CHAPTER 3. THEORETICAL APPROACH
3.5. Sociological New Institutionalism
Foram realizadas visitas técnicas à SME de Viamão coma finalidade de verificar a possibilidade de realização da pesquisa no município. A SME de Viamão mostrou- se interessada no assunto e favorável à realização do trabalho. Foi solicitado um documento formal confirmando o vínculo entre o pesquisador e a UNISINOS para dar andamento ao projeto de pesquisa. O referido documento, denominado carta de
anuência para autorização da pesquisa (Anexo 1), foi providenciado pela coordenação
do curso de Pós-graduação em Gestão Educacional da UNISINOS. Na sequência, foi estabelecido um cronograma com as ações junto à SME para compreender de que forma se dá o diagnóstico da realidade dos estudantes do Ensino Fundamental.
Nesta etapa, foram realizadas: pesquisa documental com base em documentos diversos; entrevistas semiestruturadas com os responsáveis pela ação na SME de Viamão com o intuito de entrevistar equipes diretivas e coletar outros documentos produzidos.
Os historiadores têm diferentes posições com relação ao uso de documentos como matéria-prima da pesquisa documental. May (2004), Raupp e Beuren (2003) e Sá-Silva, Almeida e Guindani (2009) indicaram que a pesquisa documental pode ser utilizada em ciências sociais, enquanto Cunha, Yokomizo e Bonacim (2013) relataram que existem algumas limitações para o uso da pesquisa documental nas organizações.
Já Hocayen-da-Silva, Rossoni e Ferreira Júnior (2008) relataram seu uso como
estratégia qualitativa de pesquisa no campo específico da administração pública e
gestão social. Para Lüdke e André (1986, p. 38), a pesquisa documental é uma metodologia “[...]pouco explorada não só na área da educação como em outras áreas das ciências sociais”.
O uso de documentos em pesquisa permite acrescentar a dimensão do tempo à compreensão do social. A análise documental facilita a observação do processo evolutivo de indivíduos, grupos, conceitos, conhecimentos, comportamentos, mentalidades e práticas, entre outros (CELLARD, 2008).
Na obra A arqueologia do saber, Foucault (2008) relatou uma passagem bastante elucidativa a respeito dessa mudança de percepção no sentido de uso do documento que vai além do texto nele escrito, como mera matéria destinada ao resgate de uma memória idealizada, para algo com que dialogamos, reconstruímos o conhecimento e reinterpretamos o mundo:
[…] por uma mutação que não data de hoje, mas que, sem dúvida, ainda não se concluiu, a história mudou sua posição acerca do documento: ela considera como sua tarefa primordial, não interpretá-lo, não interpretar se diz a verdade nem qual é o seu valor expressivo, mas sim trabalhá-lo no interior e elaborá-lo: ela o organiza, recorta, distribui, ordena e reparte em níveis, estabelece séries, distingue o que é pertinente do que não é, identifica elementos, define unidades, descreve relações. O documento, pois, não é mais, para a história, essa matéria inerte através da qual ela tenta reconstituir o que os homens fizeram ou disseram, o que é passado e o que deixa apenas rastros: ela procura definir, no próprio tecido documental, unidades, conjuntos, séries, relações. É preciso desligar a história da imagem com que ela se deleitou durante muito tempo e pela qual encontrava sua justificativa antropológica: a de uma memória milenar e coletiva que se servia de documentos materiais para reencontrar o frescor de suas lembranças; ela é o trabalho e a utilização de uma materialidade documental (livros, textos, narrações, registros, atas, edifícios, instituições, regulamentos, técnicas,
objetos, costumes etc.) que apresenta sempre e em toda a parte, formas de permanência, quer espontâneas, quer organizadas. O documento não é o feliz instrumento de uma história que seria em si mesma, e de pleno direito, memória; a história é, para uma sociedade, uma certa maneira de dar status e elaboração à massa documental de que ela não se separa (FOUCAULT, 2008, p. 7-8).
A análise dos documentos permitiu, portanto, compreender de que modo algumas práticas são constituídas e instituídas na rede municipal de educação de Viamão. Trabalhar com documentos exige do pesquisador atenção redobrada para evitar artifícios que comprometam a credibilidade documental e sua representatividade. Para Cellard (2008), os documentos devem ser analisados criticamente quanto: ao contexto histórico no qual foram produzidos; à autoria e aos motivos que levaram à sua redação; à correta identificação dos autores e sua credibilidade; à autenticidade e confiabilidade do texto; à natureza do texto, antes de tirar conclusões; aos conceitos chave e à lógica interna do texto, avaliando-se sua importância e seu sentido; e, finalmente, à análise documental quando se propõe a produzir e reelaborar conhecimentos, criando novas formas de compreender os fenômenos.
Na pesquisa documental, ressalta-se a importância do objetivo definido pelo pesquisador, e não a natureza propriamente dita do documento. Uma proposta é a utilização do documento como fonte (seja ele uma carta, uma lei ou um texto acadêmico); outra proposta é a informação que o pesquisador almeja com a pesquisa documental, isto é, produzir novos conhecimentos a partir do documento analisado, agregando outras informações, o que pode resultar ou não em mudanças de perspectivas (CELLARD, 2008). Como mencionado por Cellard (2008, p. 295),
[...] o documento escrito constitui uma fonte extremamente preciosa para todo pesquisador nas ciências sociais. Ele é, evidentemente, insubstituível em qualquer reconstituição referente a um passado relativamente distante, pois não é raro que ele represente a quase totalidade dos vestígios da atividade humana em determinadas épocas. Além disso, muito freqüentemente, ele permanece como o único testemunho de atividades particulares ocorridas num passado recente.
Além da coleta e análise de documentos produzidos no âmbito da Rede Municipal, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com os responsáveis pela ação na SME cujo roteiro se encontra no Apêndice2. A entrevista é um instrumento frequentemente utilizado nas pesquisas de ciências sociais e, em especial, na área de educação. De acordo com Richardson (1999, p. 207, grifo do autor),
O termo entrevista é construído a partir de duas palavras, entre e vista. Vista refere-se ao ato de ver, ter preocupação com algo. Entre indica a relação de lugar ou estado no espaço que separa duas pessoas ou coisas. Portanto, o termo entrevista refere-se ao ato de perceber realizado entre duas pessoas.
Ribeiro (2008, p.141) trata a entrevista como:
A técnica mais pertinente quando o pesquisador quer obter informações a respeito do seu objeto, que permitam conhecer sobre atitudes, sentimentos e valores subjacentes ao comportamento, o que significa que se pode ir além das descrições das ações, incorporando novas fontes para a interpretação dos resultados pelos próprios entrevistadores.
A seleção do tipo de entrevista a ser utilizado em uma pesquisa está relacionada ao objetivo proposto pelo pesquisador. Entre outras possibilidades, a entrevista pode ter uma abordagem etnográfica (ROMANELLI, 1988) ou uma abordagem psicológica (BLEGER, 1980).
De acordo com Bicudo (2005), para a utilização da entrevista, faz-se necessário um planejamento prévio, bem como atenção aos aspectos éticos, desde a escolha do participante e do entrevistador até a do local, do modo ou mesmo do momento para sua realização.
Os entrevistados devem ser orientados sobre o objetivo das informações coletadas, o direito ao sigilo profissional e à interrupção da entrevista. Ao término dessas orientações, e após o livre consentimento e autorização expressa, as entrevistas são iniciadas (COZBY, 2003).
Segundo Manzini (2004), existem três tipos de entrevistas: estruturada, semiestruturada e não-estruturada. Entende-se por entrevista estruturada aquela que contém perguntas fechadas, semelhantes a formulários, sem apresentar flexibilidade; a entrevista semiestruturada é direcionada por um roteiro previamente elaborado, composto geralmente por questões abertas; a não-estruturada é a que oferece ampla liberdade na formulação de perguntas e na intervenção na fala do entrevistado. Um dos modelos mais utilizados é o da entrevista semiestruturada, guiada pelo roteiro de questões, o qual permite uma organização flexível e ampliação dos questionamentos à medida que as informações vão sendo fornecidas pelo entrevistado (FUJISAWA, 2000).