Antes tido como um presidente progressista, o qual extraia da TIME grande alívio por não se identificar com os comunistas e nacionalistas, Kubitschek acabou recebendo uma dura crítica da revista. Para a TIME, ele era o principal responsável pelo difícil momento econômico pela qual passava o Brasil e deixando para o seu sucessor, o eleito Jânio Quadros, um legado de infortúnios, título da matéria publicada em dezembro de 1960.
Segundo TIME, os últimos cinco anos do governo de Juscelino foram marcados pelos gastos e principalmente pela construção de Brasília, um empreendimento ousado devido a sua edificação em pleno interior do país. Esse tipo de investimento foi duramente criticado pela revista como a verdadeira marca da ingerência e do desperdício. Quadros vencera, e Lott estava afastado. O espectro de Goulart causava incômodo à revista.
A TIME passou a levantar dúvidas em relação às condições de Jânio para governar, foram destacados, nessa matéria, os números negativos da gestão Kubitschek conforme trecho abaixo:
Cinco anos atrás, o presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek, abriu as fechaduras dos cofres do tesouro nacional e arrancou de lá um punhado de cruzeiros limpando-o completamente. Ele construiu a nova capital Brasília; desenvolveu uma indústria automobilística produzindo cerca 140.000 veículos por ano; aumentou o produto interno bruto para uma média de 6% ao ano; aumentou a produção de aço e a produção de energia. Tal jornada lhe custou muito caro: como Kubitschek se prepara para deixar o Palácio da Alvorada em Brasília, no cofre do tesouro ele deixa uma verdadeira caixa de Pandora de problemas fiscais para o novo Presidente Jânio Quadros.408
Durante a campanha, Jânio não poupou o governo anterior com suas críticas. Atacou a corrupção do governo Kubitschek, a inflação que seria herdada pelo seu sucessor, o alto custo de vida, o desperdício com a construção de Brasília e a “futilidade da imagem do presidente voador.”409 Quadros não se opunha ao projeto da construção de Brasília, na
verdade suas críticas se preocupavam “com o critério adotado na aplicação dos recursos da nova capital considerando que: a primeira necessidade do Estado é que o governo aplique
408 Five years ago Brazil's President Juscelino Kubitschek unlocked Brazil's treasure chest, hauled out fistfuls of
cruzeiros and headed west, into the empty interior. He covered a lot of ground — establishing the new capital of Brasilia, creating an auto industry turning out 140,000 vehicles a year, increasing the gross national product an average of 6% a year, increasing steel production and power output. The trip was expensive: as Kubitschek prepares to clear out of Brasilia's Palace of the Dawn, the chest he leaves is a Pandora's box of fiscal troubles for incoming President Janio Quadros. Time Magazine, loc. cit.
409 BENEVIDES, Maria Vitória. A UDN e o Udenismo – ambiguidades do liberalismo brasileiro. Rio de
com honestidade o seu dinheiro.”410 A TIME ao criticar Juscelino e ao apresentar um legado
de infortúnios para Jânio, expõe uma visão de que a situação tanto política e econômica do Brasil não mudaria muito nos anos seguintes. Nesse sentido, Jânio Quadros poderia ser um presidente intermediário.
No trecho seguinte, a revista não poupou Kubitschek, o ex-presidente era responsabilizado pela forte emissão de moeda para cobrir as despesas de final de ano. A inversão de créditos da balança comercial brasileira chamou a atenção da revista, haja vista que o gasto em dólares praticamente dobrou jogando o país numa indigesta dívida externa:
No mês passado, Kubitschek emitiu cerca de 4,4 bilhões de cruzeiros e provavelmente irá adicionar mais 10 bilhões este mês para atender as despesas de final de ano. O total de dinheiro em circulação: 194 bilhões de cruzeiros - quase três vezes a quantidade quando Kubitschek assumiu o cargo. Os gastos do Brasil em empreendimentos aumentaram a dívida interna mais do que cinco vezes e mais que o dobro da dívida externa. Como resultado, a balança comercial despencou de um superávit de US $ 194 milhões em 1956 para déficit de até $ 283 milhões nos anos seguintes.411
Kubitschek deixava não apenas um legado de inflação, mas um legado de dívidas. A revista TIME destacou o pedido de socorro do Brasil ao FMI no qual incluía o pedido de moratória e a venda de títulos do Banco do Brasil, cujo resgate seria feito no início do governo Quadros.
Para conter a inflação e livrar a economia do colapso, Kubitschek precisa equilibrar contas o mais rápido possível. Com as reservas curtas há dois meses e confrontado com um prazo de seis meses para amortizar 87,7 milhões dólares tomados de empréstimos do Export-Import Bank e do FMI, o Brasil pediu uma moratória de seis meses – no entanto, o próximo governo terá de retomar os pagamentos.412 Para
atender a demanda interna por dólares, o Banco do Brasil iniciou recentemente a venda (com desconto) de certificados em dólares para entregar no prazo de 90 dias. O primeiro lote de US $ 80 milhões deve ser resgatado em dólares a partir 01 de fevereiro, um dia depois da posse de Jânio Quadros.413
410 CHAIA, op. cit., p. 177.
411 Last month Kubitschek's money presses clanked out 4.4 billion cruzeiros worth ½¢ U.S. each, will probably
add another 10 billion this month to meet year-end expenses. Total money in circulation: 194 billion cruzeiros — nearly three times the amount when Kubitschek took office. Brazil's builder-spender increased the internal debt more than five times, more than doubled the foreign debt. As a result, the balance of trade has slumped from a $194 million surplus in 1956 to deficits as high as $283 million in the succeeding years. Time Magazine, loc. cit.
412 To keep the inflation-ridden economy from collapsing, Kubitschek must juggle his debts faster and faster.
Caught short of dollars two months ago and faced with a six-month, $87.7 million repayment installment to the Export-Import Bank and the International Monetary Fund, Brazil arranged a six-month payments moratorium — but the next Brazilian administration will have to resume payments. Time Magazine, loc. cit.
413 To meet the internal demand for dollars, the Bank of Brazil recently started selling (at a discount) certificates
for dollars deliverable within 90 days. The first batch of $80 million must be redeemed in dollars beginning Feb. 1, the day after Quadros' inauguration. Time Magazine, loc. cit.
Kubitschek também projetou números fictícios para o orçamento do ano seguinte. A
TIME denomina como “imaginária” tal projeção. Dentro dessa perspectiva, a imagem que se passa ao público leitor da revista é a de que o Brasil, pelo menos com o governo de Juscelino, prosseguiu a linha do improviso, do jeitinho brasileiro.
O mais grotesco legado que Quadros recebe de Kubitschek é o orçamento para 1961, apresentado na semana passada. Subestimando em demasia as despesas e conjurando uma renda imaginária, a equipe de assistentes (mágicos) que preparam o orçamento de Kubitschek, criaram um superávit fictício e estimado em 520 milhões de cruzeiros. 414Esse "excedente" durou apenas até o momento em que Congresso se
reuniu para considerar o assunto e acrescentar mais de 1.000 emendas (entre elas: os deputados dobraram seus salários, votaram neles mesmos para o direito de terem quatro viagens de ida e volta ao Rio por mês e com todas as despesas pagas). 415Na
jovial administração que virá, Quadro terá que reduzir gradualmente o monstruoso orçamento para baixo com medidas impopulares (...).416
O trecho acima encerra uma reportagem de cunho pessimista em relação futuro do Brasil daquele momento, não havia nada de positivo a se esperar. O presidente Quadros já estava eleito e dele as poucas referências advinham de suas administrações anteriores. Ao longo de 1960, a revista TIME acompanhou a movimentação eleitoral no Brasil sem esconder sua preocupação em relação aos dois principais candidatos que traziam consigo os espectros do antiamericanismo.
A proposta de ultrapassar as fronteiras levando o Século Americano aos demais países do mundo não se caracterizava apenas pela difusão de valores. Era necessária também a penetração do capital, seja através da instalação de novas empresas (investimentos) ou pela ajuda financeira (empréstimos). Tais ações, caso sofressem algum tipo de ameaça, deveriam ser protegidas. A TIME, por meio de suas publicações realizou esse empreendimento.
Jânio Quadros foi um espectro muito observado. Suas ambiguidades e contradições dificultavam não apenas as interpretações da TIME, mas de todos aqueles que o cercavam, fossem inimigos dele ou não – Lacerda foi um exemplo disso. O slogan “Jânio vem aí” ainda não havia concluído sua função, era necessária a posse do presidente e o efetivo exercício de suas funções. A TIME estava segura do legado que Jânio herdaria, os infortúnios de Juscelino seria debitados nos anos seguintes. As contas que deveriam ser pagas dependeriam de
414 Quadros' most grotesque legacy from Kubitschek is the outgoing President's 1961 budget, presented last
week. By vastly underestimating expenses and conjuring up imaginary income, Kubitschek's budget wizards produced a fictitious surplus, estimated at 520 million cruzeiros. Time Magazine, loc. cit.
415 Even that "surplus" lasted only until Congress met to consider the matter and added more than 1,000
amendments (among them: deputies doubled their living allowances, voted themselves four all-expense round trips to Rio every month). Time Magazine, loc. cit.
416 In the blithe realization that it will be Quadros who will have to whittle the monster budget down to
recursos internos e, principalmente, externos. Kennedy, que também estava chegando, havia prometido apoio. Do outro lado, estava a Nova Fronteira e nela Jânio Quadros. As reportagens de 1960 tiveram uma preocupação teórica, abstrata e ansiosa com a figura de Jânio Quadros. Durante os primeiro seis meses de 1961, a teoria e a expectativa geradas nos anos anteriores pareceram se confirmar na prática, é o que veremos no próximo capítulo.
I
MAGENS–C
APÍTULO3
Imagem 01: Quadros & Lacerda (09-03-1959)
New look at a dirty old enemy.
Um novo olhar naquele velho e sujo inimigo.
Imagem 2: War Minister Lott (06-04-1959)
The conditions permitted him to go.
Imagem 3: Sukarno & Kubitschek at Brasília (01-06-1959)
“I feel like imitating you”
Me sinto igual a você.
Imagem 4: Quadros & Israel’s Bem-Gurion (17-08-1959)
Ticklers at every stop.
Imagem 5: Candidate Lott (17-08-1959)
Medals on every stump.
Medalhas em cada braço
Imagem 6: Candidate Quadros (14-12-1959)
Derailed by a weight lifter.
Imagem 7: Marshal Lott (21-12-1959)
An image of a fair, judicius man.
A imagem de um homem sensato e justo.
Imagem 8: Founder Julião with Peasant Leaguers (11-01-1960)
He walked 20 miles and took a left turn.
Imagem 9: Candidates Lott & Goulart (29-02-1960)
Old enough to vote.
Com idade suficiente para votar.
Imagem 10: Candidate Quadros (28-03-1960)
The addball ralled left.
Imagem 11: The Candidate Lott (28-03-1960)
The chilly one got hot.
O frio ficou quente.
Imagem 12: Candidate Lott’s Daughter (11-07-1960)
Yankee-baiting with a smile.
Imagem 14: Commuting to Rio (25-07-1960) Pendulares do Rio de Janeiro
With a pistol at the engineer’s head.
Com uma pistola na cabeça do engenheiro.
Imagem 15 – Goulart, Campos e Ferrari. (29-08-1960)
Everybody wants to play piggyback.
Imagem 16 – Adhemar de Barros (12-09-1960)
“All I’ve got is the city treasury.”
"Tudo que eu tenho é o tesouro da cidade."
Imagem 17 – Candidate Lott (03-10-1960)
Catching chameleons. Pegando camaleões.
Imagem 18 – Candidate Quadros
Brushing the dandruff.
Escovando a caspa.
Imagem 20 – Vice President-elect Goulart
Humble pie in the sky
(Demonstrando humildade)