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Spørsmål nr. 86

In document Dokument nr. 15:1 (2000-2001) (sider 113-116)

"Portanto, se o intelecto dispuser apenas da imagem sensível como meio pelo qual o objeto lhe esteja presente e não dispuser de nenhuma representação inteligível, não parece que possa distinguir o verdadeiro do verossímil através de algo em que o objeto lhe é revelado." (Scot, John Duns. Comentário às sen­ tenças

de

Pedro Lombardo. seção I, artigo 3, parágrafo

251.)

Os acervos de depoimentos orais que iremos comentar aqui são constituídos por entrevistas realizadas no contexto de convênios realizados com a Petróleo Brasileiro S.A. (petrobrás) e Centrais Elétricas Brasileiras (Eletrobrás), entre 1987 e 1990. Eles incluem, basicamente, depoimentos de políticos e burocratas envolvidos no processo de criação dessas empresas e de executivos e técnicos com carrejras diferenciadas. O acervo do Projeto Eletrobrás inclui 19 entrevistas, num total de, aproximadamente,

135

horas de gravação .

• Pesquisador do Programa de História Oral do CPDOC/FGV e doutorando em ciência politica pelo Iuperj.

o Projeto Petrobrás soma 38 entrevistas, compondo cerca de

215

horas de gravação.

A seleção dos depoentes obedeceu a algumas diretrizes gerais, em função dos objetivos de cada projeto, mas, por vezes, tivemos de flexibilizar sua aplicação. Em geral, os políticos e burocratas foram escolhidos com base na importância de sua participação no ãmbito do Legislativo e do Executivo, respectivamente, durante o processo de criação das empresas. No caso de técnicos e gerentes, a seleção teve como ponto de partida os primeiros presidentes e diretores das empresas, mas, à medida em que prosseguiram 08 trabalhos, pôde estender-se também para QCU pantes de postos de direção em outras áreas ou companhias subsidiárias. No primeiro caso, a disponibili­ dade pessoal também oondicionou a escolha dos entrevistados, e, no segundo, o critério fundamental foi a posição ocupada na empresa e a carreira desenvolvida.

Do ponto. de vista do trabalho de pesquisa, a execução desses projetos deveria representar, à primeira vista, um afastamento muito pequeno com relação à sistemática habitual de trabalho do programa de História Oral. Se é verdade que o estudo da burocracia pública abria, de fato, novas áreas de investigação, também é verdade que as duas modalidades de entrevistas mais empregadas pelo programa, de cunho biográfico ou de cunho temático, podiam perfei­ tamente dar conta da trajetória de políticos ou administradores envolvidos com a criação ou com os primeiros anos de funcionamento dessas empresas e organizações.

A técnica de estabelecer paralelos entre a biografia pessoal e a

conjuntura política ou econômica e daí partir para a busca de fatos ou interpretações novos, preservados pela memória do depoente, poderia funcionar a contento também no caso dos projetos realizados para empresas estatais. Sobretudo se o depoente possuía uma traje­ tória pessoal mais ampla que seu relacionamento, como político ou administrador, com a entidade estudada. Nada mais fácil, por outro lado, do que relacionar a trajetória das organizações acima citadas com a história política brasileira.

Entretanto, quando a primeira condição não se verificava, ou seja, quando o depoente havia cumprido sua trajetória profissional envolvido apenas com os assuntos internos da organização, uma perspectiva realmente diversa de trabalho se divisava. Na verdade, para a elaboração de roteiros para tal tipo de depoimento, tornava-se clara a necessidade de uma orientação exatamente inversa àquela habitualmente praticada. Era preciso agora centrar todo o trabalho de investigação nas especificidades da evolução institucional dessas

organizações, fazendo referências apenas genéricas à história políti­ ca brasileira. Uma vez consolidado este diagnóstico, toda a agenda de estudo, conseqüentemente, tinha de ser conformada à nova dire­ triz.

O estudo da trajetória dessas organizações passou a demandar, assim, o envolvimento dos pesquisadores com outras áreas de conhe­ cimento, relacionadas às teorias da organização, aos estudos admi­ nistrativos, além dos aspectos tecnológicos ou institucionais especí­ ficos dos setores de atuação dessas organizações. Tratava-se, na verdade, de uma reordenação considerável das atividades de pesqui­ sa, normalmente associadas à realização de entrevistas com mem­ bros da elite política.

Por outro lado, a percepção de que a constituição desses acervos exigiria uma perspectiva diferente de trabalho, precisamente voltada para a vida interna dessas organizações, lançou luz também sobre os motivos que as levaram a requisitar o trabalho do CPDOC e sobre as

novas possibilidades de utilização das fontes orais.

Em primeiro lugar, cabe perguntar por que tais organizações, em determinado momento, manifestaram interesse pela constituição de acervos de depoimentos orais. Ao nosso ver, 08 motivos são variados,

uns de natureza geral e outros mais relacionados às possibilidades oferecidas por um arquivo oral.

Falando em termos gerais, tratava-se de instituições com forte identidade própria, derivada, em larga medida, de seu caráter públi­ co e das repercussões políticas e sociais de suas atividades. A criação e a manutenção da imagem dessas organizações estão muito alêm do trivial simples oferecido pelo binômio propaganda e marketing, destinado a um público consumidor indiferenciado. Ela envolve a reprodução dos seus valores organizacionais em seus próprios qua� dros, a manutenção de uma identidade funcional, a difusão da relevância política, econômica e cultural de sua atuação. Em outros termos, sua imagem pública também é matéria de administração interna. O trabalho de elaboração de sua imagem histórica, portanto, é uma tarefa que possui um peso específico.

No que se refere ao arquivo oral, a preferência prende-sel ao nosso ver, a outra ordem de motivos. Do ponto de vista do produto

final,

dificilmente um projeto de história oral termina produzindo uma interpretação fechada, como seria nonnal no Caso de um livro

ou

artigo. Por mais que a entrevista esteja condicionada pelas infor­ mações e hipóteses de trabalho trazidas pela participação dos pes­ quisadores, ainda assim não se pode alterar o fato de que o texto da

entrevista, seja interpretativo, seja informativo, é produzido pelo entrevistado.

Por outro lado, uma coleção de depoimentos dificilmente apresen­ taria a "neutralidade axiológica" de uma coletânea de documentos. Por mais supersticiosos que sej am os historiadores em relação à

tecnologia do século XX, eles ao menos estão certos quanto ao fato de que o caráter "problemático" da info:rmação - seja sua análise, coleta ou produção - é mais patente no caso do depoimento oral: qualquer

palavra é interpretação.

Assim, as organizações patrocinadoras não necessitavam com� prometer�se com uma interpretação específica ou datada, eventual� lllente produzida pelo pesquisador, e poderiam dispor de Um registro vivo dos agentes de sua história. Além disso, poderiam eventual� mente dispor também do trabalho de pesquisa necessário para a elaboração dos roteiros das entrevistas, que exibem as mesmas garantias de um texto escrito, consolidado em relatórios de trabalho,

artigos ou textos de ocasião.

Quanto ao problema da independência do trabalho intelectual, é justo reconhecer que asslul como os entrevistadores - ou os leitores da entrevista - não precisam estar convencidos das visões particu� lares de seus depoentes, registradas nos depoimentos, tambérn não há garantia alguma de isenção a priori por parte de um pesquisador que trabalhe com metodologias tradicionais. De qualquer forma, o depoiInento oral é sempre uma fonte ao lado de outras. Talvez mais desenvolvida tecnologicamente do que a prática notarial da verifica� ção juramentada da fidelidade do documento escrito. No fundo, a inforlnação independe de seu veículo físico, mas o uso da fonte oral dá menos lugar ao misticismo da informação objetiva.

Essas considerações nos levam a um segundo ponto, específico, enl l arga medida, do desenvolvimento brasileiro. Todas estas orga� nizaçoes) apesar de suas dimensões, de sua imensa importância no passado do país e de seu papel decisivo em seu futuro, são organi� zaçoes jovens. Boa parte de seus fundadores ainda é viva. Possuem uma trajetória complexa e diversificada, mas raramente contam Inais do que 40 anos de existência. Dispõem, portanto, da rara possibilidade de preservar o registro da memória de seus fundadores, eln sua viva voz, através da uníão da história com Os nleios técnicos

providos pelo registro luagnético. O registro oral permite, para essas organizações, não sô a preservação de sua experiência histórica, mas dessa experiência tal COIIlO vista por seus próprios membros, através de Ull1a tecnologia que) habituahnente, poupa tempo, espaço e tra� balho.

Há mais ainda. Freqüentemente a montagem de arquivos tradi­ cionais é materialmente problemática pela inexistência de séries sistemáticas de documentos relacionados ao funcionamento adminis­ trativo. Uma ênfase excessiva devotada às tarefas gerenciais pode simplesmente descurar a constitulção ou preservação de acervos documentais. Nessa situação, o registro oral mostra-se a única pos­ sibilidade de recuperar um passado que, apesar de recente, deixou poucos traços.

Por fim, apenas mais uma pergunta. Quem permitiria que sua vida fosse analisada apenas por uma amostra, nem sempre represen­ tativa, de documentos escritos a ela relacionados, se dispusesse da oportunidade de falar sobre ela, de interpretar suas ações e impor alguma lei ao confronto infindável entre o objetivo e o subjetivo?

História, organizações e ação individual

"Policies and practices pursued by Standard Oil executives during the years prior to 1882 emerged in a variety of ways.

Some policies were evidenced by votes of directors of compo­ nents of the alliance and gradually won more general accep­ tance among its members. In other instances precedents and practices developed into policies over time; no formalized statement ever indicated the direction in which the leaders were travelling, but in a succession of separate steps they evolved a significant behaviour pattern: (Hidy & Hidy. His­

tor)' of Standard

Oi!

Compan)' (New Jersey).

v. 2, capo 2.)

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