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Chapter 2 Theoretical background

2.3 Smart Government

Já no estudo publicado em outubro de 1960, os principais líderes da Revista

Catolicismo (e também da TFP brasileira) Plinio Corrêa de Oliveira, D. Sigaud e D. Castro

Mayer, juntamente com o economista Luis Mendonza de Freitas, publicaram aquela que seria uma de suas principais obras, considerada nos meios católicos tradicionais um ―best seller‖ no âmbito dos livros ―técnicos‖ sobre o tema da Reforma Agrária. Denominado ―Reforma Agrária questão de Consciência‖ (adiante RA-QC), este livro inaugurou uma série de publicações que repercutiram a luta contra a Reforma Agrária empreendida pela TFP brasileira, não somente na década de 1960, mas, inclusive até a década de 198081.

81 De acordo com Zanotto, (2003, p. 114) além de RA-QC, ainda é possível incluir nas obras anti-

agrorreformistas as seguintes publicações da TFP: Declaração de Morro Alto (1964); Sou católico: posso ser contra a Reforma Agrária? (1981); Agitação social, violência: produtos de laboratório que o Brasil rejeita (1984); A propriedade privada e a livre iniciativa no tufão agro-reformista (1985); No Brasil a Reforma Agrária leva miséria ao campo e à cidade (1986); Projeto de Constituição angustia o país (1987); e, Reforma Agrária: terra prometida, favela rural ou kolkhozes? Mistério que a TFP desvenda (1987).

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Imagem 10 (Primeira propaganda de RA-QC em Catolicismo - outubro de 1960)

Dados mais atuais estimam que a obra teria vendido aproximadamente 50 mil exemplares82. Se é possível confiar nos números apresentados na edição do mês de março de 1961 (edição 123 de Catolicismo), em menos de seis meses a obra já estava na 3ª edição com aproximadamente 12.000 cópias (5000 na primeira e 7000 na segunda edição) vendidas ou distribuídas (imagem abaixo).

Imagem 11(Catolicismo, março de 1961)

A primeira edição de Catolicismo a repercutir RA-QC foi a de outubro de 1960, coincidindo com o mês do lançamento do livro. Desde a capa (publicando o título ―Obra

Providencial com que „Catolicismo‟ se solidariza inteiramente‖) até as primeiras cinco

páginas do mensário (de um total de oito) foi dado destaque para o recente lançamento, através de uma matéria de autoria de Plínio, que, a convite do corpo editorial, apresentou a obra aos leitores:

Para convidar seus leitores ao estudo e à meditação diligente dessa obra, Catolicismo pediu ao Prof. Plinio Corrêa de Oliveira que, em lugar de sua costumeira contribuição, escrevesse um estudo sobre a oportunidade de ―Reforma Agrária – Questão de Consciência‖ na atual conjuntura nacional. (Oliveira, Nº 118, 1960)

É possível dizer que RA-QC está inserida dentro do ideal preconizado a partir dos entendimentos da cosmovisão revolucionária e contrarrevolucionária. Na concepção de seus idealizadores, a obra seria mais uma arma contrarrevolucionária a ser lançada contra os movimentos revolucionários ou, em outras palavras, que pode perfeitamente traduzir o sentido dessa luta, a obra se enquadra numa perfeita manobra anticomunista a ser lançada contra a propagação comunista, que estaria se aproveitando da onda reformista para atrair corações e mentes, de um modo mais ou menos similar - assim entendiam seus autores - do que havia se passado com Cuba. Na passagem a seguir, Plinio demonstra aquilo que pode ser considerado o cerne do problema na propagação do ―reformismo agrário‖, sua localização precisa, exemplos históricos que comprovam o seu argumento, bem como o local assumido pelo comunismo nesse processo:

O único gênero de ambientes em que vários Estados, o reformismo vinha conquistando terreno são certos setores da ―intelligentsia‖ brasileira. Intoxicados de literatura socialista, quando não comunista, esses ambientes, constituídos de alguns políticos, jornalistas, escritores ou professores, além de certo número de admiradores e diletantes, se deixaram impressionar. O espírito da Revolução Francesa começou de algum modo nos meios intelectuais do Enciclopedismo. A Rússia teve sua primeira origem na ―intelligentsia‖ esquerdista. E outros exemplos do gênero se poderiam apontar. Ora, essas ―intelligentsias‖ tem sempre meios de impressionar certos elementos do centro até da direita. Nas classes burguesas o reformismo agrário, mais feliz um pouco do que junto às massas, conquistou, pois, aqui e acolá, algum elemento esparso. (Oliveira, Nº 130, 1961)

Se é possível apresentar uma visão geral desta obra, especialmente no contexto de sua publicação, ela fica circunscrita à visão de uma luta intensa entre os defensores da reforma agrária (iniciais minúsculas) ―sadia e cristã‖, e da Reforma Agrária (iniciais maiúsculas) ―socialista e anticristã‖. Nesse sentido, o esforço empreendido não era necessariamente se

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ocupar diretamente do comunismo ou do socialismo, mas atingir os mecanismos que estariam em voga nas formas de encarar o processo. Em outras palavras, servir de um alerta sobre o modo como a desinformação, no tocante ao tema, poderia repercutir no avançar da influência comunista. Plinio Corrêa de Oliveira explicou essa questão:

Mas o que nos parece sua verdadeira originalidade consiste em se ocupar, não tanto do comunismo ou do socialismo, mas dessas formulações ―cristãs‖ ou ―moderadas‖ de projetos, opiniões ou ponto de vistas favoráveis à ―Reforma Agrária‖, que constituem um subproduto da influência socialista entre nós. (Oliveira, Nº 130, 1961)

Após o seu lançamento, o livro de Plinio passou a ser frequentemente comentado na Revista brasileira sendo, inclusive, alvo de algumas matérias de capa (edições 124, 126, 136, 139, por exemplo). Assim, da mesma forma que RCR suscitou a implementação de uma coluna específica em Catolicismo (―RCR em 30 dias‖), isso também ocorreu com RA-QC. A partir do mês de outubro de 1961, na edição 130, a Revista passou a publicar a coluna ―RA- QC em 30 dias‖ tendo em algumas edições (especificamente a partir de outubro de 1963) um apêndice que levava o subtítulo ―Outras Notas Anti-socialistas‖. Em conjunto, as duas colunas se encarregavam de atualizar os leitores em relação às repercussões (positivas ou negativas), nas mais diferentes localidades do país, do movimento anti-agroreformista (inclusive embates suscitados), sendo, evidentemente, ressaltado o papel do livro como inspiração aos mais diversos setores ruralistas, ou como obra que foi refutada por seus adversários, além de trazer movimentos e publicações nos órgãos de imprensa em geral, nos quais eram ressaltados aspectos da oposição sistemática ao socialismo e comunismo.

As primeiras referências de RA-QC na Revista Cruzada são datadas dos meses de julho e agosto de 1963 (edições 041 e 042). Trata-se de duas propagandas que também informavam o preço da obra e onde poderia ser adquirida no país argentino. Essas primeiras manifestações sobre o livro coincidem com a repercussão, na imprensa argentina, do problema da Reforma Agrária no Brasil, notadamente a partir dos postulados contidos no projeto das ―Reformas de Base‖ do então presidente João Goulart.

Imagem 12 (Cruzada, julho de 1963)

Em duas edições de Cruzada (assim como na grande imprensa argentina) foram repercutidas essas questões. A do mês de junho (edição 040) transcreveu algumas das notícias referentes à polêmica, tanto em jornais argentinos (La Prensa) quanto brasileiros (Estado de São Paulo), mencionado onde estaria a principal periculosidade caso as Reformas avançassem:

Para mayor ilustración transcribimos algunos comentarios de la prensa nacional y extranjera al respecto de la delicada situación brasileña; ―la Prensa‖ del 8 de marzo dice: ―Los diputados conservadores han denunciado el proyecto de ley de reforma agraria del presidente João Goulart como demagógico y una suspensión de los derechos fundamentales‖ mas adelante agrega que el proyecto ―… ya ha suscitado acusaciones de que los izquierdistas ‗tratan de iniciar una revolución comunista‘ […]. (Varela, Nº 040, 1963)

A edição de julho (041), por seu turno, trouxe um questionamento de um leitor de

Cruzada sobre um possível apoio (que foi veiculado através de notícias na imprensa

argentina) da CNBB às Reformas de Jango, inclusive, questionando a chancela de expropriação de terras ―para fins sociais‖, o que, de fato, acabou colocando em relevo o conflito interno do catolicismo brasileiro83, especialmente pela contrariedade externada publicamente pelos Bispos D. Sigaud e D. Castro Mayer à posição da Comissão Central da CNBB. Deste modo, pode-se evidenciar que o problema da Reforma Agrária e sua possível via de abertura para o comunismo também permeava pelas preocupações dos membros da Revista argentina, conforme é possível verificar na passagem a seguir, que encerrou a matéria

83 O anticomunismo suscitado a partir da disjunção interna do catolicismo brasileiro e argentino será tratado no

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de junho: ―Comentamos nosotros: ‗Cuando veas las barbas a tu vecino cortar, po las tuyas a remojar‘‖ (Varela, Nº 040, 1963).

Cruzada continuou, por mais algumas edições, a difundir o livro RA-QC. Na edição

de novembro de 1963 (042), entretanto, a Revista publicou, exatamente no centro de uma de suas páginas, outra propaganda da obra, desta feita com uma elaboração relativamente requintada. Intitulada ―Best Seller‖ (em negrito e em letras garrafais), a forma como foi descrita permite aferir o quanto o texto dos autores brasileiros caiu no agrado do grupo argentino:

Cuando un libro polémico doctrinal obtiene gran venta, admiradores que lo aplauden con fuerza y entusiasmo, opositores sin coraje para refutarlo públicamente; es o que ese libro ha alcanzado las tres características del éxito supremo que raros ―best sellers‖ consiguen […] (Editorial, Nº 042, 1963)

Mais do que simplesmente difundir e elogiar o texto da obra RA-QC, bem como repercutir os enunciados anticomunistas nela presentes, através de matérias e artigos, o grupo de Cruzada também utilizou e se apropriou dos seus ensinamentos, possibilitando inserir os seus postulados no tocante à realidade política argentina. Durante o mês de julho de 1965, por exemplo, foi realizada a ―Exposición Rural Argentina‖, oportunidade na qual uma Fundação denominada Luis Maria Grignion de Monfort, através de um estande, divulgou o RA-QC. Como não poderia ser diferente, o Grupo de editores de Cruzada cooperaram e participaram ativamente nos 15 dias da Exposição organizando, inclusive, um ―folleto explicativo del problema ‗Reforma Agraria en la Argentina‘‖ bem com um audiovisual, que foi projetado nas instalações do estande.

Na Revista Cruzada, a repercussão da Exposição ocorreu na edição do mês de novembro de 1965, através de uma matéria (“Reforma Agraria – falsa solución a un problema inexistente”) assinada pelo articulista Ernesto Burini. Nesta é possível destacar

alguns aspectos que ajudam a compreender o quanto a questão ―Reforma Agrária‖ também suscitava preocupação nos setores tradicionais do catolicismo argentino84, bem como, dentro desse contexto, o quanto implicou na estruturação de práticas anticomunistas (discursivas e não discursivas) - tendo como base o livro dos autores brasileiros - além de fornecer uma quantidade expressiva de representações em relação ao comunismo. Nesse sentido, Burini definiu a importância do estande na exposição:

84 Em maio e junho de 1966, nas edições que antecederam o golpe militar, foram publicadas diversas passagens,

inclusive objeto de matéria de capa, que tratavam, entre outras questões, da infiltração comunista na argentina a partir de leis estatizantes, sendo as obras RCR e RA-QC constantemente mencionadas. Essa questão específica será tratada com mais vagar no quarto capítulo.

La aparición del stand en la Exposición Rural llamó la atención de todo el público: por primera vez, una entidad orientaba la muestra en un sentido doctrinario, para la difusión de los principios de la Civilización Cristiana. El audio-visual – exhibido ante cientos de personas por día – tuvo la rara virtud de provocar definiciones en cada espectador; logró poner en evidencia las últimas y necesarias consecuencias de la Reforma Agraria: el comunismo igualitario (Burini, Nº 059, 1965)

Se, por um lado, a presença de RA-QC na Exposição pode ser considerada mais um dos mecanismos que permitem visualizar o grau de sociabilidade entre as duas instituições quando o que estava em jogo, ao fim e ao cabo, era a ameaça comunista; por outro, cabe destacar uma particularidade deste evento que foi a apresentação das teses de Plinio e seus colaboradores para além dos frequentes ou esporádicos leitores da Revista Cruzada, uma vez que a visibilidade proporcionada por um estande, em uma feira de negócios agrários, implica, necessariamente, em um espectro de difusão muito mais amplo e diferenciado, tendo sido, inclusive, abençoada pelo representante maior do catolicismo argentino, Arcebispo D. Caggiano: ―Su Eminencia felicitó efusivamente al equipo de CRUZADA, poniendo de manifesto la necesidad de defender la Doctrina de la Iglesia amenazada por el Socialismo‖ (Burini, Nº 059, 1965).

Além da divulgação do livro aos seus possíveis novos interlocutores, tanto através da obra em si, como do folheto explicativo e do audiovisual, o grupo de Cruzada também distribuiu um questionário que tratava dos ―múltiplos aspectos que comporta un plan de Reforma Agraria‖, tendo como questão fundamental o ―sagrado direito‖ da propriedade privada. O questionário teria sido respondido por mais de três mil pessoas, dentre as quais 80% (números apresentados na matéria) seriam a favor das teses defendidas pelo grupo: ―que el sagrado derecho de propriedade privada debe ser defendido como fundamento de nuestra civilización [...] que este principio es la valla infranqueable del marxismo‖ (Burini, Nº 059, 1965). Entendiam e defendiam, portanto, que vacilar na defesa da propriedade privada seria cooperar para a expansão comunista: ―Resulta evidente entonces como ayudan a la implantación del comunismo aquellos que – con probada malevolencia – pretenden la supresión de hecho de la propiedad privada individual por medio de leyes estetizantes‖ (Burini, Nº 059, 1965).

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