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3 Resultat og diskusjon fra undersøkelser i spesialisthelsetjenesten

3.3 Somatisk helse og gode levevaner

O MRCC chega ao Brasil via Estados Unidos na virada das décadas de 60 e 70. O movimento teve a sua origem ali, de acordo com Prandi:

No outono de 1967 cerca de trinta leigos católicos, todos membros do corpo docente da Universidade Duquesne em Pittsburgh, reuniram-se em retiro espiritual para um período de oração profunda e discussão acerca da vitalidade da sua vida religiosa. Insatisfeitos com seu estilo de vida, com suas preocupações acadêmicas e, sobretudo com sua experiências religiosas, buscavam uma forma de renovação espiritual que viria a afetar drasticamente a própria Igreja. Os participantes desse retiro tinham contato com diferentes grupos avivados protestantes e desejavam experimentar a transformação que o Espírito Santo podia operar nas pessoas. Sentiam que o aprofundamento da vida espiritual não podia resultar simplesmente da ação humana, o que sempre deixaria cada um sentir-se como órfão invadido pelo vazio e pelo desânimo. Acreditavam que era o Espírito que renovava a face da Igreja e do mundo, através da sua ação nas pessoas. Enquanto rezavam na capela, teria ocorrido um verdadeiro Pentecostes renovado. Uns começaram a falar ‘em línguas’, outros receberam o dom da profecia ou do conhecimento. A experiência teria operado neles uma profunda transformação espiritual, dando-lhes uma nova consciência do amor de Deus, um profundo desejo de louvar a Deus e de ser testemunha de Cristo ressuscitado. Dois dos participantes ligados aos cursilhos de cristandade, Ralph Martin e Steve Clark, decidiram ali dedicar suas vidas a Deus, fundando a comunidade Mundo de Deus, em Ann Arbor, cidade universitária localizada no Estado de Michigan, que então reunia católicos e protestantes, estes em minoria. Informal no início, a comunidade foi-se expandindo e estruturando. Além do tempo dedicado à oração, havia serviços de visita a hospitais, prisões etc. (1998, p. 32)

Para Prandi (1998) estavam lançadas as bases do que viria a ser a RCC, como um movimento pentecostal dentro da Igreja Católica.

Como um movimento de pentecostalização do catolicismo, o MRCC vem sofrendo muitas restrições por grande parte da hierarquia católica - bispos e padres - e também por parte de freiras e líderes leigos, especialmente aqueles de orientação progressista. Acusado de alienador, por compartilhar com os pentecostais uma ênfase em experiências místicas e milagrosas bem como na moral individual, esse movimento, que vinha se expandindo basicamente nas camadas médias, chegou às camadas trabalhadoras e aos bairros populares, reproduzindo, nessa camada social, a mesma tendência de crescimento.

Os católicos carismáticos são muito parecidos, teologicamente, aos pentecostais e por isso trocam mais com esses do que com os católicos progressistas, a despeito de compartilharem com os últimos os mesmos rituais, tradição, doutrina e líder. (Machado e Mariz, 1997).

O MRCC assume para si a revitalização da Igreja após o Concílio Vaticano II, como forma de embate a secularização e a conseqüente redução do número de adeptos no catolicismo e o crescimento do pentecostalismo das Igrejas Evangélicas.

Prandi e Pierucci discutem a cisão do movimento com as questões sociais e identificam no MRCC com uma determinada reação conservadora da Igreja.

A RCC propõe um tipo de vivência religiosa centrada nos carismas do Espírito Santo, como o dom de línguas, de cura etc. Volta-se para a intimidade, pouco valorizando as questões sociais e rejeitando a participação política nos moldes propostos pela Teologia da Libertação. A RCC pode ser entendida como um duplo movimento de reação conservadora da Igreja: a) como reação voltada para dentro do próprio catolicismo, contrária ao tipo de religiosidade das comunidades eclesiais de base, preocupadas com a ação social em favor de uma sociedade mais justa que deve ser transformada por meio da militância religiosa; b) como reação voltada para fora do catolicismo, agora com oposição ao evangelismo pentecostal, em competição por devotos, adotando do pentecostalismo traços essenciais, mas mantendo forte identidade católica, como o culto a Maria, a fidelidade ao papa e a freqüência aos sacramentos. (1996, p. 88).

A partir deste duplo direcionamento, o MRCC foi ganhando forma e organizando a sua estrutura de funcionamento por todas as partes do país. Auxiliados por Carranza, podemos fazer um breve balanço do movimento, a partir de sua chegada ao Brasil.

É nessa revivescência pós-conciliar que surge o movimento de Renovação Carismática Católica (RCC), como uma inflexão do catolicismo que reage diante da pós-modernidade, oferecendo uma subjetividade religiosa pautada nos moldes neopentecostais de emotividade e como uma agência moderna de aflição. Nascida nos Estados Unidos no final da década de 60, a RCC espalhou-se rapidamente pelos continentes, chegando ao Brasil em 1969. Desde suas origens a RCC apareceu como um fenômeno muito próximo do pentecostalismo protestante, merecendo a denominação de pentecostalismo católico. Ao mesmo tempo, foi emergindo como um movimento contrário à Teologia da Libertação, provocando resistências no setor progressista da Igreja Católica. No final da década de 70, a RCC já tinha uma

presença significativa no Brasil, suscitando, no interior da Igreja, reações que oscilavam entre a rejeição e o apoio, entre a assimilação e a domesticação do movimento.

Ao longo da década de 80, a RCC consolidou-se institucionalmente e espalhou-se pelo território nacional. Contrariando os prognósticos de alguns estudiosos de então, da não expansão da base social da RCC para além da classe média, observa-se o crescimento elevado, arrebanhando grande parte do setor popular do catolicismo e também configurando-se nos últimos anos como um movimento de massas.

Na década de 90, a RCC tem ocupado um espaço significativo na mídia, seja como objeto de notícias, seja como usuária dos meios de comunicação social, deixando cada vez mais nítida sua especificidade religiosa dentro do catolicismo, distinguindo-se da Teologia da Libertação e das Igrejas Pentecostais, discordando das práticas religiosas da primeira e preocupando-se com a delimitação de fronteiras com as segundas. (2000, p. 16). Como podemos perceber, o MRCC foi, aos poucos, mas numa velocidade constante, conquistando espaços e avançando, debalde as inúmeras críticas dos setores progressistas da Igreja Católica. O seu ponto de partida no Brasil foi o Estado de São Paulo, mais precisamente a cidade de Campinas, por meio de dois padres jesuítas, que, mesmo de forma diferenciada, propunham uma nova leitura do livro dos Atos dos Apóstolos e um “batismo no Espírito23”, como descoberta de uma nova forma de ser e viver na Igreja, segundo o impulso do Espírito Santo.

Os Padres eram Haroldo Rahm e Eduardo Dougherty. O primeiro organizou as suas atividades em torno das “Fazendas do Senhor Jesus”, espalhadas por alguns estados brasileiros e com a finalidade de recuperar jovens com dependência química. Os grupos de oração e o trabalho eram utilizados como metodologia de recuperação. O segundo é apontado como o responsável pela entrada do movimento carismático no Brasil, por meio da Associação do Senhor Jesus, (Benedetti, 1988).Ocorre, assim, uma certa bifurcação no nascimento do movimento, com duas vertentes diferenciadas.

O movimento do Padre Eduardo, organizado em torno da Associação do Senhor Jesus, tem como tema a ‘exclusividade’ da ação de Deus, que prescinde de qualquer mediação humana, de tipo psicológico ou psicossomático. Já o grupo do Padre Haroldo

23 Para explicitar o sentido de Batismo no Espírito, Carranza (2000, p. 85), resgata o livro do Pe. Haroldo Rahm: ‘Sereis Batizados no Espírito’. Segundo o padre “ser batizado no Espírito significa uma mudança nas nossas relações com Deus, que nos faz experimentar na nossa vida todas as coisas que Ele prometeu que o Espírito Santo faria a quem acreditasse” (...) Tem como referência bíblica o texto do Atos dos Apóstolos 2, 1-13, sobre a narrativa de Pentecostes.

aceita a mediação de técnicas de relaxamento, de meditação oriental como forma de ‘mediar’ a ação de Deus. (Benedetti, 1988, p. 200).

A trajetória da implementação do MRCC em Campinas e a sua proliferação por outros estados do Brasil podem ser percebidas, independentemente das divergências internas, pela descrição de Machado:

Nessa região surgiu também a primeira e mais importante comunidade, no estilo das households norte-americanas, e teve início a formação das lideranças carismáticas que logo iriam ajudar na difusão do movimento para o resto do país. E ali também ocorreu, em 1973, o Primeiro Congresso Nacional da Renovação Carismática no Brasil, e foi instalada a produtora Kerigma de Vídeo e Som, responsável pela edição do programa ‘Anunciamos Jesus’, transmitido semanalmente para todo o Brasil a partir da década de 1980.

A implantação do movimento no Rio de Janeiro contou também com a atuação do padre Eduardo Dougherty, um dos padres jesuítas citados acima. Depois de divulgar entre os paulistas o que ocorria nos Estados Unidos, ele começou a viajar e a organizar o movimento em outras regiões. A estratégia passava por várias etapas: retiros de curta duração em que se estimulava a formação dos pequenos ‘grupos de partilha’; organização de Seminários de Vida no Espírito, curso de nove semanas, aberto somente a participantes dos grupos de oração; e, finalmente, reuniões de massa denominadas cenáculos. (1996, p. 40).

Mesmo com a implementação do movimento sob a responsabilidade dos padres jesuítas, como ocorreu no caso de São Paulo, a RCC possui um estilo de organização bem diferenciado dos demais grupos e pastorais da Igreja Católica. Sua organização central é laica, sendo a sua direção máxima situada em Roma. Abaixo deste escritório mais central, que é responsável pela coordenação da missão em todas as partes do mundo, há uma divisão continental, com sede localizada na Colômbia. Essa sede é a responsável pela organização dos encontros das lideranças do movimento que acontecem bienalmente. Pierucci e Prandi descrevem a organização do movimento no Brasil:

No Brasil, um conselho nacional composto de quinze membros que se reúnem semestralmente, se incumbe da avaliação do movimento e definição de projetos. Há também, além desse conselho, equipes regionais que acompanham os trabalhos e, dependendo do bispo, equipes diocesanas responsáveis pela coordenação dos encontros diocesanos, animação e acompanhamento da vida dos grupos de oração. (1996, p. 65).

Como vimos uma das atividades principais do MRCC são os grupos de oração.

A atividade central dos grupos de oração é, como o próprio nome diz, a oração, seja de louvor, de ação de graças, em línguas, contemplativa, de libertação e de cura. Nela inserem-se todo tipo de emoções e manifestações de experiências pessoais (depoimentos), leitura bíblica e cantos. Os encontros de oração acontecem normalmente num clima emotivo e festivo, durando aproximadamente de duas a três horas. Há também, quase sempre, oração em língua (glossolalia), curas interiores e físicas. (Carranza, 2000, p. 45).

Nas oportunidades que tivemos de participar de alguns desses grupos, durante o processo de escuta dos depoimentos, ficamos impressionados com o grau de emotividade expresso nos gestos e cantos dos seus membros. Em alguns momentos o grito e o choro são comuns entre todos os que “oram”. Nesse caso, o MRCC não se distingue dos grupos pentecostais das Igrejas Evangélicas, numa efusividade quase orgiástica e contagiante.

Prandi expõe algumas das idéias centrais que caracterizam o sentido de ser cristão para os membros da RCC:

Para um carismático ‘ser cristão é viver em relacionamento íntimo com a Santíssima Trindade’, participando sempre de ‘uma comunidade de oração’ (Smet, 1987:55). Essa idéia de comunidade voltada para a oração conjunta e que deve estar presente tanto na família como na escola, afastando dela os que não aceitam o carisma, não esta nada distante da concepção de mundo dos pentecostais protestantes.(...) Seus ideólogos são teólogos (tradicionais) da Igreja e têm recebido enorme apoio de grande parte do episcopado brasileiro e latino-americano. Os carismáticos fazem reuniões semanais conduzidas por liderança leiga orientada por sacerdotes e teólogos engajados no movimento, usando as próprias igrejas ou outros espaços cedidos pela paróquia, não deixam de freqüentar regularmente a missa e os sacramentos oficiados pelo cura paroquial, evitando qualquer possibilidade de atrito com o vigário. Quem os vê em reunião pode pensar muito facilmente tratar-se de uma invasão de crentes em território católico, que pode ser até mesmo a vertusta e tão politizada Catedral Metropolitana de São Paulo. Ledo engano, são católicos ferrenhos. (1998, p. 38).

Pelo exposto até aqui, notamos serem inesgotáveis os aspectos que podem ser explorados para uma maior compreensão do MRCC. Muitas foram as pesquisas, sempre enfatizando um aspecto de suma relevância, tendo em vista a importância dos estudos do MRCC para a compreensão do catolicismo

contemporâneo. Destacam-se nos processos investigativos as críticas ao movimento pela ênfase demasiada no indivíduo em detrimento das questões sócio-estruturais, além da forma de expressão que permitia a relação direta com o pentecostalismo dos “crentes”, o que fez com que o MRCC procurasse reforçar o discurso de pertença ao Catolicismo, até mesmo pela própria nomenclatura.

Também merecem destaque as pesquisas que dão ênfase ao MRCC como meio estratégico da Igreja Católica para reduzir o avanço do pentecostalismo. Há ainda aquelas que enfatizam os aspectos mais subjetivos como o intimismo religioso, a emoção, o resgate do ‘corpo’ como dimensão celebrativa, a cura e o rigor moral.24

Considerando a diversidade de aspectos que podem ser retomados a partir da temática, vamos por meio do processo de escuta dos membros do MRCC, elucidar mais alguns elementos que possibilitarão, ao leitor, uma maior compreensão do movimento e que possibilitará traçar um paralelo com as CEBs, tendo em vista a questão norteadora da pesquisa, ou seja, distinguir os sujeitos que emergem dessas duas unidades, a partir da verificação do social e do subjetivo que caracterizam os membros e podem identificar um determinado tipo de Igreja.