e críticas construtivas para orientar o seu trabalho. Há poucos m om entos para o planej am ento, para a cooperação e troca de experiências. O fato de trabalharem sozinhas é m otivo de insatisfação, pois faltam espaços para discussão e cooperação, faltam elogios e críticas ao trabalho que fazem . Os depoim entos seguintes ilustram essa posição assum ida nos grupos de discussão.

É necessário a gente ter tem po para encontrar com os colegas, conversar, trocar experiência. Eu gosto do que estam os fazendo agora, por exem plo, é bom falar e ouvir os colegas. Acho que a nossa form ação depende disso, de troca e de diálogo. A gente cresce assim e se form a tam bém . ( Entrevista em grupo – Escola A)

Você faz um curso, vê coisas lindas e depois volta para a escola e se vê sozinha para colocar aquilo em prática. Nós tínham os que ter um a equipe que aj udasse a colocar aquilo em prática, que nos aj udasse a orientar o trabalho. Nós não tem os tem po para encontrar os colegas, discutir sobre o que fazer, com o fazer m elhor. No dia- a- dia você precisa de alguém para conversar, para discutir, para aj udar, para assistir a sua aula, para acom panhar você. Hoj e nós estam os sozinhos. Essa equipe poderia ser até de profissionais de fora da escola, não precisa ser um supervisor. Os professores tam bém precisam se reunir para planej ar e discutir os problem as em com um ( Entrevista em grupo – Escola C)

Os depoim entos revelaram que, além da falta de tem po e espaço na escolas para o encontro sistem ático das professoras para discutirem a sua prática elas sentem falta de um a coordenação do trabalho pedagógico m ais presente no cotidiano escolar e de um planej am ento das ações a serem concretizadas na escola. Falta o sentim ento de “para onde estam os indo e com o fazer para chegar lá.”

O questionam ento em relação à necessidade de um a coordenação m ais eficiente nas escolas apareceu nos quatro grupos de discussão associado à idéia da im portância do diálogo, da participação, de espaços para expressar pontos de vista, para estim ular idéias novas e a m elhoria do trabalho pedagógico. Isso é im portante para as professoras, pois pode levar a aprender coisas novas, a desenvolver práticas m ais interessantes e, por conseguinte, aperfeiçoar o seu papel com o docente. Esse desej o revela que vêem a escola com o um espaço im portante para o seu processo de form ação.

Essa constatação fica m ais evidente quando indagam os às participantes dos grupos sobre o que deveria ser feito para que a form ação, que deveria ocorrer de m odo continuado, contribuísse para m elhorar a sua prática profissional. A discussão realizada m ostrou que desej am um processo de

form ação m ais próxim o da sua realidade, que ocorra dentro da escola. Os depoim entos a seguir evidenciam essa questão.

A gente vê tantas coisas boas nos cursos. Mas quando a gente chega na escola nós não tem os espaço físico para trabalhar com os alunos, não tem os m aterial pedagógico, não tem os um a equipe de apoio para aj udar a desenvolver um proj eto ou para coordenar o trabalho pedagógico. O que a gente aprende fica com a gente m esm a, porque não tem condições de colocar em prática. Eu acho que o trabalho precisava ser feito é dentro da escola. A escola precisa se organizar m elhor e deixar os professores com alguns m om entos para planej ar em equipe e pesquisar. ( Entrevista em grupo – Escola D)

Tem gente que vem dar curso para nós, m as está há anos fora de um a sala de aula. A gente percebe que ele não conhece bem o que é um a sala de aula hoj e. Eles falam bonito m as não contribuem em nada com a nossa realidade, estão totalm ente por fora. A pessoa vem , fala, fala e vai em bora. A contribuição para a nossa prática é m ínim a. Os cursos deveriam ser m ais próxim os da nossa realidade. Os cursos deveriam ser pelo m enos sem estrais e constar no calendário. Tem os que ficar na escola sem alunos para estudar. ( Entrevista em grupo – Escola C)

Nós tem os que trabalhar 200 dias letivos. Por que não trabalhar 180 com os alunos e 20 com atualização? Mas atualização pra valer, que tenha rendim ento. Vir alguém aqui, ganhando dinheiro, e fingindo que está dando capacitação é dem ais para m im . A gente precisa é encontrar com o colega de trabalho, estudar j unto, planej ar, ver coisas novas, conhecer outras experiências. ( Entrevista em grupo – Escola A)

Foram um a tônica nos grupos de discussão as críticas em relação aos cursos esporádicos oferecidos pelas instituições especializadas, sobretudo as universidades e os seus professores form adores, por não corresponderem às expectativas dos docentes. A avaliação das professoras aponta para o pouco sucesso dos cursos de capacitação, feitos esporadicam ente, em m exer com a realidade vivenciada na escola. Nesse contexto, os professores form adores são colocados em cheque por não ter a proxim idade necessária com os problem as

vividos pelas professoras no contexto da sala de aula. A este respeito FI ORENTI NI et al. nos m ost ram que

Parece exist ir um a t ensão conflit uosa ent re saberes da academ ia e aqueles prat icados/ produzidos pelos professores no exercício da profissão. Os saberes dos especialist as, por serem na sua m aioria baseados em pesquisas em pírico- analít icas ou reflexões t eóricas, aparecem geralm ent e organizados em cat egorias gerais e abstratas que idealizam , fragm entam e sim plificam a prática concret a e com plexa da sala de aula. Os saberes da prát ica, por outro lado, parecem m ais adequados ao m odo de ser e agir do professor, pois est ão est reit am ent e ligados às m últiplas dim ensões do fazer pedagógico. ( Fiorentini et al. 1998, p. 310) .

Desse m odo, podem os observar que a dificuldade dos form adores em atender as necessidades e expectativas das professoras está relacionada à postura e à concepção de form ação contínua adotada. A com plexidade da prática docente e os desafios da sala de aula levam as professoras a questionarem os cursos de atualização que pouco significam para alterar as condições concretas que envolvem o seu trabalho na escola. Isso nos revela que o professor questiona a dicotom ia entre teoria e prática e considera que o enfrentam ento dos desafios do trabalho pedagógico atualm ente passa pelo repensar da prática e das questões cotidianas da sala de aula.

As discussões foram ricas em relação à form ulação de propostas. Foi interessante observar o com portam ento de algum as professoras diante de um a proposta, ou posicionam ento que ainda não lhes ocorrera antes da discussão. Essas professoras apresentavam a concordância ou a discordância em relação a algum as questões pontuais, m as de um m odo geral os grupos apresentaram um posicionam ento em com um com relação aos seguintes aspectos:

? A form ação precisa acont ecer dent ro da escola e envolver t odos os professores.

? É preciso dest inar t em po, previst o no calendário escolar, para o est udo, reflexão e form ação do professor.

? Os vínculos grupais precisam ser const ruídos dent ro da escola. É preciso existir espaço para a reflexão coletiva sobre o trabalho pedagógico.

? Os cursos e est udos devem ocorrer a part ir dos problem as e da realidade da escola.

? A escola precisa t er um a coordenação m ais present e e capaz de auxiliar de m odo m ais concreto o trabalho e as necessidades do professor.

Nos questionários aplicados a 65 professoras das escolas estudadas essa idéia pôde ser constatada. Ao serem questionadas sobre quais fatores interferem diretam ente no seu processo de form ação continuada, para que ele possa contribuir para um a m elhor atuação profissional, as professoras nos forneceram as seguintes indicações.

Gráfico 5

Fatores que I nterferem no Processo de