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METHODOLOGY

In document DECENTRALIZATION AND GENDER (sider 21-27)

Continuando a colorir os quadros lascivos e a criticar as quedas de Emma, Pinard descreve a relação adúltera da personagem com Léon Dupuis. Como foi dito anteriormente, a Revue de Paris suprimiu a cena do fiacre, por medo da censura. Flaubert, reagindo mal a esse corte, exige que a revista coloque uma nota de alerta em sua publicação sobre esse fato. Pinard percebe aí um momento propício para construir mais um de seus argumentos de acusação. O advogado, desconfiado, percebe, nessa supressão, o quanto a cena seria incriminatória. Ele se vale, então, do escrúpulo (artimanha?) da Revue, para pathemizar o público. Para tanto, ele traz para seu discurso as cenas subsequentes à do fiacre, tidas por ele como profanas e imorais. Tudo começa com os amantes saindo da Catedral – lugar sagrado, e entrando no fiacre – lugar profano, para, a partir daí, cometerem “o crime”:

Sabemos agora, Senhores, que a queda não aconteceu no fiacre. Por um escrúpulo que a honra, a Revue de Paris suprimiu a passagem da queda no fiacre. Mas se a

183 No original: « C'est pour cela que vous accusez Flaubert, c'est pour cela que j'exalte sa conduite.

Oui, il a bien fait d'avertir, ainsi, les familles des dangers de l'exaltation chez les jeunes personnes qui s'en prennent aux petites pratiques, au lieu de s'attacher à une religion forte et sévère qui les soutiendrait au jour de la faiblesse. » (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 650)

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No original: « Mais voici l'ouvrage tout entier, que le tribunal le juge, et il verra que le sentiment religieux y est si fortement empreint, que l'accusation de scepticisme est une vraie calomnie. » (SÉNARD, 1957 apud FLAUBERT, 1951, p. 668-669)

Revue de Paris baixa as cortinas do fiacre, ela nos deixa penetrar no quarto em

que eles se encontravam.185 (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 312)

Vemos, no discurso de Pinard, que, em relação à terceira queda de Emma, o que mais o incomoda é a supressão da cena do fiacre.186A promotoria levanta

suspeitas e acusa Flaubert de esconder passagens comprometedoras. O advogado retoma “literalmente” as cenas nas quais os amantes consumem recorrentemente o pecado da luxúria. A leitura em voz alta dessas passagens do romance é feita, evidentemente, com o objetivo de suscitar diversas emoções nos presentes, tais como a revolta, a repulsa, o desprezo por uma mulher que desobedece as leis morais da sociedade e mantem relações sexuais com seu amante em um quarto de hotel.

Pinard faz questão de mencionar que Charles, crendo na fidelidade de sua esposa, não desconfia de nada. Desse modo, a pintura da equivocada confiança de Charles em relação ao comportamento de Emma acaba por delinear a imagem de ambos – traído e traidora –, o que pode ocasionar uma série de emoções negativas naqueles que ouvem a acusação. Com isso, a promotoria busca, nas cenas do quarto, despertar pathemias tais como o desprezo, a antipatia e a raiva por Emma e a

compaixão, a piedade e a solidariedade por Charles. Entretanto, o tratamento dado

por Pinard a essa queda nos parece ser o mais frágil momento de seu discurso de acusação, visto que o Advogado Imperial se limita a ler integralmente os trechos do romance, chegando até mesmo a elogiá-los por sua beleza técnica, ainda que criticando a lascividade dessas cenas.

Sénard, por sua vez, ao retomar esse assunto no momento da defesa, discorda do Advogado Imperial e afirma que seu cliente não tem nada a omitir. Para sustentar seu argumento, Sénard lê, então, a integralidade da passagem suprimida pela Revue de

Paris em voz alta para todos os presentes na audiência de julgamento. Ao final dessa

leitura, Sénard se mostra colérico contra Pinard e lhe diz que “[...] em tudo o que

185 No original: « Nous savons maintenant, messieurs, que la chute n'a pas lieu dans le fiacre. Par un

scrupule qui l'honore, le rédacteur de la Revue a supprimé le passage de la chute dans le fiacre. Mais si la Revue de Paris baisse les stores du fiacre, elle nous laisse pénétrer dans la chambre où se donnent les rendez-vous. » (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 626)

186 Lembramos que o erotismo presente no romance liga-se ao princípio da inferência emocional de

censurastes não há nada de sério para ser mantido.”187 (SÉNARD, 1857 apud

FLAUBERT, 2007b, p. 328)

Continuando, ele acusa Pinard de exagerar e de querer policiar e até proibir qualquer descrição no romance: “Ora, pois! Toda descrição é então agora proibida?”188 (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 330). Sénard, para

descreditar o discurso de Pinard, acusa-o de não ter lido a obra corretamente e em sua totalidade: “Mas quando se incrimina, dever-se-ia ler tudo e o Sr. Advogado Imperial não leu tudo. O trecho que ele incrimina não se detém onde ele parou [de ler].”189

(SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 330). A defesa declara, de forma

pathemizada, que é muito fácil acusar uma obra de imoralidade expondo apenas

algumas passagens incompletas. Assim, nesse momento, ao contestar a acusação de Pinard, Sénard analisa a passagem supostamente incriminatória:

Entretanto, havia naquele rosto coberto de gotas frias, naqueles lábios balbuciantes, naquelas pupilas desvairadas, no abraço daqueles braços, algo excessivo, vago e lúgubre que parecia a Léon se colocar sutilmente entre ambos, como que a separá-los.190 (FLAUBERT, 1970, p. 213)

Como podemos depreender desse fragmento do romance de Flaubert, não há nada que demonstre lascividade e tampouco volúpia, mas sim, a sensação estranha de algo mórbido que vinha da própria Emma. Por essa razão, Pinard vê, mais uma vez, seu discurso enfraquecido pelo contra-discurso de Sénard.

Apesar de questionar a escrita de Flaubert em alguns momentos do requisitório, é Emma o principal alvo das mais duras críticas moralistas por parte do advogado de acusação. Durante todo o processo, temos, insistentemente, a sensação de que é Emma que está sendo processada, e não Flaubert, como se fosse possível, aceitável processar uma personagem de um romance. Cabe repetir, entretanto, que em

187 No original: « […] dans tout ce que vous avez reproché, il n'y a rien qui puisse se soutenir

sérieusement. » (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 645)

188 No original: « Eh quoi ! Toute description est donc interdite ! » (SÉNARD, 1857 apud

FLAUBERT, 1951, p. 646-647)

189 No original: « Mais quand on incrimine, on devrait tout lire, et M. l'Avocat impérial n'a pas tout lu.

Le passage qu'il incrimine ne s'arrête pas où il s'est arrêté ! » (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 647)

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No original: « Cependant il y avait sur ce front couvert de gouttes froides, sur ces lèvres balbutiantes, dans ces prunelles égarées, dans l'étreinte de ces bras quelque chose d'extrême, de vague et de lugubre qui semblait à Léon se glisser entre eux subtilement, comme pour les séparer. » (FLAUBERT, 1951, p. 549)

várias de suas passagens do requisitório, Flaubert parece ser até mesmo elogiado por Pinard:

Assinalo, aqui, duas coisas, Senhores, uma pintura admirável sob o ponto de vista do talento [...] Sim, o Sr. Flaubert sabe embelezar suas pinturas com todos os recursos da arte [...] Não há nele nenhuma gaze, nenhum véu, é a natureza em toda a sua nudez, em toda a sua crueza [...] É o mesmo colorido, a mesma energia do pincel, a mesma vivacidade da expressão!191 (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 303-318)

Sénard continua a dizer que é impossível que o romance de Flaubert desperte o gosto pelo adultério, que ele excite, de maneira “depreciativa”, os leitores e que neles suscite emoções inadequadas do ponto de vista moral, principalmente e sobretudo nas leitoras. Ao comentar a relação amorosa entre Emma e Léon, o advogado de defesa mostra que, ao contrário do que a acusação sugere, sua pathemia se liga muito mais à morte e muito menos ao erotismo. Sénard chama a atenção para essa passagem afirmando que “[…] havia qualquer coisa de lúgubre que se insinuava entre ambos para separá-los.”192 (FLAUBERT, 1970, p. 213). Daí as questões

retóricas por ele levantadas:

É aqui que é preciso perguntar: onde está o colorido lascivo? E onde está o colorido severo? Haverá algo análogo no que acabo de vos ler? Será que não existe aí, ao contrário [do que está sendo afirmado], uma incitação ao horror do vício? 193 (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 341)

Sénard opta por desconsiderar os aspectos eróticos da cena e prefere dar ênfase ao momento em que Emma reflete, melancolicamente, sobre sua relação com Léon, quando ela parece se dar conta de sua infelicidade, de seu erro: “[...] não era feliz, nunca o fora. De onde vinha, então, aquela carência de vida, aquela

191 No original: « Je signale ici deux choses, messieurs, une peinture admirable sous le rapport du talent

[…]. Oui, M. Flaubert sait embellir ses peintures avec toutes les ressources de l'art […]. Chez lui point de gaze, point de voiles, c'est la nature dans toute sa nudité, dans toute sa crudité ! […] Eh bien ! c'est la même couleur, la même énergie de pinceau, la même vivacité d'expression ! » (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 627-633)

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No original: « […] il y avait quelque chose de lugubre qui se glissait entre eux pour les séparer. » (FLAUBERT, 1951, p. 549)

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No original: « C’est ici qu'il faut se demander où est la couleur lascive ? et où est la couleur sévère ? […] Est-ce qu'il y a quelque chose d'analogue dans ce que je viens de vous lire ? Est-ce que ce n'est pas, au contraire, l'excitation à l'horreur du vice ? » (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 660)

decomposição instantânea das coisas nas quais ela se apoiava?”194 (FLAUBERT,

1970, p. 213). Esse pensamento de Emma, relatado pelo narrador, é utilizado pela defesa para, mais uma vez, mostrar que a personagem se arrependera do que fizera.

Voltando ao discurso da promotoria, vemos que Pinard repisa que Flaubert pinta o casamento com cores negativas, como algo ruim e, por conseguinte, acaba por enobrecer e exaltar o adultério. Sénard, rebatendo essa acusação, de maneira irônica, provoca Pinard dizendo-lhe que qualquer leitor, com o mínimo de atenção, conseguiria perceber que não é essa a intenção do autor. Ele explica que Flaubert não quis, em momento algum, depreciar a instituição do casamento ao utilizar a expressão

les platitudes du mariage. Segundo ele, o romancista busca, ao contrário, exaltar a

virtude mostrando os horrores do vício:

Que foi que o autor chamou de insipidez do casamento? Essa monotonia que Emma temera, da qual desejara fugir e que reencontrava continuamente no adultério, era precisamente a desilusão. Portanto, vedes perfeitamente que quando, em lugar de se cortar frases e palavras, lê-se o que precede e o que segue, nada mais há pra ser incriminado; e compreendereis muito bem que meu cliente, que conhece sua maneira de pensar, deve estar um pouco revoltado ao vê-lo assim desvirtuado.195 (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 343)

Sénard finaliza sua defesa dessa terceira queda de Emma resumindo, metadiscursivamente, essa parte do processo. Mostrando-se emocionado, ele reclama da postura da promotoria, classificando-a como baixa e inócua, sempre preocupada em diminuir o valor da obra, em ofender a personagem e seu autor, não trazendo nada de relevante e de construtivo para a discussão.

Cabe ainda lembrar, a respeito do último excerto, a menção que é feita ao estado pathêmico de Flaubert face ao discurso da promotoria: ele deveria, certamente, estar revoltado com tais acusações que iam na contramão de sua maneira de pensar. Sénard, estrategicamente, diz estar pronto para se opor somente às apreciações dignas desse nome e que não se dispõe a rebater as acusações pathéticas do Ministério Público. A seguir, a quarta e última queda.

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No original: « […] elle n'était pas heureuse, ne l'avait jamais été. D'où venait donc cette insuffisance de la vie, cette pourriture instantanée des choses où elle s'appuyait ? » (FLAUBERT, 1951, p. 550)

195 No original: « Qu'est-ce que l'auteur a appelé les platitudes du mariage ? Cette monotonie qu'Emma

avait redoutée, qu'elle avait voulu fuir, et qu'elle retrouvait sans cesse dans l'adultère, ce qui était précisément la désillusion. Vous voyez donc bien que quand, au lieu de découper des membres de phrases et des mots, on lit ce qui précède et ce qui suit, il ne reste plus rien à l'incrimination ; et vous comprenez à merveille que mon client, qui sait sa pensée, doit être un peu révolté de la voir ainsi travestir. » (SÉNARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 663)

In document DECENTRALIZATION AND GENDER (sider 21-27)