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4. SUMMING UP

4.4 Future Prospects

Diante de uma proposta de política externa cada vez mais aguda e ‘ameaçadora’ aos EUA, era necessário tomar algumas providências em relação ao novo governo do Brasil. Como sempre, o diálogo era a primeira alternativa. Um nome surgiu nesse ínterim para tal missão, o de Adolf Augustus Berle Jr.

Kennedy, durante sua campanha, havia formalizado um grupo-tarefa para tratar de assuntos latino-americanos, todos eram funcionários do Departamento de Estado e eram liderados pelo Embaixador Berle Jr. O grupo contava com nomes expressivos, tais como Lincoln Gordon, da Harvard Business School, Tomas Mann, Secretário Assistente para Assuntos Interamericanos, entre outros como Theodore Achilles, Arturo Gonzales Carrion e William Bundy, do Departamento de Defesa.444

Aos 66 anos de idade, o ex-embaixador norte-americano no Brasil entre 1944 e 1945, Berle retornava ao país no qual tinha estado pela última vez em 1956 para a cerimônia de posse de Kubitschek. A visão política de Berle, segundo Barbosa (2007), “...ainda era baseada em uma América Latina dócil e conformada com o alinhamento automático com os Estados Unidos, no espírito da política da boa vizinhança de Franklin D. Rooselvelt, iniciada na

década de 1930 e que se alongara durante os anos 1950”.445 Ele não sabia que em 1961 “a

realidade e os personagens, entretanto, eram outros.”446

A imagem de Quadros como um presidente arrogante apareceu nas reportagens sobre o Brasil em março de 1961. As propostas de ajuda eram oferecidas de forma generosa pelo presidente Kennedy, no entanto Jânio desdenhava a ajuda ao mesmo tempo em que precisava dela: “As propostas de Kennedy para ajudar a América Latina receberam do novo presidente do Brasil, Jânio Quadros, um breve aceno”.447

Qual era o conteúdo da proposta da visita de Berle? O enviado de Kennedy tinha como meta formal conhecer Jânio pessoalmente, além de “manifestar-lhe o interesse do seu governo pelas diretrizes da política externa e pelos esforços de saneamento econômico suscetíveis a aceitarem o apoio dos Estados Unidos.”448 Todavia, segundo Barbosa, outras

intenções estavam por trás da visita, uma delas era a política brasileira com Cuba, ou seja,

444BARBOSA, op cit, p. 113 445BARBOSA, op cit, p. 113 446Ibid., ibidem.

447Kennedy's Latin America troubleshooter, got a small hello from Brazil's new President Jânio Quadros. Time

Magazine, Brazil: Insult To Injury – 17-03-1961

Berle “tencionava averiguar quais as possibilidades de modificá-la, à luz dos planos de invasão programada para o início do mês de abril.”449 Era de suma importância convencer o

Brasil de sua participação “numa eventual força multinacional de paz para evitar a explosão comunista na América Central.”450 Neste caso, tratava-se de uma visita muito delicada, sem

margem para muitas falhas, segundo Barbosa, “ensaiava-se diluir a responsabilidade norte- americana nos planos de intervenção armada em Cuba com participação dos efetivos militares de países da América Latina. Berle, evidentemente, tinha conhecimento do projeto de invasão e de suas nefastas consequências se o mesmo viesse a falhar.”451 Se de um lado Jânio era visto

como “excêntrico”, “egocêntrico”, “messiânico”, “autoritário”, no caso da visita de Berle ao Brasil, um novo adjetivo era somado à lista - e que para a revista se encaixava perfeitamente na figura de Jânio -, o de mal-educado. O constrangimento gerou impactos até mesmo no chanceler Afonso Arinos

Mas, de acordo com a história que vazou na semana passada por fontes diplomáticas, ele foi ainda mais rude do que se esperava. Berle não foi capaz de obter o apoio do Brasil para uma frente unida da América Latina contra a Cuba de Castro. Ao final da inútil discussão, Berle estendeu a mão para dizer adeus. Quadros se recusou a apertá-la. O chanceler Afonso Arinos não conseguiu esconder o ar consternado, Quadros nitidamente virou as costas para o porta voz especial do presidente dos EUA.452

Em torno desse constrangedor momento, houve rumores nos quais Jânio teria “reagido com veemência às ideias de Berle, que Moors Cabot, ao sair do Gabinete presidencial, visivelmente constrangido, confundiu-se e teria adentrado num armário, pensando ser a porta de saída.”453 Segundo Barbosa:

“A Time Magazine chegou a publicar que lhe teria sido recusado um aperto de mão no momento da despedida. Tais rumores foram prontamente desmentidos por porta- vozes do Palácio do Planalto e do Itamaraty, sem alcançar os resultados desejados. Pelo seu lado, Quadros afirmou que a reunião tinha sido cordial, seguindo regras da cortesia internacional. “Repeli-o” – disse Jânio – “com polidez, mas com firmeza.” Ao chegar em Nova York, Adolf Berle negou qualquer incidente, reforçando as notas do Itamaraty e da embaixada americana sobre a entrevista. Ambos os governos procuravam evitar que a vinda do enviado especial de Kennedy contribuísse para

449Ibid., ibidem. 450Ibid., ibidem. 451Ibid., ibidem.

452But, according to the story as leaked out last week by diplomatic sources, it was even ruder than that. Berle

was unable to get Brazil's backing for a united Latin American front against Castro's Cuba. As the futile talk ended, Berle stuck out his hand to say goodbye. Quadros refused to shake it. Then, to the undisguised dismay of Brazilian Foreign Minister Afonso Arinos, Quadros pointedly turned his back on the special envoy of the President of the U.S. Time Magazine, loc. Cit.

adensar as discordâncias já existentes no relacionamento dos dois países.”454

Na verdade, em meio ao protocolo da visita e das conversações entre as autoridades presentes no encontro, coube a Berle a introdução do tema de Cuba e, segundo Barbosa (2007), “a tentativa de vincular empréstimos financeiros dos Estados Unidos em troca de abandono dos princípios de não-intervenção irritou o seu interlocutor, levando a um constrangedor diálogo”.455 Os jornais Correio da Manhã e Jornal do Brasil reaparecem e

sempre em tom de crítica a Jânio, além de favoráveis às relações com os EUA. Esses jornais serviram de suporte para outras reportagens e funcionaram como uma extensão da revista.

O saldo desse incidente se espalhou pelo Brasil fazendo surgir um coro de protestos. O jornal carioca, Correio da Manhã, publicou: "A forma como Jânio Quadros recebeu, ou melhor, destratou, o enviado especial do presidente Kennedy, merece fortes críticas de todos os brasileiros." A crítica se espalhou pelo país e acabou incluindo a precipitada ideia de neutralidade de Quadros nas últimas seis semanas em que está no cargo. O Jornal do Brasil, um dos mais influentes defensores de Jânio, publicou: “"Quadros, que em sua campanha salientou a impossibilidade de ignorar a importância e a existência da China Vermelha, agora parece ignorar a importância e a existência dos EUA. Qual é a sua ideia?’’456

Jânio havia concordado em alguns pontos com Berle, no entanto não admitiu nenhum tipo de intervenção contra Fidel. Reconhecia que havia uma forte influência comunista no regime cubano, mas não via motivo para uma intervenção político-militar naquele país. Por fim, Jânio “admitiu que Brasil e Estados Unidos concordariam em discordar sobre Cuba, expressão também utilizada na nota da embaixada americana sobre o encontro.”457

Após a audiência com Jânio, Berle ainda almoçou em Brasília em companhia do Embaixador Cabot e de alguns funcionários da missão. Segundo Barbosa não restava dúvidas de que a acolhida em Brasília havia deixado muito a desejar, além do que

“...a ausência de uma autoridade brasileira no embarque de Berle no Galeão para Nova York reforçaria as insistentes versões que circulavam na imprensa local e norte-americana sobre o suposto desentendimento pessoal entre Jânio e o enviado de Washington, embora tal fato se devesse a uma inesperada mudança de horário do

454Ibid., ibidem. 455Ibid., p.120

456As accounts of the incident spread across Brazil, a chorus of protest arose. Editorialized Rio's Correio da

Manhâ: "The way Jânio Quadros received, or rather dismissed, President Kennedy's special envoy deserves sharp criticism from all Brazilians." The criticism spread to include the whole subject of Quadros' headlong rush to "neutralism" during his six weeks in office. Wrote the influential Jornal do Brasil, heretofore one of Quadros' staunchest supporters: "Quadros, who in his campaign stressed the impossibility of ignoring the importance and existence of Red China, now appears to ignore the importance and existence of the U.S. What is the idea?" Time Magazine, loc. Cit.

Clipper da Pan-Am que o levaria de retorno a Nova York.”458

A política independente de Quadros representava para a TIME uma política favorável ao diálogo e aproximação com os países socialistas. A revista não mencionou um discurso sequer de Jânio favorável aos EUA. O persistente gesto de Jânio em favor da admissão da China soou para a revista como uma forte provocação.

A ideia pareceu ser que Jânio foi teimoso em tentar alcançar uma posição totalmente independente estando no meio do caminho entre os EUA e o bloco comunista, e não permitindo contra-argumentos. 459

Um dia antes da chegada de Berle, foi publicada uma carta de Nikita Kruschev “agradecendo as felicitações por mais um êxito espacial russo, e o primeiro ministro soviético nela afirmava que o povo brasileiro pode contar, como outros da América Latina, com o

apoio da União Soviética na sua aspiração de se libertar da dependência estrangeira.”460

Concordar com Kruschev era reconhecer a incapacidade de se auto-organizar da ONU que, segundo a TIME, Jânio também a considerava ‘inoperante’. A revista destacou ao final da reportagem uma fala incômoda de Jânio, a de que somente através de um golpe de Estado ele deixaria o poder.

No final da semana, ele anunciou que o Brasil poderia votar tanto pela admissão Vermelha da China à Organização das Nações Unidas como pelo plano de Kruschev para "reorganizar" a ONU que se encontro em completa inoperância. Quanto aos rumores que tudo isso despertou entre alguns políticos e militares, Quadros jurou: "Existem apenas duas maneiras de bloquear o meu curso: Me depôr ou me assassinar.461

O perfil autocrático começava a dialogar com o autoritário, algo que para a TIME remete à ditadura. A fala alude ao ato de Vargas, este que para a revista sempre foi um ditador. Naquele momento um fato não passou despercebido pelos analistas e jornalistas, a visita do Marechal Tito foi anunciada poucas horas após a partida de Berle, “atitude interpretada como mais um gesto pouco amistoso com os Estados Unidos para balizar a independência do país

458Ibid., p. 121

459The idea seemed to be that Jânio was hell-bent to achieve a totally independent position halfway between the

U.S. and the Communist bloc, and would brook no argument. Time Magazine, loc. Cit.

460BARBOSA, loc cit.

461Late in the week, he announced that Brazil might well vote both for Red China's admission to the United

Nations and the Khrushchev plan to "reorganize" the U.N. into complete impotence. As for the rumbling all this aroused among some politicians and military men, Quadros vowed, "There are only two ways to block my course: to depose me or assassinate me." Time Magazine, loc. cit.

no seu relacionamento externo.”462 Um dia antes da chegada de Berle e sua missão ao Brasil,

Jânio Quadros concedia uma entrevista ao jornal cubano Prensa Latina revigorando seu apoio à revolução castrista, ao mesmo tempo em que se negava a receber jornalistas americanos que cobriam a chegada de Berle.463

462BARBOSA, op cit., p. 122 463Ibid., ibidem.