2. Material and methods
2.4 Field and laboratory methods
Segundo estudo e comentário de Frederico,94 quando Martinho Lutero aparece, como o pioneiro na caminhada de revalorização da participação popular no culto, “o canto sacro deveria ser expresso em uma linguagem compreensível para aqueles fiéis que não podiam entender a língua latina nem eram chamados a uma participação efetiva nas missas”. Ou seja, a linguagem musical deveria ser a mais adequada possível à comunidade, retratando as experiências cotidianas vividas pelo povo. Watts95 diz que os “hinos deveriam falar de assuntos rotineiros da vida humana, como o amor, a alegria, o medo, a tristeza, as paixões”.
Quis, portanto, trazer para a sua realidade algo extremamente valorizado por inúmeras gerações de cristãos, mas com novo significado acessível ao povo: Tenho estado há muito tempo convencido de que uma grande ocasião desse mal surge do assunto, das palavras aos quais confinamos nossos cantos. Alguns deles são quase opostos ao Espírito do evangelho; muitos são estranhos ao estado no Novo Testamento e consideravelmente diferentes das circunstâncias atuais dos cristãos.
94
FREDERICO. Denise Cordeiro de Souza. Cantos para o Culto cristão. São Leopoldo, RS: SINODAL, 2001. p.310
95
WATTS, Isaac. The Preface. p. 147 In: Id. The Works of the Late Reverend and Learned Issac Watts, D.D. [s.1.:s,n.], 1753. p. 147- 150, In: FREDERICO. Denise Cordeiro de Souza. Cantos para o Culto cristão. São Leopoldo, RS: SINODAL, 2001. p.311
Para alcançar esse objetivo, Watts96 lançou mão dos seguintes critérios:
- Os hinos deveriam reproduzir o evangelho tal qual o Novo Testamento apregoa;
- Deveriam ser compostos livremente, sem a rigidez da Reforma;
- Deveriam expressar os pensamentos e sentimentos das pessoas que fossem cantá-los;
- Ter versos e métrica da poesia comum, com a qual a população estava familiarizada.
Fazer uma análise conclusiva entre a letra dos cânticos e a atividade prática da comunidade requer uma breve recapitulação de como é a comunidade e o seu cantar. Para isso, alistaremos as atividades isoladamente, comparando-as com o teor das letras dos cânticos.
1. Na comunidade existem as reuniões de “Pequenos Grupos”, que são a maneira de as pessoas serem reconhecidas, aceitas e pastoreadas, sem se sentirem “mais um na multidão”. Quando os cânticos falam do sentido de vida, de um novo modo de viver e de segurança, na verdade estão indo ao encontro da base dessas reuniões caseiras. 2. A comunidade criou e desenvolveu o Instituto Educacional com o objetivo de
promover maior acesso ao ensino e, conseqüentemente, melhor oportunidade de vida futura. Esta estrutura social está de acordo com o que os cânticos falam sobre o libertador, salvação, o ser servido e a celebração de vitórias.
3. Quando a comunidade desenvolve a orientação aos novos casais, o resultado é uma família feliz, mais centrada, mais segura, com sentido de vida, sabendo servir e, portanto, que experimenta a vida em comum, a celebração a Deus e a experiência com o sagrado. Todos estes aspectos são mencionados nas letras dos cânticos.
96
WATTS, Isaac. The Preface. p. 147 In: Id. The Works of the Late Reverend and Learned Issac Watts, D.D. [s.1.:s,n.], 1753. p. 147- 150, In: FREDERICO. Denise Cordeiro de Souza. Cantos para o Culto cristão. São Leopoldo, RS: SINODAL, 2001 p.311
4. Os trabalhos sociais dentro da comunidade com famílias carentes, dão aos jovens a oportunidade de praticar alguma modalidade de esporte, de aprender trabalhos manuais, culinária, cursos técnicos e de receber orientação nos diversos segmentos, tais como: prevenção da AIDS, gravidez, doenças sexualmente transmissíveis e afins. Quando a comunidade canta sobre o Reino de Deus, um libertador, um novo tempo e a alegria, na verdade, está se cantando sobre a cura de um segmento da sociedade em sua linguagem característica e atual. Na linguagem contextualizada, muita música e interatividade são as ferramentas para envolver todo o pessoal jovem na busca e no despertar de uma transformação de vida. Das ruas, da falta de caráter, da malandragem e da criminalidade para uma vida em sociedade, com sentido, perspectivas e esperança de um futuro seguro: o evangelho do Reino. Amorese97 completa este pensamento com o seguinte questionamento:
Até que ponto esses hinos podem ajudar-nos a celebrar a vitória do Senhor Jesus Cristo sobre as drogas, a opressão do metrô lotado, a tentação do sexo livre, o descompromisso da amizade colorida, a facilidade do “trem da alegria”, a naturalidade do vídeo-cassete pornográfico ou a enganosa solução da clínica de abortos?
James Spann98 oferece resposta com critérios de como as pessoas podem lidar com a música popular dentro da igreja. São eles:
- não ter medo de mudanças; - examinar sempre as motivações;
- não emitir juízo sobre um determinado estilo antes de ter tido a experiência com ele;
- procurar saber se a música tem uma função legítima no culto cristão;
97
AMORESE, Rubem Martins. Celebração do Evangelho: compreendendo culto e liturgia. 2.ed. Viçosa, MG: ULTIMATO, 1995 p. 87, In: FREDERICO. Denise Cordeiro de Souza. Cantos para o Culto cristão. São Leopoldo, RS: SINODAL, 2001. p.324
98
SPANN, James. A Influência da música popular na música sacra contemporânea. Revista Teológica da ASTE. São Paulo, v.10 n.16, p.12-13, dez. 1977 In: FREDERICO. Denise Cordeiro de Souza. Cantos para o
- o sucesso com a música popular depende de uma liderança dinâmica; - ser criativo.
Neste sentido todos os cânticos aqui analisados são coerentes com esses critérios e, segundo conclusões de Frederico, 99 os cânticos “falam pelas pessoas”. A autora quer expressar que os hinos falam poeticamente de assuntos de interesse das pessoas que vão aos cultos, com as palavras que talvez as pessoas dificilmente conseguissem dizer:
Hinos bons é que devem ser cantados, independentemente se são antigos ou novos. Hinos bons são os que têm conteúdo teologicamente correto, de fácil compreensão e com palavras conhecidas e que a linha melódica e a estrutura harmônica natural do hino sejam agradáveis, adequadas ao gosto musical das pessoas. (...) Quando o hino é difícil de ser cantado, então ele não é bom.
Segundo Routley100 “os hinos são porta-vozes dos cristãos, porque, como as canções populares, dizem respeito a assuntos que mais interessam ao povo e falam por ele”:
(...) quando um hino num culto de adoração acena ao participante do culto em sua melhor forma e leva a esse participante a sentir e a dizer: “isso é o que eu queria dizer, mas estou grato a quem quer que seja que colocou as palavras na minha boca”, então ele [o hino] cumpriu seu papel.
“Uma igreja que não aborda temas da atualidade nos seus cantos está fadada a falar uma linguagem distante e diferente daquela que o povo entende”, diz Reutley.101
Um importante documento The Miwaukee Symposia for Church Composers: a Ten
Year Report (MSCC), de 1992,102 relata o seguinte:
99
FREDERICO. Denise Cordeiro de Souza. Cantos para o Culto cristão. São Leopoldo, RS: SINODAL, 2001. p.315
100
ROUTLEY, Eric. Christian Hymns Observed. New Jersey; PRESTIGE, 1983. p. 107. In: FREDERICO. Denise Cordeiro de Souza. Cantos para o Culto cristão. São Leopoldo, RS: SINODAL, 2001. p.316 101
ROUTLEY, Eric. Christian Hymns Observed. New Jersey; PRESTIGE, 1983. p. 107. In: FREDERICO. Denise Cordeiro de Souza. Cantos para o Culto cristão. São Leopoldo, RS: SINODAL, 2001. p.316 102
Artigo 10 do MSCC, In: ROUTLEY, Eric. Christian Hymns Observed. New Jersey; PRESTIGE, 1983. p. 107. In: FREDERICO. Denise Cordeiro de Souza. Cantos para o Culto cristão. São Leopoldo, RS: SINODAL, 2001. p.331 – Grifo da pesquisadora.
Uma teologia da música do ritual cristão é necessária se desejamos adaptar as formas musicais da música tradicional à liturgia renovada, [se desejamos] forjar novas formas e modelar nossa música ritual de maneira que ela fique apropriadamente ligada à liturgia. Tal teologia é fundamentada na convicção pastoral de que a música molda o relacionamento dos
crentes com Deus e com o próximo. Esses relacionamentos mais estimados serão fortalecidos quando nós entendermos de que forma a música serve como uma linguagem singular de fé.
Desta forma, conhecer os motivos pelos quais o povo congrega e avaliar suas necessidades; definir o perfil da comunidade e traçar a base teológica de acordo com o objetivo da comunidade; fundamentar os cânticos na teologia, podem ser considerados critérios que amoldam o relacionamento dos crentes com Deus e com o próximo. Se assim for, a Comunidade Carisma tem sido coerente com o que vive no âmbito pessoal, social e espiritual.
Missão urbana é um dos alvos da base teológica da Comunidade Carisma. Quando se fala de contexto urbano, estamos nos referindo à cultura – valores, idéias e sentimentos de um determinado povo. Barro103 diz que a cultura de um contexto urbano também “refere-se às classes sociais, à religião ou religiões. O contexto revela quais são as características que são próprias de uma determinada cidade”. A partir do momento que os cânticos atuam nas pessoas de forma individual e coletiva, levando-as a um resultado prático dentro da ação social, poderemos também pensar no contexto urbano. Alguns dos cânticos mencionados no capítulo 2 falam de áreas onde o coletivo é reforçado.
Sabe-se que um dos principais focos da base teológica da Comunidade Carisma é ser uma igreja extrovertida que não vive fechada dentro de si mesma, mas que serve à sua geração cumprindo o propósito pelo qual veio a existir. E o trabalho social da comunidade é o resultado da perspectiva teológica e está dentro do parâmetro doutrinário da mesma: a valorização do ser humano. Para a comunidade, um processo de conversão, na verdade, ocorre quando alguém consegue encontrar seu valor. Sendo assim, a obra social que existe nesta comunidade não começou como uma justificativa de fé por obras, mas como resultado da base
103
teológica da mesma: a igreja precisa servir o mundo e as pessoas, conforme relato do Pr. Rui Luis104. Quando se fala em alguém que encontrou seu valor, podemos, novamente, citar o cântico, ‘Salvação’, que mostra a condição humana caída e perdida, sentindo necessidade de respeito e valorização. “Distante, perdido, (...), cansado, ferido, incapaz de sentir amor. Precisava de libertação”. Portanto, a Comunidade Carisma, sendo uma igreja extrovertida, pode-se destacar por sua responsabilidade para com a missão urbana a partir da influência da sua teologia, as letras de seus cânticos e sua prática na ação social. Barro105 comenta que:
Uma comunidade relevante, no contexto urbano, é aquela cuja adoração expressa seu
compromisso com Deus não apenas no culto, mas essencialmente na vida. É também relevante
porque possui algo a oferecer e compartilhar: a verdade do evangelho do reino. Esta comunidade entende que a verificabilidade da verdade está em sua práxis, sendo uma comunidade para o próximo e para o seu contexto. Por isso, é conclamada a se envolver na sua vizinhança, através de pessoas que exercem seu sacerdócio como servas de Deus ao povo ao seu redor. Esta responsabilidade de servir é uma responsabilidade mútua e não apenas de uma pessoa, geralmente o pastor. É responsabilidade de todos, debaixo de uma liderança pastoral bíblica, visionária e facilitadora.
A expressão de adoração da Comunidade Carisma tem sido bastante relevante e, consequentemente, refletido na vida das pessoas, individual e coletivamente, de forma que muitos de seus membros têm exercido responsabilidades sociais. Através da valorização da pessoa como ser humano, o respeito demonstrado a ela e o conteúdo das letras dos cânticos, “a comunidade é a comunidade dos salvos e da esperança”, comenta Barro.106 É uma comunidade que leva uma parcela de esperança a um determinado grupo de pessoas que se sente desvalorizado perante a sociedade, sem muita esperança e sentido de vida. “É neste contexto que somos desafiados a ser uma comunidade da esperança, da possibilidade, da transformação, da vida, da graça e misericórdia, da compaixão e restauração”. É o que demonstram os cânticos: ‘Ação de Deus’, ‘Adoração’, ‘Atos 2’, ‘Atrai-me’, quando falam em
104
Todo o conteúdo da “Teologia da Comunidade Carisma” foi apresentado em conversa Informal com o Pr. Rui Luis Rodrigues, em 23-04-08, na sede da Comunidade Carisma, sito à Rua São Bento, 240. Quitaúna, Osasco. São Paulo, SP – Capítulo 1.5 p.20.
105
BARRO, Jorge Henrique. Ações pastorais da igreja como Cidade. Londrina, PR: DESCOBERTA, 2000. 106
BARRO, Jorge Henrique. Ações pastorais da igreja como Cidade. Londrina, PR: DESCOBERTA, 2000. p.56
transformação de vida, em resgate, em aprendizado por fé e uma nova vida. São cânticos que demonstram as alegrias de se estar vivendo um novo sentido de vida. Vida com propósito.
Interessante é que este desafio sai de dentro da comunidade ao encontro do urbano, do mundo. Percebe-se claramente que quando processo de valorização do ser humano começa dentro da própria comunidade e mais pessoas vão sendo atingidas pela sua teologia, liturgia e expressão de adoração, mais o envolvimento com a prática da ação social poderá vir a tornar- se abrangente.
3.3 Liturgia e teologia da Comunidade Carisma e envolvimento com a missão