2 Design og metode for denne rapporten
2.2 Digital spørreundersøkelse rettet mot spesialisthelsetjenestene
A opção por eleger esta fase do discurso se deu, pois, além de ela corroborar com a explicitação das questões da pesquisa por meio da percepção formada a partir do processo de escuta, faz perceber vários indicadores do discurso, falas que se repetem com freqüência e que caracterizam o militante. Esses são índices possibilitadores de uma real percepção do impulso, a partir da participação no grupo, para uma ação social mais efetiva, concretizada pela vivência de uma cidadania que vai se
constituindo à medida que cada sujeito revela um maior envolvimento com o grupo.
A relação entre fé e política é amplamente explicitada, superando a direção paradoxal com que, costumeiramente, são tratadas. Leite (2003, p. 71), em seu estudo sobre católicos e militantes e as novas formas de construção identitária, nos lembra:
Nos anos 60 e 70, parecia impossível para grande parte da esquerda marxista brasileira conjugar as identidades de católico e de militante político. Esta combinação e o mútuo reforço daí decorrente só vieram a ser operadas no campo da Ação Católica e da Teologia da Libertação com as conhecidas conseqüências em termos de racionalização da religiosidade e de desencantamento do mundo apontados por diversos analistas. Carlos Steil (1999), por exemplo, discute o projeto moderno racionalizador dessa vertente da Igreja Católica como uma busca de adequação ao mundo secularizado que abriu mão da mística em favor da política. Cecília Mariz destaca que a recriação da religiosidade operada nas e pelas CEBs, com a ‘elaboração de novos símbolos calcados no cotidiano do povo pobre’, contextualiza a simbologia e o ritual religiosos com base na premissa de que ‘o cerne de uma religião não seria o conjunto de rituais e símbolos sagrados, mas sim princípios verdadeiros e éticos’.
Os primeiros aspectos interessantes são a auto-identificação com os movimentos de greve, a participação na pastoral operária (PO), o envolvimento com os movimentos sindicais e a filiação partidária (no caso o PT, Partido dos Trabalhadores), assim como a participação em movimentos reivindicatórios, como associação de aposentados, grupos de mulheres etc.
Neste singular, já na primeira entrevista, E.T. O comenta a sua participação no grupo de mulheres:
“a gente tem o trabalho da pastoral da criança. Eu já participei muito porque
quando o padre B. estava aqui, ele fazia com que a gente atuasse no movimento de mulheres. Então, quando tinha aquele movimento, comitê de mulheres em São Bernardo... a gente atuou e muito nisso daí, né?”.
A formação do militante e o desenvolvimento de uma nova prática social ficam explícitos no discurso. È interessante verificar a ênfase dada ao movimento de mulheres, nota característica de todos os grupos, com uma participação predominante de mulheres. Como P.O (homem, 57 anos) observa ao falar da composição do seu grupo:
“Na maioria vêm as mulheres, os maridos não comparecem, não são de luta, essa que é a verdade, mas eu acho que o pouco, o muito pouco que nós damos tem muito pra fazer ainda”.
Em uma conversa informal com uma coordenadora de grupo, ela disse uma frase muito espontânea e interessante, ao mencionar a participação das mulheres, “a Igreja tem uma cabeça de homem, porque ainda quem tá na hierarquia
são eles, mais tem um corpo de mulher, porque quem faz a Igreja caminhar são as mulheres com uma participação muito maior” (E.M.G.).
Recorremos a Machado e Mariz, que caracterizam a formação política oferecida pelas CEBs e a necessidade de perceber a atuação da mulher nas ações sociais que emergem destes grupos:
O sucesso político das CEBs, contudo, não pode ser negado. Esses grupos foram capazes de formar lideranças para diversos movimentos sociais entre as camadas trabalhadoras. A partir das CEBs surgiram associações de moradores, movimentos contra o custo de vida, de demanda de creches e de atendimento médico. Embora Caldeira (1990) assinale a tendência de alguns pesquisadores em não considerar a variável gênero, referindo-se aos membros desses movimentos como o "povo" ou o "pobre", a literatura especializada sempre chamou atenção para a presença majoritária das mulheres em tais movimentos (Adriane, 1984; Castro, 1984; Macedo, 1986). É inegável, entretanto, que só recentemente começaram a aparecer trabalhos que analisam mais cuidadosamente a situação das mulheres nas CEBs discutindo os limites da sua proposta para dar conta da problemática especificamente feminina, seja na sua relação com a política (Adriane,1995; Drogus,1992; Silva, 1994), seja nas questões sexuais, conflitos conjugais, relações de gênero e comportamento reprodutivo (Adriane, 1995; Burdick, 1993; Giacomazzi, 1995; Macedo, 1992; Rosado-Nunes, 1995; Ribeiro, 1995). (1997, p. 4).
Considerando a realidade do Grande ABC, este envolvimento político é aguçado no interior das CEBs que ganham notoriedade por seu poder de mobilização dos trabalhadores. Em várias falas perceberemos o engajamento nas questões sindicais e nos movimentos de greve. A fé é expressa na prática social por meio de uma consciência do necessário envolvimento com as lutas por melhores condições de vida, nos gestos de solidariedade e na atitude assumida de enxergar os direitos dos outros e lutar por eles.
“Então, nos levava a ver, julgar e se colocar em ação... a gente saia pra rua mesmo, né? A gente ia em busca de sacolão, quantas passeatas... apoio às greves dos metalúrgicos... a gente estava sempre juntos. Então, isso me levou para uma nova vida, foi de fato, uma guinada. Aquela Igreja que eu conhecia, que eu fui catequista quando era moça, jovem, mas aquele Jesus distante, aquela Igreja distante e eu ia, freqüentava, mas de fato, não participava. Essa foi uma grande diferença pra mim. Foi uma brutal diferença na minha vida. De repente eu me sentia útil, como os discípulos mesmo, né? Se preciso dar a vida, eu dou, eu tô aí. E dar a vida a gente sabe que não é saindo por aí se deixando matar, mas sim dar a vida, dar tempo, dar disposição pra poder se engajar nesse movimento. A gente passa a ver o outro com olhos de um irmão, de procurar entender a situação dele.”
A participação nos movimentos de greve e no sindicado pelos membros das CEBs é evidenciado na fala de P.A.P.:
“Eu sai da policia militar em setenta e oito. Eu conheci o lado da ditadura, do poder militar aonde lá você dizia sim, sim, sim. Saindo, através de um diretor do sindicato – que é hoje deputado federal – que me arrumou na Volkswagen e comecei em setenta e nove com a primeira greve, eu tava com três meses na Volks. Eu lembro das palavras dele até hoje: “trabalho, fura-greve ou vou pra casa”. Ele falou: “você, hoje participa com nós, você tá na greve. Se você for mandado embora, a gente arruma outro, a luta nossa é essa aí”. Quem falou isso foi o Devanir Ribeiro, deputado estadual. Eu fui pegando o gosto pela coisa. Eu, militante sindical e aqui fazendo aquele paralelo com o Evangelho.
A participação no sindicato fica evidente em outros indicadores do discurso:
“ Eu participo da pastoral da sobriedade, sou militante do sindicato dos aposentados e do grupo de rua”. (P.A.P.)
“ Eu era diretora de sindicato. Então, eu podia sair da empresa na ora que eu precisasse. Eu participava de todo movimento, eu tava em porta de fábrica organizando os trabalhadores. Eu tava na paróquia e tal”. (T.J.S.).
“ E com a ajuda do padre B. aqui, me ajudou muito a crescer na minha fé, na minha participação e a partir daí eu já fui diretora de sindicato e a partir daí a gente vive até hoje”. (M.A.C.).
“ Muitos dos que estavam nos sindicatos eram pessoas de Igreja, lideranças conscientes
das Igrejas que também estavam nos movimentos sindical e comissão de fábrica. Então, foi esse momento, é um dos momentos mais fortes onde a comunidade reagia com uma certa clareza do que queria”. (E.P.).
Como na fala anterior, percebemos a perspectiva política presente no discurso, sem com isso perder de vista as questões mística e subjetiva. O sentido de vida e o que leva a pessoa a participar do grupo é a identidade de
fé, comum entre os membros que articulam a participação política com a vida, sob o impulso da participação mística. Esses conceitos serão retomados no capítulo IV.
A situação de exclusão social e de ausência do pleno respeito à dignidade humana possibilitam o despontar de uma consciência participativa, fruto do desejo de uma nova realidade, como salienta Covre:
Numa situação de privação e mesmo de exclusão no geral como a de nosso país, cabe refletir sobre até que ponto movimentos sociais, determinadas ONGs, organismos vinculados a Igreja enfim organismos vários da sociedade civil podem ser pensados como sujeitos-em-constituição, advindos dos processos de sujeitos-desejantes. (1996, p. 113).
A palavra luta aparece várias vezes nos depoimentos, explicitando que a experiência religiosa se dá na inserção de cada membro na realidade social. A experiência subjetiva da fé é objetivada numa proposta de prática transformadora. Nas CEBs, os indivíduos deixam a condição de indivíduos para constituírem-se como sujeitos, num processo de exercício permanente de “cidadania sempre em construção”.
Seguem alguns indicadores dos discursos que evidenciam a luta como busca de superação da exclusão social:
“....a gente aprendeu lutar pelos nossos direitos, não só da gente, mas de outras pessoas que precisavam também, né? porque, eu quando comecei a participar ai da Igreja, eu tinha minha cabeça assim fechada...era fechada minha cabeça. Eu não sabia de direito...eu tinha medo de fazer alguma coisa pelo meu direito e depois que a gente começou a participar das CEBs, ela foi se abrindo, sabe? Foi se abrindo, foi se abrindo, foi ensinando a gente que a gente tem que lutar pelos direito da gente. Não massacrar, mas também não deixar ser massacrado. Então, eu vivi muito isso...isso abriu a minha mente, fez que eu também lutasse não só por mim, mas lutasse por outras pessoas também necessitadas, né? (...)Era um movimento que despertava na gente a necessidade de lutar contra as injustiça...e fazer alguma coisa pro nosso povo.” (E.).
“A gente já participou de lutas, no caso do sacolão aqui em São Bernardo...também saiu das CEBs (...) Porque a gente sempre pensava que tinha que existir o rico para dar emprego para o pobre, que tem que ganhar muito quem tá lá e o outro não pode ganhar porque não tem...enquanto que de repente eu pude perceber que eu naquele tempo, três anos de estudo só...eu dava de dez por aí da sabedoria que eu tinha da vida. Eu acho que a CEBs pra gente foi uma maneira de mostrar a realidade nua e crua, como ela é...e que a vida é uma luta que não acaba (...) Bom, não tinha uma questão onde a gente não estava ligada, por exemplo, saneamento básico, falta d´água, falta de...tudo, a gente tava no meio...pras lutas”. (E.T.O.).
“A minha principal atuação eu aprendi aqui dentro dessa igreja, do grupo que nós
tínhamos aí, dos italianos que vieram, deu muita forca pra gente, ensinou muita coisa que a gente não sabia e a gente, criou um pouco de coragem e enfrentou essa luta aí”.
(P.O.)
O discurso revela o sujeito. A militância partidária, nas pastorais sociais como a pastoral operária (PO), é ressaltada assim como a participação das CEBs nas instâncias supradiocesanas, caracterizando uma militância ativa e uma consciência ampliada da necessidade do envolvimento social. Segue o relato do sr. G. S.V., que explicita a organização das CEBs para além da diocese:
“Bom, as atividades praticamente como exclusivas das CEBs...ela tem sempre um documento, material exclusivo, pra que ela possa ver de acordo com a paróquia, a região e o povo vivo, em buscar entender isso na prática. Todo e qualquer trabalho durante o ano é a CEBs que assumem através dos grupos por que? Os grupos é a Igreja no lar. Então, como igreja no lar, é esse pessoal que tem que assumir. Ali você vai descobrindo as atividades no dia a dia pra tá caminhando. A gente tem as prioridades de nível nacional, diocesano e paróquia porque as CEBs tem seis encontros que começa dessa primeiro encontro que é o de rua até o intereclesial. Você tem as reuniões semanais nos grupos. Depois você tem as reuniões regionais, por exemplo, São Bernardo é uma região. Depois você pode fazer um encontro de nível diocesano. Depois você faz um encontro estadual inclusive nossa região está dentro da sub-região SP 2 e depois, tem o intereclesial, mas que tem participação de vários países e de toda a sociedade. então, você leva uma questão do grupo que você participa lá da sua paróquia ou grupo para o intereclesial e traz o intereclesial pra esses grupos”.
Destaca-se também o elevado número, entre os depoentes, de militantes na política partidária, conforme os indicadores dos discursos:
“Partido eu sou, PT por enquanto”. (P.O.).
“Sou militante do PT. Já fui candidata no ano de noventa e seis, mas eu milito no PT,
sou filiada, acredito...tem algumas observações a ser feitos, mas...ainda acredito no partido”. (M.A.C.).
“Eu tava filiado ao PT, né? agora precisa fazer novamente a mudança,
recadastramento, mas a linha nossa é direcionada mais ao PT, porque...metalúrgico, trabalhei na Volks, aposentado. Então, o período muito forte foi o período que eu tava na Volks e também estudava dentro do sindicato, né? fazia o colégio lá e todo aquele movimento que tinha a gente tava na ativa. Eu participava diretamente das greves como metalúrgico”. (E.P.).
“Bom a gente luta com o PT. O partido que a gente tá entrosado é o PT”. (B.N. homem, 74 anos).
“Partido é o PT, desde pequenininha. Eu não milito principalmente por causa de
pastorais. Eu lidero uma pastoral que não permite muito esse envolvimento mais profundo, né?” (E.A.S. mulher, 51 anos)
No entanto, como já salientado anteriormente, a participação política é vista como uma conseqüência inevitável da prática da fé, e a participação na política partidária como um dever do cidadão, conforme Gorgulho (1985, p. 34):
A participação partidária, concretamente, é dever do cidadão, e um dever também do cristão. Essa participação depende da consciência, da capacidade crítica, do engajamento e das opções das pessoas. Os cristãos farão as suas opções como cidadãos, como pessoas, de acordo com as suas responsabilidades. As CEBs deverão ser o local em que os cristãos, na fraternidade, na solidariedade, na comunhão fraterna, adquirem força para o engajamento político. (...) As CEBs, então, tornam-se o foco, o lugar de formação do cidadão, de formação do cristão, e da formação da própria ação política.
Nas falas fica explicito como o subjetivo, entendido aqui como a experiência de fé, sustenta a ação social do militante. Em vários momentos, faz-se a relação da fé com a vida, considerando que a experiência religiosa é exercida na inserção e no comprometimento com as questões sociais, pela militância e participação ecumênica, como fica evidente na fala de M.A.C. (mulher, 59 anos).
“Hoje eu estou incluída mais na pastoral operária da onde a gente faz o trabalho junto com o grupo, as pastoras da igreja metodista que é a Margarida, tem a Haidi. A gente faz um trabalho de conjunto assim, por exemplo, agora Novembro se comemora a questão da violência da mulher. Nestas questões a gente faz trabalho junto”.
Em outro indicador, notamos a preocupação com a questão social, a partir do engajamento na pastoral operária.
“...a partir daquilo que eu faço, por exemplo, da Pastoral Operária. Eu acho que é o momento quando a gente consegue reunir esses grupos em numero maior e juntos a gente tá refletindo algumas coisas, problemática da sociedade e vê que a gente pode mudar, por exemplo, aqui pra te dar um exemplo mais concreto pra vê se dá a resposta, é...nós fizemos aqui, na véspera do primeiro de Maio, uma vigília, uma primeira experiência, à noite toda e nessa vigília a gente refletiu toda a questão social, né? trabalho, saúde, desemprego, violência, né? ligando isso ao dia do trabalho”. (E.).
Esta atenção às questões sociais pode ser entendida como necessidade de não “fugir” de suas origens, lembrando o texto de Souza:
As CEBs nasceram ligadas às lutas dos setores populares dos anos 70 e à resistência contra o regime autoritário e concentrador
de riqueza. Na medida em que novos horizontes se vislumbram ao nível do real e da consciência possível – os temas de gênero, de subjetividade, de raça, do corpo e do prazer, da ecologia – elas vão ampliando sua visão, às vezes com dificuldade, mas sempre no marco de suas opções irrenunciáveis diante do conflito social (2002, p. 107).
Diante dos inúmeros conflitos sociais há o evocar de uma mística que “alimenta” a prática do militante. O impulso para a ação social é oferecido por uma relação subjetiva da fé com a vida, com o cotidiano, com a própria história. O militante se faz no “chão de sua própria história”.
A ação é moldada, forjada em meio aos conflitos que convocam para a participação ativa. Da subjetividade expressa nos sentimentos de religiosidade para a objetividade de uma ação engajada e compromissada com a transformação social. Estas características do militante que emerge das CEBs, são apresentadas por Prandi:
Ao unir fé e compromisso social, a construção da vivência comunitária passa por duas fases: primeiro a CEB procura desenvolver um tipo de percepção da religiosidade que nunca está separada do mundo; depois procura viabilizar uma nova práxis que se traduz em conquista da cidadania. Aposta numa mudança radical na trajetória de vida, mudança de mentalidade, conversão por meio da qual jovens, idosos e, sobretudo mulheres se descobrem como sujeitos, emancipados da alienação dos que preferem ver novela a participar das reuniões. (1998, p. 100). Podemos perceber que a formação da identidade, a militância e a participação como impulso para a ação social e a formação de um novo tipo de sujeito estão bem presentes nos indicadores dos discursos dos depoentes. Como a nossa pretensão não é de tecer qualquer conclusão prévia, até mesmo por assumirmos o caráter sempre provisório da investigação científica, acreditamos que os dados em tela oferecem elementos para ampliarmos o desejo de inserção, ainda maior, no processo investigativo.
Para dar continuidade ao processo, queremos expor os sentimentos que os depoentes deixaram transparecer por meio do envolvimento com o grupo, como terceira fase do discurso, considerando a sua pertinência no desvelamento do sujeito que emerge das CEBs.
2.2.3 Sentimentos que despontam no envolvimento – formação subjetiva.