Chapter 6 Discussion
6.1 New Revised model
“Toda nossa vida é uma integridade humana, e se é para termos qualquer conhecimento real sobre essa totalidade, nós devemos enxergá-la como tal. Se a fatiarmos, ela morre no processo” (1909, p.VII).
Capítulo I - Aspectos social e individual da mente
A psicologia individual está para a mentalidade social como um único instrumento está para uma orquestra. “A mente é uma integridade orgânica constituída por individualidades cooperantes, em certa maneira, da mesma forma que a música de uma orquestra é constituída por sons divergentes, mas relacionados” (1909, p.03). Com essa analogia, Cooley quer mostrar que todas as ações e pensamentos de um indivíduo são influenciados e influenciadores do comportamento social ao qual participa.
Assim, a organização social de que trata o livro é “essa unidade diversificada de vida mental ou social presente na mais simples relação, porém capaz de infinito crescimento e
adaptação” (1909, p.04). Nesse ponto, Cooley se esquiva de definir detalhadamente o que entende por organização social, dizendo ser mais relevante visualizar o conceito que defini-lo.
Para o autor, grande parte das influências sociais são inconscientes: mudanças linguísticas, implicações governamentais ou declínios de hegemonias, como exemplos, passam, por uma razão ou outra, despercebidas aos que vivenciam esses acontecimentos. Porém, Cooley considera um erro separar acontecimentos pessoais, que em grande parte são conscientes, dos sociais. “O indivíduo e a sociedade são gêmeas, [..] a noção de um ego separado e independente é uma ilusão” (p.05).
O estudo da organização social, portanto, precisa se distanciar da visão descartiana que coloca a individualidade como pedra fundamental do conhecimento. Do ponto de vista de Cooley, essa fundamentação é insatisfatória em dois aspectos essenciais: Em primeiro lugar, ela implica que a consciência do eu faz parte de todas as consciências, quando, na verdade, pertence somente a um estágio de desenvolvimento um tanto avançado. Em segundo, é incompleto por excluir o nós do eu, cujas origens são emaranhadas e intrínsecas. (1909, p.06)
O primeiro ponto se fundamenta na existência de uma consciência destituída da consciência do eu em crianças ou deficientes mentais, por exemplo. Por sua vez, o segundo argumento está fundamentado na noção de que a consciência do eu aparece em crianças de aproximadamente dois anos, sendo necessariamente adquirida em concomitância com a consciência do outro e das relações social que envolvem esses dois elementos. Cooley desenvolveu essa questão em seu artigo A StudyoftheEarly Use of Self-Wordsby a Child, publicado pela revista PsychologicalReview em novembro de 1908.
Descartes, corrige Cooley, poderia muito bem ter dito “pensamos, logo existimos”. Isso porque o senso comum está acostumado a olhar para o indivíduo como o fator primário da vida, porém, com uma inversão de ângulos, é possível perceber que o indivíduo só existe a partir da sua existência em um conjunto. “O que não vem por hereditariedade, vem por comunicação e relacionamento; e quanto mais de perto olhamos, mais evidente fica que a individualização é uma ilusão dos olhos e que a comunidade é a verdade interior” (p.09).
Cooley não questiona a individualidade das pessoas, ele mostra que mesmo a essência desse corpo manifestamente avulso dos outros corpos possui uma dependência igualmente manifesta na genética que o liga ao conjunto da espécie. Se a comunicação genética está na essência da formação de um conjunto biológico, é a comunicação de pensamentos que está no cerne da sociedade. Quanto mais íntima for a comunicação de um grupo, mais completa, mais minunciosamente costurada em um conjunto vivo, será sua consciência pública” (p.10).
A existência de antagonismos de opinião não contradiz o fato de todas as consciências particulares originarem de um fundamento comum, a consciência pública. Cooley atribui as distinções majoritariamente a diferentes pontos de vistas, sendo a unidade da opinião pública5
baseada, não na concordância, mas na organização, interação e influência mútua entre os indivíduos sociais. Como exemplo, explica que a opinião de um parlamento não está limitado às opiniões comuns a todos os integrantes, mas abarca toda a consciência de cada um de seus membros.
Existiriam, para tanto, três aspectos que constituem a consciência social ou opinião pública: “a autoconsciência, ou o que penso de mim; a consciência social (em seu aspecto individual), ou o que eu penso de outras pessoas; e a consciência pública, ou uma visão coletiva daquilo que está em pauta, organizada em um grupo comunicativo” (1909, p.12). E esses três níveis de consciências estão intrinsecamente e indissociavelmente relacionados através da comunicação.
Capítulo II - Aspectos social e individual da mente (continuação)
No campo da ética e moral, Charles Cooley acusa os sistemas filosóficos e religiosos de postularem somente sob o aspecto individual daquilo que deve ou não deve ser feito, enquanto careceriam de um plano amplo, organizado e metódico de evolução coletiva da moral. Seu plano moral afirma que “os pecados e virtudes do indivíduo, parece-nos, nunca são fortuitos ou desconectados” (1909, p.14), sendo necessário então superar a ideia de uma ética universal, pois “padrões impraticáveis possuem o mesmo ineficaz efeito que uma lei inexequível” (1909, p.13).
A reforma moral, assim, deve ser compreensiva. O primeiro passo para tanto é não estar baseada em denúncias e censuras, mas em afirmações, lideranças e energia construtiva. E a característica compreensiva da moral partiria da premissa de que “a natureza humana, parece-nos, é bastante similar em aqueles que consideramos pecadores e em nós mesmos” (1909, p.15). Essa tática, Cooley afirma, é utilizada pelos mais eficientes líderes filantrópicos e exige paciência, firmeza e confiança na humanidade para não dar atenção às atitudes ruins e dedicar-se ao incentivo as boas.
Cooley, no entanto, não dispensa o elogio e a repreensão, que são fundamentais à necessidade de incentivar os ideais elevados e desvalorizar os mais baixos. A censura e a punição devem possuir função essencialmente simbólica, sem que em hipótese alguma
5 Cooley considera opinião pública um termo mais popular para consciência pública, utilizando-os, portanto,
deixem a entender que os punidos sejam pessoas inferiores, mas que apenas cometeram erros. “O espetáculo da punição não é para nós regozijarmos, mas para lembrar-nos de nossos pecados que, como brotam da mesma natureza [humana] e sociedade, são certamente similares àquele cometido pelo punido” (1909, p.17).
Um grande defeito das morais que abordam unicamente aspectos individuais é a possibilidade dos bem-sucedidos desprezarem os desafortunados com a certeza de que os últimos assim o são por responsabilidade única e exclusiva deles mesmos. Contudo, se sob o ponto de vista individual existem liberdade e responsabilidade, sob o ponto de vista coletivo existem diferenças políticas, econômicas, culturais, legais e morais. Se em termos de natureza humana, todos os indivíduos são muito similares, é a partir do aspecto coletivo que uma reforma moral deve ocorrer.
A moral não pode, enfim, ser singular: a estrutura social se apresenta cada vez mais volumosa e extensa, lançando ramificações de pensamentos e símbolos diversos como os galhos de uma árvore. A única forma de a mente coletiva dar conta da complexidade de uma moral compreensiva como a proposta por Cooley é a emersão dessas diversidades que estão inconscientes à opinião pública.
Capítulo III – Grupos primários
Por grupos primários, Charles Cooley compreende aquelas associações e cooperações íntimas face-a-face. “Elas são primárias em diversos sentidos, mas principalmente no de que elas são fundamentais na formação da natureza social e ideais do indivíduo” (p.23). Elas não são marcadas pela absoluta harmonia e doação incondicional, mas por respeito, por padrões comuns, por um jogo justo. Dessa forma, em um time esportivo, por exemplo, sempre existirão interesses individuais, porém, eles estarão sempre abaixo do sucesso do time.
As mais importantes esferas dessa forma de associação íntima são as da família, da escola, do local de trabalho e da vizinhança. “Essas são praticamente universais, pertencendo a todas as épocas e todos os estágios de desenvolvimento; e são consequentemente a base principal do que é universal na natureza humana e nos ideais humanos” (1909, p.24). Porém, já na civilização estadunidense da primeira década do século XX, os laços relacionados à locais estavam em declínio diante da ascensão de fraternidades, clubes e sociedades baseadas em interesses comuns.
Também cabe apontar que
grupos primários são primários no sentido de que dão ao indivíduo suas mais antigas e completas experiência de unidade social, e também no sentido de que eles não mudam no mesmo grau que as relações mais elaboradas, porém formam uma
comparativamente mais permanente fonte de onde essas últimas continuarão a brotar. (1909, p.26-27)
Ou seja, os grupos primários também são primários no sentido de que são terrenos férteis dos quais as relações secundárias emergem constantemente. Esses grupos primários são, portanto, fontes de vida, relações e também instituições sociais.
Para Cooley, não existem dúvidas de que as raças possuem capacidades diferentes, no entanto, não se tem notícia de que mesmo os mais selvagens indivíduos da espécie humana sejam alheios aos grupos sociais de natureza primária. Isso seria um indício de que se existe uma natureza humana universal nos indivíduos, também existe uma natureza universal nas relações sociais: os grupos primários são um modelo transcendental de sociabilidade (p.30).
O fato de sentimentos como afeto, inveja, vaidade, ambição e ressentimento serem extremamente primitivos e universais aos indivíduos mostra que a natureza humana não pode ser dissociada da natureza social, pois esses sentimentos pressupõe uma vida coletiva. Só é possível sentir afeto, inveja e ressentimento com a figura do outro; assim, para Cooley, a família e a vizinhança são essenciais para a gênese, para a constituição, da própria natureza humana do indivíduo (1909, p.31).
Capítulo VI – O significado de comunicação
Por comunicação, Cooley se refere a todos os mecanismos pelos quais as relações humanas existem e se desenvolvem. Isso inclui: símbolos mentais, linguagem, expressão facial, gestos, voz, palavras, figuras, telégrafos, telefones e malha rodoferroviária; ou seja, todos os meios que vençam hiatos de distância e/ou tempo. Para Cooley, a comunicação está para a sociedade tal qual o pensamento está para o indivíduo, não havendo uma clara distinção entre essas duas instâncias de consciência.
A comunicação, portanto, pode ser compreendida a partir de suas correspondências com a própria mente humana. E, se existe um desenvolvimento progressivo da capacidade simbólica de uma mente que torna seus pensamentos cada vez mais complexos e abstratos, há também um rol de etapas e incrementos a serem realizados no pensamento social. Esse desenvolvimento não são dois processos independentes, eles ocorrem em conjunto.
“Sem a comunicação, a mente não desenvolve uma verdadeira natureza humana, mas remanesce em um estado anormal e indeterminado, nem humana, nem propriamente brutal.” (1909, p.62) Cooley cita o exemplo de Helen Keller, uma menina que desapareceu do convívio humano quando tinha 18 meses e foi reencontrada aos sete anos. “...seus impulsos
eram tão crus e incontroláveis e seu pensamento tão desconectado que ela posteriormente se lembrava de quase nada do que aconteceu antes de seu reaparecimento...” (1909, p.62).
A conclusão é que “por meio da comunicação nós obtemos nosso desenvolvimento mais elevado” (1909, p.63), pois são as conversas, os livros, as artes, as vivências que despertam o pensamento, guiando-o por certos caminhos, fornecendo certos estímulos e certas estruturas para o desenvolvimento mental do indivíduo. No plano coletivo, a comunicação também é o exercício que estrutura e estimula os projetos, os conhecimentos, os símbolos, os ideais de uma sociedade.
O sistema comunicativo é, assim, uma ferramenta de constante progresso, cujos efeitos reagem sobre a humanidade, alterando a vida de cada indivíduo e cada instituição. “Um estudo desses aperfeiçoamentos é uma das melhores formas para se chegar a um entendimento das mudanças mentais e sociais que estão vinculadas a esses aperfeiçoamentos; porque permite um enquadramento tangível de nossas ideias...”(1909, p.64).
Capítulo VII – O crescimento da comunicação
O objetivo de Cooley é mostrar como o aumento de relações sociais gerado pelo encurtamento tecnológico do espaço e tempo influencia no desenvolvimento social. Ele inicia a tarefa, com coerência, tratando da comunicação pré-verbal: expressões faciais, gestos, grunhidos, choros, tons de voz. Esses exemplos de comunicação são a princípio involuntários, sendo, porém, logo apropriados como forma de comunicação intencional.
Um mecanismo artificial de comunicação se origina quando um humano começa a reproduzir propositalmente seus próprios movimentos e choros instintivos, ou os sons, formas e movimentos do mundo que o cerca com intenção de relembrar as ideias associadas a eles. (1909, p.67)
Para Cooley, todas as outras formas de comunicação mais elaboradas estão enraizadas nessa capacidade primitiva de imitação de suas próprias ações instintivas para se expressar (indica o que é interno) e de imitação daquilo que vê, ouve ou sente para simbolizar o que existe no mundo (indicado que é externo). Ou seja, um bebê logo aprende a chorar parar ter suas necessidades atendidas e a murmurar “mamãe” para evocar aquilo que percebe com os sentidos.
A noção popular de que as crianças primeiro tomam consciência de uma ideia para depois aprenderem com os outros seres humanos a expressá-las em palavras parece à Cooley equivocada. O aspecto lúdico das palavras precede a sua semântica: “assim, as crianças instintivamente adoram reproduzir e comunicar, em princípio meramente por esporte e
sociabilidade, então, quando a ocasião aparece, com um significado mais definido” (1909, p.68).
Essa primariedade do aspecto fático da linguagem, explica Cooley, é um convite que as palavras fazem aos humanos, pois preexistem ao próprio significado. “Tais palavras como, por exemplo, bom, certo, verdade, amor, casa, justiça, beleza, liberdade; são poderosas construtoras daquilo que elas representam” (1909, p.69). Elas nos atraem para uma busca que não se encerra na infância, mas que nos acompanha por toda a vida com o enriquecimento do vocabulário e com a redefinição de conceitos.
A linguagem, porém, também é hereditária, uma vez que é resultado de um processo histórico-cultural milenar. Um humano sem linguagem é como um viajante perdido, sem qualquer referência de onde está; a linguagem é como um mapa produzido pela sabedoria coletiva e cumulativa das pessoas que viveram no passado. Segundo Cooley, as palavras são mapas dos pensamentos, e o mesmo vale para as estruturas gramaticais, para as expressões linguísticas, para a literatura e para toda a tradição que essa última contém.
É a coisa mais admirável da linguagem que, por algo intangível em sua ordem e movimento e seleção e posicionamento das palavras, ela possa transmitir a própria alma de um homem, fazendo sua página viver mesmo quando suas ideias definitivas já cessaram de ter valor. (1909, p.70)
A linguagem é comum e apropriadamente considerada um dos aspectos mais distintivos do homem, uma linha divisória entre o que é humano e o que é pré-humano, por que um homem não pode dar vazão a sua própria natureza humana isolado da comunicação social. A conclusão a que se chega é que o crescimento mental do indivíduo não pode ser dissociado do conjunto mental que alcança seus mais longínquos ancestrais, tratando-se unicamente de uma diferenciação, um ponto de vista, uma secção da mente ampla de que fala Cooley.
No processo de desenvolvimento da capacidade mental da humanidade, a escrita possui parte fundamental na continuidade, aprofundamento e diversificação por permitir a perpetuação de ideias. E pela paridade entre os aspectos holístico e atômico, essas características são acrescidas, tanto no plano individual, quanto coletivo. “Toda a estrutura e progresso da vida moderna evidentemente repousam na preservação escrita, em forma de registros, das realizações de mente antigas, especialmente, da Judeia, Grécia e Roma” (1909, p.73).
A escrita permitiu, para Cooley, o engrandecimento da natureza humana e o surgimento de complexas instituições como os sistemas religiosos, governos legalistas,
ciência universalista e literatura permanente. A humanidade, antes confinada a pequenas e instáveis associações, acrescenta à vida social profundidade, segurança, diversidade e dispersão. A escrita, por oferecer longevidade ao pensamento, foi responsável por trazer à tona as primeiras civilizações.
Por sua vez, a prensa exacerbou o processo de desenvolvimento da mente ampla e abriu as portas para o mundo moderno. “A prensa significa democracia porque traz conhecimento ao alcance das pessoas comuns; e conhecimento, no longo termo, certamente fará bem às reinvindicações por poder dessas pessoas” (1909, p.75). O que Cooley prevê é o surgimento de uma meritocracia baseada em critérios como a inteligência e o caráter em substituição às artificiais oportunidades exclusivas.
Naturalmente, a língua falada, a escrita e o impresso são os principais meios de comunicação em 1909, quando o livro foi publicado. Cooley, porém, faz uma “menção honrosa” também a vários outros “canais laterais” como a flecha vermelha, a bandeira branca, os sinais de fumaça, desenhos, pinturas, esculturas, música, arquitetura. Essas formas de comunicação não são menos relevantes que quaisquer outras, inclusive porque são capazes de “... comunicar coisas que não poderiam ir por outro caminho, especialmente certas variedades de sentimentos que são assim perpetuados e difundidos” (1909, pp.77-78).
Capítulo VIII – Comunicação moderna: alargamento e animação
Os avanços tecnológicos do século XIX constituem, para Cooley, uma nova era na história da comunicação, ocasionando alterações em todo o sistema social. E esses avanços não requerem uma cuidadosa avaliação de seus aspectos mecânicos, já amplamente conhecidos, mas de seus efeitos sobre a mente maior, a consciência social. Para fazer essa análise, Cooley distingue quatro características de destaque em um mecanismo de comunicação:
Expressividade, ou a gama de ideias e sentimentos que carrega. Permanência do registro, ou a superação do tempo.
Celeridade, ou a superação do espaço.
Difusão, ou acesso a todas as classes de homens. (1909, p.80)
Certamente houve avanços na expressividade (como o surgimento de novos vocábulos) e na conservação dos registros, porém os passos mais expressivos foram dados em direção à celeridade e à difusão da comunicação social. “Para praticamente todos os propósitos, nossa linguagem não está melhor que na era de Elizabeth, se é que tão boa; mas que facilidade nós ganhamos em sua aplicação!” (1909, p.81)
Na virada do século XIX para o século XX, está em curso uma revolução nos fundamentos da comunicação popular. Diversos fatores convergem para que ocorra essa “modernização” que tanto encanta e assombra Cooley: o avanço da alfabetização, a evolução da malha ferroviária, o surgimento dos sistemas postais modernos, a popularização da telefonia, o barateamento da impressão e as novas formas de fotogravuras, fonografia e fotografia.
Cooley não economiza quanto à importância: “não é exagero dizer que essas mudanças são a base, do ponto de vista mecânico, para praticamente tudo que é característico na psicologia da vida moderna” (1909, p.81). Há aqui, para o autor, uma correspondência entre a capacidade das pessoas se comunicarem em conjuntos sociais e a expansão da natureza humana. “Elas significam liberdade, perspectiva, indefinidas possibilidades” (1909, p. 81).
O argumento é que a comunicação permite à sociedade substituir os critérios de organização por casta, autoridade e tradição pelas faculdades elevadas dos humanos, como inteligência, eficiência e compreensão. É a aquisição da possibilidade de dar-e-receber sugestões, ideias, pensamentos que gera essa consciência pública em um nível cada vez mais amplo: vizinhança, cidade, estado, nação, por fim, o mundo inteiro.
O resultado se dá em duas instâncias resumíveis em dois conceitos: alargamento e animação. O alargamento é, evidentemente, a expansão espacial da “conversa” pública. Já a animação trata da velocidade em que a troca de sugestões ocorre, trata da atenção e da importância dispensada pelas pessoas às questões sociais. A unidade mental das sociedades modernas não estãoapenas ampliadas, elas também se tornaram mais intensas, mais alertas e mais extenuantes.
Um século antes, ou seja, na passagem do século XVIII ao XIX, a consciência pública era confinada aos lugarejos em que se vivia. “Viajar era lento, desconfortável e custoso, e pessoas empreendendo uma jornada considerável usualmente faziam seus testamentos às vésperas.” (1909, p.82) Os jornais existiam apenas nas grandes cidades e eram semanais. “O número de cartas enviadas nos treze estados durante um ano inteiro era muito menor que o número agora manipulado pela agência de Nova York em um único dia” (1909, p.82).
O ambiente de uma fazenda ou vilarejo se restringia à tradição local existente em um raio de influência de poucos quilômetros. Mesmo as grandes cidades eram isoladas do resto do mundo; as pessoas não estavam a par, ou sequer interessadas, no que acontecia na China,
por exemplo. Cooley afirma que a introspecção dos cidadãos com as questões locais era algo que, até pouco antes de sua época,dificilmente seria concebida.
A mudança para o presente regime de ferrovias, telégrafos, jornais diários, telefones e o resto envolveu uma revolução em todas as instâncias da vida; no comércio, na política, na educação, até mesmo na mera sociabilidade e fofoca – essa revolução sempre resultando em um alargamento e aceleramento do modo de vida em questão.