Chapter 9 contains a general discussion and conclusions
4.3. Material and Methods
4.5.1. Landscape response to wildfire
Apel quer construir a Transformação da Filosofia8sobre o colapso histórico
do Positivismo Lógico, que critica, instituindo o que considera ser o terceiro paradigma de Filosofia Primeira – o semiótico-transcendental9, do qual são
parte integrante uma hermenêutica e uma pragmática transcendentais. Nesta busca por um novo paradigma de Filosofia Primeira reexaminam-se os con- tributos da filosofia analítica e da hermenêutica, mas Peirce será fundamental como fonte de inspiração10. A sua noção de Comunidade de Investigado-
res (inquiry) revelar-se-á extraordinariamente profícua para a fundamentação transcendental da ética, que a decalca na Comunidade Ideal de Comunicação, princípio regulador que a comunidade real de homens concretos tomará como modelo, tentando, quanto possível, tornar menor a intransponível distância entre as duas.
Apel tem o condão de fazer da sua filosofia o ponto de convergência dos
8. Cf. APEL, Karl-Otto, Towards a Transformation of Philosophy, 1980, Routledge &
Kegan Paul, London, c Suhrkamp Verlag, Frankfurt am Main, 1972-73.
9. “For I think that, precisely in respect of the methodological role, the paradigm of First
Philosophy has changed in modern times, and again in the twentieth century. This does not mean that in modern times, or in the twentieth century, there is no longer ontology or even ontological metaphysics, but it does mean that in modern times, say from Descartes to Husserl, the paradigm of First Philosophy has been taken over by philosophy of consciousness, espe- cially of consciousness as the trascendental subject of knowledge in the Kantian sense; and in the twentieth century, the methodological paradigm of First Philosophy has come to be taken over by transcendental semiotics, including transcendental hermeneutics and transcendental pragmatics of language”, in APEL, Karl-Otto, “Transcendental Semiotics and the Paradigms of First Philosophy”, From a transcendental-semiotic point of view, ed. PAPASTEPHANOU, Marianna, 1998, Manchester University Press, Manchester, UK.
10. “... some of my philosophical works, published in English in the meantime, were essen-
tialy inspired by Peirce studies. . . the Peircean conception of the ideal, unlimited interpretative and discoursive community has also become fruitful for me as a heuristic point of view for the grounding of a communication, that is, discourse ethics”, e “. . . Peirce finally became important for me as an ally in the systematic undertaking of a ‘transformation of (transcendental) philo- sophy”’, in APEL, Karl-Otto, Charles Sanders Peirce — from Pragmatism to Pragmaticism, 1995, Humanities Press, New Jersey, Introduction to the paperback edition, e p. IX.
movimentos intelectuais mais importantes do século que terminou, estabele- cendo conscientemente o seu exercício em diálogo com os seus pares e com os que o precederam. Assim, além de lhe caber o mérito de ter introduzido a filosofia de Peirce na Europa, em meados da década de 60, Apel foi indubi- tavelmente o primeiro pensador a tentar extrair dela uma ética, uma ética da comunicação - projecto no qual foi seguido por Habermas - e fê-lo recorrendo à sua peculiar leitura da transformação da filosofia kantiana efectuada por Peirce, reivindicando como descoberta maior do filósofo americano a subs- tituição da síntese transcendental da apercepção de Kant – que apresentava problemas de muito difícil resolução – pela comunidade ideal de investigado- res que, in the long run, pode almejar a verdade.
Como se chegou até aqui? Desde o início da década de 70 que o pro- grama de Apel de uma Transformação da Filosofia11 tem evoluído em torno
das noções de uma hermenêutica e de uma pragmática transcendentais da lin- guagem, a primeira uma reconstrução que tem como ponto de partida histórico a hermenêutica heideggeriana, a última de inspiração peirceana. A aproxima- ção à epistemologia pragmaticista de Peirce é uma tentativa de ultrapassar as aporias em que o kantismo deixara o panorama filosófico ocidental e, especial- mente, a incapacidade do paradigma cientista-positivista que se lhe segue em produzir uma teoria da verdade que ostentasse simultaneamente consistência e completude.
Um quarto de século volvido12é ainda o mesmo projecto que continua a
ser glosado, desta feita muito mais explicitamente em torno da fundamentação transcendental de uma ética da discussão de origem kantiana. Neste contexto, a Pragmática Transcendental de inspiração peirceana intentada por Apel, mas que também se alimenta da reinterpretação, à luz do último Wittgenstein,13da
Teoria dos Actos de Fala de Austin e Searle,14acabará por formar o principal
alicerce da sua ética da discussão. Esta constitui, para Apel, o corolário de
11. Cf. APEL, Karl-Otto, Towards a Transformation of Philosophy, 1980, Routledge &
Kegan Paul, London, c Suhrkamp Verlag, Frankfurt am Main, 1972-73.
12Cf. APEL, Karl-Otto, Éthique de la Discussion, 1994, Humanités, Les Éditions du CERF,
Paris.
13. WITTGENSTEIN, Ludwig, Tratado Lógico-Filosófico e Investigações Filosóficas, trad.
LOURENÇO. M. S., 1987, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
14. AUSTIN, J.L., How to make things with words, 1995, Oxford, Oxford University Press;
e SEARLE, John R., Speech acts: an essay in the philosophy of language, 1974, Cambridge, Cambridge University Press, MA.
toda a actividade filosófica digna desse nome. Sendo a filosofia a actividade que busca a mediação entre teoria e praxis, pensamento-acção, é na resolução das antinomias entre estes dois pólos que se pode reclamar do seu sentido. No fundo, dirá Apel, é tal mediação teoria/praxis, – sobre os escombros da falên- cia do hegelianismo – que a história do pensamento ocidental vem fazendo no último século.
Gilbert Hottois, que se debruçou sobre o pensamento do autor no seu Du Sens Commun à la Société de Communication,15fala em primeiro e segundo
Apel. Creio que é possível, com tudo o que este tipo de compartimentações tem de artificial, distinguir três momentos no seu pensamento filosófico.
No primeiro, que coincide com os ensaios iniciais de Towards a Trans- formation of Philosophy, Apel preocupa-se sobretudo em acertar contas com o passado do pensamento filosófico ocidental, especialmente do início do sé- culo, rejeitando todas as versões de positivismo, empirismo lógico e neopositi- vismo, que qualifica pejorativamente de “cientismo”. Hottois identifica ainda nesta fase um fascínio, mesmo que superficial, por um certo tipo de hermenêu- tica “poética” e “anómica” cuja inspiração radica em Hölderlin e Heidegger, mas que rapidamente abandona.16
Na fase em que advogará a Transformação da Filosofia propriamente dita Apel vai defender uma re-transcendentalização desta que tenha em conta as contribuições da hermenêutica e da linguística. É o período semiótico- transcendental, quando se torna aparente que através de uma semiótica triádica tal como a esboçada por Peirce e Morris, haverá espaço para a possibilidade de fundamentação de uma Pragmática Transcendental.
Esta defesa de uma re-transcendentalização engloba a transformação se- miótica, engendrada por Peirce, da filosofia da consciência kantiana, substi- tuindo a apercepção transcendental por um sujeito colectivo que se submete às regras de mediação e compreensão sígnica comunais.
15. HOTTOIS, Gilbert, Du sens commun a la société de communication – Études de philo-
sophie du langage (Moore, Wittgenstein, Wisdom, Heidegger, Perelman, Apel), 1989, Librairie Philosophique Jean Vrin, Paris.
16. “Ce qui a bien pu tenter à un certain moment le premier Apel (. . . ) c’est l’idée d’une sorte
de herméneutique poétique, anormative ; l’image du dialogue entre des horizons historico- linguistiques différents (. . . ) Il y a lá une tentation typique de l’herméneutique telle qu’elle se développe chez Gadamer”, HOTTOIS, Gilbert, Du sens commun a la société de communica-
tion – Études de philosophie du langage (Moore, Wittgenstein, Wisdom, Heidegger, Perelman, Apel), 1989, Librairie Philosophique Jean Vrin, Paris, p. 197.
Por último, podemos considerar como uma terceira fase as tentativas de fundamentar uma ética do discurso na partilha de uma racionalidade una, que radica nas pressuposições transcendentais de qualquer discurso – e de funda- mentação transcendental da ética – e suas relações com uma ética histórica, que por meio do diálogo tem de resolver as questões concretas que se colocam no âmbito da praxis humana, um reino onde o atrito e o político jogam as suas forças em direcção a uma intransparência da linguagem. É, sumariemos, o período em que Apel se dedica a uma reconstrução da ética, projecto que o vem ocupando até hoje.
Ao longo deste percurso, vários conceitos e proposições chave desem- penham o papel de elemento aglutinador, em torno dos quais se agrupam as constelações teóricas apeleanas. Clarifiquemos, pois, os conceitos emblemá- ticos à volta dos quais se estruturam as concepções e pensamento de Apel.