Chapter 3 Theory and Framework
3.4 Developing the conceptual model
Em outubro de 1965, a Revista Catolicismo ofereceu aos seus leitores mais um estudo de Plinio Corrêa de Oliveira. Intitulado ―Baldeação Ideológica Inadvertida e Diálogo‖ (adiante BIID), o estudo foi publicado na íntegra na edição 178-179 da Revista, tendo sua primeira edição em livro publicada em janeiro de 1966. Dessa data até a 5ª edição (em 1974),
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BIID teria tido uma tiragem de aproximadamente 45 mil exemplares em português e mais de 22 mil exemplares nas línguas alemã, espanhola e italiana, além de ter sido transcrito integralmente em jornais ou revistas da Espanha, Argentina e Chile
.
Assim como as demais obras já analisadas neste capítulo, BIID também se configurou como um importante instrumento de saber anticomunista pautado em apontar, identificar, contrapor e contra-atacar aquilo que era entendido como possíveis manobras que visavam a expansão do comunismo pelo mundo ―ocidental e cristão‖. No estudo em questão, a ―manobra‖ foi reconhecida como ―uma nova tática comunista‖ que consistia na ―bolchevização inadvertida de incontáveis anticomunistas, por meio das palavras-talismã‖, que se consubstanciariam através de um ―processo de persuasão ideológica subconsciente adotado pela propaganda comunista.‖ (Oliveira, 1974, p. 2-3). Em outras palavras, o autor identificou que a estratégia posta em prática pelo comunismo em conquistar corações e mentes, naquele contexto, não somente utilizaria ―agressão termonuclear, do terrorismo ou da guerrilha‖ como meio de implantar o marxismo, mas efetivamente, ―manobras solertes‖ de ações ideológicas sobre o ocidente, tendo como parâmetro a palavra-talismã ―diálogo‖, que poderia alcançar ―sucessos mais fáceis e menos arriscados para a seita vermelha‖ (Oliveira, 1974, p. 2-3).
Na Revista Cruzada, o estudo foi publicado integralmente na edição 060, de dezembro de 1965, portanto apenas dois meses após o lançamento em Catolicismo. Importante ressaltar que essa edição da Revista argentina foi publicada exatamente no mesmo modelo que a Revista brasileira contendo, inclusive, o mesmo conteúdo e a mesma representação na capa (ver imagens abaixo). Essa forma de atuar de Cruzada possibilita agregar ainda mais elementos para a já mencionada relação entre as entidades. Entretanto, é preciso destacar que essa forma de cooperação esteve ancorada em alguns pontos, sendo que aqueles relacionados com a luta anticomunista podem ser considerados como o carro-chefe do processo.
Conforme visto nos exemplos anteriores (RCR, RA-QC e LIEC), o processo de inter- relacionamento entre as instituições, com base na luta anticomunista (sociabilidade
anticomunista), pode ser perfeitamente verificado através das diversas propagandas
publicadas no periódico argentino, bem como pelos seus usos (apropriações) e constantes interpretações. Além desse mecanismo, também presente por ocasião do lançamento de BIID, pode ser elencado outro tipo de prática que consiste no modelo de divulgação e distribuição (vendas) que era adotado pela entidade argentina e que coincidia com o já consagrado modelo adotado pela entidade brasileira, ou seja, distribuição nas ruas (para automóveis), em ônibus coletivos, assim como a venda direta para pedestres. Uma das primeiras matérias em
Catolicismo que se encarregou de repercutir o sucesso de BIID (edição 183, de março de
1966) traz alguns elementos que ajudam a compreender o esforço posto em prática pelo grupo na tarefa de disseminar, para o público em geral, as ―verdades‖ sobre o comunismo. Destaca- se, nesse sentido, a quantidade de membros, bem como suas mais diversas origens, que foram empregados na campanha de divulgação:
Participaram do ato sócios e militantes da TFP da capital paulista e dos Estados do Ceará, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Guanabara, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul além de representantes dos núcleos de várias cidades do interior do
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Estado de São Paulo e da Seção do Distrito Federal. Em número de quase duzentos, êsses jovens se tinham reunido em São Paulo para assistir um trídio de estudos intensivos na sede central da Sociedade. (Machado, Nº 183, 1966)
De outra parte, tanto em Catolicismo quanto em Cruzada, chama a atenção o esforço dos seus respectivos editores em publicar a positividade com que os livros eram recebidos pela população, os números de exemplares distribuídos, além de externar, por vezes, posicionamentos dos que aplaudiam, invariavelmente mencionados como grande maioria e, aqueles que rejeitavam, sempre minorias e considerados de forma generalizante enquanto comunistas e/ou progressistas. Qualquer pessoa que não quisesse adquirir ou aceitar a ―mensagem‖ poderia ser devidamente qualificada como comunista. Na passagem abaixo, é possível verificar o mecanismo discursivo de como se deu essa forma de representação:
É de se assinalar que um bom número de pessoas não regatearam aplausos às campanhas de esclarecimento doutrinário à população brasileira que vêm sendo promovidas pela TFP. Um transeunte chegou mesmo a dizer – e nesse ponto interpretava uma opinião que se vai generalizando, cada vez mais, em largos setores da opinião pública – que no dia em que a Tradição, Família e Propriedade interrompesse suas campanhas, o comunismo tomaria conta do Brasil. Compreende- se perfeitamente, diante disso, que elementos comunistas e progressistas de todo matiz não tenham ocultado a sua antipatia e até mesmo o seu ódio, quando lhes era oferecido um exemplar do livro. (Machado, Nº 183, 1966)
Na Revista Cruzada, por ocasião da matéria que repercutiu a venda do estudo na Argentina, também foram expostas algumas considerações sobre o quanto a obra foi bem recebida pelo público, servindo como uma espécie de antídoto frente à ameaça comunista:
Muchísima gente recibía con alegría, como a alguien por largo tempo esperado, y adquirían su ejemplar de la revista con toda esperanza. ―En medio de la confusión en que vivimos – decían los que ya habían leído el artículo del Dr. Plinio Corrêa de Oliveira -, estas páginas claras, luminosas, llenas de doctrina, hacen renacer las confianza‖. (Editorial, Nº 061, 1966)
Ainda em consonância com a passagem supracitada, também é possível destacar aspectos relativos à proposição de realidade do cenário que a luta anticomunista se projetava para os membros de Cruzada. Cabe ressaltar que o período da publicação dessa campanha esteve completamente submerso no processo político que desencadeou o golpe de Estado de junho. Inclusive, o título da matéria estampada na capa (imagem abaixo) da edição 061 de maio de 1966 (“Una ley Socialista nos acerca al Comunismo”) demonstra claramente o
Imagem 19 (Cruzada, maio de 1966)
Portanto, a matéria da divulgação do BIID não pode apenas ser considerada de cunho propagandista e publicitário, mas também como mais um esforço para estabelecer uma visão de mundo anticomunista inserida na já conturbada realidade política argentina daqueles tempos:
A despacho de lo que quisiera el comunismo y sus servidores internos, el pueblo católico no se deja engañar por el falso diálogo irenista. Está en pie de guerra contra sus insidias y perversidades. Está dispuesto a defender su fe contra toda clase de errores y a proclamarla íntegra, sin silencios culpables. A ese pueblo católico, al que pertenecen los argentinos de todas las clases sociales, desde la clase más alta hasta la menos dotada de fortuna, ―Cruzada‖ ha llegado y continuará llegando. (Editorial, Nº 061, 1966b)