1. Introduction
1.6 Problem statement
Segundo informações colhidas e registradas nos tópicos anteriores, durante o culto dentro da Comunidade Carisma o louvor tem a finalidade de preparar as pessoas para receber o que o pastor pretende pregar. Conforme Floristan76 “A assembléia litúrgica faz a Bíblia.(...) Uma vez convocada, a assembléia litúrgica evoca a palavra de Deus e invoca a petição e a ação de graça”.
76
Sabemos que a base teológica da mesma é voltada para a valorização do ser humano. Amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Normalmente, a prédica da Comunidade Carisma está voltada ao amor de Deus para com o homem, ao valor que Deus dá ao seu relacionamento com o homem. Se não é diretamente neste sentido, a fala passa a trazer temas atuais relacionados às dificuldades do cotidiano, às lutas individuais e coletivas, sempre apontando para a obra de Cristo e o suporte que esta obra pode ter sobre cada vida, individual e, também sobre a coletividade. Em sua carta a Ludwig Senfl, Lutero reiterou o entendimento de que a música deveria ser tida como ímpar entre as artes para a proclamação do evangelho: 77
Esta é a razão pela qual os profetas não fizeram uso de nenhuma arte com exceção da música; quando estabeleceram sua teologia não o fizeram como geometria, nem como aritmética tampouco como astronomia, mas como música, de forma que consideraram teologia e música em estrita união e proclamaram a verdade por meio de Salmos e cânticos.
Sabemos que o valor da música e da adoração é importante no sentido de conectar o homem com Deus. “Os cristãos buscam a comunicação com Deus, comunicação de Deus para com eles, comunicação entre eles e comunicação entre eles e os incrédulos”, comenta Cunha.78 Falando de música, facilmente conseguimos relacioná-la com as sensações e a energia que ela emana, principalmente no lugar de proeminência que ela tem durante os cultos religiosos. Tame muito acertadamente escreve sobre esta proeminência: 79
A música libera, no mundo material, uma energia fundamental, superfísica, que vem de fora, do mundo da experiência cotidiana (...)capaz de manter a civilização em consonância com os céus. (...) A música desempenha um papel de mediação entre o céu e a terra – como um canal de comunicação entre o homem e Deus, entre Deus e o homem.
77
SCHALK, Carl F. Lutero e a música. Paradigmas de louvor. São Leopoldo, RS: SINODAL, 2006. p. 48 78
CUNHA, Magali do Nascimento. A Explosão Gospel. Rio de Janeiro, RJ: MAUAD e MYSTERIUM, 2007. p.88
79
Neste sentido, os aspectos mais valorizados pelos cânticos compostos por integrantes da própria comunidade têm expressões individuais e coletivas concomitantemente. Se a música tem o poder de exercer uma forte influência na experiência cotidiana e é capaz de manter uma civilização em conecção com os céus, imagine o poder que tem quando cantada dentro de uma comunidade formada por pessoas que buscam os mesmos ideais. Reforçam o poder de Deus e o que acontece quando uma pessoa ou uma comunidade age através desses valores fortemente endossados pelo momento “energético” da coletividade cantando, todos a uma só voz em um único momento. Braga80 complementa:
Reverência, adoração, teologia ainda que através de palavras simples e singelas, mas nobres e elevadas em sua singeleza, foi a nota dos cânticos mais ao jeito do povo comum que LUTERO e os irmãos WESLEY – aquele que na vivacidade dos “cantos de júbilo” que compôs para as crianças, e este no intimismo e naturalidade de expressões individuais do adorador – introduziram na propagação da Reforma e nos movimentos avivacionistas de seu tempo. Cantando diante de Deus para adorar a Deus.
Mesmo que expressões de adoração a Deus se manifestem individualmente, elas são cantadas dentro da coletividade.
Se a teologia da comunidade parte do princípio da valorização do ser humano, esta valorização passa a ser, em primeiro plano, individual. Mas dentro de um culto, a experiência passa a ser coletiva, mesmo que a letra fale do individual. A música dentro deste contexto vivido e pregado pela Comunidade Carisma passa a ser a expressão de um estilo de vida religioso, individual ou coletivo.
Realçando o aspecto social da música dentro de uma comunidade, podemos citar o que Cunha escreveu: 81
80
BRAGA, Henriqueta Rosa Fernandes Braga. Salmos e hinos. Sua origem e desenvolvimento. São José dos Campos, SP: CLC, 1983. p.72
81
CUNHA, Magali do Nascimento. A Explosão Gospel. Rio de Janeiro, RJ: MAUAD e MYSTERIUM, 2007.p.88
A função social da música no cristianismo foi objeto de estudos de Hegel, que concluiu que ela “atua sobre” a sensibilidade da congregação reunida, não para liberar os espíritos para sentimentos, mas para produzir uma emoção coletiva uniforme. A música religiosa cristã visa a criação de um estado de espírito definido, para que os adeptos atuem em consonância em esse estado de espírito. Nesse caso, ela procura produzir sentimentos e não expressá-los. Aqui é possível afirmar que o “conteúdo” desse tipo de música está não apenas nela própria, mas fora: é a síntese dos sons que se movem com os ouvintes/cantantes que se movem. Igual sentido pode ser encontrado na música composta para estimular a dança e as marchas militares. A natureza de cada uma delas é socialmente determinada.
Quando, na comunidade se fala sobre valorização do ser humano e o amar a Deus e ao próximo, a função social da música aqui passa a ser a de estimular e levar a comunidade à não somente a pensar, mas a tomar uma atitude diante do que a letra do cântico está transmitindo. É uma incitação a não-alienação. A letra do cântico é realçada e reafirmada, posteriormente, pela palavra pregada. Cunha reafirma este pensamento ao escrever: 82
Estudos no campo da sociologia e da psicologia indicam que a música tem influência sobre indivíduos e seus corpos, no plano físico e das emoções, e no grupo social. Acordes, ritmos,
tonalidades, intensidades têm efeito direto sobre células e órgãos e indireto sobre as emoções, que, por sua vez, influem em numerosos processos corporais. As pessoas se interessam em ouvir música, em primeiro lugar, porque ela as faz sentir alguma coisa. Este sentir está diretamente relacionado não só ao ouvir, mas também ao compor e ao executar obra musical. A natureza de uma música está vinculada ao estado mental e emocional do compositor e/ou executante. A essência deste estado nos penetra,
tendendo a moldar e aperfeiçoar nossa consciência em harmonia consigo mesma. No plano
coletivo, dos grupos sociais, “ao codificar esta ou aquela visão do mundo, a música, até certo ponto, deve estar meramente reagindo à cultura dentro da qual já se encontra”. De acordo com essa corrente de pensamento, deve-se, portanto, afirmar que a música é um fenômeno de natureza social.
Se a música tem influência sobre indivíduos, certamente, o que se canta na comunidade também tem a mesma força influenciadora, tanto individual quanto coletivamente. A comunidade canta a sua forma de louvar e adorar a Deus, dentro de sua teologia. Quando a natureza da música é adicionada a uma letra que tráz sentido, a sua essência penetra no ser humano, levantando um novo pensar e uma reflexão. Schalk83 enfatiza que, Lutero, ao desenvolver seus estudos e comentários sobre o louvor, na verdade ele estava abrindo caminho para que, nos tempos de hoje, as igrejas e comunidades tivessem a liberdade de expressarem sua própria teologia e, conseqüentemente, reportarem-se a uma prática social.
82
CUNHA, Magali do Nascimento. A Explosão Gospel. Rio de Janeiro, RJ: MAUAD e MYSTERIUM, 2007.p.88 – Grifo da pesquisadora.
83
Ao enfatizar a música como criação divina, e não como criação humana, e como dádiva de Deus às pessoas para que a usem em seu louvor e adoração, Lutero preparou o cenário para que compositores, comunidades, coros e instrumentistas fossem livres para desenvolver seus talentos e habilidades até o mais alto grau possível. A música que se desenvolveu na tradição luterana é evidencia eloqüente de que a igreja, juntamente com seus músicos, reconheceu o paradigma de Lutero, ou seja, a música como criação e dádiva de Deus, um elemento preponderante para alicerçar o desenvolvimento de uma rica cultura musical na qual podem viver, trabalhar, tocar e louvar o seu Deus.
Neste sentido, a liberdade para o desenvolvimento de talentos e habilidades pode estar restringida aos aspectos da música em si, como as composições, arranjos e performances. Mas por outro lado, por que não poderia estar sendo direcionada aos talentos e habilidades para com a obra social?
Até o momento, falamos e comentamos toda uma análise dos cânticos entoados pela Comunidade Carisma, fazendo uma associação com a obra social que acontece dentro do espaço da própria comunidade. Realçamos também até que ponto estes cânticos falam e expressam uma experiência e busca individual e coletiva.
Entrando mais a fundo dentro da base teológica da Comunidade Carisma, sabe-se que o objetivo é que, gradativamente, a obra social seja estendida para uma missão urbana, no sentido de conquistar e atuar na vizinhança da comunidade. Quando falamos em obra social, na verdade, ela já poderia estar sendo entendida como missão urbana, pois seres humanos estão sendo beneficiados com o trabalho que já acontece dentro da comunidade.
Nesta outra etapa ainda estaremos trabalhando com os mesmos referenciais teóricos: Barro e Frederico, apenas adicionando alguns comentários feitos por outros autores, tais como: Kirst, Kivitz e outros.