Chapter 9 contains a general discussion and conclusions
6. Analysis of post-fire suspended sediment sources by using colour parameters
6.3. Materials and methods
6.3.2. Soil, ash and sediment sampling
O segundo período que Apel considera na carreira filosófica de Peirce inicia- se com a Berkeley Review,45uma recensão à edição crítica das obras do bispo
britânico, publicada em 1871, ocupa o tempo da fundação e debates protago- nizados no Clube Metafísico, e termina em 1884, quando Peirce é despedido da universidade de John Hopkins, e a sua vida conhece uma reviravolta trágica em direcção a condições materiais de existência cada vez mais difíceis.
45. Fraser’s The Works of George Berkeley, in PEIRCE, Charles Sanders, Writings of Char-
les Sanders Peirce: A Chronological Edition, ed. FISCH, Max, et al., Bloomington, Indiana University Press, vol. 2, pp. 462-489.
As reuniões do Clube Metafísico ter-se-ão iniciado em meados de 1871, depois do retorno de Peirce de uma viagem que fizera à Europa. Peirce terá passado, entre 71 e 74, uma porção de tempo significativa com os seus amigos que constituíam o Clube Metafísico, e que eram Chauncey Wright, William James, Nicholas St. John Green, Joseph Warner, Oliver Wendell Holmes Jr., John Fiske e Francis Abbot.46 As principais actividades do clube eram ler e
discutir questões filosóficas, e mais tarde, já a posteriori, Peirce afirmará que o Pragmatismo nasceu no seio do clube, fruto das discussões aí travadas.
Defende Apel que o primeiro esboço da máxima pragmatista é já clara- mente perceptível na Berkeley Review, texto datado de 1871. O princípio surge aí formulado enquanto alternativa ao princípio de verificação de Ber- keley como critério de proposições com significado. Esse critério supõe que tudo o que não pode ser concebido, não existe, e deverá, diz Peirce, ser usado com “extrema cautela”.47 Entre as razões pelas quais Peirce o critica, conta-
se o facto de dificultar a construção de teorias em matemática. Formula então uma regra que lhe parece “melhor” para evitar os “enganos” da linguagem: “será que as coisas preenchem a mesma função prática? Então deixem-nas ser significadas pela mesma palavra. Não preenchem? Então distingam-nas”.48
É muito claro como neste passo da Berkeley Review Peirce prefigura a
46. Segue-se aqui a membership proposta por Joseph Brent na sua biografia de Peirce. É im-
portante ainda notar que, apesar das declarações do próprio Peirce, a palavra Pragmatismo não aparece em nenhum dos escritos desta época, nem nos textos que James mais tarde apontará como o “certificado de nascimento” do movimento. A questão provou ser embaraçosa para scholars– houve até quem defendesse que o clube era uma criação retrospectiva de Peirce e James – e para o próprio Peirce, que no manuscrito 325, citado por Josepph Brent, se refere, retrospectivamente, da seguinte forma ao assunto: “After my return [da Europa] in March 1871 a knot of us (...) used frequently to meet to discuss fundamental questions. Green was espe- cially impressed with the doctrine of Bain, and impressed the rest of us with them; and finally the writer of this brought forward what he called the principle of pragmatism. Several years later, this was set forth in two articles printed in the Popular Science Monthly [tratam-se de The Fixation of Belief e How to Make our Ideas Clear], and subsequently in the Revue Philo- sophique.”, citado por BRENT, Joseph, Charles Sanders Peirce, A Life, sd, Indiana University
Press, Bloomington, p. 85.
47. Fraser’s The Works of George Berkeley, in PEIRCE, Charles Sanders, Writings of Char-
les Sanders Peirce: A Chronological Edition, ed. FISCH, Max, et al., Bloomington, Indiana University Press, vol. 2, p. 483.
48. “A better rule to avoid the deceits of language is this: Do things fulfil the same function
practically? Then let them be signified by the same word. Do they not? Then, let them be distinguished”, idem.
formulação da máxima pragmatista, e Apel advoga que, logo depois de ter es- crito este texto, a inventa então muito rapidamente, reformulando nessa altura toda a sua teoria do conhecimento pré-pragmática à luz da nova descoberta, de onde resultará uma nova teoria da investigação. Apel está além disso conven- cido de que nesta fase Peirce não tem qualquer intenção de transformar o Prag- matismo numa doutrina filosófica de âmbito mais vasto e “auto-suficiente”. Este surge e funciona apenas como princípio metodológico integrado na sua lógica da ciência ou teoria da inquirição.
Em The Fixation of Belief,49 de 1877, Peirce analisa os quatro métodos
pelos quais os homens fixam as crenças que lhe estabilizam o comportamento e orientam a acção: o método da tenacidade, o da autoridade, o método a priorie o método científico. Apesar de nenhum destes métodos ser totalmente desprovido de vantagens, é o último, o método científico, que suplanta todos os outros, e isto porque é o único que faz convergir a fixação da crença e a estabilização das acções com a busca da verdade.
Depois de analisar as outras três formas de estabelecer a crença, Peirce introduz o método de investigação em ciência como aquele que maiores van- tagens apresenta para cumprir a tarefa em apreço. Este é o método que acalma a irritação da dúvida com base numa “permanência externa”50 e em algo no
qual o pensamento do indivíduo não tem efeito. Essa “permanência externa”, e isto o distingue dos outros métodos, deve assim ser pública, “algo que afecte ou possa afectar todo o homem”51. Por conseguinte, este método da ciência é
objectivo, e será tal que “a conclusão última de todo o homem seja a mesma” pois “podemos atingir, através do raciocínio, como as coisas realmente são, e qualquer homem, se tiver experiência suficiente e raciocinar o suficiente sobre ela, será conduzido à única conclusão verdadeira”52.
Peirce conjugará esta tese com a visão pragmatista de que a opinião ver- dadeira é aquela que sacia a irritação da dúvida, e que, uma vez encontrada,
49. The Fixation of Belief in PEIRCE, Charles Sanders, Writings of Charles Sanders Peirce:
A Chronological Edition, ed. FISCH, Max, et al., Bloomington, Indiana University Press, vol. 3, pp. 242-256.
50. Idem, p. 253. 51. Ibidem.
52. “... it must be such that the ultimate conclusion of every man shall be the same. . . we can
ascertain by reasoning how things really are, and any man, if he have sufficient experience and reason enough about it, will be led to the one true conclusion”, idem, p. 254.
satisfaz de facto esse estado de inquietação – é ocioso pretender continuar a duvidar quando se atingiu uma certeza, independentemente da sua verdade ou falsidade.53
Claro que estas duas posições só podem ser conjugadas mercê do falibi- lismo de Peirce – a opinião verdadeira nunca pode ser identificada com toda a certeza, embora in the long run o homem deva necessariamente atingi-la. Esgotados os critérios da experiência numa dada questão, a crença que então se atinge é praticamente indubitável e pretender impor-lhe uma dúvida mera- mente formal ou metodológica, à maneira cartesiana, não chega para abalar ou alterar essa crença. Do que o coração não duvida, nem vale a pena suspeitar.
Apel considera que, neste texto, as duas realizações fundamentais de Peirce são, por um lado, obter a convergência entre a sua teoria da realidade (o real é o produto da actividade mental humana, não a sua causa), que opera ao nível da terceiridade; e a busca de um método experimental que determine o pensamento através dos dados da experiência, e que opera ao nível da se- cundidade. Por outro lado, e não menos importante, The Fixation of Belief consegue estabelecer a superioridade do método da ciência relativamente aos métodos pré-científicos, logrando fornecer uma explicação geral da função da crença e do hábito na vida humana.
A par com A Fixação da Crença, How to Make our Ideas Clear54costuma
ser considerado o segundo certificado de nascimento do Pragmatismo. Esse ensaio, diz Apel, serve essencialmente para mostrar como o critério experi- mental de verificação científica pode ser tomado em conta, mesmo no método da definição da teoria da realidade. Assim, Como Tornar as Nossas Ideias Clarasretoma o objectivo do ensaio anterior, que era explanar e credibilizar o novo método científico contra o pano de fundo dos métodos obsoletos, de que é exemplo o método tradicional da definição a priori, pela discussão do qual, aliás, se inicia o estudo.
53. “Hence, the sole object of inquiry is settlement of opinion. We may fancy that this is
not enough for us, and that we seek, not merely an opinion, but a true opinion. But put this fancy to the test, and it proves groundless; for as soon as a firm belief is reached we are entirely satisfied, whether the belief be true or false”, idem, p. 248.
54. How to Make Our Ideas Clear, in PEIRCE, Charles Sanders, Writings of Charles Sanders
Peirce: A Chronological Edition, ed. FISCH, Max, et al., Bloomington, Indiana University Press, vol. 3, pp. 257-276; e ainda a tradução desse texto elaborada pelo Professor Doutor António Fidalgo, Como Tornar as Nossas Ideias Claras, e disponível em www.bocc.ubi.pt
Neste trabalho Peirce clarifica, crê Apel, o espírito da formulação da má- xima pragmatista que efectuara na Berkeley Review, afastando-o decidida- mente das versões do pragmatismo popular e das interpretações behavioris- tas que poderiam ser assacadas à afirmação de que “diferentes crenças são distinguidas pelos diferentes modos de acção a que dão origem”. De facto, defende Apel, nada está mais longe do espírito de Peirce ao introduzir a má- xima pragmática para a clarificação do sentido que substituir o entendimento do significado das ideias pela observação ou descrição das suas consequências factuais.
Na verdade, em sua opinião, a máxima pragmatista como método de com- preensão semântica repousa sobre um círculo lógico-hermenêutico e opera de forma inversa. Os modos de acção que distinguem os tipos de crença é que se seguem do correcto entendimento destas, por meio de uma interpre- tação efectuada através de inferência. Objecção possível a isto, diz Apel, é que se a máxima pragmática para o entendimento do significado já pressu- põe o correcto entendimento do significado, então não pode procurar alcançar uma clarificação do significado com a ajuda do comportamento que se segue a uma crença. O pragmatismo semântico, como método para a compreensão, repousaria num círculo lógico. A resposta de Apel a esta objecção é que “este argumento goza de larga popularidade, mas repousa, no presente caso, numa confusão entre um legítimo circulus fructuosus na lógica sintética e um cir- culus vitiosus na lógica dedutiva. De facto, a descoberta de Peirce consiste precisamente em reconhecer o facto de que a compreensão do significado dos conceitos ou proposições pode ser aprofundada, de uma forma fundamental, pela ideia das consequências práticas que “resultariam” de uma compreensão correcta. Esta ideia é adquirida apenas através de experiências-pensadas, não observações empíricas. Do meu ponto de vista, temos aqui uma forma de cír- culo hermenêutico, tal como é descrito por Dilthey, ou, como diz Hegel, de mediação dialéctica, que assimilou o novo elemento da mediação em curso da compreensão do significado através da praxis futura”.55
55. “This argument enjoys a wide popularity, but rests in the present case (...) upon a con-
fusion between a legitimate circulus fructuosus in synthetic logic and a circulus vitiosus in deductive logic, which is of course to be avoided. In fact, Peirce’s discovery consists preci- sely in recognizing the fact that understanding of the meaning of concepts or sentences can be deepened in a fundamental way by the idea of the practical consequences (including possible empirical observations) that “would” result from a correct understanding. This idea is acqui-
Este é, em traços gerais, o esboço da visão que Apel tem do pragmatismo – mediação dialéctica ou pré-compreensão hermenêutica, mas nunca behavi- orismo – tal como será proposto por Peirce no Clube Metafísico. Ele nasce da tensão entre o realismo crítico do significado, que é um tipo de kantismo transformado, e a tradição anglo-saxónica. Apel considera que esta segunda fase do percurso intelectual de Peirce termina com o surgimento, no seio do Clube Metafísico, da sua versão do Pragmatismo, que atingirá aí o seu ponto mais elevado.