2. THE ADMINISTRATIVE POST OF MELULUCA
2.2 Institutional Landscape
Logo após as entrevistas coletivas da vitória, Jânio partiu para a Europa com a sua família. De início, foi para a Inglaterra, a fim de realizar um tratamento médico e depois prosseguiu viagem ao lado do seu amigo, o empresário Roberto Selmi Dei. Entretanto, antes de desembarcar, deixou seus assessores incumbidos de fazer um levantamento sigiloso sobre a situação de cada órgão da administração pública. Com isso, desejava obter um conhecimento da real situação do serviço público federal, pois queria saber em que ponto se encontrava a administração.417
Tais viagens sempre ocorriam com um fundo estratégico, o objetivo de Jânio, segundo Chaia, era o de “se afastar das pressões políticas para poder escolher livremente os nomes que comporiam o ministério”.418 Jânio retornou no dia 20 de janeiro de 1961, onze dias
antes da posse.
Jânio Quadros foi o tema da primeira reportagem da TIME sobre o Brasil em 1961. O assunto girou em torno do enigmático desaparecimento do candidato vencedor das últimas eleições. O título da matéria foi bem sugestivo: Por que tu, Jânio? Nas reportagens anteriores, em que Jânio foi assunto, a TIME destacou o perfil caricato, extrovertido e exótico daquele que seria o presidente do mais importante país latino-americano. Seguindo as pistas do novo presidente, a revista voltava a ironizar o perfil de Jânio, assim como o comportamento dos eleitores brasileiros
"Jânio vem aí!", exclamava o slogan da campanha do presidente Quadros. Porém, na última semana, os brasileiros se perguntavam se o slogan não poderia ser lido melhor, por exemplo: "Lá se foi Jânio." Pouco depois de sua eleição em outubro passado.419
O lead dá o tom de toda a matéria. Uma mistura de senso de responsabilidade e desespero nacional chamaram a atenção da revista – tudo por causa da ausência do novo presidente. Jânio viajou para realizar uma cirurgia no olho esquerdo. A atitude de Jânio acabou sendo tratada como uma brincadeira de esconde-esconde. A TIME passou a especular a vida privada do futuro presidente. Nas entrelinhas estava a ideia de que Jânio se
417CHAIA, op. cit., p. 177. 418Ibid., ibidem.
419"Here Comes Jânio," cried the campaign slogan of President-elect Jânio Quadros. Last week Brazilians
wondered if the slogan might better read: "There Went Jânio." Time Magazine, Brazil: Wherefore Art Thou,
assemelhava a um herói que abandonou a pátria e arrogava-se de aguardar o clamor popular de sua volta.
Pouco tempo depois das eleições de outubro, o presidente Quadros voou para a Europa para uma operação a fim de corrigir os músculos danificados em seu olho esquerdo. Com a operação concluída com êxito há algum tempo, Quadros continua por lá - em algum lugar. O Presidente eleito da quinta maior nação do mundo vem fazendo um jogo de esconde-esconde na Europa, e com a sua posse prevista para 31 de janeiro, a menos de um mês, o Brasil está clamando para que ele volte para casa.420
A TIME ao introduzir a possibilidade de um “clamor popular” pela volta de Jânio, propôs-se a sugerir que havia um senso de dependência e desamparo emanando do povo, a pergunta que não queria calar era: onde estás tu, Jânio?
Quadros, no exterior, estaria jogando com as expectativas do povo para que, de forma messiânica, finalmente retornasse ao país e ao povo que o elegeu de forma gloriosa? Num futuro próximo ela arriscaria essa atitude. Mas, o momento parecia antever o que viria pela frente em breve. Getúlio voltou nos braços do povo, Jânio estaria querendo retornar do mesmo modo?
A reportagem persiste na ideia de que havia uma brincadeira de esconder. Seguindo o rastro do presidente, a impressão que se passou foi a de um filme de espionagem. Jânio conseguia driblar tanto a imprensa como as embaixadas dos países pelos quais passava.
Na Itália ou no Japão? O jogo começou em Londres, quando, depois de sua operação em 22 de novembro, ele se hospedou em três hotéis de uma só vez, almoçou com o primeiro-ministro Harold Macmillan, e mudou-se para Europa. Até mesmo os jornalistas brasileiros que tentaram segui-lo perderam seu rastro. No início de dezembro, seu passaporte diplomático foi rastreado através de uma linha aduaneira em Barajas, no aeroporto de Madrid, mas ninguém parece ter visto. Ele foi localizado em Roma pela embaixada do Brasil em Madrid e em Madri pela embaixada brasileira em Roma.421
O limite entre a ficção e a realidade parecia dar a tônica desse jogo. A TIME comprou a ideia do esconde-esconde, evitou, desse modo, uma interpretação mais racional. A imagem
420Shortly after his election last October.Quadros flew off to Europe for an operation to correct damaged muscles
in his left eye. With the operation long since successfully completed, Quadros is still over there — somewhere. The President elect of the world's fifth largest nation has been playing a game of hide-and-seek in Europe, and with his Jan. 31 inauguration date less than a month away, Brazil is clamoring for him to come home. Time Magazine, loc. cit.
421In Italy or Japan? The game started in London, when after his operation on Nov. 22, he registered in three
hotels at once, stood up Prime Minister Harold Macmillan for lunch, and moved on to the Continent. Even Brazilian newsmen trying to follow him lost the trail. Early in December, his diplomatic passport was checked through a customs line at Madrid's Barajas Airport, but no one seems to have seen him. He was reported in Rome by Brazil's Madrid embassy and in Madrid by the Rome embassy. Time Magazine, loc. cit.
de presidente que brincava de esconder era difundida pela revista. O fato de ter se registrado em três hotéis, sugeria a existência de uma estratégia para driblar não apenas a imprensa, mas qualquer um. Ao registrar que houve um rastreamento do passaporte de Jânio, a revista acabou mesclando o seu jornalismo político com o método peculiar jornalismo investigativo. O limite entre o público e o privado parecia não interessar a revista nesse caso.
Num formato cinematográfico, Jânio Quadros passou a ser visto como um aventureiro, ou seja, um homem que, a sós, com a sua esposa, dirigia pela Europa sem a necessidade de um motorista particular. O fato de ter tomado um Fiat de empréstimo representou a ideia de que o presidente eleito do Brasil era um profundo conhecedor do interior da Europa, em particular da Itália.
Finalmente, em tom suspeito, a reportagem pareceu descobrir o que Jânio estaria fazendo ou tentando fazer no Velho Mundo. Ele iria visitar um velho amigo no final de semana, ou seja, a próxima parada de Quadros era em Belgrado para um encontro com o comunista Tito.
A França estava em seu caminho para a Suíça. Então, num Fiat emprestado em Viena, ele pode ter dirigido até Veneza, onde ele teria se hospedado no Hotelâ Bauer Grunwald como Renato Stafani. Em Milão, ele pode ter se hospedado no Grand Hotel Duomo usando o nome de solteira de sua esposa, da Silva. Houve ainda rumores de que ele teria visitado uma galeria de arte de Florença, de lá ele dirigiu para Roma rumo a uma pequena vila onde morava um amigo não identificado (...) No fim da semana, ele provavelmente dirigiu para Belgrado a fim de ver o Marechal Tito.422
Ao passo em que realizava uma investigação, a TIME também construía uma personalidade. O presidente eleito, e ainda não empossado, demonstrava através de pequenos gestos, tais como dirigir sozinho com a esposa, que ele era uma figura independente. Era desse modo que Jânio queria que o Brasil fosse em sua política exterior, que o país conduzisse suas ações sem interferência dos EUA. Por fim, a TIME começava a deixar claro na reportagem que já tinha conhecimento do flerte de Jânio com os socialistas da Europa.
Um grupo de pessoas não identificadas apareceu no corpo da matéria dando informações não-oficiais, não mais sobre o paradeiro de Quadros, mas quais seriam as suas futuras ideias em relação a administração do Brasil. Sem dar os nomes, a matéria sugeriu uma espécie de comitiva informal que pudesse ter acompanhado o presidente até certa altura. As
422France, on his way to Switzerland. Then, in a Fiat borrowed in Vienna, he may have driven to Venice, where
he reportedly registered at Hotelâ Bauer Grunwald as Renato Stafani. In Milan, he is supposed to have registered at the Grand Hotel Duomo using his wife's maiden name of Silva. He was rumored to have visited a Florence art gallery, from there reportedly drove on to Rome and an unidentified friend's villa (…) At week's end, he was supposedly headed for Belgrade to see Marshal Tito. Time Magazine, loc. cit.
informações eram do mais claro interesse da revista. As relações com os países comunistas e demais países do Oriente Médio deram o termômetro das expectativas. Ironicamente, comunicaram que Quadros transmitia um abraço aos trabalhadores brasileiros e que, segundo a revista, a retribuição não havia sido tão calorosa assim:
Jânio manteve pouco contato com o seu país. Um pequeno grupo de brasileiros que estivera na Europa voltou com declarações não-oficiais. Disseram que "Quadros vai seguir uma política independente nas relações internacionais", arriscou um informante. "Ele vai tentar manter boas relações com todos os países que querem fazer negócios conosco". Outros informaram que Quadros estava ansioso por um comércio com a China comunista, que ele queria se encontrar com Nasser e Nehru (...)423
Os informantes que aparecem no trecho acima eram pessoas que emitiam opiniões a partir do Brasil, provavelmente políticos da oposição Era do conhecimento do Departamento de Estado esse encontro. Tomas Mann manifestou apreensão diante desse fato, para ele “ainda não havia indícios claros de que ele [Jânio] adotaria uma linha neutra em termos de política internacional. Mann acreditava que Quadros iria procurar o auxílio financeiro americano, calculado em torno de 200 a 300 milhões de dólares anuais, para que o Brasil continuasse a apoiar os Estados Unidos na Guerra Fria. Era uma crítica a situação orçamentária e do balanço de pagamentos deixados por Kubitschek.”424
No trecho seguinte ficou uma questão: por que a demora e a resistência em devolver o abraço ao seu presidente? Estaria a TIME sugerindo a ideia de existir uma “carência afetiva” por parte do povo? O mesmo povo que, inconformado, reclamava de verdade pelo retorno de Jânio?.
(...) que ele não iria abandonar (como alguns temiam) o projeto de Brasília como a nova capital; que ele estava estudando a administração da Europa; ele também estava estudando os problemas brasileiros, e que iria voltar em meados de janeiro, ele não retornaria no final de janeiro, que enviou um caloroso abraço a todos os trabalhadores brasileiros”. Um país sem seu líder? Os brasileiros não foram tão rápidos em devolver o abraço.425
O trecho abaixo apresentou um quadro social e político de apreensão. Mesmo sem ter
423Jânio did manage to keep in hazy contact with his country. A chosen few Brazilians went to Europe and
returned bearing unofficial statements. "Quadros will follow an independent policy in international relations," ventured one such in formant. "He will try to maintain good relations with all countries that want to do business with us." Others reported that Quadros was anxious to trade with Red China, that he wanted to meet with Nas ser and Nehru, (…)Time Magazine, loc. cit.
424BARBOSA, op cit, p. 101-102.
425(…) that he was not (as some feared) going to scrap Brasilia as the capital, that he was studying the
administration of Europe, that he was studying Brazilian problems, that he would return in mid-January, that he would not return until late January, that he sent a “warm to all Brazilian workers." Country Without a Man? Brazilians were not quick to return the embrace. Time Magazine, loc. cit.
sentado-se ainda na poltrona presidencial, os problemas já estavam batendo à porta. Sem poupar ironias, inclusive aquelas destacadas por outros meios, a TIME, citando o Jornal do
Brasil, disse que Quadros era o homem esperado pela Providência. Os políticos e empresários estavam perplexos com a misteriosa viagem dele a Europa:
"Os políticos estão perplexos, as pessoas responsáveis estão confusas, os trabalhadores estão inquietos e temerosos estão os funcionários - todos à espera do homem ordenado pela Providência", disse o Jornal do Brasil. Além disso, os produtores de cacau queriam mudar as políticas de exportação, os empresários do ramo hoteleiro reclamam (sem citar nomes) que os brasileiros gastam mais em hotéis estrangeiros do que em seu próprio país; os políticos de São Paulo queriam a presença de Quadros para indicar um candidato a prefeito.426
Citando outro trecho do Jornal do Brasil, a revista destacou o temor de vários setores com o retorno de Jânio. O povo queria a sua volta “gloriosa” o quanto antes, mas os políticos e os funcionários públicos, não. Se Jânio era a encarnação da Providência Divina, seu retorno representava o apocalipse dos políticos corruptos e dos maus funcionários públicos. A varredura começaria em breve, Jânio em sua campanha não apenas projetou a esperança, mas difundiu o medo.
Os dois setores, citados acima exprimiam as primeiras críticas à figura controversa de Jânio, ou seja: os exportadores precisavam de uma ajuda cambial que desfavorecesse as importações, do mesmo modo, os empresários do ramo de hotelaria se viam em apuros devido ao mal exemplo do presidente, pois ele preferia ficar no exterior do que em seu pais! Onde estava o grande ufanismo do candidato que ajudaram a eleger? A TIME utilizou uma lógica que tornava Jânio ora excêntrico, ora enigmático. Seu poder político equivalia de fato a uma intervenção divina, haja vista, que somente a sua presença era o bastante para indicar um candidato a prefeito, principalmente se este fosse do seu reduto eleitoral.
O tom pessimista da revista não poupou a herança deixada por Juscelino. Inflação galopante e uma dívida crescente seriam os primeiros problemas que Jânio teria pela frente já no seu primeiro dia de trabalho como presidente:
Acima de tudo, ainda havia a caixa de Pandora que pressionava ainda mais os problemas econômicos deixados pelo ex-Presidente Juscelino Kubitschek: um pagamento de 80 milhões de dólares, devido à investidores privados em 1º de fevereiro (primeiro dia de Jânio como presidente), uma inflação galopante, os
426"Politicians are perplexed, responsible people are confused, workers are restless and officials fearful — all
waiting for the man ordained by Providence," said the Jornal do Brasil. Besides, cacao shippers wanted to change export policies, hotelmen complained (naming no names) that Brazilians spend more in foreign hotels than in their own, São Paulo politicians wanted Quadros to name a candidate for mayor. Time Magazine, loc. cit.
déficits crescentes no orçamento e comércio exterior.427
A caixa de Pandora, representada como um baú de problemas econômicos, foi uma metáfora capaz de assustar os leitores desavisados. Segundo a mitologia, todos os problemas do mundo começaram com a abertura da caixa. A ingenuidade não cabe nesse contexto, pois era sabido por parte de todos os candidatos sobre os problemas que iriam herdar. Por outro lado, para a TIME, o grande problema da caixa de Pandora estava relacionado aos empréstimos fornecidos pelos investidores estrangeiros. A revista tinha conhecimento desses números e, portanto, tinha conhecimento do conteúdo da caixinha.
Recorrendo novamente à imprensa local, a TIME destacou um trecho de uma reportagem do Correio da Manhã ironizando a viagem de Quadros. O futuro presidente, perdido em sua embriaguez, sequer teria noção de que encontraria os cofres públicos vazios assim que chegasse ao poder
"Jânio Quadros não terá que ocupar-se com um tesouro de obras de arte, mas com um tesouro vazio", comentou acidamente o jornal Correio da Manhã. "As pessoas queriam o ex-governador de São Paulo, como presidente, não um diletante florentino". O Brasil está ficando preocupado, ele não quer ser um país sem um líder.428
Não seriam duas caixas de Pandora que Jânio estava por encontrar? A segunda caixinha de surpresas não seria a ‘arca’ do Tesouro Nacional? Também vazia?!
A informação provinha do jornal Correio da Manhã e era referendada pela revista. Informando sobre o inconformismo dos brasileiros diante de um presidente aventureiro, a
TIME sugeriu que o Brasil (em tom generalizante) precisava de um líder. Neste ponto ficou notória a crítica da revista à postura e às atitudes de Jânio. Um presidente evasivo, enigmático, de política exterior dúbia e messiânico não poderia cuidar de um país com grandes problemas econômicos, políticos e sociais, muito menos gerir as contas públicas que dependiam de recursos do exterior para serem saneadas.
427Above all, there was the Pandora's box of pressing economic problems left by out going President Juscelino
Kubitschek: an $80 million payment due to private investors on Feb. 1 (Quadros' first full day as President), rampant inflation, soaring deficits in the budget and foreign trade. Time Magazine, loc. cit.
428"Jânio Quadros will not have to busy himself with an art treasury but with an empty treasury," commented
Correio da Manhã acidly. "The people wanted Sao Paulo's former governor as President, not a Florentine dilettante." Brazil is getting worried; it does not want to be a country without a man. Time Magazine, loc. cit.