• No results found

A proposta de Jauss com relação à função comunicativa da arte é eminentemente social. Em seus textos, procurava combater certa tendência da teoria literária que, após a Segunda Guerra Mundial, negava ao público o direito ao prazer estético; tendência, por certo ponto de vista, também alimentada pela própria produção artística da vanguarda europeia pós-guerra, que se tornava cada vez mais ascética, como forma de se contrapor à arte de consumo das massas.

A “estética da negatividade”, com seu principal representante Theodor W. Adorno, foi constantemente atacada por Jauss em uma conferência de 11 de abril de 1972, na Universidade de Constança, intitulada “Kleine Apologie der ästhetischen Erfahrung” (“Pequena apologia da experiência estética”)33.

Jauss questiona a relação estabelecida por essa tendência teórica entre o prazer e o consumo ou gosto do kitsch, e ironiza que só não proíbem o prazer na arte de turismo, isto é, aquela que é própria ao consumo burguês. Insiste que a atitude de prazer diante da arte é o fundamento próprio da experiência estética e de onde se compreende a função social da arte e das disciplinas científicas que estão a seu serviço (JAUSS, 1978). Para ele, o prazer experimentado na arte é um modo de reflexão estética e, dessa forma, dirige suas críticas diretamente a Adorno, pois este chega a afirmar que “Quem procura e encontra prazer ante as obras de arte não passa de um idiota (Banause)” (JAUSS, 1979, p. 92). Sobre esse posicionamento de Jauss a respeito da oposição entre uma arte ascética, defendida por Adorno, e a arte das massas, Zilberman nos explica:

Jauss não se considera avesso à vanguarda; e, em nenhum dos ensaios, manifesta qualquer simpatia para com a literatura de massa ou a arte popular. Recusa, isto sim, a crença de que a criação experimental não deseja comunicar-se com o público; ou de que este não sinta prazer perante obras originais e avançadas. (ZILBERMAN, 1989, p. 53)

Defende que a experiência estética, mesmo das mais espontâneas, instaura a função social da arte, e acrescenta: “a experiência estética não era, desde o princípio, oposta

33

O texto dessa conferência foi mais tarde reformulado por Jauss e a nova versão encontra-se parcialmente traduzida para o português em Lima (1979), com o título “O Prazer Estético e as Experiências Fundamentais da

Poiesis, Aisthesis e Katharsis”. Todavia, utilizamos alguns fragmentos da primeira versão, traduzida apenas para

ao conhecimento e à ação” (JAUSS, 1979, p. 95). Em primeiro lugar, vê a função cognitiva implicada no prazer estético como algo superior à abstração do saber conceitual, o que permite considerar, nesse plano, a experiência estética como uma atividade autônoma. Em segundo lugar, ao deslocar o sujeito leitor de sua realidade cotidiana, a arte torna-se libertadora, emancipatória, convocando o indivíduo à ação, já que “a obra se livra de uma engrenagem opressora e, na medida em que recebida, apreciada e compreendida pelo seu destinatário, convida-o a participar desse universo de liberdade” (ZILBERMAN, 1989, p. 54).

Essa noção de prazer estético, somada ao conceito de distância apresentado há pouco, faz com que Jauss concorde com Adorno sobre o valor das artes de vanguarda em menosprezo à arte das massas, que vicia nossa percepção e não propõe novas normas de comportamento. Mas discorda de Adorno quando diz que arte de vanguarda não dialoga com o público. Para Jauss, o mundo ficcional, quando proposto na tensão entre os horizontes da produção e recepção, desperta em nós aquilo que Jauss chama – valendo-se de Sartre – de consciência “imaginante”, onde reside a natureza transgressora da experiência estética fornecida pelas grandes obras, incluindo as experimentais: “Afastando a consciência imaginante da obrigação dos hábitos e dos interesses, a atitude de prazer estético permite ao homem aprisionado em sua atividade cotidiana se libertar para outra experiência”34

(JAUSS, 1978, p. 130).

Além do mais, na instância da recepção de uma obra, a concretização da força que nos impele à ação depende em grande medida de outra reação do leitor: a identificação. Para explicar esse processo, Jauss retoma e amplia três conceitos da tradição estética: Poiesis, Aisthesis e Katharsis. Mas procura relacionar essas três atividades à atitude de prazer diante do texto, tanto na dimensão criadora quanto receptora, e resgata (principalmente na segunda versão de seu texto) a evolução do conceito de prazer na história da arte ocidental. É também na reescrita do texto da conferência que Jauss nos expõe com muito mais clareza os três conceitos mencionados.

Esse esforço epistemológico sobre o fenômeno do prazer estético, quando decide reescrever seu ensaio para o volume Experiência Estética e Hermenêutica Literária (Ästhetische Erfahfung und literarische Hermeneutik), de 1977, também se deve à publicação,

34

“Dégageant la conscience imageant de la contrainte des habitudes et des intérêts, l’attitude de jouissance esthétique permet à l’homme emprisionné dans son activité quotidienne de se libérer pour d’autre expérience”

um ano após a conferência, em 1973, de O prazer do texto, de Roland Barthes. Jauss retoma e critica a visão do semiólogo francês, como no trecho:

Não é por acaso que a apologia de Barthes reduz o prazer estético ao regozijo em face da linguagem (uma outra palavra ainda, ainda uma outra festa, p. 17). Por força de não abrir, de forma decisiva, o universo lingüístico auto-suficiente para o mundo da práxis estética, o deleite máximo de Barthes permanece sendo o eros redescoberto do filólogo contemplativo e a sua bem resguardada reserva: o paraíso das palavras (p. 17)35 (JAUSS, 1979, p. 95). Buscando definir em que consiste “a experiência estética original”; como o prazer estético se diferencia do prazer dos sentidos (sendo este último predominante na visão de Barthes); e “como a função estética do prazer se relaciona com outras funções do mundo cotidiano” (ibidem, p. 95), Jauss reconsidera os conceitos de distância estética e de consciência imaginante (Sartre) e rejeita uma crença corrente de que o prazer estético supõe uma contemplação distanciada e desinteressada diante do objeto irreal oferecido pela arte. Recupera a fenomenologia de Moritz Geiser e conclui que, na verdade, o prazer “oscila entre a contemplação desinteressada e a participação experimentadora” (ibidem, p. 98), renovando sua preocupação em colocar o leitor em posição menos passiva diante do texto.

Na reação de prazer ante o objeto estético, realiza-se, ao invés, uma reciprocidade entre sujeito e objeto, em que “ganhamos interesse em nossa ausência de interesse”. Este interesse estético se explica de forma mais simples pelo fato de que o sujeito, enquanto utiliza sua liberdade de tomada de posição perante o objeto estético irreal, é capaz de gozar tanto o objeto, cada vez mais explorado por seu próprio prazer, quanto seu próprio eu, que, nesta atividade, se sente liberado de sua existência cotidiana (JAUSS, 1979, p. 97-98).

Assim, valorizando a consciência do sujeito e a função libertadora da experiência estética, equaciona a função estética do prazer dentro das três instâncias (JAUSS, 1978, p. 130):

Poiesis: consciência de que a atividade criativa constrói um mundo que é a própria obra. (sujeito criador)

Aisthesis: consciência de que a atividade receptiva permite a possibilidade de se renovar a percepção do mundo. (sujeito receptor)

35

Katharsis: com a experiência subjetiva dando lugar à experiência intersubjetiva (entre o sujeito criador e o sujeito receptor), a experiência estética adere-se a um julgamento exigido pela obra a respeito das normas de ação que ela sugere ao destinatário.

A poiesis não se relaciona apenas ao autor, já que se trata de uma consciência demiúrgica em relação ao objeto estético; mas, como nos explica Zilberman (2001, p. 92), se transfere também para o leitor, para quem “corresponde ao prazer de se sentir co-autor da obra”. Agora se compreende porque Jauss, por um lado, concorda com Adorno na superioridade da arte de vanguarda do século XX diante da superficialidade da arte burguesa, e, por outro lado, discorda que a arte moderna não queira se comunicar com seu público: vê no experimentalismo moderno exatamente um convite cada vez mais contundente à participação do leitor no processo de construção de sentido da obra, restaurando a função comunicativa da arte através de uma poiesis participativa na instância da recepção.

Jauss procura ampliar o sentido aristotélico da aisthesis ao matizar a percepção sensorial da experiência estética, apontando para diversos níveis perceptivos. Mas, seja qual for o grau dessa percepção, “Legitima-se, desta maneira, o conhecimento sensível, em face da primazia do conhecimento conceitual” (JAUSS, 1979, p. 101). Para o autor, esse conhecimento sensível tem o papel fundamentalmente social ao ampliar nossa percepção do mundo: a contemplação do objeto estético elaborado (nesse sentido superior aos produtos da indústria cultural, mas que não deve ser negado ao público comum), tanto pelo “estranhamento” como pela distância estética , obriga-nos a regular o “foco” de nossa visão e, quando retornamos o olhar para o mundo caótico da realidade, somos capazes de visualizar uma possibilidade de organização da nossa existência.

Neste processo, a experiência estética no nível da aisthesis assumiu uma tarefa perante a alienação crescente da existência social que até então nunca lhe tinha sido atribuída na história da arte: contrapor à experiência fragmentada e à linguagem utilitária da “indústria cultural” a função linguisticamente crítica e criativa da percepção estética; e diante do pluralismo dos papéis sociais e perspectivas científicas, preservar a experiência de mundo aos olhos dos outros e, assim, salvaguardar um horizonte comum que a arte pode manter quando o todo cosmológico desaparece. (JAUSS, apud ZILBERMAN, 1989, p. 56)

O instante máximo da identificação é para Jauss um processo catártico, mas que não corresponde à aceitação involuntária das normas de comportamento sugeridas pela obra.

Como experiência estética comunicativa básica, a katharsis corresponde tanto à tarefa prática das artes como função social – isto é, servir de

mediadora, inauguradora e legitimadora de normas de ação –, quanto à determinação ideal de toda arte autônoma: libertar o espectador dos interesses práticos e das implicações de seu cotidiano, a fim de levá-lo, através do prazer de si no prazer no outro, para a liberdade estética de sua capacidade de julgar. (JAUSS, 1979, p. 101-102)

Isso significa dizer que a katharsis é um movimento de adesão ao potencial transgressor da experiência estética, onde tanto a assimilação quanto a rejeição de dada norma significam uma tomada de posição. Essa atitude crítica do leitor, por sua vez, é emancipatória e não se realiza senão por dois motivos: pelo estímulo, ou efeito, da obra derivado de sua dimensão criadora (poiesis) e sensorial (aisthesis), o que confere primazia ao prazer estético; ou pelo reconhecimento daquilo que lhe é familiar, por admiração àquilo que lhe parece exemplar ou simpatia àquele que lhe apresenta as normas.