• No results found

Solidaransvar

A enunciação mista é uma das marcas do jornalismo actual. A descrição e as citações conjugadas com a análise constituem, pro- vavelmente, o tipo mais comum de enunciação mista no campo jornalístico. Mas também se encontram exemplos de enunciação mista em que descrição, citações e opinião se conjugam e até em que estão presentes os vários tipos de enunciação.

No exemplo seguinte, encontramos, essencialmente, uma enun- ciação de âmbito descritivo. No entanto, o final da notícia é ana- lítico. O jornalista analisou a situação, tendo concluído que, ao nível da orientação político-ideológica, o PCP não se alterou com o XVI congresso.

Exemplo de enunciação mista descritiva e ana- lítica

A nova direcção do PCP que hoje sai do XVI con- gresso incluirá alguns nomes novos -ontem colocava- se, por exemplo, a hipótese de Rosa Rabiais, José Neto, Armindo Miranda, Bernardino Soares, Paulo

Raimundo e de António Abreu serem eleitos para a Comissão Política, assim como a possibilidade de Eu- clides Pereira subir ao Secretariado- mas, ao nível da orientação político-ideológica não surgiu nenhuma ori- entação de fundo introduzida por este congresso. (Pú-

blico, 10 de Dezembro de 2000)

No exemplo seguinte, a destrinça entre espaços descritivos e analíticos tem de ser feita à lupa. O primeiro período é descritivo, o segundo é analítico, o terceiro é misto e o quarto é analítico.

Exemplo de enunciação mista descritiva e ana- lítica

Armando Vara e Luís Patrão colocaram os lugares à disposição de António Guterres. O caso da Funda- ção para a Prevenção e Segurança continua a deixar o PS em estado de sítio. A situação mais complicada é a do ministro do Desporto, que ontem viu demitir-se um homem da sua confiança, Júlio Meirinhos, gover- nador civil de Bragança. Tudo por causa do alegado aliciamento a deputados do PSD na tentativa de via- bilizar o Orçamento do Estado. (Público, 10 de De- zembro de 2000)

O texto seguinte inicia-se com uma breve descrição de uma situação. Esta descrição serve, posteriormente, de pretexto para uma diatribe contra as obras no Porto. Repare-se que, ao contrário da análise, a opinião não necessita de se fundamentar em dados concretos para qualificar a situação. No entanto, a referência a factos conhecidos ajuda a consolidar a opinião, conforme também é visível no texto abaixo.

Exemplo de enunciação mista descritiva e opi- nativa

Os comerciantes do Porto continuam a queixar-se das obras na cidade. E têm razão. O Porto já não é uma cidade. É um buraco. Um estaleiro. Um pan- demónio. O caos. E nem as iniciativas ridículas da Câmara conseguem disfarçar esta desgraça. As vi- sitas às obras são uma absurda manobra de relações públicas que não consegue atenuar o mal-estar dos portuenses. A distribuição dos kits para enfrentar as obras foi um sucesso unicamente porque poucas pes- soas enjeitam a possibilidade de obterem uma má- quina fotográfica descartável "à borlix".

Os exemplos a seguir inseridos procuram mostrar, com exem- plos fictícios, como as mesmas notícias podem ser contadas usando- se uma estrutura predominantemente descritiva ou uma estrutura predominantemente analítica.

Estrutura descritiva

Governo investe quatro milhões em três

novas auto-estradas em três novas auto-

estradas

O primeiro-ministro anunciou hoje que o novo Orçamento de Estado prevê um investimento de qua- tro mil milhões de euros na construção de três novas auto-estradas das cidades litorais para o interior.

Pedro Santana Lopes, que falava numa conferên- cia de imprensa, em Lisboa, salientou que este in- vestimento procurará aproximar o interior do litoral, contribuindo para o desenvolvimento harmónico do País.

“É disto que o país precisa. Não queremos que o interior se desertifique. Pelo contrário, queremos fomentar a sua vitalidade económica, fixar as pessoas

à terra, gerar progresso, desenvolvimento e riqueza.”, salientou Santana Lopes.

Estrutura analítica

Governo investe quatro mil milhões em

auto-estradas polémicas

O primeiro-ministro anunciou hoje, em Lisboa, que o Orçamento de Estado reserva quatro mil mi- lhões de euros para a construção de três novas auto- estradas entre o litoral e o interior. Mas esse investi- mento, equivalente a três Expos 98, pode vir a revelar- se uma medida inconsequente ou até nociva.

Segundo o estudo de impacto ambiental, divul- gado pelo Ministério do Ambiente, as novas auto- estradas atravessarão áreas protegidas, causando da- nos ambientais irreparáveis.

Em conformidade com um relatório do Banco de Portugal, um investimento de quatro mil milhões de euros em obras públicas pode fazer subir a inflação em mais de um por cento.

Segundo dados da Brisa, empresa concessioná- ria da rede fundamental de auto-estradas do País, que emitiu um parecer sobre o projecto, o volume de trá- fego previsto para as novas auto-estradas não é supe- rior a 60 veículos/hora.

As novas auto-estradas podem também vir a revelar- se mais um factor de esvaziamento populacional e retrocesso económico do interior do que um factor de geração de riqueza, como pretende o primeiro- ministro. Recorde-se, por exemplo, que os comer- ciantes de Bragança já fazem publicidade para evitar que os habitantes da localidade façam as suas com- pras no Porto, situação impensável antes da abertura do IP4.

Assim, o projecto governamental pode não passar de mais uma medida eleitoralista, destinada a solidi-

ficar a base de apoio do Partido Socialista no interior. Pode resolver-se o problema dos acessos rodoviários ao interior, segundo aponta o relatório da Brisa, atra- vés da correcção dos traçados e do melhoramento do piso das estradas existentes, o que custaria mil mi- lhões de euros, libertando três mil milhões para in- vestimento noutras áreas prioritárias, como a saúde e a educação.

Estrutura descritiva

Santana Calado vende 450 milhões

A empresa Santana Calado, do sector têxtil, teve este ano um volume de negócios de 450 milhões de euros, o que constitui um recorde, segundo revela o relatório de contas da empresa.

O volume de negócios da empresa aumentou 60 milhões de euros em relação ao ano passado, lê-se no mesmo relatório, onde ainda se demonstra que os resultados líquidos ascendem a 15 milhões de euros, enquanto no ano passado foram de 12,5 milhões de euros.

No mesmo documento pode ler-se que durante este ano se transaccionaram diariamente em bolsa, em média, 2564 acções da empresa, contra 2420 no ano passado.

Segundo o relatório de contas da Santana Calado, 55 por cento do capital social, de 35 milhões de eu- ros, é detido pela Foca, holding da família Santana Calado, e 27 por cento pela International Co., do Ja- pão, estando os restantes 23 por cento dispersos no mercado.

Estrutura analítica

Resultados da Santana Calado podem

decepcionar accionistas

A apresentação dos resultados deste ano da em- presa Santana Calado, do sector têxtil, deverão de- cepcionar os accionistas.

A empresa bateu o recorde da sua facturação, com um volume de negócios na ordem dos 450 milhões de euros, mais 60 milhões de euros do que no ano pas- sado, revela o relatório de contas da empresa. Lê-se no mesmo relatório que os resultados líquidos ascen- dem a 15 milhões de euros, depois de a Santana Ca- lado ter fechado no ano passado com 12,5 milhões de euros. No entanto, o volume de transacções bolsis- tas, que se situou, em média, nas 2564 acções, contra 2420 no ano passado, segundo dados do mesmo rela- tório, ilustra a imagem de uma empresa pouco atrac- tiva.

A concentração da estrutura accionista é uma ex- plicação para o comportamento da Santana Calado no mercado bolsista. Consta do relatório que o ca- pital social da empresa, de 35 milhões de euros, está concentrado em 55 por cento nas mãos da Foca, hol- ding da família Santana Calado, e em 27 por cento na International CO., do Japão. Assim, disperso no mercado accionista está apenas cerca de 15 por cento do capital da empresa, o que justifica a reduzida ex- citação do mercado pela sociedade.