O caso de Goa mostrava, de acordo com o embaixador alemão em Lisboa, que Portugal não se encontrava “em condições para defender as suas províncias ultramarinas” contra vizinhos e inimigos mais poderosos. A perda de Goa deveria ser vista como defi nitiva, com todas as repercussões que daí resultariam, inclusivamente nos níveis económico e fi nanceiro, “particularmente com a perda dos rendimentos das exportações de mi- nério”. Apesar de Salazar ter afi rmado no seu discurso de 3 de Janeiro de 1962 que, com a ajuda da comunidade internacional, ainda seria possível
a manutenção de Goa no império português, o embaixador alemão acredi- tava que tal mensagem apenas se destinava a “fomentar a esperança” nos portugueses, isto é, era destinada a “consumo interno”134.
No entanto, a situação nas restantes províncias ultramarinas não era muito melhor. Certamente Portugal iria encontrar-se, num futuro próximo, “obrigado a conduzir uma luta inútil e desesperada”, caso a China e a Indo- nésia quisessem apoderar-se de Macau e Timor, respectivamente. Todavia, até então, nem a China, que se quisesse podia bloquear o abastecimento de água de Macau, nem a Indonésia, pareciam ter qualquer interesse em apoderar-se dos territórios portugueses.
“Actualmente”, para o Embaixador Schaff arczyk, a situação mais difícil para Portugal era a Guiné portuguesa. O governo português temia um ataque da Guiné e do Senegal e por isso tinha enviado já soldados “bem equipados e bem formados”. Apesar de não serem conhecidas as reais ca- pacidades militares destes estados, não era de esperar “qualquer sucesso” contra Portugal, nomeadamente através do fomento de revoltas internas na Guiné portuguesa, pois as forças armadas portuguesas aí presentes conseguiriam dominar qualquer rebelião que surgisse.
Em relação a Moçambique, eram esperados pelas autoridades portu- guesas “ataques na Primavera deste ano”. Apesar de estarem no território cerca de “oito mil soldados”, eram incertos os resultados de ataques militares vindos dos territórios vizinhos, pois dependeria “das forças dos inimigos”. Em Angola, parecia “claro” ao Embaixador Schaff arczyk que as suble- vações no norte daquela província resultavam das infi ltrações vindas do Congo, enquanto que no interior e no sul do território “tudo se mantém sossegado”, não sendo sequer de se esperar quaisquer problemas nessas zonas. No norte do território, Portugal tinha conseguido praticamente anu- lar as revoltas, através da mobilização das suas Forças Armadas, tanto que já não se falava de acções militares, “mas sim de acções de policiamento”. Porém, poderia aparecer um novo perigo para Angola ao sul, quando a
134 Ofício da Embaixada da República Federal da Alemanha em Lisboa, 25 de Janeiro de
administração da antiga África do Sul-ocidental alemã fosse retirada da União Africana e passada para as Nações Unidas. Não seria de todo im- possível que, tal como aconteciam no norte infi ltrações vindas do Congo, também no sul tais infi ltrações externas se fi zessem sentir, mesmo que a população do sul de Angola não fosse “dada a revoltas”135.
Perante todos estes “aspectos sombrios” da situação nas províncias ultra- marinas, o governo de Salazar permanecia determinado no seu “tradicional e grande orgulho nacional” em defender as suas possessões ultramarinas. Esta postura fazia parte da sua ideia de “missão histórica” que Portugal cumpriria, apesar da falta de apoio, de acordo com a opinião portuguesa, dos Estados seus aliados e amigos.
Apesar de, por vezes, o Embaixador Schaff arczyk continuar com uma postura próxima do governo português, não deixava de levantar duas questões muito importantes: a primeira, era a de saber se Portugal conse- guiria aguentar por muito tempo os custos económicos e fi nanceiros da manutenção das suas Forças Armadas; a segunda, talvez numa tentativa de chamar a atenção do governo federal para o problema português e reforçando as difi culdades que Portugal iria enfrentar, era relativa ao futuro de Portugal depois da perda do seu império. De acordo com o embaixador, eram já várias as personalidades (os antigos ministros da Defesa Santos Costa e Botelho Moniz, o Marechal Craveiro Lopes, o antigo ministro da Presidência Marcelo Caetano, entre outros) que alertavam que Portugal poderia “cair no comunismo” caso perdesse o Império136.
Terá sido o risco de poder ver Portugal (e os Açores) como um país comunista no seio da esfera de infl uência ocidental, o que iria totalmente contra os objectivos alemães de uma “Europa ocidental cristã”137, que fez
135 Idem.
136 Ofício da Embaixada da República Federal da Alemanha em Lisboa, 25 de Janeiro de
1962 – PA-AA, B 26, 191A.
137 Jürgen Zimerer, “«Der bestregierte Staat Europas»: Salazar und sein «Neues Portugal»
im konservativen Abendland-Diskurs der frühen Bundesrepublik Deutschland” in Portugal –
Alemanha – Brasil. Actas do VI Encontro Luso-Alemão, volume I, Universidade do Minho, Centro
o governo federal apoiar o seu aliado da Aliança Atlântica. Este apoio iria concretizar-se em diferentes aspectos, alguns deles já enunciados ante- riormente. O apoio alemão ao regime de Oliveira Salazar passou por uma posição politicamente neutra perante os problemas ultramarinos portu- gueses, designadamente perante as críticas que estes sofreram na NATO e nas Nações Unidas. Por outro lado, foram várias as personalidades ligadas à esfera conservadora-cristã germânica que fi zeram publicamente afi rmações favoráveis ao governo português e à sua política ultramarina. Por fi m, o governo da República Federal deu o seu apoio a Portugal através da con- cessão, em condições extremamente favoráveis, de armamento, munições e equipamento variado essencial para as guerras de África – aspecto que será analisado em profundidade mais à frente.