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3. SOCIAL RELATIONS OF POVERTY

3.2 Social Networks and Coping Strategies

As propostas de Jânio para estabelecer relações com os países do bloco socialista durante sua campanha presidencial enquadravam-se num campo hipotético, senão teórico. Ao assumir a presidência e entrar em exercício, a teoria tentava a todo o custo se transformar em prática. Para a TIME, a política independente de Jânio parecia se basear em dois pontos. O primeiro, numa independência na tomada de decisões no plano diplomático e comercial em relação aos Estados Unidos. O segundo, derivado do primeiro, a aproximação significativa com os países socialistas. Neste último ponto, havia um tripé: Cuba, URSS e China. O tema cubano se relacionava diretamente a questão da autodeterminação dos povos, ponto nevrálgico das contradições dos EUA. A relação com a URSS se pautava numa independência tanto econômica como política. Por último, a China significava a mais frontal das ofensivas. A defesa contumaz de sua admissão na ONU deixava Jânio cada vez mais “vermelho” nas páginas da TIME. Ele próprio “esposava a tese de que a República Popular da China tornar- se-ia, no limiar do ano 2000, a maior potência capitalista mundial, ultrapassando a posição de liderança dos Estados Unidos. Sou o Marco Polo da política externa, dizia, pois abrirei a

China ao Brasil.”438

Em março de 1961, a política externa de Jânio já era do conhecimento da TIME, e em relação a ela passou a se posicionar de forma crítica, irônica e, às vezes, severa. Jânio passou ser tratado como um presidente que operava um jogo muito perigoso “jogava o leste contra o oeste”. O anúncio de que apoiaria a admissão da China na ONU representou a primeira cartada de Jânio. Isso significava que havia uma espécie de discordância com as propostas norte-americanas.

Obviamente jogando o Leste contra o Oeste, o Presidente Jânio Quadros dramaticamente anunciou na semana passada que na próxima Assembleia Geral da ONU o Brasil vai votar a favor da admissão da China Vermelha. Caracteristicamente, Jânio guardou sua carta na manga - caso realmente favoreça a admissão de Pequim na ONU. Todavia, o seu aval no debate desse turbulento assunto, acabou fazendo do Brasil o primeiro país do hemisfério, além da Cuba de Fidel Castro, a sobrepor a política dos EUA em relação à China. Tendo contrapartida do Brasil, a maior nação da América Latina, o movimento de Jânio pode tornar ainda mais difícil para os Estados Unidos a sua maneira de manter as demais repúblicas na linha.439

438BARBOSA, op cit., p. 253

439Obviously playing East against West, President Jânio Quadros dramatically announced last week that in the

next U.N. General Assembly, Brazil will vote in favor of debating the admission of Red China. Characteristically, Jânio held back his hole card — whether he actually favors Peking's admission to the U.N. But even his endorsement of debate on the stormy issue makes Brazil the first hemisphere country outside Castro's Cuba to buck U.S. policy on China. Coming from Latin America's biggest nation Jânio's move might

O debate que se pautava sobre a admissão da China tinha como pano de fundo a evidente emergência de uma segunda liderança latino-americana, Jânio, neste caso, se juntou a Fidel. Sempre preocupada com a dimensão geográfica do Brasil, a TIME reconhecia o tamanho do país e, de forma análoga, o tamanho dos problemas que poderia causar aos EUA, principalmente no que dizia respeito a influência em relação ao restante do continente.

Naquele mês, Jânio passou a apoiar abertamente a inclusão na agenda da XVª Assembleia-geral da ONU o debate acerca do credenciamento da República Popular da China, “que há mais de dez anos estava sendo bloqueada pelos Estados Unidos e que a imprensa americana considerou como mais uma prova do distanciamento do Brasil de sua política ocidental tradicional.”440

A TIME sugeriu que, em protesto a um pequeno empréstimo feito ao Brasil – entendido como uma esmola –, Jânio acabou revelando a sua posição em relação a China. Ao modo de Jânio, sua recusa ao empréstimo tinha também como propósito dar publicidade positiva a ele mesmo

O estratagema chinês de Jânio veio apenas cinco dias após o embaixador dos EUA, John Moors Cabot ter repassado a oferta de créditos paliativos do presidente Kennedy - aproximadamente US$ 100 milhões - para ajudar o Brasil durante este momento de crise econômica. (...) Apesar da necessidade urgente de seu país, não apenas Jânio recusou publicamente a oferta de Kennedy, como também passou a ter relações diplomáticas com os governos de satélites como a Hungria, Romênia e Bulgária e insinuando que ele está planejando fazer o mesmo com a União Soviética.441

A retomada das negociações com os países da “cortina de ferro” corroboraram as ideias propagadas pela TIME, as relações com a URSS foram tratadas como insinuantes, ou seja, além de tudo, o governo Quadros era um governo provocador. Tais ações continuaram intrigando a revista. A opinião de analistas de Washington e do Brasil (cujos nomes não foram citados) indicava para uma interpretação de que tais ações não mereciam tanta atenção assim.

Entre os velhos observadores das ideias de Quadros, tanto em Washington como em Brasília, as ações de Jânio produziram mais descaso do que alarme. As razões de

well make it more difficult for the U.S. to hold the other republics in line. Time Magazine: Brazil: Wheeling &

Dealing – 03-03-1961.

440BARBOSA, loc. cit.

441Jânio's China ploy came only five days after U.S. Ambassador John Moors Cabot had relayed President

Kennedy's offer of stopgap credits — reportedly $100 million — to help tide Brazil over its economic crisis. (…) Despite his nation's urgent need, Jânio not only failed to acknowledge Kennedy's aid offer publicly, but went on negotiating diplomatic ties with the satellite governments of Hungary, Rumania and Bulgaria and hinting that he planned to do the same with the Soviet Union. Time Magazine, loc. cit.

Jânio, segundo o que acreditam os especialistas, são três: 1) um sincero desejo de tornar o Brasil mais "independente" em nível internacional, 2) a convicção de que para manter a confiança dos eleitores da esquerda ele precise demonstrar neutralidade, 3 ) uma profunda suspeita de que mesmo nestes dias de "desinteresse" pelos programas de ajuda externa (...) Praticamente é certeza que Jânio tire proveito de algum resultado positivo desse seu flerte com os países do bloco comunista, fato que favorecerá ainda mais os pedidos de ajuda à Kennedy para o Brasil.442

Não duvidando de algum fruto que pudesse ser gerado das relações com os países socialistas, a TIME atribuía a essa estratégia algo muito ingênuo e desnecessário. Para a revista, tais provocações, que tinham como pano de fundo, pedidos de ajuda econômica a Kennedy revelavam uma ingenuidade ainda maior de Jânio, a menos que Kennedy concordasse com elas.

Por outro lado, em maio de 1961, os chineses decidiram estreitar os laços com o Brasil e enviaram uma missão comercial para visitar algumas das principais cidades brasileiras, dentre elas São Paulo, Recife e Porto Alegre. A empresa comunista parecia afrontar a capitalista no próprio território do capitalismo. Nada mais desconfortável para os ideólogos do Século Americano. O interesse chinês com essa visita foi, num primeiro momento, a indústria de couros – uma espécie de reconhecimento do território. Além do que também estavam muito interessados “no potencial agrícola do Rio Grande do Sul, que em pouco tempo se transformaria em grande produtor de soja.”443

442Among veteran observers of the Quadros mind, both in Washington and Brasilia, Jânio's actions produced

more resigned shoulder shrugging than alarm. Jânio's motives, the experts believe, are threefold: 1) a sincere desire to make Brazil more "independent" internationally, 2) the belief that to hold the allegiance of Brazil's left- wing voters he must make a show of "neutralism," 3) a profound suspicion that even in these days of "disinterested" foreign aid programs (…) Almost certainly Jânio hopes that at least an incidental result of his diplomatic flirtation with Communist nations will be whopping increases in Kennedy's proposed aid to Brazil. Time Magazine, loc. Cit.