4. THEORETICAL FRAMEWORK
4.2. The social rift
Sendo o tempo disponível para o lazer um bem muito apreciado, independentemente das razões pelas quais cada um o valoriza, a verdade é que ele não chega a todas as pessoas de igual modo, mesmo em contextos geográficos e socioeconômicos que podem ser comparáveis.
Por exemplo, entre os cidadãos da União Europeia o tempo livre das mulheres é invariavelmente inferior ao dos homens (Eurostat, 2008). Mais especificamente, a média diária desse tempo pode variar entre as menos de 4 horas de uma mulher búlgara ou lituana até às quase 6 horas de um homem alemão, belga ou finlandês (Quadro 2).
Países Homens Mulheres
Alemanha 5h 42m 5h15m Bélgica 5h58m 5h06m Bulgária 4h 46m 3h47m Eslovênia 5h31m 4h27m Espanha 5h16m 4h26m Estónia 5h02m 4h18m Finlândia 5h56m 5h12m França 4h44m 4h05m Hungria 5h29m 4h38m Itália 5h05m 4h06m Lituânia 4h47m 3h45m Polônia 5h20m 4h32m Reino Unido 5h22m 5h55m Suécia 5h18m 4h57m
Quadro 3 - Disponibilidade de tempo livre, em alguns países da União Europeia, dos residentes com idades entre 20 e 74 anos (2003/2006)
Nota: Os países não referidos têm informação omissa na tabela original Fonte: Eurostat (2008)
A mesma ideia de diversidade prevalece quando se analisa a propensão dos europeus para participarem em viagens turísticas com alguma expressão, propensão essa aqui avaliada, para os cidadãos com 15 ou mais anos, através da realização de pelo
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menos uma viagem anual com estada mínima de quatro noites. De fato, é notória a diferencia entre mais de 80% de alemães que validam esta condição, por oposição aos apenas 17% - 18% de búlgaros, letões ou romenos (quadro 3). E a diferença é mais expressa quando se restringe a análise a viagens internacionais: de 2% a 3% até 50%.
Países Qualquer viagem Apenas viagens internacionais
Alemanha 81% 50% Austria 62% 10% Bélgica 46% 34% Bulgária 18% 3% Dinamarca 64% 42% Eslovência 60% 38% Espanha 44% 5% Estónia 23% 14% Finlândia 57% 15% França 61% 5% Grécia 44% 5% Holanda 68% 25% Hungria 35% 8% Itália 49% 7% Lituania 26% 20% Luxemburgo 49% 49% Polônia 33% 6% Portugal 27% 5% Reino Unido 60% 30% República Checa 51% 13%
Quadro 4 - Os Países não referidos tem Informaçao Omissa na Tabela Original Fonte: Eurostat (2008)
Uma das formas possíveis de classificar as práticas de lazer resulta do cruzamento entre as suas tipologias e a extensão temporal que exigem ou que, pelo menos, lhes é característica. Cravidão (1996) releva que à extensão temporal das práticas (ou, noutra perspectiva, aos ciclos temporais de acesso ao lazer) se pode ligar, também uma abrangência territorial apropriada (Quadro 4)
Quadro 5 - Tipologias e a Extensão Temporal Fonte: Adaptado de Cravidão (1996).
Tempo Espaço Durante o dia Fim de semana Fim de ano(férias) Vida pós-ativa Alcance imediato
Alcance médio Alcance longo
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Para além do conteúdo especifico de cada célula da matriz, matéria em permanente evolução, o estudo releva que as práticas têm um sentido progressivo, isto é, o que se pode fazer num ciclo temporal mais limitado também pode ser levado à prática nos ciclos temporais mais alargados.
Sendo esta uma constatação que, em regra, se válida, cumpre assinalar que há práticas – por exemplo, ver televisão – que, podendo ser aplicáveis em todos os ciclos, acabam por ser mais características das atividades regulares do dia a dia ou fim de semana, até porque, nas férias, não raro se procura, justamente, a fuga a todas as rotinas do cotidiano, incluindo as que se relacionam com o lazer.
Por outro lado, a vida pós-ativa é uma realidade diferente, porquanto configura uma disponibilidade de tempo para o lazer de maior dimensão e não sujeita a
“momentos de oposição”, o que faz toda a diferença nas opções de prática (Douglas,
2004; Veal, 2006).
Mas, para além de qualquer forma de sistematização das práticas de lazer e turismo, o que se pretende salientar neste trabalho é a crescente importância do território na sua viabilidade e concretização. Não sendo este o espaço adequado para debater o conceito de território, tomemo-lo como um espaço de pertença de uma comunidade, a fusão entre uma base física e as transformações que a ocupação humana lhe foi acrescentando. Assim entendido, o território expressa-se através da sua dimensão visual
– a paisagem, com todos os elementos naturais e construídos que a compõem, bem
como as suas interações, mas também através da dimensão imaterial que a cultura lhe acrescenta.
Em todo o mundo, e Portugal não é exceção, a maioria das pessoas vive em espaço urbano. Como essa maioria é ainda expressiva se pensarmos apenas no grupo que tem acesso às práticas formalizadas de lazer, é fácil arriscar que essa é a maior marca das suas vidas e dos seus lazeres (Crouch, 2006; Hall &Williams, 2008).
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A prevalência da população urbana – também aquela para quem a partição dos tempos de vida é mais sentida e, consequentemente, assume a existência de um tempo de não – trabalho, que se pode e quer utilizar – significa que as atividades diárias de lazer se dividem entre o espaço doméstico, ou seja, o não-espaço em termos de planejamento e gestão pública, e alguns pontos focais onde se localizam os meios necessários a determinadas práticas de lazer (Crouch, 2006).
Ainda que se reafirme a nossa não - pretensão de elencar e sistematizar as práticas de lazer atuais, crê-se que é possível identificar algumas referências que as marcam. Assim, e no que respeita aos lazeres praticados em ciclos de curta duração, estes apresentam-se com três fortes características:
uma tendência para o privilégio de espaços interiores, muitas vezes privados,
com reforço das atividades no lar;
uma outra para a especialização, não raro sofisticada, dos lugares e equipamentos que os suportam:
Nos lazeres domésticos, cujo desenvolvimento em muito se deve às característica do meio e modo de vida urbano – meio que se apresenta, entre outra coisas, com i) forte densidade de ocupados, ii) manifestações da insegurança, iii) vandalização dos equipamentos públicos, iv) irregularidade das agendas dos cidadãos e v) ineficiência dos servidores de transporte -, a sofisticação passa pela indispensabilidade de múltiplos equipamentos, sobretudo nos domínios da eletrônica e informática (televisão, vídeo/DVD, computador pessoal, consolas de jogos, etc.).
Nos lazeres em espaço público, a exigência dos novos consumidores conduz uma diferenciação dos recintos e das práticas (muito para além das atividades espontâneas nos espaços de vizinhança), o que, por sua vez, implica o redimensionamento do mercado e o alargamento das áreas
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de influência destes territórios e equipamento do lazer, pressupondo frequentes e, não raro, penosas deslocações, que se constituem como mais um fator que favorece a preferência pelos lazeres domésticos:
e, por fim, uma crescente organização/indução dos atos de lazer, os quais passam
também a ser de consumo, aspecto que se traduz, de forma muito particular, no grande sucesso dos centros comerciais. Os lazeres lúdicos -comerciais são, talvez, a expressão mais óbvia das atividades de recreio “prontas e consumir”, dado o seu caráter muito organizado e o interesse econômico que lhe subjaz. São, também, espaços multifuncionais, mas onde tudo tem um sentido lógico, antecipado e direta ou indiretamente produtivo.
As atividades de lazer não regulares acabam por evidenciar outras consequências do modo de vida urbano, uma vez que este, ao condicionar muito a organização do dia a dia, promove, por oposição, um desejo de evasão e de contacto com o ambiente natural. Esse desejo é também escorado, para muitos, no retorno às referencias rurais e, para outros, na aproximação às causas de ecologia e da sustentabilidade, tema abordado nesse trabalho que tomaram conta das nossas vidas.
Pese embora estas opções de lazer também poderem ser concretizadas em espaços de proximidade, há um conjunto de razões que favorecem a sua ligação com as viagens turísticas, como sejam (Hall & Williams, 2008; Smith, 2009).