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Teorien og empiriens rolle i forskningsarbeidet

In document Hæ, har du ADHD? (sider 32-0)

4. METODE OG GJENNOMFØRING

4.3. Teorien og empiriens rolle i forskningsarbeidet

Conheci Kátia durante a primeira visita na casa de Maria. Assim, antes mesmo de frequentar sua casa, conversamos várias vezes, pois ela ia com frequência à casa de sua mãe, que era vizinha de Maria.

Naquele momento, as conversas versavam basicamente sobre seu companheiro, que tentava convencê-la a se mudar para uma casa na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ele argumentava que a casa seria maior e teria mais espaço, além de seu aluguel seria mais barato que o da quitinete em que residiam. A resposta da Kátia era “não”, pois queria permanecer perto da mãe e do lugar onde cresceu e estavam seus amigos: “Ele acha que vai me tirar daqui, mas não saio. Cresci aqui, conheço tudo e todos. Vou fazer o quê no fim do mundo? Sem conhecer ninguém [...] prefiro uma casa menor, mas aqui”.

A família permaneceu na favela, morando na quitinete, que se localizava em um prédio pequeno de dois andares, situado na divisa entre o Pavão-Pavãozinho e Cantagalo. A quitinete da família ficava no segundo andar (de frente para a rua), sendo preciso subir dois lances de escada.

Na entrada do apartamento, havia um pequeno corredor que dava acesso ao banheiro, o qual possuía uma pia com uma pequena bancada, um vaso sanitário e um chuveiro elétrico separado por uma cortina de plástico. A cozinha era separada da sala/quarto por uma pia, um fogão, um balcão, um armário e uma geladeira. A sala/quarto era ampla e contava com alguns móveis. No chão, havia lajotas e um tapete; as paredes eram pintadas de branco; e na janela, havia uma cordinha de tecido na cor bege. Próximo à janela, ficava um sofá-cama preto que à noite virava a cama do casal; ao lado, havia um berço branco com gavetas, uma pequena poltrona

marrom e um colchão de solteiro onde dormia a filha de Sandra e que durante o dia ficava encostado na parede. Em outro canto do apartamento, ficava uma mesa com quatro bancos e um guarda-roupa de duas portas. Kátia orgulhava-se de morar em um lugar em que tudo “era novo”, dizia ela referindo-se ao prédio e ao aspecto do apartamento:

Aqui é bom, tem vista, entra vento. É pequeno [apartamento], mas tudo novo e arrumado. Não conseguiria morar fora daqui como o Pedro queria, mesmo com casa maior. Aqui a gente tem família, amigos [...] tudo é mais fácil na Zona Sul. Ele desce e logo tá na praia trabalhando, imagina pegar ônibus todo o dia para trabalhar! (Kátia).

A família Cardoso era composta de dois adultos (Kátia e Pedro) e duas crianças (Maria Eduarda, com seis anos; e Miguel, com dois anos117). Kátia era a

mais jovem das três mulheres acompanhadas nesta pesquisa. Com 26 anos, relatou que nunca trabalhou, mas já fez “bicos” como babá e estudou até a oitava série. Quando a conheci, estava grávida do seu segundo filho, hoje com dois anos e meio.

Sua mãe, empregada doméstica, e seu pai (já falecido), pedreiro da construção civil, tiveram três filhos: Kátia é a mais nova e a única que reside na favela do Pavão-Pavãozinho. Até ficar grávida do seu segundo filho, ela e sua filha mais velha, fruto de um relacionamento anterior, moravam com a mãe. Era a mãe que as sustentava, uma vez que o único dinheiro “seu” era oriundo do benefício do PBF, que na época era de R$ 112. Kátia conta que a mãe sempre trabalhou como empregada doméstica “na casa de família” em Copacabana e que o pai “trabalhava duro” para não faltar nada em casa. Dizia ser a mais “apegada” à sua mãe e a que realmente se preocupa; por isso, mesmo depois de ir morar com Pedro, sempre a visitava e “olhava” a casa e o cachorro, uma vez que sua mãe retornava somente à

noite e às vezes dormia na casa em que trabalhava. Relata, ainda, que poderia ter estudado mais; porém, queria sair e divertir-se. Quando engravidou da sua filha, deixou de estudar e passou a ficar em casa cuidando dela. Assim que a filha ficou um pouco maior, colocou-a na creche e arrumou um emprego como babá, mas não conseguiu se adaptar à rotina de trabalho:

Trabalhei seis meses como babá em Ipanema, mas não gostei. Era muito puxado, queriam que eu ficasse 24 horas disponível e às vezes em final de semana. Eles pagavam a mais pelo final de semana, mas não dava para aguentar e tinha ainda que deixar minha filha com a minha mãe ou pagar alguma vizinha. Aí pedi para sair. Depois fiz alguns bicos cuidando de crianças aqui da favela, mas era diferente porque elas ficavam na minha casa e as mães me pagavam. Foi assim até eu conhecer meu marido e ir morar com ele (Kátia).

Seu companheiro Pedro, um homem de 30 anos, trabalhava como vendedor de milho na praia de Copacabana, havia estudado até a quinta série e, assim como Kátia, cresceu no Pavão-Pavãozinho. Durante a pesquisa, nas poucas vezes que o encontrei em casa, mostrava-se sempre simpático e falava que estava de saída, pois tinha de trabalhar. Kátia nunca soube informar quanto o companheiro ganhava, mas enfatizou que ele sustentava a casa e sempre dava dinheiro quando ela precisava: “Ele nunca falou quanto ganha, já perguntei, mas ele não fala. Sabe como é, coisa de homem. Em casa tenho tudo, não deixa faltar nada”. Para Kátia, o que importava era ter um companheiro trabalhador, que não deixasse faltar nada em casa e que a tratasse bem: “Ele sabe se não for bom pra mim eu volto para casa da minha mãe”.

O benefício do PBF, após o nascimento do filho e sua inclusão no cadastro, era de aproximadamente R$ 182. Kátia considerava esse valor como “seu” dinheiro, de modo que não precisava pedir ao marido autorização para usá-lo nem prestar

contas sobre como o gastava. Com o nascimento do filho, Kátia era cercada de cuidados pela mãe e pelo marido. Sua mãe ia ajudá-la nos cuidados com o recém- nascido, e o marido comprava, dentro das possibilidades, tudo que ela pedia para o bebê: “Desde que nosso filho nasceu, ele compra tudo que eu quero. O berço fui escolher na loja, é novinho, as roupinhas comprei na lojinha da Dona [...] ela deixou pagarmos um pouco por mês”.

Entre as famílias acompanhadas, a de Kátia parecia ser a mais estruturada afetiva e financeiramente. Os laços entre o casal fortaleceram-se com o nascimento do filho. Apesar de o trabalho de Pedro não ser formal, a família parecia ter uma estabilidade financeira e conseguia pagar as despesas com alimentação e moradia, o que incluía o aluguel. A família não tinha cartão de crédito ou conta bancária, mas usava o cartão da mãe de Kátia para fazer compras como o berço do bebê e outros móveis da casa − “A minha mãe empresta o cartão dela quando precisamos comprar alguma coisa mais cara como móveis. O Pedro sempre paga, e ela não se importa. Mas usamos só quando precisamos”.

Quando conheci Kátia, ela falou que gastava o dinheiro do PBF para pagar a creche de sua filha. Posteriormente, mencionou que era para as suas “bobagens” e as da filha, tais como doces, acessórios e uma “roupinha”: “Ah, sabe, sempre tem uma bobagem que a gente olha e quer comprar. Um doce, a Juliana adora doces, uma boneca ou brinquedo baratinho, um batom, um creme, roupinha barata, essas bobagenzinhas”. O marido não perguntava sobre o dinheiro do benefício nem se importava com o modo como era gasto. Na última vez em que Kátia realizou a atualização do cadastro, ainda não estava vivendo com Pedro, motivo pelo qual ele não foi incluído no sistema. No seu cadastro, incluiu somente ela e a filha e informou que morava com a mãe “de favor”, tornando-se, dessa forma, beneficiária do PBF.

Com a gravidez e a realização do pré-natal por meio da Clínica da Família, passou a receber o BVG no valor de R$ 35, aumentando, assim, o valor do benefício. Com o nascimento de Miguel, foi até o CRAS para incluí-lo no cadastro118 e informou sobre

o companheiro, não alterando, contudo, a renda, já que Pedro não possuía uma renda formal.

Já tinha realizado o recadastramento, aí fui só para incluir o Miguel, e perguntaram do pai. Falei que tava vivendo com ele, mas que ele não tinha trabalho com carteira. Eles incluíram o meu filho e disseram para eu voltar com a identidade do Pedro para incluí-lo no cadastro. Ainda não fui lá. Mas vou qualquer dia (Kátia).

Após alguns meses da inclusão do filho no cadastro, ela passou a receber os valores referentes a Miguel. Kátia não sabia como os valores eram calculados, somente que o benefício tinha aumentado. O desconhecimento de Kátia sobre como era calculado o valor a ser pago era algo comum entre as famílias beneficiárias do PBF, fator que gerava reclamações e pedidos por explicação somente quando o benefício era diminuído. Algumas vezes, tentei explicar sobre os benefícios variáveis e os valores a eles destinados, mas, mesmo assim, Kátia achava o cálculo confuso − o mais importante para ela era que estava recebendo o dinheiro. A forma como gastava o benefício não era “vigiada”, pois a família não solicitava ou recebia ajudas sociais de ONGs e/ou de vizinhos. No CRAS, a família também não estava incluída entre as famílias que deveriam ser acompanhadas. Kátia cumpria as condicionalidades relacionadas à área da saúde: levava os filhos para serem acompanhados na Clínica da Família.

As compras relacionadas à alimentação eram realizadas com o dinheiro do

118 Com a inclusão do filho, Kátia passou a receber mais um BVJ, de R$ 35 e um BVN, também de R$ 35.

companheiro; o dinheiro do benefício, como relatado, era seu e dos filhos. Eventualmente, Kátia comprava pequenas coisas como pão e leite. As compras do dia a dia eram feitas na favela, e uma vez por mês Kátia e o marido realizavam compras “maiores” em supermercados de Copacabana: “As compras do dia a dia eu faço aqui, mas as maiores, arroz, feijão, massa e alguma coisa de carne [...] vamos até o supermercado em Copacabana”.

Kátia era a responsável por cuidar da casa e dos filhos, e o marido cumpria seu papel de provedor da família, o que gerava uma estabilidade e uma rotina que dificilmente era desfeita. O companheiro saía pela manhã para trabalhar na praia e voltava, algumas vezes, para almoçar em casa, seguindo novamente para o trabalho. Kátia fazia o almoço, cuidava dos filhos e da casa e, à tarde, levava a filha para a creche. Em algumas tardes, recebia a visita de amigas ou ia até a casa de sua mãe para “dar uma olhada”, momento em que encontrava com amigas e vizinhas no caminho e parava para conversar. Ao contrário das outras duas beneficiárias, Maria e Sandra, Kátia não expressava preocupação em trabalhar para ganhar o “seu dinheiro” e ajudar com aas despesas, e seu companheiro enfatiza que ela não precisava fazer isso.

In document Hæ, har du ADHD? (sider 32-0)