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Socio economic situation

In document DECENTRALIZATION AND GENDER (sider 44-54)

5. FINDINGS FROM MOSHI DISTRICT

5.1 Socio economic situation

Pinard “acusa” Flaubert de pertencer à Escola Literária Realista. Ele vê, nesse pertencimento, algo de negativo, nefasto, já que é comum, nessa escola, a pintura crua da realidade, com refinamento de detalhes, o que pode influenciar maleficamente as mentes. Diante da importância dessa discussão para o nosso trabalho, achamos por bem transcrever abaixo dois trechos do discurso de Pinard sobre essa problemática:

Antes de erguer os quatro cantos do quadro, permitam-me perguntar qual é a cor, a pincelada do Sr. Flaubert, pois afinal de contas, seu romance é um quadro e é preciso saber a que escola pertence, que cor ele usa e qual é o retrato [que faz] de sua heroína.218 (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 306)

[…] o gênero que o Sr. Flaubert cultiva e que realiza sem os cuidados da arte, mas com todos os recursos da arte, é o gênero descritivo, a pintura realista. [...] A moral estigmatiza a literatura realista não porque Ela pinte paixões tais como: o ódio, a vingança, o amor; o mundo vive somente disso e a arte deve pintá-las; mas, quando Ela as pinta sem freios, sem medidas.219 (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 315, 318)

218 No original: « Avant de soulever ces quatre coins du tableau, permettez-moi de me demander quelle

est la couleur, le coup de pinceau de M. Flaubert, car, enfin, son roman est un tableau, et il faut savoir à quelle école il appartient, quelle est la couleur qu'il emploie, et quel est le portrait de son héroïne. » (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 619)

219

No original: « […] le genre que M. Flaubert cultive, celui qu'il réalise sans les ménagements de l'art, mais avec toutes les ressources de l'art, c'est le genre descriptif, la peinture réaliste […] La morale stigmatise la littérature réaliste, non pas parce qu'Elle peint les passions : la haine, la vengeance, l'amour ; le monde ne vit que là-dessus, et l'art doit les peindre; mais quand Elle les peint sans frein, sans mesure. » (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 635)

Esses excertos são, para nós, esclarecedores. Pinard, ao descreditar a Escola Literária Realista, chama a atenção para o fato de que ela se destaca, se define, por tratar, sem medidas, de paixões tais como o ódio, a vingança e o amor. Sénard, mais uma vez rebatendo Pinard, questiona a categorização feita por este do romance e do estilo de Flaubert no âmbito de Escola Literária, com o objetivo de minimizar essa crítica a Flaubert. Assim como Flaubert o faz regularmente em suas cartas, Sénard recusa toda e qualquer classificação da obra Madame Bovary, seja ela Realista, Romântica ou Psicológica:

Meu cliente é dos que não pertencem a nenhuma das escolas cujo nome encontrei, há pouco, no requisitório. Meu Deus! Pertenceria à escola realista no sentido em que se prende à realidade das coisas. Pertenceria à escola psicológica no sentido em que não é a materialidade das coisas que o impele, mas o sentimento humano, o desenvolvimento das paixões no ambiente em que está colocado. Pertenceria à escola romântica menos talvez do que a qualquer outra, pois se o romantismo aparece em seu livro, assim como também o realismo, não é por causa de algumas expressões irônicas, atiradas aqui e ali, e que o ministério público levou a sério.220 (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 320)

É necessário acrescentar que, por mais que Flaubert negue, Madame Bovary, com suas “pinceladas realistas aqui e ali”, acaba por levar ao leitor uma junção de dois universos espaciais e especulares. Como ele escreve dentro de determinada estrutura social, é normal que os saberes e os estereótipos partilhados, os imaginários sociais, no qual transcorrem as ações, ou melhor, as quedas de Emma Bovary aí apareçam, pois fazem todos parte do universo flaubertiano, edificado em tal estrutura. Assim, Madame Bovary (re)constitui, de maneira muito semelhante e quase “real”, a estrutura do mundo social na qual foi produzida e até mesmo as estruturas mentais que, modeladas por essas estruturas sociais e ideológicas, são o princípio gerador da obra na qual essas estruturas se revelam (BOURDIEU, 2005). Vem daí a força do realismo, ou melhor, da profusão de “efeitos de real” que povoam a obra de Flaubert. E, como tocamos no assunto, vejamos como Bourdieu define o que entende por “efeito de real”: “[...] é essa forma muito particular de crença que a ficção literária

220

No original: « Mon client est de ceux qui n'appartiennent à aucune des écoles dont j'ai trouvé, tout a l'heure, le nom dans le réquisitoire. Mon Dieu ! il appartient à l'école réaliste, en ce sens qu'il s'attache a la réalité des choses. Il appartiendrait à l'école psychologique en ce sens que ce n'est pas la matérialité des choses qui le pousse, mais le sentiment humain, le développement des passions dans le milieu où il est placé. Il appartiendrait à l'école romantique moins peut-être qu'à toute autre, car si le romantisme apparaît dans son livre, de même que si le réalisme y apparaît, ce n'est pas par quelques expressions ironiques, jetées ça et là, que le ministère public a prises au sérieux. » (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 636)

produz através de uma referência denegada ao real designado que permite saber recusando saber o que ele é realmente.” (BOURDIEU, 2005, p. 48)

Por espelhamento, Flaubert, ao revelar a constituição da sociedade na qual Emma vive, acaba por desvelar a sua própria (ou seria o contrário?). Daí a afirmativa de seu advogado de defesa de que a literatura de Flaubert tem a função de ser útil, e isso é muito mais importante do que discutir a qual escola ela pertence. Para Sénard, o argumento fundamental que ele tenta passar é que Madame Bovary possui o status de obra “didática” (burguesa e moralista), obra social cuja função é educar, formar as mentes: se ele convencer o júri disso, ele ganhará a causa e Flaubert sairá livre. Sénard, muito astuciosamente, retoma o argumento principal de Pinard (o livro não é educativo) para levar a crer ao júri que sim, ele é educativo (ainda que seja pelo contra-exemplo, o que é sem dúvida bastante astuto de sua parte).

Quanto a Flaubert, em várias de suas cartas, ele deixa bem claro que execra a literatura cuja função não seja a de se bastar, a de existir por si mesma. Ele busca, com sua obra, mostrar que é possível e desejável fazer uma literatura autônoma, livre, ou seja, fazer “arte pela arte”:

A Arte é uma representação; devemos pois, tão somente, representar. [...] A moral da arte consiste em sua própria beleza, e valorizo, acima de tudo, o estilo e, em seguida, o verdadeiro. [...] A Arte deve estar acima dos afetos pessoais e das susceptibilidades nervosas. [...] O culto à Arte é motivo de orgulho; ela nunca é demais. Eis meu lema.221 (FLAUBERT, 1980, p. 157; 691)

A literatura com função moralizante é, para Flaubert, uma estupidez alimentada não só pelo Poder Público, mas também por muitos intelectuais das Letras, incluindo-se aí, evidentemente, a Crítica Literária, que, assim como o Estado, censura severamente o tipo de arte que Flaubert faz. Para o romancista, a Crítica é desprezível: “A Crítica é, quase sempre, a última escala da literatura enquanto forma, e, sem dúvida alguma, como valor moral.”222 (FLAUBERT, 1980, p. 368 – grifos do

autor). Completando, Flaubert afirma que as críticas feitas pelo Poder Público e pela Crítica Literária são medíocres e maliciosas, portanto, ineptas. No entanto, ele teve

221 No original: « L’Art est une représentation; nous ne devons penser qu’à représenter. [...] La morale

de l’art consiste dans sa beauté même, et j’estime par-dessus tout d’abord le style, et ensuite le vrai. […] L’Art doit s’élever au-dessus des affections personnelles et des susceptibilités nerveuses ! [...] Le culte de l’art donne de l’orgueil; on n’en a jamais trop. Telle est ma morale. »

222 No original: « La critique est au dernier échelon de la littérature comme forme, presque toujours, et

que ouvir (e não contradizer) a sua defesa, que pregava o “exemplo didático” de sua obra. Flaubert, no entanto, parecia conhecer bem os enjeux jurídicos; daí seu silêncio.

Enfim, se formos tentar compreender Pinard, Sénard e Flaubert, tomados como um todo, diremos que cada um deles busca, à sua maneira, no universo da ficção, em mundos imaginários, ilusórios, a explicação, a justificativa para questões reais propostas/impostas pelo mundo social em que vivem. Em outras palavras, os três subjetivam o mundo real, objetivando o mundo ficcional, uma das características fundamentais da Literatura Realista.

Apesar de contestar o pertencimento do romance Madame Bovary à Escola Literária Realista, Sénard assevera que Flaubert quis, sobretudo, abordar um tema de estudo comum na vida real, quis construir tipos verdadeiros da classe burguesa, criar personagens semelhantes aos da sociedade francesa, vivendo nas condições de vida daquele tempo, para apresentar aos leitores um quadro “real” do que se encontrava mais frequentemente no mundo e propor-lhes, assim, uma obra útil, educativa, moralizadora. E ele tinha razão, em parte, ao dizer isso: sabe-se que Flaubert sempre negou pertencer à Escolas literárias, seja à Realista, seja à Romântica. Ele chega mesmo a afirmar que escreveu Madame Bovary por ódio ao Realismo: “Dizem que sou preso ao real, enquanto que eu o execro. Pois, foi por ódio ao realismo que escrevi esse romance [Madame Bovary].”223

(FLAUBERT, 1980, p. 643)

Entretanto, acreditamos que não há como negar a forte presença de efeitos do real (vindos naturalmente da Escola Realista) em Madame Bovary e tampouco a forte presença do social que envolvia e marcava o autor em sua escrita. Seja como for, por uma ironia do destino, Flaubert é tido até hoje como o precursor da Escola Literária Realista.

Ainda que seja secundária, no processo judicial, a discussão a respeito do pertencimento de Flaubert a uma escola, o fato é que, por espelhamento, Madame

Bovary acaba por retratar os mœurs de province, que constituem e definem a

sociedade na qual vive Flaubert, sociedade que ele quis ironizar, por causa de seus estereótipos e saberes de crença. Emma pode ser vista como símbolo encarregado de marcar e de representar certas posições sociais em um duplo espaço, o da ficção e o da vida real. Se, por um lado, Flaubert se vê envolvido nessas querelas, nessa

223 No original: « On me croit épris du réel, tandis que je l’exècre. Car c’est en haine du réalisme que

discussão entre real e ficção, Realismo e Romantismo, por outro lado, Emma vive situação similar à de seu criador. Segundo Bourdieu, “[...] Emma, assim como o próprio Flaubert, leva a ficção a sério porque não consegue levar a sério o real, ou seja, a realidade pela qual medimos todas as ficções não é mais que o referente universalmente garantido de uma ilusão coletiva.” (BOURDIEU, 2005, p. 27)

Na próxima seção, abordamos algumas pathemias recorrentes nas cartas de Flaubert.

In document DECENTRALIZATION AND GENDER (sider 44-54)