3. FINDINGS FROM ILEJE DISTRICT
3.1 Socio-economic situation
Pinard e Sénard analisam a quarta e última queda de Emma, detendo-se nas cenas de seu envenenamento e de sua morte. A escolha dessas cenas não é aleatória: tanto o suicídio quanto a morte, em qualquer contexto, são pathemizantes. Entretanto, quando utilizados por ambos os advogados, tais fatos se transformam em uma poderosa arma argumentativa. Ciente disso, o advogado de acusação, ataca novamente Emma, a julga severamente por não ter se arrependido de tudo aquilo que fez durante sua vida, repleta de imoralidade, de volúpia e de luxúria, e tampouco no momento de sua morte:
Depois, sem um remorso, sem nem uma confissão, sem uma lágrima de arrependimento pelo suicídio que se consumava e pelos adultérios da véspera, ela recebe o sacramento dos moribundos. Por que o sacramento, visto que, em seu pensamento de há pouco, ela iria para o nada? Por que, quando não há nem uma lágrima, nem um suspiro de Madalena por seu crime de ateísmo, por seu suicídio, por seus adultérios?196 (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 314)
Mesmo sem sentir remorsos, Emma decide dar cabo à sua vida. Para Pinard, a morte não seria um castigo suficiente, ela deveria ter sido castigada enquanto estava viva. Além do mais, sua morte coopera para suspender essa justa punição. Como vemos, mesmo depois de morta, ela continua a ser considerada culpada pela promotoria, visto que ela morre muito jovem, por suas próprias mãos, em “[…] toda a glória de sua juventude e de sua beleza.”197(PINARD, 1857 apud FLAUBERT,
2007b, p. 317). Cabe ressaltar que o suicídio é condenado pela Igreja e, por conseguinte, por Pinard. Logo, Emma encerra sua série de quedas, cometendo seu último grave pecado: o de se matar.
Ainda mais grave do que o suicídio, segundo Pinard, foi o fato da personagem ter tido a “honra” de receber (imerecidamente) a extrema-unção198, ritual cristão tão
sagrado. Justamente, esse ritual já é, por si só, pathemizante. Espera-se, em uma cena
196 No original: « Puis, sans un remords, sans un aveu, sans une larme de repentir sur ce suicide qui
s'achève et les adultères de la veille, elle va recevoir le sacrement des mourants. Pourquoi le sacrement, puisque, dans sa pensée de tout à l'heure, elle va au néant ? Pourquoi, quand il n'y a pas une larme, pas un soupir de Madeleine sur son crime d'incrédulité, sur son suicide, sur ses adultères ? » (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 628)
197
No original: « […] tout le prestige de sa jeunesse et de sa beauté. » (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 632)
198 Sobre os princípios da inferência emocional e a temática religiosa com sua força pathêmica cf.
como essa, pessoas emocionadas, tristes, chorosas. Entretanto, a extrema-unção de Emma não provoca em Pinard esse estado pathêmico. Ao contrário, ele se choca e se
revolta ao ver que uma mulher adúltera, pecaminosa, recebe esse sacramento.
Mostrando-se bastante pathemizado, nesse momento de seu discurso, Pinard mais parece fazer um sermão:
[...] a extrema-unção. São palavras santas e sagradas para todos. Foram com essas palavras que adormeceram nossos ancestrais, nossos pais, nossos parentes, e são com elas que um dia nossos filhos nos adormecerão. Quando se quer reproduzi- las é preciso fazê-lo com exatidão; pelo menos não se deve juntar a elas uma imagem voluptuosa sobre a vida passada.199 (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 314)
Para Pinard, pior ainda do que receber a extrema-unção sem a merecer é ver a forma como Emma a recebe. O Advogado Imperial acusa Flaubert de misturar, nessa cena, devoção e sensualidade, sagrado e profano, o que é absolutamente inconcebível, imoral para os cristãos. Até mesmo no leito de morte, Emma se mostra sensual, se sente confortável na presença do padre, aparenta felicidade advinda de um gozo sublime proporcionado por esse momento derradeiro: “[…] então ela estendeu o pescoço como alguém que tem sede e, encostando os lábios no corpo do Homem- Deus, nele depôs, com toda a sua força agonizante, o maior beijo de amor que jamais dera.”200(FLAUBERT, 1970, p. 242)201
Lendo a cena sob essa perspectiva erótica, Pinard se revolta. Para ele, a volúpia não pode, em hipótese alguma, fazer parte do discurso imaculado que a extrema-unção representa para ele. Por fim, depois de marcar as quatro quedas e condenar as faltas morais de Emma, Pinard sintetiza suas críticas a Flaubert e à personagem, através de questões retóricas e pathemizantes: “Terá tentado mostrá-la
199 No original: « […] l'extrême-onction. Ce sont des paroles saintes et sacrées pour tous. C'est avec ces
paroles-là que nous avons endormi nos aïeux, nos pères et nos proches, et c'est avec elles qu'un jour nos enfants nous endormiront. Quand on veut les reproduire, il faut le faire exactement ; il ne faut pas du moins les accompagner d'une image voluptueuse sur la vie passée. » (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 628)
200
No original: « […] alors elle allongea le cou comme quelqu'un qui a soif, et collant ses lèvres sur le corps de l'Homme-Dieu, elle y déposa de toute sa force expirante le plus grand baiser d'amour qu'elle eût jamais donné. » (FLAUBERT, 1951, p. 587-588)
201
Nesse contexto litúrgico, a imagem de Emma é facilmente relacionada aos escritos de Santa Teresa D’Ávila e também ao “Êxtase de Santa Teresa” (1652), do artista italiano Gian Lorenzo Bernini, pelas “pinceladas lascivas”. Nessa obra barroca exposta na Capela da Igreja de Santa Maria dela Vittoria, em Roma, vê-se a santa em transe místico diante do amor divino, com a expressão sensual, de prazer carnal, numa mistura de sagrado e profano.
pelo lado da inteligência? Nunca. Pelo lado do coração? Também não. Pelo lado do imaginação? Não. Pelo lado da beleza física? Nem mesmo isso.”202 (PINARD, 1857
apud FLAUBERT, 2007b, p. 308)
Sénard, ao defender Flaubert em relação a essa quarta e última queda de Emma Bovary, segue os mesmos argumentos que usou ao tratar das quedas anteriores: mostrar que o romance é honesto, que Flaubert é um homem de bem e que a personagem Emma é uma provinciana que cometeu erros e que está sendo punida por seus atos libertinos:
A cada linha de seu livro faz sobressair a desilusão e em lugar de terminar por uma tirada graciosa, esforça-se para mostrar-nos essa mulher que passa, depois do desprezo, ao abandono, à ruína da própria casa, à morte mais assustadora possível.203 (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 347)
Sénard, em um discurso emocionado, elogia Flaubert por ter escrito muito bem e por ter colorido de maneira realista o agonizante sofrimento da personagem no momento de sua morte: “O Sr. Flaubert não é somente um grande artista, mas um homem bom, por ter nas seis últimas páginas do livro derramado todo seu horror e o desprezo sobre a mulher e [por ter concentrado] todo seu interesse sobre o marido.”204
(SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 336)
O advogado de defesa, ao contrário do advogado de acusação, retoma a cena do envenenamento e da morte de Emma como sendo repleta de emoção, com detalhes
tristes, melancólicos e dolorosos. Com esse conjunto de pathemias, ele busca
despertar no auditório ali presente a compaixão e o perdão para Emma e a admiração por Flaubert:
Aconteceu a mesma coisa no leito de morte dessa mulher. [...] a morte de madame Bovary é hedionda. Sobre o cadáver da mulher, o autor mostrou manchas que lhe deixaram os vômitos do veneno; elas mancharam a mortalha branca na qual vai ser enterrada, ele quis assim fazer dela um objeto de repugnância; [...] que enfim
202 No original: « A-t-il essayé de la montrer du côté de l’intelligence ? Jamais. Du côté du cœur ? Pas
davantage. Du côté de l’esprit ? Non. Du côté de la beauté physique ? Pas même. […] » (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 621)
203 No original: « A chaque ligne de son livre il fait ressortir la désillusion, et, au lieu de terminer par
quelque chose de gracieux, il s'attache à nous montrer cette femme arrivant, après le mépris, l'abandon, la ruine de sa maison, à la mort la plus épouvantable. » (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 667)
204
No original: « M. Flaubert n'est pas seulement un grand artiste mais un homme de cœur, pour avoir dans les six dernières pages déversé toute l'horreur et le mépris sur la femme, et tout l'intérêt sur le mari. » (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 655)
culminou no suicídio. A morte dessa mulher foi natural pois, se ela não tivesse encontrado o veneno para lhe dar um fim, ela teria sido destruída pelo excesso de infelicidade que a sufocava.205 (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 337)
O ethos de sério, generoso e admirado de Flaubert é delineado por Sénard em seu discurso, de maneira pathêmica. O romancista é retratado como uma pessoa de boa família, que nunca quis o mal de ninguém, como um homem de bem, honesto, corajoso, alguém que agora enfrenta uma injustiça de cabeça erguida, um profissional que fez um livro honesto, sério, que nunca atentou contra a moral e os bons costumes, honrado, temente a Deus e confiante na justiça. A generosidade de Flaubert advém também de sua dedicação integral à literatura, ao seu dom artístico. Ele presenteia a humanidade com seu romance, cujo objetivo é educar, sobretudo as meninas, que precisam ser advertidas para não incorrerem nos erros cometidos por Emma. A apresentação e a representação das virtudes morais de Flaubert ajudam Sénard a conquistar, pela emoção, seu auditório.
Entretanto, quando Sénard defende Flaubert das acusações de Pinard em relação à morte de Emma, ele se concentra mais na escrita do autor do que nas ações da personagem. Em outras palavras, Sénard elogia a maneira pela qual Flaubert descreve minuciosa e ricamente a cena da extrema-unção, colocando as palavras e as ações do padre como elas realmente devem ser, segundo os rituais da Igreja:
[…] a cena da extrema-unção. Oh! Sr. Advogado Imperial, como vos enganastes quando, detendo-vos nas primeira palavras, acusastes meu cliente por misturar o sagrado e o profano, quando ele se contentou em traduzir estas belas fórmulas da extrema-unção, no momento em que o padre toca os órgãos de onde vem nossos sentidos, no momento em que, segundo a expressão do ritual, elediz: Per istam
unctionem, et suam piissimam misericordian, indulgeat tibi Dominus quidquid deliquisti.206 (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 349)
205
No original: « Il est de même au lit de mort de cette femme. […] la mort de madame Bovary est hideuse. Sur le cadavre de la femme, l'auteur a montré les taches que lui ont laissées les vomissements du poison […] elles ont sali le linceul blanc dans lequel elle va être ensevelie, il a voulu en faire un objet de dégoût […] et enfin est arrivée au suicide. Nous verrons si elle est naturelle la mort de cette femme qui, si elle n'avait pas trouvé le poison pour en finir, aurait été brisée par l'excès même du malheur qui l'étreignait. » (SÉNARD, 1857 apud PINARD, 1951, p. 655-656)
206 No original: « […] la scène de l'extrême-onction. Oh ! Monsieur l'Avocat impérial, combien vous
vous étés trompé quand, vous arrêtant aux premiers mots, vous avez accusé mon client de mêler le sacré au profane, quand il s'est contenté de traduire ces belles formules de l'extrême-onction, au moment où le prêtre touche tous les organes de nos sens, au moment où, selon l'expression du rituel, il dit : Per istam unctionem, et suam piissimam misericordiam, indulgeat tibi Dominus quidquid
Assim, o advogado de defesa sustenta que a escrita de Flaubert merece ser elogiada, visto que ele soube representar “divinamente” o ritual da extrema-unção. Isso, ainda segundo Sénard, não é imoral ou um desrespeito à religião, mas, ao contrário, uma belíssima descrição, minuciosa e fiel, de um momento místico, das palavras sagradas:
Que fez o Sr. Flaubert? Colocou na boca do padre, reunindo as duas partes, o que ele pensava e, ao mesmo tempo, o que pensava a moribunda. Ele transcreveu [isso] pura e simplesmente [...] ele traduziu, com uma fidelidade escrupulosa, as palavras sacramentais.207 (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 352)
Desse modo, Sénard rebate os argumentos de Pinard de maneira direta: “Vedes agora que não misturamos o profano ao sagrado.”208(SÉNARD, 1857 apud
FLAUBERT, 2007b, p. 353). Antes de concluir sua argumentação pathêmica em relação à morte de Emma, Sénard (re)lembra a presença da música cantada por um mendigo cego que passava pela porta da casa de Emma no momento de sua morte. A canção fazia eco a tudo que Emma viveu, em uma espécie de retrospectiva. Para Sénard, essa canção é uma estratégia de Flaubert e não estava registrado no romance por acaso:
[...] nesse momento supremo, a lembrança de sua falta, o remorso, com tudo que há de pungente e de horrível. Não é uma fantasia de artista que deseja apenas criar um contraste sem utilidade, sem moralidade, é o cego que ela ouvia na rua cantando aquela horrível canção, que ele cantava quando ela voltava suada, ignóbil, dos encontros adulterinos.209 (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 355)
Porém, é curioso notar que, ao defender Flaubert, nas duas últimas linhas deste excerto, Sénard vai se aproximar da opinião de Pinard sobre a mulher adúltera.
207 No original: « Qu'a fait M. Flaubert ? Il a mis dans la bouche du prêtre, en réunissant les deux
parties, ce qui doit être dans sa pensée et en même temps dans la pensée du malade. Il a copié purement et simplement […] il traduit avec une fidélité scrupuleuse les paroles sacramentelles. » (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 674)
208 No original: « Vous voyez maintenant que nous n'avons pas mêlé le profane au sacré. » (SÉNARD,
1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 675)
209
No original: « […] ce moment suprême, le rappel de sa faute, le remords, avec tout ce qu'il a de poignant et d'affreux. Ce n'est pas une fantaisie d'artiste voulant seulement faire un contraste sans utilité, sans moralité, c'est l'aveugle qu'elle entend dans la rue chantant cette affreuse chanson, qu'il chantait quand elle revenait toute suante, toute hideuse des rendez-vous de l'adultère. » (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 677)
Finalmente, Sénard defende que não há outra escolha para Emma senão sua morte. A única saída para tantos pecados, lascividade e volúpia é o suicídio:
Poderia ela viver? Não estaria ela condenada? Não esgotara o último grau da vergonha e da baixeza? [...] Apenas a morte restava para essa infeliz. [...] E aquele que vos apresenta a mulher adúltera que morre na vergonha [sem a salvação divina], comete um ultraje à moral pública!210 (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 355)
Ao finalizar esta subseção, lembramos que o suicídio era e ainda é considerado um pecado e condenado pela Igreja cristã. De uma forma ou de outra, pecado, suicídio e morte se ligam aos saberes de crença, aos clichês, independentemente do contexto, e, por conseguinte, pathemizam. Ainda assim, na opinião de Sénard, e, de certa forma, na de Pinard, Emma foi pecadora até na hora da morte. No caso, mesmo Sénard tendo defendido Flaubert e Emma Bovary, ele estava inserido nessa sociedade do século XIX na França, onde a Igreja e seus dogmas ocupavam um lugar de destaque.
Terminada a apresentação e a análise das pathemias relativas às quatro quedas de Emma, propomos, a seguir, uma reflexão sobre os momentos finais dos discursos de ambos os advogados e da sentença proferida pelos juízes.