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Ricardo,124 branco, de 22 anos, está no seu segundo relacionamentos fixo, mora com os pais e com um irmã de 17 anos, católico, é estudante concluinte do curso de Engenharia Civil em uma instituição de ensino superior particular. Apesar de estar concluindo o curso superior, o informante não pensa em dar inicio à pós-graduação, como ele alega, pretende “mesmo é trabalhar”, alega gostar de estar trabalhando com as coisas, com os

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Cf. TESSARI, Olga. “Por que as pessoas traem” IN Revista Eletrônica: O toque feminino que faltava na

internet. http://www.toquefeminino.com.br Acessado em 13/07/2004.

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equipamentos, e se diz não muito adepto de ficar “muito” na frente de um computador, gosta de “ficar com a mão na massa mesmo”.

Meu contato com Ricardo, aconteceu de forma inversa, ou seja, foi o informante quem procurou a pesquisadora. Quando ele soube por um amigo em comum sobre o objetivo da pesquisa, interessou-se em dar um depoimento, sem ao menos ter sido ainda convidado. Como até naquele momento, havia carência de relatos masculinos, ou seja, eram escassos, aceitei de bom grado, mas com receio de talvez não conseguir informações relevantes, pois como diz o ditado popular: “quando a esmola é grande o santo desconfia”.

Seu depoimento tem um diferencial dos demais informantes, pois foi o único que manifestou vontade de falar da família, e não de si. Vamos conhecer um pouco de sua vida para poder entender o porquê da necessidade de oferecer o relato.

Ricardo tem quatro irmãos por parte de pai e uma irmã por parte de pai e mãe, que já são adultos, ele é o penúltimo filho de seu pai. Como ele diz:

“... nós todos nos damos bem, apenas não temos essa convivência assim diária, mas todos se dão bem, as vezes a gente sai, vai pra um aniversario, é bacana, é um convivo assim... eu gostaria que fosse mais presente, mas infelizmente não dá, porque eles trabalham, cada um tem seu tempo, então a gente não se vê tanto assim como eu gostaria, mas eu penso também que eles pensam da mesma maneira, mas a gente se entende bem...”

Seu pai tem 60 anos de idade e sua mãe 50 anos, estão juntos há 30 anos. Ricardo diz que seu pai é ‘danado’, um ‘artista’, pois ele casou uma vez e teve dois filhos, depois se ‘juntou’ com outra pessoa e teve outro filho, tempos depois ‘arranjou’ outra pessoa e teve outro filho, e depois conheceu sua mãe e teve mais dois filhos. Ele diz que a mãe aceita bem os outros filhos do marido, afirma ser “... um relacionamento bacana, assim tranqüilo”.

Mas quando lhe pergunto se herdou do pai a veia de ‘artista’ me responde o seguinte:

“... nesse aspecto não, não puxei não, eu acredito que não, sabe, porque coisas assim que eu vejo, que eu presenciei, eu não me sentiria bem fazendo, tipo trair, sei lá, eu acho que eu não me sentiria bem. Olha, a convivência deles assim, sempre alternou

momentos bons e ruins, eu convivi muito com isso, eu acho que por isso me fez pensar diferente com relação a infidelidade, ... eles não tem essa convivência de marido e mulher, deles saírem só os dois, pra namorar, eles não tem mais isso, infelizmente, e isso eu não quero pra mim sabe, desde pequeno meus pais brigavam muito, por causa das puladas de cerca dele, eles passavam momentos bons, brigavam, mas nunca separavam, e sei lá, não sei se eles tivessem se separado não sei se teria sido melhor, acho que eu, por exemplo, acho que sentiria muito a falta de um de outro, sabe, então acho que eles foram levando, levando, eu acho que se acostumaram um com outro...”

Devido ao comportamento infiel do pai,125 Ricardo diz que o mesmo algumas vezes acusa a esposa de traição, o que gera troca de acusações, desconfianças, dúvidas, receios de que sua mãe queira um dia, quem sabe, ter também um envolvimento extraconjugal,

“... olha, acho que pelo fato do meu pai ter feito algumas coisas, acho que ele tem medo de sofrer as coisas que ele fez, tipo, ficar com muitas pessoas, ter muitas pessoas, então, eu acho que ele tem a preocupação, assim, da minha mãe fazer com ele o que ele fez com ela, e sabe besteira, eu tenho certeza que a minha mãe nunca... e ele sempre teve essa desconfiança assim, besteira, não sei porque...”

Mesmo afirmando a fidelidade de sua mãe, Ricardo admite que um relacionamento longo, aparentemente duradouro, pode acarretar problemas, pois acomodar-se não é regra, uma vez que ela não é feliz junto ao marido.

“... eu acredito que ela gosta dele, mas ela sente falta disso, eu acredito que ela sente falta assim de ter uma pessoa mais próxima dela, que realmente possa conversar com mais calma, porque com o meu pai não dá prá conversar, a mamãe fala com ele e ele fica ouvindo, ás vezes eles conversam, mas não é sempre, então ela sente falta disso, mas como eu te disse, eu acho que eles se acostumaram um com o outro, isso me entristece, porque eu gostaria que meus pais fossem mais próximos, mais unidos assim tipo homem e mulher...”

Apesar de sentir que sua mãe não vive momentos felizes no casamento, Ricardo acredita em sua fidelidade, tem conhecimento de seu sofrimento, é consciente que para ela deve ser difícil esquecer as mágoas causadas no passado, mas além da insatisfação, há uma história familiar, a qual ambos tem que preservar. Mesmo com as dificuldades do casal, o informante alenta o desejo de ambos voltarem a fazer programas a dois, a namorar, a renovar a relação.

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O relato de Ricardo me suscita a mitologia grega citando Zeus, Deus do Olimpo que casara com Hera, Deusa do Olimpo e protetora das mulheres e do casamento. Zeus era um homem libertino, promiscuo e infiel, praticamente nenhum de seus filhos foram concebidos dentro dos limites de seu casamento oficial. Hera foi extremamente humilhada com as aventuras de Zeus. “Ambos viviam em pé de guerra” dentro do Olimpo. Sobre o assunto, consultar: BRANDÃO, Juanito de Souza. Mitologia Grega. Petrópolis, Vozes, 1996.

Infidelidade é algo muito complicado, enquanto não se vive uma. O interlocutor não teve uma experiência muito boa, cresceu vendo e ouvindo os pais desentenderem-se por causa dos envolvimentos extraconjugais do pai, portanto sua experiência traz o peso valorativo da fidelidade como garantia de vida ‘limpa’, do comprometimento do sentimento que nutre pelo parceiro afetivo e sexual.

“... eu não concordo com essa questão, eu te digo falando isso por mim, tinha momentos assim que eu estava sem ela e batia uma tentação assim, mas eu pensava duas vezes, aí eu pensava ‘não pôxa, não é porque eu não estou bem com ela, que eu vou fazer uma coisa dessas [infidelidade], porque eu não vou querer que fizessem isso comigo’, eu já tive chances, já tive oportunidades no tempo que estava com ela, mas não fiz, eu pensava muito isso, que com ela podia passar uma imagem que eu não tinha feito nada, mas o negócio é comigo, eu não ia me sentir bem comigo...”

O depoimento de Ricardo é o mais distinto. O interlocutor trouxe a cena o relacionamento conflituoso de seus pais, o que pode parecer estranho, já que fala de acusações, suspeitas e relacionamentos extraconjugais na família, conflitos que geralmente são motivos de silêncio. Seguramente os modos de pensar e agir de cada um dos entrevistados refletem suas representações sobre infidelidade, que correspondem ao que a sociedade legitima e a experiência própria que cada um tem ao longo de sua trajetória. Portanto, a representação não é individual, produzida por uma consciência particular, é essencialmente social.126