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INTRODUCTION

In document DECENTRALIZATION AND GENDER (sider 17-21)

Sendo Emma seu alvo principal, Pinard liga os crimes de lascividade e volúpia da personagem à (des)ordem, ao (des)equilíbrio moral. No entanto, essa moralidade, como já dissemos, liga-se de modo incondicional à religiosidade. Desse modo, Emma comete delitos não só contra seu marido e contra a sociedade na qual ambos se inserem, mas também contra os preceitos da Igreja, que condena a luxúria, a fornicação e o adultério.

Por espelhamento, Pinard compara Emma a Maria Madalena, personagem bíblica conhecida por ter sido prostituta e apedrejada em praça pública pelo pecado da luxúria, por uma multidão pathemizada. Essa comparação advém do fato de que as duas mulheres são tidas pelo procurador como “mulheres de vida fácil”, logo, ambas merecem ser castigadas. A Bíblia registra, entretanto, que Maria Madalena se salvou, recebeu o perdão divino por ter se arrependido de suas ações – Madalena

arrependida. Já Emma não teve a mesma “sorte”, não recebeu o perdão divino e

tampouco o de Pinard, justamente por não ter se arrependido de suas ações lascivas e voluptuosas. Evidentemente, a promotoria não cita passagens da Bíblia em vão; seu uso é estratégico – ela é um excelente instrumento de pathemização. Usar a palavra de Deus com fins argumentativos é, para Pinard, a certeza de emocionar e convencer seu

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No original: « Voilà, messieurs, ce que M. Flaubert a dit, ce qu'il a peint, ce qui est à chaque ligne de son livre. […] M. Flaubert n'est pas un homme qui vous peint un charmant adultère […] c'est que chez lui l'adultère marche plein de dégoût et de honte. » (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 638 – grifos nossos)

auditório. Com isso, Pinard, além de se mostrar um religioso fervoroso, demonstra ser também um advogado perspicaz. Cabe registrar que o advogado faz uso da palavra “Deus” seis vezes em seu requisitório.

Contextualizando a temática da religiosidade no requisitório, temos que Emma, depois de ter sido abandonada por Rodolphe, fica doente e vê, na devoção religiosa, a cura para seus problemas. Para a personagem, a devoção, a religiosidade se tornam sua chance de salvação, de sobrevida. Emma chega a pedir ao padre Bournisien o sacramento da comunhão. Pinard percebe que ela busca na religião um desejo de mudança, uma volta à vida honesta, uma tentativa de cura para sua “doença” lasciva e imoral. Sua convalescença é marcada, dessa forma, por aquilo que o magistrado chama de “transição religiosa”.

O apego de Emma à religião, ao sagrado, se inicia já na sua infância, quando ela vivia no convento. Entretanto, Pinard vê, já aí, algo de condenável, visto que, quando criança, Emma inventava pequenos pecados, gostava de ficar de joelhos na igreja, na sombra do confessionário ouvindo os sussurros do padre, considerava Deus seu eterno amante celeste e sentia muito prazer em tudo isso. Dessa maneira, Pinard delineia o ethos de Emma a serviço do pathos; a personagem, desde a infância, se mostra pecadora pathemizada pelo universo religioso, sempre com conotação sensual/sexual. Essas ações de Emma levam Pinard a emocionar-se, de forma negativa, evidentemente. Ele descreve essas cenas como peinture lascive, expressão recorrentemente utilizada pelo advogado para julgar as ações da personagem e também para despertar sentimentos tais como a revolta e o repúdio nos presentes à audiência de julgamento. A religiosidade de Emma é, assim, colocada sob suspeita pelo advogado de acusação, visto que um dia a personagem é cristã, religiosa, devota, enfim, apegada às coisas divinas e, dias depois, ela se mostra libidinosa, lasciva e adúltera. Para Pinard, a mistura do sagrado com o profano é algo inaceitável:

Haverá nessa mulher adúltera, que vai comungar alguma coisa da fé da Madalena arrependida? Não, não, é sempre a mulher apaixonada que procura ilusões e que as procura nas coisas mais santas, mais augustas.173 (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 311)

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No original: « Y a-t-il dans cette femme adultère qui va à la communion quelque chose de la foi de la Madeleine repentante ? Non, non, c'est toujours la femme passionnée qui cherche des illusions, et qui les cherche dans les choses les plus saintes, les plus augustes. » (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 624)

Como podemos notar, a temática religiosa174 é recorrente não só no romance

de Flaubert como no requisitório, no qual se constata o uso de várias passagens das experiências de Emma com a Igreja, com a religião, enfim com as coisas sagradas. Para o procurador, é inaceitável, ofensivo e odioso uma mulher misturar o prazer carnal com o sagrado, uma esposa se dirigir a Deus quando, ao mesmo tempo, trai seu marido: “Em que língua se reza a Deus com as palavras que [já] foram dirigidas ao amante nas efusões do adultério?”175(PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p.

311)

Sénard rebate as acusações de Pinard a respeito da relação de Emma e Flaubert com a Igreja, de maneira irônica e agressiva, ao mesmo tempo. A defesa afirma reiteradas vezes que a problemática não diz respeito a Flaubert e tampouco a Emma, mas sim ao próprio Pinard, que não sabe ler, não sabe interpretar, e que, quando o faz, é de maneira estreita e tendenciosa:

Já vos enganastes gravemente quanto à apreciação de meu cliente. Ele não cometeu a falta que lhe censurais, o erro é inteiramente vosso. [...] Não era portanto uma criança de dez anos como quisestes dizer. [...] O que desejo é que leiais as linhas que precedem, o que não é fácil, concordo.176 (SÉNARD, 1857

apud FLAUBERT, 2007b, p. 331)

Com essa estratégia, Sénard, mais uma vez, busca desqualificar os argumentos da acusação e diz a Pinard, com um tom irônico: “Tenho de examinar agora o ultraje à religião. O ultraje à religião cometido pelo Sr. Flaubert! E em que ponto, por favor?”177 (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 347). De maneira

provocativa, a defesa desafia a promotoria a encontrar traços de ultraje à religião no romance.

A figura retórica da ironia pode ser definida, segundo Fiorin (2014), como uma inversão semântica do que foi dito, ou, ainda, como um alargamento semântico.

174 Sobre os princípios da inferência emocional e a temática religiosa com sua força pathêmica, cf.

Ungerer, 1997 e Plantin, 2011a.

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No original: « Dans quelle langue prie-t-on Dieu avec les paroles adressées à l'amant dans les épanchements de l'adultère ? » (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 625)

176 No original: « Vous vous êtes déjà gravement trompé sur l'appréciation de mon client. Il n'a pas fait

la faute que vous lui reprochez, l'erreur est tout entière de votre côté. […] Ce n'était donc pas une enfant de dix ans comme il vous a plu de le dire. […] Ce que je veux, c'est que vous lisiez les lignes qui précèdent, ce qui n'est pas facile, j'en conviens. » (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 649)

177 No original: « J’ai maintenant à examiner l'outrage à la religion. L'outrage à la religion commis par

Dito de outra maneira, para que haja ironia, um significado precisa ter seu valor invertido ou alargado, visto que se finge dizer uma coisa para dizer exatamente o oposto. Essa figura, então, intensifica seu sentido e pathemiza o interlocutor. Já para Coudreuse (2001), a ironia, quando utilizada como estratégia argumentativa, pode constituir-se uma ferramenta de desconstrução ou de resistência do pathos. Seu poder corrosivo serve, então, de arma privilegiada para atacar fundamentos éticos, estéticos e morais.

Ao anunciar que o romance Madame Bovary é “[...] a poesia do adultério! [...] a degradação do casamento [...] sua insipidez [...] Flaubert gosta de pintar e infelizmente as pinta bem demais.”178 (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p.

314), Pinard se reveste de ironia para incriminar a obra e seu autor, com o objetivo de desacreditá-los, de atrair a benevolência dos jurados e direcioná-los para o julgamento final. (BOUDOU, 2005). Sénard, por sua vez, também se vale da figura retórica da ironia para desestabilizar e desconstruir o discurso do adversário: “E, nas palavras por demais hábeis que ouvistes, restará somente em vossas lembranças um sentimento de admiração profunda por um talento que pode transformar tudo.”179 (SÉNARD, 1857

apud FLAUBERT, 2007b, p. 320)

A ironia de Sénard tem como objetivo inverter os enunciados pathéticos da acusação, transformando-os em falatório grotesco e ridículo. Assim, a cólera de Pinard se torna, nos enunciados de Sénard, algo caricatural. O que seria trágico para a Promotoria transforma-se em antítese cômica, em falso pathético. A ironia presente no discurso da defesa desbanca a suposta gravidade do caso analisado, quebra a tensão tanto do dito quanto do dizer. Nesse sentido, a ironia impõe uma quebra, mas também instaura uma pausa indispensável em uma situação tensa como a de um processo judicial. Para o discurso categorizado como preconceituoso e antipático de Pinard, a ironia serve como uma proposta de um discurso libertador e simpático de Sénard. Contra a exaltação de uma moral conservadora, de um discurso moralista, Sénard se vale da ironia para propor como antítese a exaltação da arte e da liberdade.

178 No original: « la poésie de l'adultère […] la souillure du mariage […] ses platitudes […] Flaubert

aime à peindre, et malheureusement il ne les peint que trop bien. » (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 628)

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No original: « Et, de la parole trop habile que vous avez entendue, il ne restera dans vos souvenirs qu’un sentiment d’admiration profonde pour un talent qui peut tout transformer. » (SÉNARD, 1857

Flaubert também tem sua opinião formada sobre a figura retórica da ironia. Para o romancista “a ironia não diminui o pathético, pelo contrário, ela o aumenta.”180

(FLAUBERT, 1980, p. 172). Flaubert demonstra valer-se frequentemente da ironia em seus romances e cartas como uma espécie de arma contra a infelicidade, o sofrimento e a dor e, por conseguinte, registra esses seus estados emocionais para também exorcizá-los: “Porventura não tenha visto que toda a ironia com a qual eu agrido o sentimento em minhas obras foi um grito de derrotado, a menos que seja uma canção de vitória.”181(FLAUBERT, 1980, p. 526). De qualquer forma, a ironia é vista

por Flaubert na sua relação com as paixões. Assim, a ironia funcionaria como um antídoto do pathos.

Retomando a segunda queda de Emma, temos que Sénard se vale da abundância do tema da religiosidade no romance para convencer o júri de que essa é uma das razões para não se incriminar Madame Bovary. Ao contrário, como essa temática é recorrente, ela acaba, segundo o advogado, por enaltecer não só a obra de Flaubert, como também a Igreja e seus preceitos. Seguindo o raciocínio da defesa, pergunta-se: como poderia Emma ser incriminada por desrespeito à religião se ela foi educada desde sua infância em um convento, se casou em uma cerimonia religiosa, confessou e comungou durante toda sua vida, batizou sua filha na Igreja e, no leito de morte, exigiu a extrema-unção? Sob essa perspectiva, a acusação de ultraje à religião se torna uma falácia.

Como próximo passo em sua estratégia, Sénard retira o foco sobre Emma e o coloca na própria educação religiosa que a sociedade francesa burguesa oitocentista recebe. Desse modo, o advogado tenta liberar Emma das severas críticas de Pinard, canalizando a atenção do júri para a educação religiosa de uma forma geral. Ele questiona a maneira pela qual as jovens mulheres são educadas e como os conhecimentos sagrados lhes são (re)passados. Com isso, Sénard visa suscitar, no seu auditório, emoções tais como a desconfiança, a suspeita e até mesmo o receio não só com relação a essas práticas educacionais religiosas, como também com relação ao discurso de Pinard, mostrando que o problema é social e não específico de uma personagem. A culpa, então, não é de Emma, e sim da forma com que se educam as jovens:

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No original: « […] l’ironie n’enlève rien au pathétique. Elle l’outre au contraire. »

181 No original: « N’as-tu pas vu que toute l’ironie dont j’assaille le sentiment, dans mes œuvres n’était

Há um tipo de religião que é aquela de que se fala geralmente às jovens e que é a pior de todas. [...] Quanto a mim, declaro claramente que não conheço nada de belo, de útil, de necessário para apoiar as mulheres no caminho da vida. [...] não conheço nada de mais útil e de mais necessário do que o sentimento religioso, mas o sentimento religioso grave e, permiti-me acrescentar, severo.182 (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 331-332)

Ainda segundo Sénard, as jovens que recebem essa educação repleta de faltas e falhas, não conseguem, ces pauvres enfants, se comportar de maneira adequada, exigida pela sociedade francesa cristã da época. Por essa razão, essas jovens acabam cometendo pequenos delitos, em nome do amor. Ao invés de ter na alma o sentimento de devoção a Deus, elas incorrem em sonhos, fantasias, devaneios. Para Sénard, esse descaminho, fruto da poesia, leva a pensamentos e a amores místicos que enganam as jovens, que sensualizam a religião. Essas pobres moças, naturalmente crédulas e frágeis, se agarram a tudo isso, em lugar de se apegar a algo sensato e severo. Destacamos a crítica moralista de Sénard à uma educação religiosa “deturpada de mil maneiras”, que acaba por pathemizar, de maneira equivocada, as jovens, arrastando- as para a perdição e que, justamente, por essa razão, é considerada, por ele, fraca e falha. Aos olhos de Sénard, Emma se encontra exatamente nesse grupo de mulheres.

Após ter defendido Emma da acusação de Pinard de ultraje à religião, Sénard, passa a defender Flaubert do mesmo crime. Como argumento, o advogado enaltece Flaubert e seu romance, mostrando aos presentes que o romancista escreve uma obra honesta e de cunho altamente religioso e educativo. A função de Madame Bovary passa a ser, nesse momento, a de advertir as jovens sobre os riscos que elas correm ao exaltarem sensual e sexualmente as coisas sagradas. A ideia sustentada pelo advogado é a de que todos, pais e filhas, devem ler Madame Bovary e nele buscar amparo na educação, valendo-se de um contraexemplo ou de um exemplo a não ser seguido – o de Emma Bovary:

É por isso que acusais Flaubert, é por isso que exalto sua conduta. Sim, ele fez bem em advertir assim as famílias sobre os perigos da exaltação nas moças que se agarram às pequenas práticas em lugar de agarrar-se a uma religião forte e severa

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No original: « Il y a une espèce de religion qui est celle qu'on parle généralement aux jeunes filles et qui est la plus mauvaise de toutes. Quant à moi, je déclare nettement ceci que je ne connais rien de beau, d'utile, de nécessaire pour soutenir les femmes dans le chemin de la vie […] je ne connais rien de plus utile et de plus nécessaire que le sentiment religieux, mais le sentiment religieux grave et, permettez-moi d'ajouter, sévère. » (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 649)

que as defenderia quando fraquejassem.183 (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 332-333)

Sénard afirma diversas vezes que Emma é culpada e punida por seus atos e, por isso, o romance de Flaubert é honesto, moral e religioso, pois mostra os malefícios de uma vida adúltera e pecaminosa. Ao concluir a defesa do romance e de Flaubert no quesito religiosidade, Sénard se dirige ao júri para acusar Pinard de calúnia: “Mas aqui está a obra por inteiro, que o tribunal a julgue, e ele verá que o sentimento religioso nela está tão fortemente gravado, que a acusação de ceticismo é uma verdadeira calúnia.”184(SÉNARD, 1957 apud FLAUBERT, 2007b, p. 348).

Passemos à terceira queda.

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