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OUTLINE OF THE THESIS AND SCOPE

Lúcia,93 branca, de 30 anos, estatura média, intelectualizada, teve três relacionamentos, os quais qualifica como “fixos”, não tem filhos, mora com os pais e com irmãos, é a filha mais velha de seis irmãos, tem formação em dois cursos superiores, freqüentou duas faculdades diferentes, particular e pública, trabalha como Psicóloga, além de ser funcionária pública federal, é católica de formação, mas afirma não ser praticante, é independente economicamente desde os 21 anos.

Posso dizer que a história de Lúcia foi presenciada por mim, pois a mesma pertence ao meu grupo de amigos, fato que muitas vezes tive receio se poderia pedir-lhe um depoimento ou não, pois sempre notava que o assunto lhe incomodava. Depois de muitas conversas, acho que Lúcia sentiu a necessidade de falar sobre sua história, e revelou-me que até naquele momento jamais havia mencionado o fato a ninguém, nem a amigos e nem a familiares.

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Cf. ALMEIDA, Ângela Mendes. O gosto do pecado: casamento e sexualidade nos manuais de confessores dos

séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro, Rocco, 1993.

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Bozon aborda na sociedade individualista contemporânea, as mudanças que a sexualidade sofreu, desde os anos 60, paralelamente a outras transformações da sociedade como a família, os desejos e os relacionamentos. Sobre o assunto, consultar: BOZON, 2004.

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O antropólogo Richard Parker em sua obra aborda o lado oculto das práticas sexuais no Brasil, situadas no contexto de uma ordem social patriarcal e, ainda, dominada pela religião. Entrelaçando teoria e testemunhos o autor constata discursos contraditórios e diversos significados que estruturam a vida sexual brasileira. Sobre o assunto, consultar: PARKER, Richard. Corpos, Prazeres e Paixões. São Paulo, Best Seller, 1991.

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A informante manteve um relacionamento afetivo com um homem casado por oito anos, Paulo94 com quem se relacionou afetiva e sexualmente. Lúcia conheceu Paulo, quando estava concluindo o segundo curso superior. O contato entre os dois iniciou no ambiente de trabalho, pois ambos exerciam a mesma função e trabalhavam no mesmo local, mas foi a partir da iniciativa dele que os laços se estreitaram, pois procurou saber com uma amiga da informante como poderia encontrá-la, e obtendo endereço e telefone inicioua corte.

Tempo transcorrido, depois de convites para ir ao cinema e jantar fora, o romance teve início. Durante algum tempo pareceu um “conto de fadas”, parecia-lhe que tinha encontrado o par perfeito.

“... ele era muito cheio de cuidados, carinhoso, era aquele tipo que não se vê mais, aquele de abrir a porta do carro, de puxar a cadeira prá gente sentar, de não esquecer das datas importantes, ele era perfeito nesses cuidados, fazia a mulher se sentir a mais importante do mundo...”

Mas algumas desconfianças acabaram surgindo, histórias mal contadas, ausências sem explicações, “sumiços”, não demorou para que Lúcia tivesse dúvidas da condição civil do namorado.

Depois de muitas brigas, muitas idas e voltas, a meio verdade vem à tona, e Paulo admite que já havia tido um casamento e que naquele momento, em que estava envolvido afetivamente e sexualmente com a informante, estava separado. A revelação trouxe estabilidade as desconfianças de Lúcia. Quando o casal completara quatro anos de namoro, a descoberta real vem como uma bomba, ele ainda era “casado” e vivia com a esposa. Lúcia era a “outra” mulher na vida de Paulo, a amante. O relacionamento era fruto de infidelidade.

O envolvimento afetivo, sexual e emocional de Lúcia foi maior. Sem que tivesse consciência disso, a relação que era secundária passou a ocupar o lugar principal em sua vida, apesar de descobrir a situação civil do companheiro, a mesma, apaixonada, aceitou e deu continuidade ao relacionamento, por mais três anos, achando que agora que sabia da real condição civil, as pressões pudessem fazer a situação inverter a seu favor.

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Mais três anos passaram, devido a indecisão de Paulo em assumir um compromisso que validasse a posição da informante como sua companheira, enlace que não precisava estar pautado na instituição casamento, como informa Lúcia, mas na união de duas pessoas que visem compartilhar os mesmos ideais de futuro, o relacionamento acaba se desgastando. Mágoas e brigas foi o que restou de oito anos de relacionamento.

Segundo Lins (2004)95 quando duas pessoas iniciam um namoro ou se casam, defendem a idéia de quem ama deve contar tudo ao outro, mas segundo o depoimento da informante não existia o “confessionário”.96

“... pra mim ser fiel é respeitar o parceiro, respeitar seu amor, ter responsabilidade pelo compromisso firmado, mas esse respeito, essa dedicação e zelo tem de ser recíproco, tem que haver reciprocidade do sentimento, senão não vale à pena...”

No trecho selecionado acima, retirado do depoimento de Lúcia e com o relato de Leila, visto anteriormente, percebe-se o valor da fidelidade relacionando à infidelidade a falta de verdade, a falta de retidão, a ausência de compromisso no relacionamento a dois. Segundo Matarazzo (2001) a fidelidade é uma característica da paixão, e não do ser humano, logo, quando a pessoa está apaixonada nutre um sentimento de plenitude que não dá espaço para outros desejos, devido a isso, nada e ninguém mais, importa ao seu redor. Mas, segundo a autora, muitas vezes quando a paixão acaba e se transforma em amor, os olhares ganham mais liberdade, e para garantir a fidelidade é necessário reprimir os impulsos.97

Tais concepções de fidelidade, postas aqui, como cumprimento do dever e respeito são considerações elaboradas a partir das experiências de vida das entrevistadas, refletem uma visão de mundo que não está presa apenas a um contexto cultural.

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Cf. LINS, Regina Navarro. “Adultério” IN http://www.adultério.hpg.ig.com.br/regina1.html Acessado em 16/07/2004

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Segundo Azevedo o namoro faz parte de um sistema complexo, de regras e valores que visa encaminhar, e facilitar a escolha adequada dos cônjuges, garantindo a monogamia, além de ser encarado como uma etapa que deveria ser sucedida, necessariamente pelo noivado e pelo casamento. O namoro de Lúcia e Paulo é uma fase importante na medida em que marca o início de uma relação, mas que não teve prosseguimento, pela dificuldade em conviver com um homem que pertencia à outra mulher, o que inviabilizaria as chances seqüenciais das etapas descritas como ideais pela sociedade. Foucault considera a presença do outro, a face a face, a vida lado a lado, não apresentados simplesmente como deveres, mas como uma aspiração característica do vínculo que deve reunir os cônjuges. Eles podem ter cada qual o seu papel, mas não podem privar-se um do outro. Sobre o assunto, consultar: AZEVEDO, Thales de. As regras do namoro à antiga. São Paulo, Ática, 1986 e FOUCAULT, Michel. “O vínculo conjugal” IN História da Sexualidade 3. O cuidado de si. Rio de Janeiro, Graal, 1985, pp. 152-165.

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A partir da história de Leila e Lúcia pode se pensar na forte incidência da definição de infidelidade como desrespeito ao outro. Significaria a mentira, o rompimento da confiança e não está necessariamente ligada a relação sexual com outra pessoa, e sim a falta de afeto. Segundo Badinter (1986) o amor ideal é entendido como um diálogo permanente entre o casal, baseado no respeito e igualdade dos parceiros. A quebra da reciprocidade entre duas pessoas envolvidas em um relacionamento é vivenciada como falta de consideração ou indiferença quando uma das partes mente ou desrespeita a outra.98