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5. Fra journalist til blogger

5.2 Sosial kapital

Vimos até agora que dada a complexidade e o número de variáveis envolvidas no assunto, não é possível encontrar uma definição clara e precisa sobre saúde. Em consequência, as pessoas devem optar por uma conceituação operacional e pragmática. Através da ausência da doença, cogitamos na possível existência da saúde. Quanto à doença, não encontramos na doutrina uniformidade de conceituação. Os parâmetros geralmente utilizados para o seu reconhecimento carecem de padronização. Para defini-la, sempre são tomados os critérios de sua manifestação, avaliados através de parâmetros propostos por organismos internacionais. Em decorrência destes fatos, o diagnóstico de doença e, especialmente o de saúde, possuem acentuado grau de relatividade, situação esta, que dificulta, e muito, a comparação dos resultados das casuísticas de morbidade. Os discursos que fundamentam as teorias da saúde, como práticas de base científica mostram-se sinuosos e incompletos e seus formuladores duvidam e inventam metáforas, descobrem maneiras indiretas de falar sobre saúde, mas seu objetivo continua sendo a doença 111.

Em princípio, aparece a ideia de doença como castigo sobrenatural, possessão demoníaca ou resultado da ação de agentes naturais. Logo o Cristianismo espalhou noções mais moralizadoras e, desde o século XIX, a ideia de doença começa a ser uma expressão do caráter, um resultado da vontade. A vontade se mostra como corpo organizado e a presença da doença significa que a própria vontade está doente. A expressividade do herói equilibrado começa a se limitar. O próprio Kant usa uma metáfora para se referir ao câncer, dizendo desmesura de sentimentos. Paixões ocultas são causas de doenças, sentimentos extremos. É a doença o veículo destes sentimentos excessivos e a doença trai o que o indivíduo não houvesse querido revelar?

Ficar doente sempre foi um sinal de fracasso moral, uma fonte de culpa. Como Turner, na antes citada Invitational Conference, argumenta: estados de saúde são, portanto intrinsecamente associados com significados morais e juízos 87.

duas coisas que derivam disso. Em primeiro lugar, como os conceitos de saúde implicam lutas sobre os significados morais, são e sempre serão inerentemente controvertidos. Em segundo lugar, há certa evidência, embora limitada, de que a percepção da saúde reflete uma estrutura básica quanto às diferenças culturais nas relações de poder na sociedade.

A medicina medicaliza a vida através da linguagem e dessa forma organiza a experiência e constrói o mundo. Podemos observar que diversas doenças marcaram o mundo de modo profundo e que a interpretação das mesmas foi usada para que a sociedade expressasse suas insatisfações, sendo uma das metáforas mais recorrentes ao longo da história da bibliografia ocidental. Contudo, sem sombra de dúvida, as metáforas patológicas serviram sempre para reforçar as acusações que são feitas à sociedade por sua corrupção ou injustiça.

Afirmamos que a linguagem afeta a medicalização de duas maneiras: uma literal e outra mais abstrata e existencial. A primeira é obvia e gera expressões que estão penetrando a língua comum. Trata-se de uma linguagem técnica, constituída em uma terminologia sistemática universal, com um “corpus” linguístico cuja influência se estende a outras disciplinas. Exemplos como "síndrome" ou "diagnóstico" se revelam desde a economia. Desde Hobbes em Leviatã também há toda uma tradição moderna do corpus politicus. Judy Segal, professora da University British Columbia, afirma que o idioma metafórico se infiltra até na política sanitária: “corpo como uma máquina”, “medicina como guerra”, “medicina como negócio”, etc112.

Por outro lado, a práxis médica traduz em seus próprios termos a experiência da vida e constrói um código de comunicação social que invade a linguagem corrente. Um exemplo é o termo “somatização” da vida emocional, no sentido social e não clínico do vocábulo, traduzido como depressão, enfarte ou estresse ou a "psicoanalização" dos sentimentos, vertidos como castração, trauma ou Edipo. Assim, muitas atividades humanas, desde os ofícios à publicidade, imitam o modelo

médico da sociedade iatrogênica: “mulher a beira do infarte”, "clínica da válvula de escape", “T.V. dieta", "economia libidinal", “incontinência verbal” 113.

Outra estratégia interpretativa são as analogias clássicas entre desordem político e doença que pressupõe a clássica ideia de equilíbrio. Partindo desta perspectiva, a doença nasceria do desequilíbrio, da fratura do equilíbrio entre psique e corporalidade. A finalidade do tratamento é restaurar esse equilíbrio, o que em termos políticos seria a justa hierarquia, com prognóstico, em princípio, sempre otimista. Figuras paradigmáticas da medicalização da linguagem são as metáforas médicas, que segundo certos estilos patológicos exemplificam a construção social da realidade nos séculos XX e XXI.

Neste sentido, Sontag escreve uma alegação a favor da dignidade do ser humano, “A Doença como Metáfora” trabalhando sobre a crítica ao paternalismo médico e a resistência à ignorância. A autora aponta que a doença adquire significado mediante o uso da metáfora, entendida não somente como uma figura retórica, mas também e, principalmente, como uma ferramenta através da qual compreendemos o mundo. Trata-se de instrumentos que ajudam a criar descrições compactas de fenômenos complexos; mensageiras de significação e unidades de tradução, que devem ser usadas com cautela, enquanto o discurso mudado pela metáfora reorganiza a realidade e adquire vida própria114. Seguindo esta linha,

mostrou a tuberculose e o câncer como duas doenças mitificadas da Modernidade, com características igualmente devastadoras, mas que convocam metáforas opostas. Considera que no século XIX, a visão que se tem do tísico é romântica. A imagem de quem padece de tuberculose é a de um ser melancólico, sensível, um poeta de silhueta magra e mal cheirosa que lhe confere respeitabilidade e prestígio. A literatura dessa época está cheia de tuberculosos, em sua maioria, jovens que morrem quase sem apresentar sintomas e sem medo. A tristeza convertia as pessoas em interessantes. Estar triste era sinal de refinamento, de sensibilidade...(...)... Tristeza e tuberculose tornaram-se sinônimas 115.

Oposto à tuberculose, o câncer é relacionado com um vício do temperamento. Emoções que se reprimem, rancores que se acumulam, indivíduos que sucumbem por inibição sistemática de seus impulsos, seres nervosos em extremo, devorados

pelo estresse e pela hiperatividade, consumidores de fast food, inaladores de poluentes são candidatos ideais para a crença popular de que nesses organismos proliferem células malignas. Torna-se uma metáfora da degradação física: corrói, carcome e transforma o aspecto do indivíduo.

Por um lado, a tuberculose refina e pelo outro, o câncer faz com que as células sem inteligência, (primitivas, embrionárias, atávicas) se multipliquem até transformar-nos em “não-eu”. Porém, os imunologistas classificam as células cancerosas como não próprias do corpo. Se a tuberculose for a doença do “eu” doente, o câncer é a doença “do outro”, é a invasão de células estrangeiras ou mutantes, mais fortes que as células saudáveis ou normais. E sempre se fala um vocabulário de guerra: as células cancerosas invadem, colonizam zonas remotas do corpo, produzem estragos em um corpo já vulnerado.

Por mais radical que possa ser uma intervenção cirúrgica (quimioterapia, radiações) as remissões costumam ser temporárias, e o prognóstico é que a invasão tumoral continue e que as células daninhas se reagrupem para lançar um novo ataque. Com essa perspectiva, o corpo é concebido como um campo de batalha onde se trava um combate implacável. A metáfora se utiliza para três aspectos da doença: a patologia, o tratamento, e a experiência do paciente. Fala-se de células invasoras, do arsenal terapêutico e da valiosa batalha levada adiante por um paciente. Sontag escreve que as metáforas modernas sugerem um profundo desequilíbrio entre o indivíduo e a sociedade e servem para julgá-la, já não por seu desequilíbrio, mas sim pela sua representatividade. As metáforas patológicas definem, por analogia com a saúde física, um ideal de saúde social que tanto pode ser uma atitude antipolítica como um chamado para uma nova ordem política116.

Com o exemplo dos escritores (Schiller – tísico- e Dostoievski – epiléptico-) em A montanha mágica, Thomas Mann encontra na doença de ambos uma nobreza, uma distinção que implica aprofundar, elevar e reforçar o humanismo. Dirá que o homem é essencialmente doente e o fato de que esteja doente é o que faz dele um homem; quem quiser curá-lo não procura outra coisa que desumanizá-lo e aproximá-lo do animal. Pelo contrário, para o homem ocidental no último trecho do século XX, o importante já não é a doença, mas sim a saúde: ginástica, dietas,

centenas de terapias alternativas e centenas de medicamentos fazem parte do combate do homem moderno contra a doença e a morte, que perdeu seu glamour dos anos românticos para se transformar em algo vergonhoso 116.

Outra questão é que detrás da doença também estão a sexualidade e as condutas réprobas...As epidemias fazem com que aflore o melhor e o pior de uma sociedade... 117.

Assim, em 1988, Sontag escreve sobre a síndrome de imunodeficiência adquirida, onde a invasão do organismo é viral, produzida por um micro-organismo dez mil vezes menor que a ponta de uma agulha, e com efeitos sociais em matéria de discriminação e estigma infinitamente superiores. É por isso que a AIDS suporta a metáfora da infecção, a poluição e o contágio na qual a transmissão é primordialmente de caráter sexual118.

Em termos de desenvolvimento científico e tecnológico, este fenômeno supõe uma involução? Há uma reativação da transmissão sexual com caráter funesto? A metáfora associada com o doente de AIDS sugere um ser promiscuo, um pária digno de toda desconfiança. Jean Marie Le Pen - da direita francesa- na entrevista de du Roy, fala de reclusão, de sudatórios, de testes obrigatórios massivos, de morredouros para evitar que se contamine ou se gangrene o corpo social saudável119.

Por outro lado, a AIDS fortalece a cultura do interesse próprio, do individualismo, expressa também um desejo de colocar limites à conduta da vida pessoal, como se fosse uma questão de simples prudência médica, de constranger o corpo pelo bem da própria consciência. Sontag aponta o grande paradoxo de um padecimento quase medieval que se aproxima da Modernidade tecnológica: o mundo do ordenador, computadores invadidos por vírus, colapso em um disco duro, programas de tipo vacinas etc. 118.

Berlinguer e Mainetti trazem à tona a comédia de Jules Romains: “Knock, ou o triunfo da medicina”, de 1923, em que se conta a história de um jovem médico ambicioso que foi chamado para substituir um colega de antigo estilo, de nome Albert Parpalaid, no povoado de Saint-Maurice, onde poucos pacientes recorriam à

consulta médica porque se sentiam saudáveis. O médico Knock se doutorou com uma tese titulada O hipotético estado de saúde, na qual colocava o princípio de que as pessoas saudáveis são doentes. Uma vez no povoado, Knock manifestou seu desejo de instruir os moradores acerca dos perigos que a cada segundo assediavam seu organismo. Lançou a proclama “a era médica chegou”, e em pouco tempo transformou aquela população em uma comunidade universalmente necessitada de atenção médica113, 120.