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3.1 Soil background…

Em todo trabalho que se idealiza, independente da área, sempre existirão pontos a favor, que poderiam ser denominados de “pontes” e também existirão os empecilhos, que chamaremos de “barreiras”. Existem barreiras que limitam a ação da igreja em um contexto urbano e existem pontes que facilitam esta ação. Vamos fazer um breve comentário sobre estas barreiras e como a Comunidade trabalha diante delas.

A primeira barreira que podemos encontrar na ação da igreja no contexto urbano é a “base teológica voltada a um evangelho simplista e inapropriado para atingir as necessidades da comunidade e da vizinhança”, comenta Barro. 107 Falando-se das letras dos cânticos que têm uma base teológica simplista, podemos concluir que as mesmas limitam-se a um aspecto escatológico e, portanto alienante. Como a Comunidade Carisma tem sua base teológica voltada principalmente à valorização do ser humano, certamente, seus cânticos levam o povo a uma reflexão tanto no âmbito individual, quanto no coletivo. A reflexão acontece quando, nos cânticos, se fala de novo estilo de vida, de possibilidade de restauração, de sentir-se amado e na busca de um novo modo de viver. Através deste despertar, pessoas são movidas e

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envolvidas na ação social e nas outras atividades da comunidade. E, assim, a comunidade vai se estruturando e incentivando seus membros a uma participação ativa e relevante tanto na comunidade, como também na sociedade urbana. Frederico108 comenta: “Não é exagero dizer que muitos cristãos aprendem sua teologia dos hinos que cantam. Os hinos moldam, ratificam e proclamam a experiência de Deus que um participante do culto tem”.

Uma segunda barreira encontrada na atuação com a missão urbana é a fé individualista, que é herança do protestantismo. Barro109 mostra que, através de:

...uma velha música ensinada às crianças: Tu no teu cantinho e eu no meu. A dimensão social da fé, no protestantismo de algumas denominações, teve problemas para ser manifesta no coletivo. Vimos, por muitos anos, a presença da teologia privada em contradições com a teologia pública. Isso gerou uma igreja de imaturos voltada para si mesma, sem expressão pública. A meu ver, uns dos maiores desafios da igreja hoje é ser igreja também fora dos portões. É necessário lembrar que Jesus morreu fora da porta, inaugurando um novo lugar da salvação. Jesus não morreu para a igreja, mas para todos. Ele é sal da terra e luz do mundo – este é o desafio público da igreja.

A Comunidade Carisma tem buscado justamente ser uma igreja que é voltada para a missão urbana, ou seja, de dentro para fora. Missão urbana começa-se de dentro da comunidade, pela forma com que a liturgia se desenvolve no decorrer dos cultos e o enfoque tanto individual quanto coletivo que as letras dos cânticos dão. Enfoques tais como: estava perdido e vazio, buscando um libertador. Como, por exemplo: o cântico ‘Novo Mandamento’ fala: “o amor de Deus é tão grande, que o seu Filho deu para nos salvar. E Jesus viveu nesta terra para demonstrar esse imenso amor”. A música usada nos cultos transmite uma clareza, aproximando-se ao nível de compreensão das pessoas que a ouvem e cantam. Seus cânticos são relevantes por atuarem no mesmo nível da ação social da comunidade, tratando da valorização e das necessidades do ser humano e da sociedade. Tal como conta o cântico: ‘Hoje Ele Vive’. “Morreu por mim. Morreu por nós. E levou nosso pecado na cruz. Pra nos

108

FREDERICO, Denise Cordeiro de Souza. Cantos para o culto cristão. São Leopoldo, RS: SINODAL, 2001. p. 332

109

BARRO, Jorge Henrique. Ações pastorais da igreja como Cidade. Londrina, PR: DESCOBERTA, 2000. p.76, 77

salvar. Pra nos salvar. E nos amou, se entregou, para que pudéssemos viver seus sonhos, os seus planos a tua vontade. O teu amor nos libertou, nos conquistou. E Nele há toda vitória, força e paz”. Isto nos reporta a uma terceira e última barreira: as liturgias que não expressam a vida urbana.

A vida urbana é movimentada e dinâmica. Não é estática. Por isso, a liturgia precisa andar junto com toda esta dinâmica. Ela não pode parar no tempo, na história e na tradição. Ela precisa se contextualizar com o que acontece ao seu redor. Barro110 diz: “A liturgia nunca deve ter um fim em si mesma, mas deve ser uma ponte, um meio muito eficaz que facilita a relação entre Deus e o ser humano. Liturgia também não deve ser um instrumento de preservação da tradição, mas um instrumento da missão”. E, na Comunidade Carisma, ela tem sido um instrumento de renovação e dinamismo, pois suas letras evocam a valorização do ser humano e o serviço social. O cântico ‘Atos 2’ diz: “E permanecendo na doutrina dos apóstolos, na comunhão, nas orações e no partir do pão. Tendo tudo em comum, em cada alma o temor de Deus. Maravilhas e milagres feitos por apóstolos, não havendo falta ou

necessidade. Por ser um coração, dia-a-dia a multidão, como igreja em união. Partindo o pão de casa em casa, (...) e caindo na graça do povo. O Senhor acrescenta à igreja os que chama para si”.111 Aqui o dinamismo é demonstrado pela comunhão diária, pelos feitos dos “apóstolos”, no caso, os membros da comunidade que atuam na área social e a demonstração de que à comunidade novas vidas são acrescentadas.

Uma quarta barreira se levanta para impedir que a ação social seja ativa no âmbito urbano é quando a igreja não prepara seus membros para tal chamado, ou ainda quando a atua muito dentro de si mesma. Barro112 mostra-nos o seguinte:

110

BARRO, Jorge Henrique. Ações pastorais da igreja como Cidade. Londrina, PR: DESCOBERTA, 2000. p.76, 77

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Grifo da pesquisadora 112

(...) A melhor e mais eficaz ponte de contato que a igreja tem com sua vizinhança são os membros. Quanto mais ativos forem seus membros na igreja, tanto mais serão também na sociedade. (...) A igreja urbana necessita de estruturas flexíveis e que incentivem a participação ativa de seus membros na vida da igreja e da sociedade. Quanto mais clericais somos, menos participação temos na vida da sociedade.

Sabe-se que a Comunidade Carisma tem aberto seu espaço tanto aos membros quanto à vizinhança para estarem envolvidos em vários de seus projetos: ensino de trabalhos manuais, artes, educação, cursinho, curso de línguas, faculdade de teologia, esportes, prevenção às doenças, chás para as mulheres que acontecem durante a semana, encontro de jovens e também com casais e tantos outros. Isso nos mostra que sua atuação tem sido bastante eficaz e tem alcançado a área urbana. No cântico ‘A Expressão do Amor’, o autor comunica a força da atuação de uma pessoa que é tocada pela presença e proteção do Pai. E o resultado é esse: “Quero expressar o meu amor, oferecendo a Deus o meu louvor. Do seu filho a vida deu, pra tornar-me filho seu. Quero expressar o meu amor. Estou apaixonado pelo Senhor. Um milagre fez por mim, por isso hoje estou aqui. Amor assim nunca encontrei. Transformou o meu viver. Ao mundo todo quero cantar e dizer”.113 Esta visão da Comunidade Carisma nos reporta às pontes no envolvimento da igreja com a cidade, conforme visão de Barro114.

A primeira ponte é a da sensibilidade. O autor explica que mais que ter um programa ou promover atividades, o grande desafio neste momento é “construir na igreja uma sensibilidade ativa em relação às pessoas que estão ao nosso redor. Essa é a ponte da consciência para com as necessidades específicas da cidade”. E, relacionando este pensamento com os cânticos da Comunidade Carisma percebe-se que a mesma, como já citamos anteriormente, tem suas

letras que levam o povo a uma reflexão maior em relação ao amor ao próximo e às necessidades das pessoas115. Frederico116 expressa esse pensamento da seguinte forma:

113

Grifo da pesquisadora 114114

BARRO, Jorge Henrique. Ações pastorais da igreja como Cidade. Londrina, PR: DESCOBERTA, 2000. p.80

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Uma das razões por que a música contribui para o culto consiste no fato de ela ser um meio mais expressivo do que a fala ordinária. A música nos permite expressar uma intensidade de sentimento. (...) Assim quem canta dispõe de uma gama mais ampla de expressão do que quem fala. A música pode e muitas vezes efetivamente transmite uma intensidade de sentimento maior do que se expressaria sem ela. A música funciona como um “agente catalisador” da emoção de duas maneiras: subjetiva e objetivamente. O estado emocional é muito mais sutil e subjetivo, sendo, por esta razão, difícil de ser verbalizado.

Em outras palavras: uma das grandes contribuições dos cânticos da Comunidade Carisma é que, além de falarem da valorização do ser humano como pessoa, além de falarem sobre o amor, eles conferem muito maior expressividade e sensibilidade às palavras. 117 Seria o mesmo que dizer que suas melodias, somadas às letras, tocam e entram nas emoções das pessoas de uma forma mais relevantemente expressiva, produzindo um resultado prático. Agostinho118 falou dos cantos que “destilam as verdades em seu coração”. E, Frederico119 completa este comentário de Agostinho dizendo:

Nessa consideração, destaca-se uma qualidade do canto que “fala à alma”: ele tem bom conteúdo. Ter bom conteúdo significa estar teologicamente correto e ser pertinente

para as pessoas, ou seja, falar dos assuntos do interesse delas. No caso de Agostinho, esse

conteúdo era tão importante, que as palavras cantadas iam sendo incutidas no seu interior, ajudadas pela expressividade que a música conferia ao texto. Outra característica também ligada com a qualidade do texto: se ouvir-se Calvino, percebe-se que suas palavras ressaltam que o bom texto é aquele que leva as pessoas a se “direcionarem a Deus”. Sabedor da falta de concentração da mente humana, Calvino reconheceu que a música ajudava a reter a atenção da mente na mensagem. O canto que “fala à alma” fala de Deus, dos seus grandiosos feitos, principalmente do seu maior feito de ter enviado o seu próprio Filho à terra para ser o Redentor do mundo.

As pessoas dentro da comunidade, primeiramente através dos cânticos, começam a ser tocadas no profundo de seu ser e, após a reflexão, passam a se sensibilizarem com os significados das letras. As letras começam a tomar forma dentro de “seus corações”. E, este resultado abre uma segunda ponte: a ponte da cooperação.

116

FREDERICO, Denise Cordeiro de Souza. Cantos para o culto cristão. São Leopoldo, RS: SINODAL, 2001. p. 369

117

Grifo da pesquisadora. 118

Santo AGOSTINHO. As confissões. p. 256. In: FREDERICO, Denise Cordeiro de Souza. Cantos para o

culto cristão. São Leopoldo, RS: SINODAL, 2001. p. 371

119

FREDERICO, Denise Cordeiro de Souza. Cantos para o culto cristão. São Leopoldo, RS: SINODAL, 2001. p. 371, 372 – Grifo da pesquisadora.

Barro120 falando sobre a cooperação, comenta o seguinte:

A igreja, como comunidade local, não possui todos os recursos, estruturas, estratégias e conhecimento para lidar com os problemas da cidade. Além das ações isoladas, particulares e pessoais, a igreja também precisa trabalhar com outras igrejas, agências e ministérios, formando uma rede de cooperação ministerial, unindo forças, sendo cobeligerante contra a fome, pobreza, criminalidade. Triste é ver a duplicação de esforços para a mesma ação e ministério. Uma igreja, por exemplo, começa uma creche, e outra faz o mesmo. Por que não unir os esforços? Talvez uma igreja tenha recursos humanos para a creche, a outra recursos financeiros, a outra recursos estruturais, e assim, a partir de um esforço comum, teríamos uma creche modelo, suprindo necessidades de muitas famílias da cidade, em vez de termos três creches, que todas lutam com muita dificuldade para sobreviver. O mesmo acontece com casas de recuperação. Outra forma de cooperação é a utilização das estruturas físicas.(...) Nossas igrejas devem ser centros de vida. Podemos cooperar com nossas estruturas com grupos afins que lutam contra alcoolismo, drogas, analfabetismo. Que cedam suas estruturas para atividades para a terceira idade, adolescentes grávidas, portadores de necessidades específicas. A maneira

como nós tratamos nossas estruturas físicas e nossos recursos demonstra o que entendemos por missão.

Fazendo a leitura acima, é possível vislumbrar quase que um modelo perfeito de cooperação entre igrejas e comunidades. De uma forma um pouco mais simplista, é esse o pensamento e visão da Comunidade Carisma ao apresentar sua base teológica e visão da ação social. Obviamente, nem tudo acontece de um dia para o outro. É preciso todo um trabalho de implementação de toda a visão. Isso nos leva a uma outra ponte: A ponte do treinamento urbano. Ou seja, como diz Barro121, esta é uma ponte que a igreja deve construir:

Formar um povo capaz e preparado para a realidade urbana. (...) Um sistema educacional propício e com capacitação técnica para a missão, (...) a idealização e capacidade de se elaborar um projeto prático de evangelização urbana. (...) Para fazer missão urbana é necessário treinamento específico, e para tal deveria servir o ensino da igreja. Caso contrário, corremos o risco de ser uma igreja que ensina, mas nunca forma, que tem classes mas nunca prepara. Qual é a finalidade, então?

Vê-se na Comunidade Carisma que o ensino, começando pelas letras dos cânticos, tem a finalidade de responder aos anseios e necessidades humanas,122 projetando-o para a

120

BARRO, Jorge Henrique. Ações pastorais da igreja como Cidade. Londrina, PR: DESCOBERTA, 2000. p.82, 83

121

BARRO, Jorge Henrique. Ações pastorais da igreja como Cidade. Londrina, PR: DESCOBERTA, 2000. p.84 122

ação social e, consequentemente para a missão urbana. Como diz Barro:123 “A igreja deve participar ativamente e se envolve com a vida da cidade, não como espectadora, mas como protagonista e vanguardista”. Isso nos reporta à ponte da participação ativa. É aí que a comunidade tem espaço para promover suas ações concretas que irão repercutir e demonstrar os valores do Reino de Deus, citado pelo Pr. Rui Luiz124, quando falava sobre a base teológica da Igreja: “A igreja precisa servir o mundo e as pessoas”. No cântico ‘Novo Mandamento’ nota-se claramente esta idéia: “O amor de Deus é tão grande, (...) e Jesus viveu nesta terra para demonstrar esse imenso amor. Ele sempre faz o bem, libertando os cativos, curando os enfermos e doentes. E nos deu novo mandamento resumindo toda a lei. Para que o

conheçam através de nós. Ame a Deus de todo o coração e ame aos outros como a si mesmo (...) para que o mundo venha a crer neste amor que é dado hoje a vocês”. 125

Segundo Barro,126 servir o mundo e as pessoas faz-se necessário, bem como promover ações concretas. A Comunidade Carisma, começando pelo momento litúrgico tem ensinado e preparado seu povo para s ações concretas dentro do espaço que se chama missão urbana.

123

BARRO, Jorge Henrique. Ações pastorais da igreja como Cidade. Londrina, PR: DESCOBERTA, 2000. p.85

124

Conversa Informal com o Pr. Rui Luis Rodrigues, em 23-04-08, na sede da Comunidade Carisma, sito à Rua São Bento, 240. Quitaúna, Osasco. São Paulo, SP

Observação: BASE TEOLÓGICA:

Todo o trabalho social da Comunidade Carisma é o resultado da perspectiva da base teológica da mesma: a valorização do ser humano. Para a comunidade, um processo de conversão, na verdade é quando alguém consegue encontrar seu valor. Sendo assim, a obra social que existe nesta comunidade não começou como uma justificativa de fé por obras, mas como resultado da base teológica da mesma: a igreja precisa servir o mundo e as pessoas.

E, finalmente, falando da base teológica voltada à escatologia, o Pr. Rui Luis relata o seguinte: “Deus está mais preocupado com o presente do que com o futuro”. Ele quer transformar o presente para que possamos colher um bom futuro. O Novo Testamente fala dos “últimos dias” e não do “fim”, ou seja, a ênfase bíblica não dá resposta para o fim, mas para a busca de uma vida bem semeada no presente.

125

Grifo da pesquisadora 126

BARRO, Jorge Henrique. Ações pastorais da igreja como Cidade. Londrina, PR: DESCOBERTA, 2000. p.87