Talvez confi rmando as dúvidas do governo alemão, as críticas à polí- tica ultramarina portuguesa partiram também do interior do governo de Oliveira Salazar, chegando a concretizar-se numa tentativa de golpe de Estado liderado pelo Ministro da Defesa Nacional, Júlio Botelho Moniz. Mas a razão para que em Março-Abril de 1961 fosse tomada a decisão de agir poderá estar relacionada com os acontecimentos em Angola e com a consecutiva tomada de consciência por parte dos responsáveis pela Defesa Nacional da falta de condições ao nível militar para fazer face à situação aí desencadeada.
A posição de Botelho Moniz foi apresentada a Oliveira Salazar ainda em Março de 1961, através de uma extensa carta, que originou reuniões entre os dois, a 28 e 29 desse mês. A necessidade de levar a cabo uma renovação do regime, “dentro da continuidade”, serviria para desanuviar o “ambiente político nacional e o pesado clima internacional”. Em relação às Forças Armadas, o ministro acentuava a “situação insustentável”, onde se corria o risco de “fi car à mercê de um ataque frontal (…) sem meios bas- tantes e com uma missão de suicídio” da qual as forças portuguesas não seriam capazes de sair, “uma vez que a política não lhe encontra solução nem parece capaz de a procurar”109. Nas semanas seguintes, o Ministro
da Defesa Nacional desenvolveu vários contactos com personalidades relacionados com as Forças Armadas, procurando granjear apoios para a sua tentativa de golpe de Estado, esperando que os seus interlocutores lhe dessem razão110.
Em início de Abril, Moniz encontrou-se com Américo Tomás, exigindo- -lhe a destituição de Oliveira Salazar. Caso o seu pedido não fosse aceite, Botelho Moniz estava decidido a tomar o poder pela força. O Presidente
109 Franco Nogueira, Salazar. vol. V, pp. 226-227.
110 Fernando Rosas (coord.), História de Portugal. Vol. VII. O Estado Novo, Lisboa, Editorial
da República prometeu a Botelho Moniz pensar nas questões por si levan- tadas, tentando assim adiar a questão. Conseguiu-o de tal modo que, na tarde de 13 de Abril, enquanto Moniz se reunia com as chefi as militares para por em prática as suas intenções, tinha já sido anunciado na Emissora Nacional a demissão do Ministro da Defesa Nacional e das principais chefi as militares a ele associadas, tornando a acção dos golpistas completamente inoperante.
Ainda no dia de 13 de Maio, o próprio Presidente de Conselho comu- nicou à população, através da rádio, que tinha decidido tomar para si a pasta da Defesa Nacional, facto que justifi cava apenas “com uma palavra: Angola”. Este discurso fi cou célebre pela decisão de “andar rapidamente e em força” para melhor se “defender Angola e com ela a integridade da Nação”. Podemos dizer que, se ainda existissem dúvidas acerca da vontade de Oliveira Salazar de defender militarmente o império ultramarino por- tuguês, essas dúvidas se dissiparam com estas palavras. Juntamente com Salazar na pasta da Defesa, foi nomeado Gomes de Araújo para o cargo de Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas e Mário Silva como Ministro do Exército.
No entanto, a remodelação ministerial iniciada com a demissão do Ministro da Defesa Nacional atingiu todos os campos do governo só fi can- do concluída em princípios de Maio. Nesta ocasião tomou posse Alberto Franco Nogueira como Ministro dos Negócios Estrangeiros. Franco Nogueira era considerado pelo embaixador alemão em Lisboa como um “diplomata talentoso e extraordinariamente inteligente”, que se anunciava como “re- presentante de uma política nacionalista”. De resto, toda a remodelação governativa deste mês de Maio de 1961 era visto pelo representante alemão em Lisboa como indicadora do “endurecimento da política nacionalista de Portugal”111.
111 Ofício da Embaixada da República Federal da Alemanha em Lisboa, 5 de Maio de
De acordo com o próprio Franco Nogueira, este seria um “governo de guerra para um país em guerra”, originando uma “consciência colectiva de novo e remoçado empenhamento”112. Para além das mudanças na Defesa
e nos Estrangeiros, também o sector da economia foi afectado, nomeada- mente com a passagem de Correia de Oliveira da Secretaria de Estado do Comércio para o cargo de Ministro de Estado adjunto da Presidência do Conselho (cargo novo criado por Oliveira Salazar), sendo substituído por Dias Rosas.
O Embaixador Schaff arczyk teve a oportunidade de se reunir com o Ministro dos Estrangeiros, Marcelo Mathias, na véspera de ser anunciada a remodelação ministerial, em 4 de Maio de 1961. Neste encontro, o ainda Ministro dos Negócios Estrangeiros esclareceu o embaixador alemão de que o governo português “teria a intenção de mais tarde dar uma maior autonomia à administração local de Angola”, ou seja, seria criada uma admi- nistração para a província portuguesa que “incorporaria brancos, pretos e mulatos” e que teria uma relativa autonomia da metrópole. Porém, a “autonomia política” estava, sob “qualquer circunstância”, fora de questão. Para além do mais, qualquer autonomia só seria possível depois de serem anuladas todas as infi ltrações e revoltas. O governo de Lisboa, assegurava o Ministro português, estava disposto a “mobilizar todas as suas forças para fi car senhor da situação” e, inclusivamente, “em lutar até ao último homem”. Em relação às atitudes dos Estados Unidos relativamente a Portugal, Mathias acreditava que a atitude da Administração Kennedy se devia às experiências com o Congo e que mudaria “mais cedo ou mais tarde”113.
A situação interna do governo português parecia ao representante alemão em Lisboa um pouco ambígua. Nos jornais notava-se de dia para dia as correcções nas avaliações das forças rebeldes, “passando de umas dezenas que atacaram pequenas povoações para centenas e até milhares
112 Franco Nogueira, op. cit., p. 257.
113 Ofício da Embaixada da República Federal da Alemanha em Lisboa, 5 de Maio de
que aterrorizam o norte de Angola”. Apesar disto, do lado português julga- vam ser possível a eliminação das actividades dos revoltosos “pelo fi m das estações das chuvas”, de modo a se aproveitar a estação seca para “limparem o resto com aviões”. Só depois de eliminadas as revoltas seriam de esperar as melhorias para os nativos e, a longo prazo, “grandes investimentos” seriam introduzidos na colónia, tal como Marcelo Mathias havia referido, contando Portugal para isso, com a ajuda das “nações amigas”, de entre as quais se salientava a República Federal. De qualquer modo, na opinião do embaixador alemão em Lisboa, a atitude do Presidente de Conselho era “impossível de prever”, mesmo para o melhor dos conhecedores do regime. Podia mesmo esperar-se que Oliveira Salazar se “apoderasse ha- bilmente” das concepções do ex-Ministro da Defesa, Júlio Botelho Moniz, e que, inclusivamente contra a vontade das “cerca de 50 famílias ricas” que “determinam os investimentos no ultramar”, decidisse implantar reformas sociais, na altura que ele achasse mais conveniente114.
Com o agravamento da situação em Angola, o Embaixador Schaff arczyk reconhecia que Portugal estava a passar “pelas horas mais difíceis da sua História”. Estes momentos delicados para o regime português advinham não só da situação militar mas principalmente por, imediatamente após as celebrações Henriquinas (onde um grande número de países tinha par- ticipado), se encontrar agora isolado, “abandonado pelas nações aliadas e criticado duramente pela ONU”. Por outro lado, as difi culdades previstas no terreno eram imensas. Para além das difi culdades de deslocação, eram de esperar problemas no abastecimento das tropas. De igual modo, o facto de se tratar de uma guerra de guerrilhas tornava a aniquilação das forças rebeldes muito difícil, tal como o comprovavam as escassas informações ofi ciais sobre “uma possível, mas limitada, ofensiva contra os rebeldes”. Um esperado cerco aos revoltosos revelar-se-ia algo simplesmente inimaginá- vel, pois as forças portuguesas apenas conseguiam estabelecer pequenos
114 Ofício da Embaixada da República Federal da Alemanha em Lisboa, 5 de Maio de
pontos de apoio no “colossal espaço do norte de Angola”, e os rebeldes continuavam a surgir livremente do mato. O Embaixador Schaff arczyk refe- ria a existência de alguns ataques no centro e sul de Angola, e até “alguns alemães”, residentes na zona do Libolo, no centro de Angola, tinham já “enviado as suas famílias para Luanda”. Igualmente em Lisboa estavam já muitos barcos com famílias residentes do norte da província que fugiam aos ataques115.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros federal fi cou surpreendido com o parecer “demasiado próximo ao governo português” emitido pelo Embaixador Herbert Schaff arczyk. Apesar deste tecer já algumas criticas à actuação do regime português, não deixava de acreditar numa mudança a longo prazo da política ultramarina. O embaixador, no entender do Ministério, devia ter-se apercebido, pelas conversas que tinha tido com os embaixadores dos EUA, da França e do Brasil em Lisboa, da “manifesta preocupação” destes em relação aos desenvolvimentos futuros da política colonial portuguesa, que teriam sido “claramente expostos” ao representante alemão. Por outro lado, era também compreensível, através dos anteriores relatórios enviados de Lisboa, que se mantinham duas constantes na reali- dade política portuguesa: a probabilidade de uma pacifi cação da situação em Angola, através da implementação de reformas, embora não nas regiões revoltosas, mas sim noutros territórios, como por exemplo, Moçambique; e, simultaneamente, a “inexistência de uma vontade séria e infl exível” de implementar essas mesmas reformas por parte do lado português. Adicio- nalmente, o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros português, Franco Nogueira, tinha apresentado ao Embaixador Schaff arczyk e ao Secretário de Estado americano, Dean Rusk, num encontro durante uma conferência da NATO, as já “habituais” linhas da política portuguesa: a manutenção da política ultramarina portuguesa, porque não havia outra alternativa que não a luta; a recusa de qualquer compromisso e nenhuma tentativa de imple-
115 Situação Interna de Portugal – Ofício da Embaixada da República Federal da Alemanha
mentar uma autonomia da administração local nas colónias. Devido a esta “teimosia” do governo português, começava já a manifestar-se a oposição ao governo federal, apesar de ter pouca visibilidade, e algumas vozes dis- cordantes, que rompiam com a “unanimidade patente na opinião pública” a favor da defesa de Angola, no início do confl ito. Por outro lado, mesmo nas esferas ofi ciais e para além dos sucessos militares até aí alcançados, surgiam dúvidas da real capacidade de Portugal em conseguir aguentar as revoltas na Guiné e em Moçambique, quando elas aparecessem116.