Já se referiu que as tipologias de texto jornalístico dominantes na actualidade têm raízes ancestrais, mas pode-se igualmente afirmar que as formas de contar histórias também se foram ampliando e aprimorando com o correr do tempo. Basta pensar, inclusiva- mente, nas mudanças que a fotografia, primeiro, e a infografia, depois, trouxeram à imprensa e à arte de bem informar e de contar
histórias3. Ou nos reflexos que a aparição de diferentes meios de
comunicação (telégrafo, telefone, rádio, televisão, Internet) teve no jornalismo. No entanto, em termos de enunciação escrita, em grande medida as nossas formas de contar histórias são reinven- ções das formas narrativas dos nossos antepassados.
De qualquer maneira, a arte de noticiar foi-se aprimorando, tanto quanto os critérios de noticiabilidade foram, até certo ponto, evoluindo. No primeiro número do Diário de Notícias (29 de Dezembro de 1864), a primeira notícia era "Suas Magestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes". Hoje em dia, se um monarca ou presidente estiver bem de saúde, isso não é notícia. Nem o jornalista iria classificar as suas saúdes de "importantes".
A forma de tratamento das pessoas e situações também evo- luiu. Nesse mesmo primeiro número do DN pode ler-se, noutra notícia, que "O ilustre professor o sr. Joaquim Theotónio da Silva participou há pouco à Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa o caso curiosíssimo de uma doença a que os homens da ciência chamam ataxia locomotriz, e que foi pela primeira vez observada entre nós". Os adjectivos, na actualidade, tendem a evitar-se. O relato noticioso também é mais directo, mas isto não exclui que já no século XIX se encontrassem notícias muito semelhantes, em estilo, às actuais: "Madrid, 15 - Os unionistas resolveram vo- tar em Rios Rosas para a presidência das cortes. Vai haver uma nova reunião da maioria. O governador de Gerona recebeu ordem para reprimir, sem contemplações, os tumultos. Rivero declarou- se disposto a auxiliar a liberdade mas a castigar os abusos."(DN, 18 de Janeiro de 1870)
Casasús e Nuñez Ladevéze (1991: 15) relembram que o re- lato cronológico, uma das formas mais comuns de organizar uma reportagem, já vem de longe. No Génesis, por exemplo, o relato da criação do mundo é cronológico, iniciando-se com "No prin- cípio Deus criou os céus e a terra". Também a utilização de um
3Que serão objecto de tratamento separado nos capítulos dedicados ao fo-
parágrafo introdutório às histórias, que posteriormente adquiriria a denominação anglo-saxónica de lead, foi uma técnica já usada na antiguidade. Eugenio Coseriu (cit. por Casasús e Nuñez Lade- véze, 1991: 15) assinala que já Homero usou essa técnica. "Este jovem morrerá ao amanhecer", por exemplo, é a frase introdutória de uma narrativa homérica que prefigura o lead e inclusivamente a própria técnica da pirâmide invertida, pois antecipa ao leitor o final da história. Casasús e Nuñez Ladevéze (1991: 16) referen- ciam que outros escritores gregos e romanos recorreram a técnicas similares, que incluíam contar os aspectos mais relevantes a abrir e fechar as histórias, aparecendo na parte central das mesmas os pormenores, a exposição cronológica e a narração dos vários epi- sódios. Estas técnicas são comuns, hoje em dia, nas reportagens e noutras peças jornalísticas de abertura e final fortes.
Responder a "Quem?", "O Quê?", "Quando?", "Onde?", "Co- mo?"e "Porquê?"numa notícia também não é uma novidade. Os
elementa narrationesda retórica clássica (sujeito, objecto, causa, maneira, lugar e tempo) prefiguram essas questões (Casasús e Nuñez Ladevéze, 1991: 16).
Apesar de tudo, há algumas diferenças entre as formas actuais e antigas de noticiar. No jornalismo dos séculos XVII ao começo do século XIX "não importava saber as coisas imediatamente de- pois de acontecidas, era mais importante conhecê-las bem e sem pressas; nem existia o problema da selecção e valoração de no- tícias, que o crescimento das fontes, dos meios e dos sistemas de transmissão, e do volume de informação circulante, converte- ram numa grave doença do jornalismo do nosso tempo"(Casasús e Nuñez Ladevéze, 1991: 17). Por isso, na primeira tese doutoral sobre jornalismo, que data de 1690, Tobias Peucer aconselhava o escritor (jornalista), para bem redigir uma notícia sobre o cerco a uma cidade, a falar das personagens em primeiro lugar, depois dos seus motivos, seguidamente dos instrumentos que usavam, depois do lugar e da forma de actuar e finalmente da acção prin- cipal e dos acontecimentos, e do valor das personagens. Hoje em dia, normalmente o jornalista não se prende em minúcias, procura
antecipar os dados mais importantes da informação e tenta não produzir juízos opinativos, mormente no enunciado noticioso.
A escassez de notícias4, entre outros factores já referenciados,
terá sido uma das razões que levou a que o jornalismo até mea- dos do século XIX, no mundo anglo-saxónico, e até ao início do século XX, nas culturas mediterrânicas, fosse em grande medida constituído por textos ideológicos, em que os jornalistas tomavam posições e expressavam opiniões acerca de factos, acontecimen- tos e pessoas. Mas em meados do século XIX o relato noticioso adquiriu relevância. Notam os primeiros indícios de utilização massiva da técnica da pirâmide invertida na Guerra Civil Ameri- cana (1861-1865), mas só uma década depois começou a ser pra- ticada em elevada escala, inicialmente nos Estados Unidos, em particular pela agência Associated Press (Casasús e Nuñez Lade- véze, 1991: 18-19).
Nos anos quarenta do século XX, Bernard Kilgore aplicou no
The Wall Street Journaluma fórmula de noticiar e argumentar so- bre temas económicos e políticos que consistia em abrir o enun- ciado com uma tese, a que se seguia a apresentação de dados ou posições que confirmavam ou tornavam consistente a tese. De- pois aparecia a antítese. Finalmente reconfirmava-se a tese origi- nal com novos dados e avaliavam-se e aprofundavam-se as con- sequências. Mas esta forma de enunciado, muito usada nos edi- toriais e em peças analíticas, é, também ela, uma forma de rein- venção de formas discursivas da antiguidade clássica (Casasús e Nuñez Ladevéze, 1991: 21). Portanto, como se vê, em grande medida continuamos a contar histórias ou a argumentar tal como faziam os nossos antepassados e os próprios temas em que recai a nossa atenção em grande medida são os mesmos em que recaía a
4 No primeiro número do primeiro jornal português predominantemente
informativo, o Diário de Notícias, escrevia-se "Aceitam-se e agradecem-se in- formações verbais ou escritas sobre quaisquer acontecimentos interessantes da vida pública; ocorrências tristes ou alegres; obras notáveis; descobertas úteis; (...) tudo, enfim, que possa interessar ao público em geral (...)."(29 de Dezem- bro de 1864)
atenção dos nossos antepassados: política, conflitos, descobertas e invenções, tragédias, fenómenos insólitos, etc..