O dia num jornal começa sempre algum tempo antes, seja um ou mais dias, semanas, meses ou até anos. De facto, as publi- cações jornalísticas dependem da planificação (se a forma como planificam é suficiente e adequada, é outra questão). A planifica- ção expressa-se na agenda dos assuntos a cobrir. Esta, por sua vez, é construída ao longo do tempo, em função das informações que chegam à redacção (processo de agenda-building), que são avaliadas e filtradas pela Secretaria de Redacção, pela Chefia de Redacção e pelos editores, sob a supra-coordenação da Direcção do jornal.
Em função dos recursos humanos e materiais disponíveis, a agenda dos assuntos a cobrir é complementada com a distribuição de serviço. O jornalista, consultando a agenda, fica a saber qual a tarefa que lhe está atribuída, podendo ou não ter de se deslocar, para contactar fontes, para ir ao local de um acontecimento, etc. Se tiver um assunto a cobrir, deve fazer o seu trabalho rápida e diligentemente, respeitando as deadlines.
Quando toma conhecimento de que tem um assunto agendado, o jornalista deve documentar-se sobre ele, recorrendo aos dossiers
fornecidos pela Secretaria de Redacção e ao Centro de Documen- tação. Pode também auscultar os seus colegas, editores e chefes. Pelo menos, deve combinar o ângulo de abordagem do assunto com o editor, especialmente quando se trata de um tema sensível. Se a tarefa agendada não diz respeito a uma entrevista por te- lefone ou a um trabalho a efectuar dentro do edifício da empresa, o jornalista deve deslocar-se ao local do acontecimento, aos luga- res onde possa recolher mais informações ou ao local para onde marcou uma entrevista, etc. Se vai cobrir um acontecimento, deve esforçar-se por ouvir as pessoas nele envolvidas, testemunhas, etc. Melhor ainda será presenciar o acontecimento, para o poder des- crever baseado na observação directa, mas esta nem sempre é uma vantagem concedida ao jornalista. Com base nos dados observa- dos e nas informações recolhidas, o jornalista deve fazer a peça. Pode fazê-la no local, se puder, mandando-a por e-mail para a re- dacção; ou então deve redigi-la quando chegar ao jornal. Quando termina, envia a peça para o editor, que deve lê-la e, se neces- sário, corrigi-la e modificá-la, de acordo com a linha editorial, o espaço disponível e o livro de estilo da publicação. Ao editor tam- bém compete decidir sobre a diagramação da peça e a inclusão de imagens e gráficos informativos.
Caso não tenha um novo tema agendado, um jornalista pode ficar na sua editoria a contactar fontes (por telefone, e-mail, etc.), a trabalhar com base em informações que já possua ou nas infor- mações que constantemente chegam à redacção (agências, contac- tos do público, etc.), etc. Também pode ficar a tratar informações que recolha em bases de dados, no Centro de Documentação, em livros, revistas e outros órgãos de comunicação social, na Inter- net, etc. Evidentemente que, em caso de necessidade, um jorna- lista pode ser destacado para a cobertura de um acontecimento inesperado de que a redacção tenha conhecimento.
Mesmo não tendo um tema agendado, um jornalista pode ne- cessitar de se ausentar da redacção para contactar fontes ou pro- ceder a diligências que lhe permitam elaborar as suas peças, o que pode fazer com o acordo do seu editor. Há até jornalistas, não ne-
cessariamente correspondentes, que já optam por modalidades de teletrabalho, raramente se deslocando à redacção6. Mas a liber-
dade quase absoluta de movimentos só é permitida a jornalistas consagrados, aos quais se exigem resultados a posteriori.
A agenda pessoal do jornalista é um auxiliar precioso. O jor- nalista deve cultivar as suas fontes potenciais e regulares, possuir arquivos pessoais organizados, etc. E deve ter em mente que se o telefone pode ser um recurso, um contacto pessoal é usualmente melhor.
No centro da operação noticiosa estão as reuniões editori-
ais. Um grande diário de referência pode ter várias num dia. Um
semanário geralmente tem uma por semana. As reuniões editori- ais servem para coordenar as actividades da redacção, seleccionar assuntos a cobrir, escolher ângulos de abordagem desses assun- tos, decidir quais os temas que serão chamados à primeira página e qual será a manchete, seleccionar especialistas para escrever ou aconselhar sobre determinados assuntos, decidir como se deve de-
6O teletrabalho, se generalizado, terá, certamente, consequências ao nível
dos hábitos laborais dos jornalistas e da cultura profissional. Albertos (1988) fala dos seguintes: 1) mudanças no conceito psicológico de tempo; 2) diversi- ficação dos horários de trabalho e aparecimento de modalidades de produção contínua, sobretudo para distribuição electrónica (jornais on line), com a erup- ção provável de conflitos entre os jornalistas habituados a um horário “nove às cinco”; 3) assunção, pelo jornalista, de responsabilidades que até há bem poucos anos não eram suas, como a revisão de textos, a paginação, ou o do- mínio de técnicas informáticas para acesso à Internet e para organização de bases de dados ou acesso às mesmas; 4) mudanças nas rotinas produtivas, nas culturas organizacionais e nas culturas das salas de redacção; 5) maior compe- tição entre os jornalistas e outros disponibilizadores de informação na Internet; 6) transição da titularidade da informação para o público, devido à interactivi- dade e à crescente diluição do papel dos jornalistas e dos seus empresários na construção social de referentes; e 7) aparecimento de duas grandes correntes ao nível da manipulação da linguagem: a) o jornalista que redija informação
on-line, segundo o autor, envereda pela denotação, pela univocidade e por uma linguagem “desumanizada”, própria da comunicação automática de dados; e b) pelo contrário, o jornalista que redija para a imprensa tem de ser original e criativo, de forma a conseguir seduzir o público e a levá-lo a comprar o produto jornalístico (esta será a conclusão menos pacífica do autor).
senvolver uma investigação, debater questões sensíveis e conside- rações legais, éticas e deontológicas, etc.
Nas reuniões de coordenação editorial podem estar presentes a Direcção, a Chefia de Redacção, os editores, o secretário de re- dacção e até jornalistas que seja necessário ouvir. O jornal vai-se conformando em resultado dessas reuniões, da competição entre as editorias, das negociações e dos compromissos que se estabele- cem, do trabalho desenvolvido pelos jornalistas, das informações que se recolhem junto das fontes, etc.
A informatização das redacções possibilita a colocação de tex- tos e imagens on-line. Tal permite aos editores, à Chefia e à Di- recção terem acesso directo às peças que estão a elaborar-se, bem como às imagens disponíveis e às páginas que estão a ser feitas (grafismo electrónico). É-lhes, assim, mais fácil supervisionar a produção do jornal ou da revista e intervir, revendo, suprimindo, reelaborando, substituindo ou sugerindo.
As páginas, à medida que vão sendo compostas e fechadas, são enviadas, sob suporte electrónico ou outro, para a gráfica. Dá- se, então, início ao processo de impressão e, posteriormente, à distribuição. Nos jornais portugueses, a gráfica e a distribuição não se integram nas empresas jornalísticas, embora em vários dos grandes jornais do mundo ainda continuem a fazer parte delas (as tiragens justificam-no).