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Num primeiro momento, para prepararmos uma discussão sobre o horizonte de expectativas em torno de Antes que o mundo acabe, é válido fazer algumas inferências sobre a repercussão da obra desde sua época de publicação, considerando alguns aspectos indicadores.

Seu lançamento se deu em 2000, sendo a quarta obra do autor pela Editora Projeto, de Porto Alegre.48 No mesmo ano, recebeu o selo “Altamente recomendável” da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil e, a partir disso, foi selecionado para os seguintes catálogos: FNLIJ, para a Feira de Bologna, em 2001; Passaporte para a Leitura, em Espírito Santo, 2004; e no catálogo do PNBE, em 2006. Dez anos depois do lançamento, na sua 12ª edição, continua disponível para venda em importantes sites do mercado livreiro. Fora isso, é difícil avaliar o modo como o livro em questão tem sido consumido pelos jovens leitores. É possível supor um alcance editorial maior no mercado gaúcho, onde o próprio autor tem participado de alguns projetos (como o Programa “Fome de Ler”, em 2004, coordenado por Ângela da Rocha Rolla, da Universidade Luterana do Brasil, em Guaíba, RS), concedendo palestras e visitando escolas, o que encerra uma forma de divulgação de seus trabalhos e, portanto, resulta em retorno nas vendas desta e das demais obras suas.

Na mídia impressa de circulação nacional, em uma busca nas versões eletrônicas dos jornais Folha de S. Paulo e Estadão, as referências ao livro Antes que o mundo acabe são raras. No caderno Folha Teen, de 3 de julho de 2000, na seção “Estante”, há uma resenha, assinada por Luís Augusto Fisher, com o título “Carta do pai desconhecido transforma vida de um teen” (ANEXO A), que, dentre outros elogios, resume a obra como uma “narrativa sensacional”.49

Outras menções aparecem apenas após a realização de uma adaptação cinematográfica, dirigida por Ana Luiza Azevedo, com produção da Casa de Cinema de Porto Alegre. O filme teve seu projeto inscrito no concurso da Ancine em 2003, começou a ser rodado em 2007, mas, após sua conclusão, enfrentou dificuldades na distribuição. Apenas em meados de 2009 o problema foi resolvido e, em 14 de maio de 2010, chegou aos cinemas distribuído pela Imagem Filmes.

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A primeira obra do autor é 1987, Noites do Bonfim (novela, Ed. Artes e Ofícios), e seu último trabalho é Super (novela, Ed. Record, 2010), completando um total de 16 títulos, entre novelas, romances, contos e um livro infantil. Já trabalhou como roteirista de curtas-metragens premiados e para um especial de TV.

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Algumas peculiaridades desse fato são válidas para a nossa análise. A saber, o filme desponta ao lado de outros do gênero, isto é, voltados ao público jovem, como As melhores coisas do mundo (direção de Laís Bodanzky), A Casa Verde (Paulo Nascimento), Mamonas, prá sempre! (Cláudio Khans), Desenrola (Rosane Svartman) e Eu e o meu guarda- chuva (Toni Vanzolini), todos com estreias entre abril e outubro de 2010, revelando uma tendência relativamente nova do mercado cinematográfico nacional50. Em função disso – ainda que a referência ao livro e ao autor, em nosso caso, seja apenas uma nota de rodapé nas reportagens –, a obra adquire certa visibilidade, reforça seu diálogo com outras produções culturais do momento e pode, com tudo isso, vir a ganhar novos leitores.

Outro fato é o julgamento de valor implícito em uma adaptação, ou seja, supõe-se que diretor, produtor, roteirista etc. não invistam na filmagem de uma obra literária que não traga em si qualidades consideráveis; além disso, o clichê “o livro é sempre melhor do que o filme” pode suscitar a curiosidade dos espectadores pela versão literária original. Mas isso, é claro, se o filme for apreciado pelo público e pela crítica. (Sabemos que uma “boa” adaptação – boa dentro de valores específicos do mercado cinematográfico – tem o poder de alavancar as vendas de um livro, mas não tem o poder, seja boa ou má, de destruir ou substituir uma obra que já seja consagrada.)51

E o filme, é bom? Antes mesmo da distribuição oficial, participou de alguns festivais e tem sido muito bem acolhido pela crítica e pelo público jovem e infantil.52

Essa valorização da obra escrita, em consequência de uma adaptação para o cinema, também ocorre pelas declarações de alguns leitores privilegiados. Nos festivais e cerimônias de estreia, diretor, produtor e roteirista não escapam das perguntas de seus entrevistadores: Por que resolveram adaptar essa obra? Foi difícil transportar o enredo para um roteiro de cinema?, entre outras. É o que podemos ver em alguns registros dessas ocasiões, a propósito de Antes que o mundo acabe, hoje disponíveis em materiais de divulgação do filme, e que podem ser acessados pelo canal que a equipe mantém no

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Conforme matéria da Folha de S. Paulo, com o título “Quero ser grande” (no caderno Ilustrada, dia 16 de abril de 2010, p. E1 e E4). Nessa matéria encontramos também uma referência ao filme, mas não ao livro de Carneiro da Cunha.

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Sobre essa questão, vale lembrar um fato controverso: o fenômeno Cidade de Deus. O filme, de 2002, não só fez crescer as vendas do livro homônimo de Paulo Lins, como também levou o autor a reeditá-lo, cortando partes, para deixá-lo mais próximo à adaptação de Fernando Meirelles.

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No 2º Festival Paulínia de Cinema venceu nas categorias Melhor Filme de Ficção (prêmio da crítica), Melhor Direção (Ana Luíza Azevedo), Melhor Fotografia (Jacob Solitrenick), Melhor Direção de Arte (Fiapo Barth), Melhor Figurino (Rosângela Cortinhas), Melhor Música (Leo Henkin); Na 3ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, conquistou Prêmio Itamaraty de Melhor Longa de Ficção Brasileiro. Todos em 2009.

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. Nesta página de compartilhamento de vídeos (um eficiente meio de contato com o público jovem), todos podem assistir a uma matéria em que Giba Assis Brasil, responsável pela montagem do longa, conta do contato que teve com o livro, ao lê-lo para seus filhos, falando de seu fascínio pela obra e da acolhida entusiasmada de seus ouvintes (aliás, ressalta que tinha o hábito de ler toda noite para seus filhos, comentário que colabora no engrandecimento do contato com a versão literária e com a literatura em geral). Nesse e em outros vídeos, vemos a diretora Ana Luiza Azevedo tecendo vários comentários elogiosos à obra de Carneiro da Cunha e o roteirista Jorge Furtado contando que, em feiras de livros e em escolas por onde passa, crianças vêm lhe dizer que adoram o livro.

Encerrando esse (extenso) parênteses sobre o longa-metragem, cabe ponderar que avaliar e medir os efeitos reais que o lançamento no cinema trará, a partir de agora, sobre a propagação e mesmo sobre a interpretação da obra Antes que o mundo acabe é outro trabalho que, apesar de interessante, não cabe a essa pesquisa. Além de não nos ser útil, em vista do fato de que nossos alunos-leitores não acompanharam essa repercussão nem assistiram ao filme. Contudo, são inegáveis as considerações sobre o julgamento de valor implicado em todo esse processo, que certamente nos aponta para o grande potencial dessa obra no diálogo que é capaz de tramar com o universo jovem ou adolescente.