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Chapter 4 Methodology

4.2 Research Method

Para finalizar com essa incursão nos principais temas que desenvolveram uma pedagogia anticomunista nas Revistas católicas, a análise deste espaço vai percorrer pelas considerações apresentadas em relação à União Soviética bem como pelas matérias que trataram sobre a expansão do comunismo e suas consequências, em seus mais diversos aspectos. Tanto em Catolicismo quanto em Cruzada é possível verificar que escrever sobre as ações políticas da União Soviética e a realidade dos países satélites se tornou uma constante. Era preciso alertar (e ensinar) o mundo ocidental sobre o poderio (por vezes extra-humanos) dos comunistas93 e, neste mesmo movimento, alertar sobre a fragilidade e ações equivocadas dos possíveis novos alvos a serem ―escravizados‖ pelo comunismo.

93 A matéria de capa da edição 113 de Catolicismo (maio de 1960), intitulada ―Rússia espalhará seus erros pelo mundo‖ é um exemplo significativo dessa vontade pedagógica dos mensários católicos.

Rusia tiene por misión difundir en todo el mundo a la Revolución en su última y más diabólica etapa: el comunismo, y para ello encuentra un occidente materializado, sin reserva morales, que quiere la paz a cualquier precio con tal de salvar su bien estar material. Encuentra a un occidente sin ninguna doctrina que puede oponer, y asimismo lo encuentra inficionado por la Revolución en su primeras etapas […] Rusia sabe que no se trata de un problema económico. Es algo más que eso. Es un problema moral, y hasta religioso. (Varela, Nº 17, 1960)

A passagem acima está inserida num conjunto de considerações que versaram sobre a visita de Nikita Kruschev, Premier Russo, a Paris, na França (1960), que foi representada como uma manobra comunista com fins muito específicos, quais sejam, ―desconcentrar psicologicamente [...] la opinión de esta parte del mundo. Viene a mostrar que los rusos no son malos, que saben vivir bien, que son simpáticos‖ (Varela, Nº 17, 1960). Não cabe aqui verificar se a visita de Kruschev teve ou não intensões específicas, nos moldes apresentados por Cosme Varela, mas tão somente verificar como o autor transformou sua opinião em motivos para externar as mais diversas representações sobre a atuação comunista, sorrateira, disfarçada, com poderes para conquistar corações e mentes: ―Occidente se está suicidando [...] Está encantado con una cabeza (Rusia) que sonríe del monstruo total que es el comunismo‖ (Varela, Nº 17, 1960).

Foi com o entendimento de uma completa expansão do comunismo pelo mundo, a partir das ações da União Soviética, aliado ao entendimento das específicas formas de atuação – que, como já visto, se caracterizavam pela ―infiltração‖ desavisada – que o tema da ―coexistência pacífica‖ passou a ser constantemente trazido à tona e denunciado como a última ―estratagema‖ utilizada pelo comunismo internacional para conquistar suas vítimas. Em face dessa interpretação, o futuro projetado não era nada animador: ―Puede ser 1960 el año decisivo de la victoria del comunismo. Los jefes de estado, las clases dirigentes, los intelectuales asumen frente a Dios la responsabilidad de permitir […] la penetración del comunismo y la liquidación de la civilización cristiana‖ (Editorial, Nº 20, 1960). A ―coexistência pacífica‖, então, passou a entrar na ordem do discurso anticomunista e, de forma bastante precisa, agregou diversas representações que iam desde a atuação prática do comunismo até seus fins últimos. A passagem abaixo, retirada do editorial de Cruzada de junho de 1961, exemplifica essa questão:

La coexistencia es una trampa. La esclavitud comunista, que tiene consciencia de llevar esa esclavitud a todos los confines de la tierra, no quiere la paz. Si eventualmente prefiere un estado de no guerra es porque mejor conviene a la expansión de la revolución mundial. La ―coexistencia‖ es, hoy, el mejor medio para liquidar a Occidente (Editorial, Nº 23, 1961).

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Um dos desdobramentos do desenvolvimento da ideia de coexistência pacífica, naqueles anos 1960, acabou tendo influência na repercussão das relações existentes com clérigos católicos que viviam em países sob o Comunismo. Este parece ser o ponto específico de aplicação do conceito para os grupos de Catolicismo e Cruzada, conforme ficou explícito no estudo LIEC:

Antes de entrar na matéria, parece-me necessário definir os limites naturais deste trabalho. Constitui ele um estudo sobre a questão da liceidade da coexistência pacífica entre a Igreja e o regime comunista, em Estados onde esse regime está em vigor. Esse tema não se confunde com outro, que é o da coexistência pacífica, no plano internacional, entre Estados que vivem sob regimes políticos, econômicos ou sociais diversos. Nem com o das relações diplomáticas entre a Santa Sé e nações sujeitas ao jugo comunista. Discorrer, ainda que de leve, sobre estes dois temas, que têm cada qual características e perspectivas muito peculiares, importaria em estender por demais o presente estudo. Não os temos, pois, em vista ao longo destas páginas, consagradas exclusivamente a investigar se, e em que condições, pode a Igreja coexistir, verdadeiramente livre, com um regime comunista. (Oliveira, 1974)

Nesse sentido, o Cardeal József Mindszenty, da Hungria, passou a ser tratado como um caso paradigmático (além de outros exemplos, como o Cardeal Wyszynski da Polônia) no tocante à resistência católica frente ao comunismo. Para se ter uma ideia da sua representatividade perante os grupos das Revistas, sua atuação de resistência ao comunismo foi assunto de capa de Cruzada, em setembro de 1963 e, em Catolicismo, foi tratada com destaque na edição de novembro de 1963, onde foi alvo de uma polêmica entre o articulista Cunha Alvarenga e o intelectual católico Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima). Respondendo à acusação de Tristão, de que Mindszenty seria o responsável pelo conflito entre Igreja e Estado, na Hungria, Alvarenga (Nº 155, 1963) assim definiu a sua posição:

É evidente, portanto, que o conflito entre a Igreja e o Estado na Hungria é fruto da injustiça representada pelo comunismo, que atenta contra os preceitos mais fundamentais da lei natural, além de cercear de todos os modos as legítimas e intransponíveis liberdades da Igreja. Ora, esse Atanasio do século XX [...] dá testemunho vivo contra o tremendo agravo que os algozes comunistas da Hungria fazem a Deus e sua Igreja.

Deste modo, escrever sobre Hungria, Alemanha Oriental, Cuba, Vietnam, Polônia, Iugoslávia, China e a própria URSS se tornou uma prática constante nas Revistas. O ponto comum entre essas matérias foi centralizado na questão da luta empreendida pelos católicos oprimidos pelos comunistas (“La iglesia del silencio”, conforme definiu uma matéria de capa

políticas) e barbáries do comunismo, além de denunciar o caráter escravocrata imposto pelos comunistas nessas Nações:

Com efeito, a dominação vermelha, alcançada pelo maquiavelismo e baseada na força, conserva sujeitos a um jugo injusto e a um regime social e econômico desumano, antinatural e nefasto, povos na maior parte ilustres por seu papel na cristandade, pelo valor de sua cultura, de sua arte e de seu progresso técnico (Oliveira, Nº 203,1967)

A passagem supracitada é parte de uma matéria que fui publicada na Revista

Catolicismo e que teve a intenção de se tornar um manifesto anticomunista, empreendido pela

TFP, por ocasião da passagem do 50º aniversário da ―Revolução Bolchevista‖ (imagem abaixo). Com algumas alterações, muito em cima da sua adaptação para o contexto argentino, essa mesma matéria também foi publicada na Revista Cruzada (imagem abaixo), na edição de novembro-dezembro de 67 (Número 072, intitulada “Manifesto de la Sociedad Argentina de

Defensa de la Tradición Família y Propriedad en el 50º Aniversario de la Revolución Comunista”), além de ter sido objeto de uma ―solicitada‖ no jornal La Nación, em três de

outubro do mesmo ano.

Imagem 25 (Cruzada, novembro-dezembro de 1967)

Essa matéria, bem como a especificidade de ter sido publicada nas edições de mesmo mês em ambas as Revistas, se configura em mais um exemplo possível de ser destacado

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quando se busca analisar as proposições pedagógicas construídas com base no expansionismo soviético pelo mundo. Ao trazer, para seus respectivos leitores, a lembrança dos 50 anos da Revolução, fica evidente a vontade de se recorrer sobre tema, explicá-lo, decifrá-lo, enfim, esclarecê-lo: ―Assim, esse documento importa num incitamento a que o Ocidente se mantenha vigilante na defesa de seus valores ideológicos e de suas fronteiras [...] a cegueira diante do comunismo constituem um convite para que este se atire à guerra‖ (Oliveira, Nº 203, 1967).

Um dos desdobramentos do manifesto anticomunista lançado pelas TFPs se deu através de encomendas de missas, nas principais cidades de ambos os países, em homenagem ao ―descanso eterno das vítimas feitas pelo marxismo, por todo o mundo, nas guerras, revoluções e atentados a que deu causa‖, além de outras ―intenções‖, como o pedido que ―Deus jamais permita que o comunismo prevaleça no Brasil‖ (Oliveira, Nº 203, 1967)., intenção que também foi solicitada para a Argentina. Não é o objetivo do trabalho apreender como teriam sido recepcionadas essas ―intensões‖, mas tão somente ressaltar esse esforço de que o assunto ―expansão comunista‖ fosse falado, comentado, repercutido, enfim, fosse motivo de constante preocupação tanto por parte dos clérigos, quanto por parte dos fieis. Para além dessa vontade em divulgar questões relacionadas com o comunismo, também é possível apreender outras possíveis intensões que estiveram circunscritas ao manifesto. Além do objetivo de propor ações práticas, através do ―esclarecimento das mentes‖ sobre o comunismo, também importava demonstrar e esclarecer a legitimidade da própria prática anticomunista:

Por anticomunismo entendemos aqui toda atuação que, dentro dos cânones da moral cristã, e alternando judiciosamente o diálogo com a polêmica, vise a refutar a doutrina marxista, a firmar princípios que lhe são opostos, a desfazer as tramas comunistas, a criar obstáculos a ascensão do comunismo nos países livres, e a favorecer a libertação dos povos por êle tiranizados.(Oliveira, Nº 203, 1967)

Por fim, e para dar cabo ao capítulo, ainda dois aspectos, ligados ao expansionismo comunista pelo mundo, merecem ser destacados. O primeiro está diretamente ligado às apreensões em torno do poderio bélico soviético. O manifesto divulgou aquilo que seriam os recentes aumentos em despesas militares, o acréscimo do poder de defesa antimíssil e o equipamento de submarinos com mísseis capazes de atingirem qualquer parte do mundo. Todas essas questões foram levantadas justamente para orientar e alertar o leitor sobre as ―ardilosas‖ manobras comunistas que, se transfigurando na ―coexistência pacífica‖, estariam desarmando o mundo ocidental frente às investidas comunistas.

Já o outro aspecto tratou de mencionar o expansionismo comunista inserido nos respectivos cenários nacionais. No caso do manifesto em Catolicismo, o subtítulo ―Pelo Brasil‖, dentre outras assertivas, alertou os leitores que, mesmo com o ―movimento do dia 31 de março‖ e o país ―ter escapado ao gravíssimo perigo comunista‖, o comunismo continuava a ser um perigo para o Brasil, notadamente identificando em ―certos círculos burgueses‖ como os principais setores sujeitos às investidas dos ―vermelhos‖: ―No auge da crise janguista, bem claro se tronou em que setores sociais mais intensa – ou melhor diríamos, mais agressiva – é a fermentação vermelha‖ (Oliveira, Nº 203, 1967). Na mesma seção do manifesto publicado em

Cruzada, desta feita sob o título ―Por la Argentina‖, coincidentemente, o alvo identificado como o de maior possibilidade de arregimentação comunista, também recaiu sobre os ―círculos burgueses‖ argentinos:

E incluso esas componendas no constituirían un peligro tan grave si no existiese [...] un conjunto de complicidades activas y de omisiones inexplicables que propician en círculos burgueses la formación de un ambiente de simpatía a favor de un socialismo intrínsecamente comunizante. (Editorial. Nº 072, 1967)

3 CATOLICISMO E CRUZADA: DIVERGÊNCIAS, CONFLITOS E O DISPOSITIVO