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A obtenção de dados financeiros de empresas de capital fechado, nem sempre, é uma tarefa de fácil execução, sendo, por vezes, uma tarefa quase inviável, uma vez que estas empresas não têm por obrigação divulgar tais informações. Com essa pesquisa não foi diferente, visto não ter contado com nenhum tipo de privilégio no acesso a qualquer canal que viesse a facilitar a obtenção de material de trabalho.

Foram efetuadas diversas tentativas de levantamento de informações, não apenas, junto aos provedores de acesso, mas também, junto às empresas de pesquisa, no intuito de se trabalhar dados já tabulados, todavia, sem sucesso. Assim sendo, optou-se por desenvolver um arcabouço, baseado num conjunto de dados, inicialmente, fragmentado, o qual foi trabalhado de forma a que, agrupado, desse sustentação a uma linha de raciocínio que permitisse dar continuidade ao andamento da pesquisa. Em outras palavras, buscou-se trabalhar com indicadores do potencial de geração de receitas futuras, tomando-se como base margem de lucro, parcela de mercado – marketshare - e crescimento de vendas.

Os dados apresentados a seguir procuram demonstrar o caminho trilhado, o qual culminou com as conclusões financeiras referentes aos ISP’s. Procurou-se, por meio do encadeamento de dados sobre: usuários de Internet, população, tamanho do mercado de comércio eletrônico, custos de manutenção de usuários por parte do provedor, dentre outros, construir um modelo que permitisse estabelecer conclusões que suportassem as observações realizadas nos provedores de acesso, particularmente, e na indústria, como um todo.

A idéia inicial de se fazer uma avaliação financeira dos provedores de acesso, na perspectiva da análise do retorno sobre o investimento e do fluxo de caixa descontado, ficou prejudicada, tendo em vista as razões já apresentadas. Contudo, segundo o Sr. Francisco Moreira, diretor do site Acesso Grátis, empresa especializada no acompanhamento do segmento de serviços gratuitos, o atual estágio das empresas – start ups -, bem como do próprio segmento de provimento de acesso – em processo inicial de desenvolvimento -, não permitem implementar análises de ROI e FCD. Neste momento, faz-se mais representativo analisar marketshare e crescimento de vendas.

Estatísticas do Número de Usuários na Internet

O número de usuários na Internet brasileira vem crescendo, ano após ano, tendo alcançado a marca de 6,1 milhões de internautas, de acordo com os dados fornecidos pelo CyberAtlas. Ainda, segundo a mesma entidade, a população mundial de internautas atingiu algo entre 445,9 milhões (medida pelo eMarketer) e 533 milhões (medida pelo Computer Industry Almanac).

A Tabela 4.15, a seguir, apresenta alguns outros números mundiais fornecidos pelo CyberAtlas, os quais foram utilizados como base de comparação nesse trabalho.

Tabela 4.15 – População X População Mundial de Internautas (CyberAtlas, 2002) População

(milhões) Usuários Internet (milhões) % América Latina Brasil 174,5 6,1 3,50% México 101,8 2,3 2,25% Argentina 37,4 2,0 5,34% Chile 15,3 1,8 11,76% Venezuela 24 1,2 5,00% América do Norte E.U.A. 278 149 53,59% Canadá 31,6 14,2 44,93% Europa Espanha 40 7 17,50% Reino Unido 59,6 33 55,36% França 60 11 16,66% Alemanha 83 26 31,32% Itália 57,7 11 19,00% Ásia China 1003 33,7 3,35% Japão 126,8 22 17,35% Índia 1000 5 0,50%

O Mercado Publicitário de Internet no Brasil

Em recente relatório publicado pelo jornal Meio & Mensagem foram divulgados os investimentos em publicidade, auditados pela PriceWaterHouseCoopers, referentes ao ano de 2001 no Brasil. Com resultados pouco animadores, segundo a publicação, houve uma queda nominal dos investimentos da ordem de 5,4% em relação ao ano de 2000, totalizando, assim, R$ 10,358 bilhões investidos. Este valor representaria algo como 1% a 1,5% do PIB brasileiro, patamares semelhantes aos atingidos em países como Japão, Inglaterra e Alemanha. Nesse contexto, a televisão aberta abocanha 55% dos investimentos.

A boa notícia ficou por conta dos números referentes à Internet, os quais foram, pela primeira vez, mensurados de forma consistente no Brasil, tendo como chancela uma empresa de auditoria. O número apresentado alcançou a marca de R$ 225 milhões contra R$ 170 milhões de 2000, superando, portanto, investimentos consagrados como o de TV por assinatura, com R$ 143 milhões, e mídia externa, com R$ 203 milhões.

Este número baseou-se nos oitos maiores portais brasileiros e em alguns outros sites de destaque, sendo que, apenas, 4% foram oriundos de agências de propaganda, o que, se por um lado causa desconfiança, por outro, demonstra um grande potencial de expansão. Estes números foram validados pela PriceWaterHouseCoopers, o que, certamente, atribui confiabilidade e lisura aos resultados.

O Comercio Eletrônico e os Provedores de Acesso

De acordo com estimativas da Jupiter Media Metrix, o mercado latino americano de comércio eletrônico como um todo deve alcançar os US$ 8 bilhões até 2005. Levando-se em consideração que o Brasil concentra o maior número de usuários de Internet na América Latina, boa parte desse crescimento será sustentada pelo país.

Segundo pesquisa realizada pela e-Bit em conjunto com a Universidade de São Paulo – USP, a marca é um importante fator no processo de compra dos consumidores, uma vez que ela atribui credibilidade a empresa, gerando uma maior grau de confiança para os clientes. Esta questão é reforçada pela análise do Global Online Retailing Report produzido pela Consultoria Ernest & Young, quando conclui que o brasileiro tende a basear suas compras num grupo restrito de varejistas online, como forma de minimizar os riscos de transação. A Tabela 4.16, a seguir, exibe os resultados da pesquisa realizada pela e-Bit/USP.

Tabela 4.16 – Importância da Marca (e-Bit/USP)

% Marca é muito importante 32,7% Marca é importante 42,7% Marca é indiferente 19,1% Marca é pouco importante 2,7% Marca é irrelevante 2,1%

Segundo pesquisa realizada pela Boston Consulting Group, o Brasil concentrou em 2000, 62% do comércio realizado por meio da web na América Latina, com uma previsão de

71% para 2001. A Tabela 4.17 – Receitas do Comércio (b2c) via Web na AL, relaciona as previsões elaboradas pela consultoria para o ano de 2001.

Tabela 4.17 – Receitas Comércio (b2c) via Web na AL (BCG)

US$ - 2001

(milhões) US$ - 2000 (milhões)

Brasil $ 906 $ 335

México $ 134 $ 77

Argentina $ 119 $ 75

Chile $ 45 $ 20

Demais $ 77 $ 33

TOTAL $ 1,28 bilhões $ 540 milhões

Com o cenário político-econômico confuso pelo qual vêm passando alguns países do bloco, com destaque para a Argentina, provavelmente esses números sofreram alterações. Por outro lado, essa situação deve aumentar, ainda mais, a tendência de concentração dos negócios no Brasil, bem como no México.

Os Custos de Manutenção de Usuários nos Provedores de Acesso

Segundo informações do site http://www.acesso-gratis.com , especializada na área, o custo de manutenção de um usuário para o provedor de acesso gira em torno de R$ 15,00/mês. Tomando-se esse valor como referência chega-se aos números apresentados da Tabela 4.18. No que diz respeito aos números de usuários dos provedores foram tomadas como base às próprias informações de quantidade fornecidas pelos provedores de acesso e obtidas na mídia especializada.

Tabela 4.18 – Custo Manutenção Mensal dos Provedores

Usuários – 2001

(milhões) Custo Mensal – 2001 (milhões R$) Usuários – 2000 (milhões) 2000 (milhões R$) Custo Mensal –

BRfree 0,5 R$ 7,5 0,3 R$ 4,5

Ibest 0,58 R$ 8,7 - -

Tutopia 0,35 R$ 5,25 0,21 R$ 3,15

IG 3,5 R$ 52 2,1 R$ 31,5

sobre a base de clientes devam ser aproveitadas, dada a necessidade de diluição dos custos de manutenção dos usuários, não apenas pelo acesso, mas, também, pela manutenção das contas de email. Esta é uma situação paradoxal, visto que para se atrair mais usuários, mais investimentos devem ser realizados, principalmente, em marketing e aquisição de conteúdo.

Vale, ainda, lembrar que, boa parte dos usuários mantém relacionamento com de mais de um provedor, o que reduz as chances de fidelização, comprometendo, assim, o potencial de geração de receita.

— Determinação do Potencial de Geração de Receitas e Retorno sobre o Investimento

As informações apresentadas adiante representam previsões elaboradas a partir do arcabouço desenvolvido acima.

Se o mercado nacional, segundo o BCG, estava estimado em US$ 906 milhões ou R$ 2,3 bilhões, no que se refere a comércio eletrônico no mercado business to consumer (b2c) e, se o mercado de publicidade, segundo o Meio & Mensagem, foi de R$ 225 milhões, chega- se a um potencial de mercado R$ 2,52 bilhões (1 dólar = R$ 2,54).

Considere-se, ainda, as informações de número de visitantes únicos e alcance de mídia, produzidos pelo Júpiter Media Metrix, apresentados a seguir, os quais, em última análise, indicam a participam de cada player no mercado de audiência. A tabela 4.19 indica a contagem de janeiro à abril de 2001, e a tabela 4.20 indica a medição realizada em novembro de 2001. O objetivo é mostrar a evolução das duas métricas utilizadas em função dos sites apresentados.

Tabela 4.19 – Propriedades – Brasil - 10 Mercados, Em Casa –(Júpiter)

Propriedades Brasil (10 Mercados, Em Casa) Top 10 – Propriedades Visitantes

Únicos (000)

Alcance Mídia Digital %

Total Mídia Digital 5.833 100,0

Total www 5.777 99,0

1 UOL INC 4.523 77,5

2 MICROSOFT SITES 3.704 63,5

3 AOLTIME WARNER NETWORK 3.480 59,7

4 STARMEDIA NETWORK 3.170 54,3

5 YAHOO SITES 2.952 50,6

6 IG SITES 2.811 48,2

7 TERRA LYCOS SITES 2.773 47,5

8 WEBFORCE NETWORK ? HPG 2.655 45,5

9 GLOBO.COM SITES 2.430 41,7

10 ZIPNET SITES 2.326 39,9

Tabela 4.20 – Propriedades – Brasil - 10 Mercados, Em Casa –(Júpiter)

Propriedades Brasil (10 Mercados, Em Casa) Top 10 - Propriedades Visitantes

Únicos (000)

Alcance Mídia Digital %

Total Mídia Digital 5.969 100,0

1 UOL INC 4.510 75,60%

2 IG SITES 3.998 67,00%

3 MSN-MICROSOFT SITES 3.938 66,00% 4 AOL TIME WARNER NETWORK 3.589 60,10%

5 TERRA LYCOS SITES 2.930 49,10%

6 STARMEDIA NETWORK 2.677 44,80%

7 YAHOO SITES 2.661 44,60%

8 GLOBO.COM SITES 2.618 43,90%

9 CJB.NET 1.550 26,00%

10 FAZENDA.GOV.BR 1.254 21,00%

Levando-se em consideração que o universo de usuários brasileiros é de 6,1 milhões, de acordo com os dados do CyberAtlas, e que o IG concentra 3,5 milhões de usuários, poderia-se assumir que o potencial de geração de receita dos provedores de acesso gratuito, no que se refere as áreas de publicidade e comércio eletrônica, certamente as maiores geradoras de receita, seriam da ordem de algo próximo aos valores relacionados na tabela a seguir.

Tabela 4.21 – Potencial de Geração de Receita Publicidade (R$ milhões) CE (R$ milhões) Total (R$ milhões) 2001 2000 2001 2000 2001 2000 BRfree 4,2 2,7 0,8 0,38 5 3,08 Ibest 4,8 - 1 - 5,8 - Tutopia 3 1,8 0,6 0,27 3,6 2,07 IG 150 81 51,4 12,2 201,4 93,2 Outros 63 85,5 21,8 12,5 84,8 98 Total 225 170 75,6 25,5 300 195,5

Para efeito de cálculo do ano de 2001, considerou-se uma comissão média de 3% sobre as vendas totais de R$ 2,52 bilhões no comércio eletrônico, resultado num mercado potencial de R$ 75,6 milhões. Estipulado o mercado total, utilizou-se o percentual de alcance de mídia como referência, tendo como base o IG, único provedor a constar na tabela da Júpiter Media Metrix. Para os demais utilizou como base 10% do total menos o valor capturado pelo IG, como forma de estimar a participação de cada provedor no que sobraria depois de aplicado o percentual de 68% de participação do IG em cada mercado. Esta mesma lógica foi utilizada para o cálculo dos valores de 2000.

Os ISP’s gratuitos teriam, ainda, outras fontes de receita tais como: venda de tecnologia, consultoria e participação nas receitas das operadoras de telefonia, possivelmente uma fonte de receita crescente com o aumento da Internet.

Finalmente, quando se compara este potencial com o custo médio fornecido pela Tabela 4.18 – Custo Manutenção Mensal dos Provedores com a Tabela 4.21 – Potencial de Geração de Receita, percebe-se, conforme pode ser observado na tabela que se segue, haver um déficit crescente.

Tabela 4.22 – Perdas e Lucros Estimados P&L – 2001 (R$ milhões) Resultado 2001 P&L – 2000 (R$ milhões) Resultado 2000 R D R D BRfree 5 90 (85) 3,08 54 (50,9) Ibest 5,8 8,7 (2,9) - - - Tutopia 3,6 62,4 (58,8) 2,07 37,8 (35,7) IG 201,4 624 (422,6) 93,2 378 (284,8)

Embora esta seja uma análise superficial e não tenham sido levados em consideração outras prováveis fontes de receita, é possível entender por que tantos provedores de acesso não conseguiram dar continuidade a suas operações.

É possível compreender, ainda, por que grandes grupos de telefonia passaram a se interessar pelos provedores de acesso, criando um movimento de compra de participações ou de estabelecimento de parcerias. O crescente aumento do número de internautas representa, também, o aumento de receita das operadoras.

Fica evidente que este, ainda, é um mercado em desenvolvimento, demandando pesados investimentos em marketing, principalmente, mas, também, em tecnologia. Neste sentido, a participação de grupos capitalizados torna-se, não apenas, uma questão estratégica, mas, também, uma necessidade para continuidade da operação, uma vez que são necessários freqüentes aportes de capital para se manter em atividade. Mesmo provedores que só trabalham no modelo de acesso pago, como, por exemplo, o Universo Online – UOL, que apresentou um prejuízo de R$ 247 milhões, encontram-se em situação semelhante.

Finalmente, observa-se a não existência de retorno para os investidores, pelo menos, no curto prazo. Esta situação, no médio e longo prazos, tende a ser equalizada com a criação de novas fontes de receita. A acirrada competição que se estabeleceu no segmento de acesso gratuito, acabou, por originar um intenso movimento de concentração, uma vez que diversos

ou, no máximo, três provedores de grande porte, tal qual, vem ocorrendo nos Estados Unidos e na Europa. Estes provedores, na qualidade de grandes geradores de tráfego, serão capazes de atrair as maiores verbas publicitárias, além de servirem como porta de entrada para as lojas dos varejistas eletrônicos. Cabe ressaltar que, com a necessidade de criação de novas fontes de receita por parte dos provedores, um amplo incentivo à adesão de usuários gratuitos as tecnologias de banda larga, deverá ser colocado em curso. Tome-se como exemplo o caso do UOL, maior provedor gratuito nacional, que teve 77% de sua receita proveniente das mensalidades de assinantes.

Como resultado dos ensaios acima exibidos, e levando-se em consideração aspectos como marketshare, crescimento de vendas, bem como posicionamento competitivo dos diversos provedores de acesso gratuito estudados, apresenta-se a Figura 4.2 a seguir.

Figura 4.2 – Posicionamento Estratégico dos ISP’s Gratuitos

Os provedores de acessos encontram-se posicionados, em sua grande maioria, no quadrante Baixo/Baixo, o que denota uma posição estratégica pouco confortável para estas empresas, aliado ao fato de estarem atuando numa indústria com poucas possibilidades de

Baixo Médio Alto

Baixo

Médio

Alto

Posição da Unidade de Negócio

Atratividade

• Tutupia • BRFree • IBest

relativamente, mais favorável que os demais provedores, tendo em vista a força de sua marca, seu marketshare, bem como a evolução do seu potencial de geração de receita. Contudo, quando se considera a atratividade da indústria, percebe-se a permanência das mesmas condições em que se encontram os demais provedores. Assim sendo, existem evidências suficientes para concluir que a derrocada deste modelo de negócio, torna-se, apenas, uma questão de tempo. Como solução imediata para alteração deste cenário, faz-se necessária à criação de novas fontes de receitas.