Chapter 9 contains a general discussion and conclusions
6. Analysis of post-fire suspended sediment sources by using colour parameters
6.3. Materials and methods
6.5.1. On the use of colour to trace suspended sediment sources in burned Mediterranean catchments
A questão e a defesa das potencialidade auto-reflexivas humanas, erigida à dignidade de método filosófico por excelência, aliada à alegada circularidade do tipo de “fundamentação fundamental”17proposto por Apel vai ser enfren-
tada quando este responde aos seus críticos, nomeadamente Popper e Hans Albert. O argumento destes é que o tipo de fundamentação apeleana é circu-
mativa e, ao mesmo tempo, uma ética normativa, porque “uma pessoa sozinha” não pode prati- car ciência e reduzir os outros seres humanos a objectos de “descrição” e “explicação”, com o auxílio da sua lógica privada. Acredito que aquilo que finalmente torna possível a transição da lógica (normativa) para a ética (normativa) é a ultrapassagem do solipsismo metodológico que foi iniciada no trabalho de Lorenzen, como o fora no de Peirce e no do 2o
Wittgenstein”; “In short, the normative logic of science (scientistics) presupposes normative hermeneutics and, at the same time, normative ethics, because “one person alone” cannot practise science and re- duce his fellow human beings to mere objects of “description” and “explanation” with the aid of a private logic. I believe that what ultimately makes possible the transition from (normative) logic to (normative) ethics is the overcoming of “methodological solipsism” that is initiated in Lorenzen’s work, as it was in Peirce’s and de later Wittgenstein’s”, in APEL, Karl-Otto, Towards a Transformation of Philosophy, 1980, Routledge & Kegan Paul, London, p. 260.
16. “...il est plutôt dés toujours [o sujeito], en raison de la structure médiatisée par le lan-
gage, de la pensée, et de ses prétentions à la validité intersubjectives : sens, vérité, authenticité et justesse normative – le sujet d’une argumentation lié au dialogue. En tant que tel, il est tou- jours (même quand il pense dans une solitude effective), membre d’une communauté réele de communication historique, avec laquelle il doit depuis toujours partager une langue concréte et une précompréhension des problémes, ainsi qu’un accord minimal sur les certitudes paradig- matiques et les prémisses acceptées de l’argumentation ; et par lá il est simultanément membre d’une communauté idéale de communication, presupposé comme possible et inévitablement anticipée sur un mode contrefactuel”, in APEL, Karl-Otto, Éthique de la Discussion, 1994, Humanités, Les Éditions du CERF, Paris, p. 39.
17. “Fundamental grounding” no original. Apel utiliza também, com sentido equivalente, a
lar, pois que a tese de que a lógica, por via da hermenêutica ou da interpretação sígnica, pressupõe a ética, não leva em conta que qualquer fundamentação já pressupõe a validade da lógica. Consequentemente, uma fundamentação raci- onal quer da ética quer da lógica parece de todo impossível.
A resposta de Apel a esta objecção, pertinente atendendo aos pressupos- tos em que é colocada, é um refinamento semântico daquilo que entende por “fundamentação fundamental”. Esta não deve ser interpretada como “uma de- dução no quadro de um sistema axiomático” pois que a sê-lo “condenaria a nossa tentativa de fundamentar a ética”.18
A tese de Apel a este respeito é que quando se estabelece que algo não pode ser fundado, porque é pré-condição para a possibilidade de qualquer fundação, então está-se a pôr em prática um tipo de “reflexão transcendental” que é a única resposta possível a esta questão da fundação, e que acaba por cumpri-la, embora não no quadro de uma formalização axiomatizante, pre- conceito que é ainda uma contaminação cientista. “Uma fundação reflexiva última consiste em reenviar aquele que afirma qualquer coisa ou a põe em questão àquilo que ele não pode – sob pena de autocontradição performativa – pôr em questão ou contestar, porque deve tomá-lo em consideração no acto de argumentação ele próprio, qualquer que seja a posição que tome. É neste sentido expressamente metodológico que a argumentação (...) é inultrapassá- vel por toda a pessoa que argumenta e por toda a pessoa que pensa. E aquilo que é inultrapassável pela argumentação, isso é fundado de maneira última, no sentido pragmático-transcendental”.19
Pormenorizemos. Apel defende que o fracasso em constituir a “reflexão transcendental” como método especificamente filosófico e dotado de validade intrínseca se deve a uma redução diádica induzida pela filosofia analítica, e à abstracção da dimensão pragmática da discussão. Esta perspectiva natural- mente redutora encara o problema de uma “fundamentação última” em termos de pressuposições sintáctico-semânticas das proposições. Neste quadro, o su- jeito de discussão é elidido e “como resultado, não há possibilidade de reflexão
18. In APEL, Karl-Otto, Towards a Transformation of Philosophy, 1980, Routledge & Kegan
Paul, London, p. 263. “. . . This argument would indeed condemn our attempt at a “grounding of ethics” to failure if one had to interpret “fundamental grounding” in philosophy as deduction within the framework of an axiomatic system”.
19. APEL, Karl-Otto, Éthique de la Discussion, 1994, Humanités, Les Éditions du CERF,
sobre as pré-condições para a possibilidade de discussão que sempre pressu- pomos. Antes, existe a infinita hierarquia de metalinguagens, metateorias... nas quais a competência reflexiva do ser humano como sujeito de discussão se torna visível e ao mesmo tempo se oculta”.20
Apel sempre se manifestou contra a apreensão do tipo de fundamenta- ção racional que defende sob a forma de um sistema formal e axiomático- dedutivo. Se a sua fundação fosse desse tipo, teria falhado redondamente, como de resto o provam os resultados das metamatemáticas, nomeadamente ao nível das insuficiências sintácticas da possibilidade de representação formal de um sistema, os teoremas de Gödel e Church.21 Ao serem descobertas limi-
tações à possibilidade de formalização, e consequentemente, impedimentos a uma fundamentação final, a “competência reflexiva” do homem, que se trata de reabilitar, “oculta-se na medida em que não se encontra face a face con-
20. “As a result, there is no possibility of reflection upon the preconditions for the possibility
of argumentation that we always presuppose. Rather, there is the infinite hierarchy of meta- languages, meta-theories, etc, in which the reflective competence of the human being as the subject of argumentation both makes itself apparent and conceals itself”, in APEL, Karl-Otto, Towards a Transformation of Philosophy, 1980, Routledge & Kegan Paul, London, p. 263.
21. Sobre os limites sintácticos e semânticos das possibilidades do método de formalização
e os teoremas de Gödel, Church e Tarsky, veja-se o excelente “Os limites da formalização”, de Jean Ladriére, in AA.VV, Lógica e Conhecimento Científico, 1980, dir. Jean Piaget, col. Ponte, Livraria Civilização, Porto, pp 265-281. O teorema de Gödel, de 1931, é especialmente importante por ter sido o primeiro resultado a apontar para a existência de limitações sintácti- cas à formalização, envolvendo a maioria dos sistemas que poderiam ser considerados (desde que suficientemente amplos) numa recursividade ilimitada. Numa aproximação intuitiva à te- oria, podemos dizer que o resultado mais importante que avança é a existência de proposições indecidíveis no interior de tais sistemas, isto é, que não podem ser ditas verdadeiras ou falsas utilizando exclusivamente recursos do próprio sistema. Torna-se assim perfeitamente visível a existência de uma inadequação fundamental entre o sistema formal e os enunciados que ele representa – o sistema não consegue mapear perfeitamente a realidade que diz representar. Outra consequência importante do teorema é a impossibilidade de representar, no interior do próprio sistema, simultaneamente a sua completude e não contradição. Para demonstrar a não- contradição é necessário recorrer a meios de prova estranhos ao sistema; seria necessário criar um meta-sistema que tenha por objecto, e prove, a não contradição do que lhe é inferior. Isto, é claro, envolve os sistemas formais numa recursividade virtualmente infinita, já que provar consistência e completude exige sempre um sistema estranho ou meta-sistema. Está bem de ver que se a fundação intentada por Apel fosse deste tipo axiomático-dedutivo – hipótese que ele rejeita liminarmente – os resultados de Gödel e os teoremas de limitação se lhe aplicariam, e a propalada fundação seria de imediato inquinada.
sigo própria”,22 contudo, tal competência, “que é ignorada a priori ao nível
dos sistemas sintáctico-semânticos”23é precisamente aquilo que torna possí-
vel um objecto matemático como o teorema de Gödel. Este é a materialização do potencial e capacidade de auto-reflexão dos sujeitos. Assim, os teoremas de limitação, ao mesmo tempo que negam a capacidade dos sistemas formais representarem o real, constituem, da perspectiva de Apel, uma eloquente de- monstração da existência de possibilidades que ultrapassam essa limitação, a capacidade de reflexão e contemplação transcendental humanas, cujo valor heurístico e metodológico deseja reabilitar, até ao ponto de nela poder fundar uma Pragmática Transcendental da comunicação que seja o esqueleto da sua ética do discurso.24 Este tipo de fundação pragmático-transcendental, o mé-
todo transcendental-reflexivo de fundação última, não considera, obviamente, fundação como dedução de objectos a partir de outros que lhe são anteriores. Mais, esta fundação, que é o método propriamente filosófico, surge como al- ternativa à axiomático-dedutiva, e o seu papel é reconhecer, por reflexão, as pressuposições pragmático-transcendentais da argumentação.25
22. APEL, Karl-Otto, Towards a Transformation of Philosophy, 1980, Routledge & Kegan
Paul, London, p. 264.
23. Idem.
24. “Por outras palavras, é precisamente quando se estabelece que as pré-condições subjec-
tivas para a possibilidade de argumentação não são objectificáveis num modelo sintáctico- semântico de argumentação, que o conhecimento auto-reflexivo do sujeito pragmático- transcendental de argumentação é expresso”. “In other words, it is precisely when one es- tablishes that the subjective preconditions for the possibility of argumentation are not objecti- fiable in a syntactic-semantic model of argumentation that the self-reflective knowledge of the transcendental-pragmatic subject of argumentation is expressed”, idem.
25“Il est clair que nous aussi nous comprenons cette forme de fondation ultime comme une
alternative à la déduction des normes fondamentales de l’éthique à partir d’un fait quelconque : il ne s’agit pas d’indiquer un fait dans le monde à partir duquel on déduirait, par des opérations logiques objectivables, quelque chose d’autre – une norme fondamentale – mais de recourir réflexivement à la reconnaissance depuis toujours effectuée des normes fondamentales en tant que telles”, APEL, Karl-Otto, Éthique de la Discussion, 1994, Humanités, Les Éditions du CERF, Paris, p. 50.