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3.1 IoT in Smart Grid
Refletir sobre a leitura literária com as professoras demandou que antes pensássemos sobre o próprio conceito de literatura. E dentro do contexto em que esse conceito seria discutido, cabia um enfoque muito mais sociológico do que formalista, sem que se desprezasse, obviamente, a dimensão estética. Em outras palavras, diríamos que uma obra literária dentro da escola não deve ser entendida como um objeto a ser analisado, decomposto, dissecado na busca de conhecer suas regras, suas variantes, seu estilo etc. Ainda que se faça
isso, muitas vezes, principalmente no Ensino Médio, é forçoso dizer que esse método (o do ensino da História da Literatura, enquanto uma variação de estilos nas diversas épocas) não tem sido eficiente no sentido de formar leitores. Se por um lado o estilo é aquilo que diferencia a literatura das demais situações de comunicação, por outro será seu papel social que nos interessa para pensarmos lugar da literatura na escola e na vida dos jovens leitores.
Por essa razão, o texto escolhido para o segundo encontro foi o ensaio “Direito à Literatura”, do crítico literário e sociólogo Antônio Candido. O autor procura contextualizar a literatura dentre os demais produtos culturais e refletir sobre o acesso que as diversas camadas sociais têm a ela. Assim, desenvolve um raciocínio sobre o papel humanizador da literatura, de modo a constatar o direito universal à experiência estética propiciada pela obra literária. Sobre seu papel social, foi destacado durante a leitura o seguinte fragmento:
A função da literatura está ligada à complexidade da sua natureza, que explica inclusive o papel contraditório mas humanizador (talvez humanizador porque contraditório). Analisando-a, podemos distinguir pelo menos três faces: (1) ela é uma construção de objetos autônomos como estrutura e significado; (2) ela é uma forma de expressão, isto é, manifesta emoções e a visão do mundo dos indivíduos e dos grupos; (3) ela é uma forma de conhecimento, inclusive como incorporação difusa e inconsciente. (CANDIDO, 1995, p. 244)
Na sequência, para refletir sobre o acesso das classes sociais menos favorecidas (como no caso dos alunos com os quais trabalhamos), demos especial atenção ao pensamento de Candido, quando diz que:
A organização da sociedade pode restringir ou ampliar a fruição deste bem humanizador. O que há de grave numa sociedade como a brasileira é que ela mantém com a maior dureza a estratificação das possibilidades, tratando como se fossem compressíveis muitos bens materiais e espirituais que são incompressíveis. Em nossa sociedade há fruição segundo as classes na medida em que um homem do povo está praticamente privado da possibilidade de conhecer e aproveitar a leitura de Machado de Assis ou Mário de Andrade. Para ele, ficam a literatura de massa, o folclore, a sabedoria espontânea, a canção popular, o provérbio. Estas modalidades são importantes e nobres, mas é grave considerá-las como suficientes para a grande maioria que, devido à pobreza e à ignorância, é impedida de chegar às obras eruditas. (ibidem, p. 256-257)
A leitura do texto foi lenta e, quando necessário, fazíamos pausas para discutir ou reforçar alguma ideia (no entanto, parte da leitura foi terminada em casa, cabendo
à próxima reunião, na quarta-feira, apenas discutir questões que lhes foram apresentadas). A participação das professoras era satisfatória, revelando certo prazer em estar refletindo sobre questões mais teóricas de sua área de atuação.40 O texto do Candido não lhes pareceu complexo (sobretudo em função de sua linguagem extremamente clara, visto que se tratava de uma palestra que ministrara em uma Conferência sobre Direitos Humanos), mas trazia determinados conceitos que mereciam ser aprofundados.
Após a leitura, foram propostas algumas questões que, consoante ao nosso olhar e às nossas preocupações, em certa medida emanavam do próprio texto: A literatura é um bem cultural indispensável? Qual é a real necessidade que as camadas sociais menos favorecidas teriam pela literatura? É possível arbitrarmos sobre o direito alheio com base no que imaginamos ser essencial para um indivíduo? Vive um povo sem literatura? A literatura é capaz de promover um equilíbrio social?
As questões foram debatidas, enquanto trechos do ensaio eram retomados e fatos da realidade dos alunos da escola eram mencionados, para que se pensasse de modo mais concreto e pragmático. Foi possível notar que as professoras mais experientes (aquela que ocupava cargo efetivo há mais de dez anos e uma das cotratadas, a gestante, formada em 2003, que possui uma irmã graduada em Letras pela UNESP e com título de mestre na Universidade Estadual de Maringá) posicionavam-se melhor, manejando com desenvoltura certos conceitos e dispondo de um conhecimento mais aprofundado da realidade dos alunos dentro e fora da sala de aula. (Aliás, a professora gestante, afastada pelo motivo já explicado, foi a que demonstrou mais interesse pelas leituras e atividades. Colaborou em outras etapas do projeto, repassando orientações a professores que eventualmente cobriam a falta do titular, podendo assim dar continuidade à atividade de leitura dos alunos.)
Ofereci às professoras outras indicações de obras com as quais poderiam se aprofundar no assunto. Fiz uma breve apresentação de A Leitura, de Vincent Jouve (2002); mostrei-lhes Como um romance, de Daniel Pennac (1993), distribuindo cópias de uma resenha que fiz sobre este último livro. Por fim, expliquei-lhes que refletir sobre a própria experiência de leitura, rememorando-nos de quando e como nos tornamos leitores, é uma tarefa muito elucidativa quando pretendemos nos transformar em promotores da leitura literária. Nesse ponto, entreguei a elas um texto em que faço minhas memórias de leitor, um
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Sabemos que é raro o contato do professor com materiais de pesquisa e livros de formação. Vemos, por exemplo, nas ocasiões de concurso público, a procura por apostilas de resumos das obras constantes na bibliografia, seja pela dificuldade de se ter acesso à fonte (falta de bibliotecas especializadas, falta de recursos para se comprem esses livros, ou mesmo falta de tempo), ou pela complexidade que essas leituras possam oferecer, em face de uma formação acadêmica desatualizada ou deficitária.
trabalho que havia sido entregue para a disciplina “Literatura e Ensino”, do primeiro semestre do curso de Mestrado. Sugeri então que cada uma fizesse suas memórias, mas, como o nosso tempo de reunião já se esgotava, pedi que produzissem o texto em casa e depois poderíamos lê-los no próximo encontro. (Contudo, na semana seguinte, as professoras se justificaram que não tiveram tempo para a tarefa.)
Ao final do encontro, discutimos sobre os livros que seriam lidos pelos alunos de 5ª a 8ª séries. Apresentei-lhes algumas obras da literatura juvenil e as professoras opinaram sobre cada uma. Ficou então resolvida a seguinte lista:
5ª série: Reinações de Narizinho – Vol. 2 – Monteiro Lobato (2007) 6ª série: A Marca de uma Lágrima – Pedro Bandeira (1991)
7ª série: Antes que o Mundo Acabe – Marcos Carneiro da Cunha (2000) 8ª série: Capitães de Areia – Jorge Amado (2008)
3.4.3 Terceiro encontro: Estética da Recepção – conceitos-chave e o método