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As observações de campo e preenchimento de diário permitiram conhecer a rotina da escola Alfa mais de perto. No mural da escola há vários artigos publicados em jornais locais sobre o bom desempenho da escola no SARESP e no ENEM. Pode-se verificar que é uma escola que atrai a atenção da opinião pública, o que pode contribuir para atrair alunos de regiões distantes. Viu-se que, em geral, as aulas transcorreram de forma tranquila, apesar de em nenhuma delas ter se observado silêncio ou cooperação completa em relação ao que o professor propunha. Os alunos se sentam em uma disposição uniforme na sala e não há concentração excessiva de alunos no fundo ou algum canto da sala. A tônica das aulas é resolver exercícios e os alunos parecem empenhados em apresentar ao professor o que ele pede, conforme se vê no seguinte trecho do diário de campo:

O professor de filosofia inicia a aula falando de utilitarismo e diversos alunos abrem o caderno para recordar o conteúdo da aula anterior. O professor inicia uma explanação, com a presença de um burburinho na sala. Uma aluna, que antes estava lendo, faz um comentário em relação ao que o professor está falando. O professor pede que alguns alunos guardem o celular. O professor continua a explicação e o ambiente em geral é silencioso, apesar de haver uma conversa aqui e ali. Há uma aluna sentada de lado em relação ao professor. À medida que o professor discorre sobre a matéria, os alunos vão dando contribuições. A maioria copia o que está sendo escrito no quadro negro. (Diário de Campo, Escola Alfa, aula de filosofia, 2º C, dia 30/07/2014).

Em outro trecho do diário de campo também é observado que:

A professora copia alguns exercícios de um livro na lousa e os alunos fazem o mesmo em seus cadernos. Os alunos fazem e conversam com os pares ao mesmo tempo enquanto a professora circula entre as carteiras verificando a realização do exercício e tirando dúvidas dos alunos. (Diário de Campo, Escola Alfa, aula de química, 2º A, dia 30/07/2014).

Os professores, em geral, parecem almejar uma aula na qual apresentem um conceito, os alunos escutem atentamente e resolvam os exercícios propostos de maneira correta ou os procurem para esclarecer dúvidas. O fato de o aluno estar disperso durante o momento expositivo da aula, de não fazer as atividades ou estar ocupado em alguma outra coisa, gerava nos professores algum tipo de reação, como um pedido de silêncio ou elevação da voz, por exemplo. Um dos professores, inclusive, pediu para a professora-coordenadora que desse visto no caderno de alguns jovens que pareciam alheios a aula.

Alguns alunos de fato se ocupavam em resolver os exercícios, ao passo que outros se preocupavam em copiá-los depois de prontos. Notou-se, durante as observações de campo, que alguns alunos estão mais próximos das expectativas institucionais da escola do que outros. Os professores muitas vezes se referem às notas como instrumento de pressão para que se faça a atividade, afirmando que se não a apresentarem ficarão com nota baixa. Esse tipo de argumento parece persuasivo, posto que a maioria dos alunos se põe a fazer o que é proposto, mesmo que copiando dos colegas. Em todas as aulas, entretanto, havia alunos fazendo atividades alheias à proposta do professor, como dormir, mexer no celular, se maquiar, conversar, desenhar.

A relação entre professor e aluno transcorreu na maioria das vezes dentro das normas escolares. Houve, entretanto, algumas ocasiões vistas e outras relatadas pelos professores nas quais o estudante questionou o método de o professor dar aula, como registrado no diário de campo:

Diversas vezes o professor faz “shh” aos alunos. Ele escreve um sistema de equações na lousa. Uma aluna diz não estar entendendo nada ao que o professor retruca que “se estivesse prestando atenção, talvez entenderia”. A aluna retruca que estava prestando atenção e que o professor estava “enxergando coisas”. Ele então pede para que ela o deixe dar aula. Diário de Campo, Escola Alfa, 2º B, aula de matemática, 9/09/2014.

Em uma situação relatada por uma professora, uma das alunas disse-lhe de forma irônica: “hoje teremos aula de sua matéria?” e a professora respondeu: “Quantas vezes te

mando desligar o celular? Você só não tem aula porque não quer”. A mesma professora

falou em uma sala: “Os pais vieram reclamar que eu falto muito. Falto mesmo, porque é meu

direito. É direito de vocês pedirem que o eventual dê matéria. Se ele não o fizer, reclame na diretoria, é um direito de vocês”. A insatisfação dos estudantes com essa professora culminou

em um abaixo-assinado pela sua substituição, que foi entregue à diretora e um dos alunos entrevistados afirmou que após a entrega do abaixo-assinado, a professora passou a se ausentar menos. Outra docente, recém ingressa no magistério, trata deste assunto, conforme registrado no diário de campo:

Ela comenta que já lecionou em escola de bairro e que os alunos são menos interessados e mesmo apáticos se comparados com esta escola no centro. Ela diz que nesta escola (a central) o problema são os aparelhos eletrônicos, pois distraem muito a turma. Ela diz preferir não bater de frente com aluno, mas dá zero caso eles não façam nada. Pergunto a ela se acha os alunos da escola central arrogantes e ela diz que muitos questionam o modo do professor dar aula e que considera isso bom, pois a ajuda a melhorar, mas que isso não é comum em outras escolas, onde os problemas são diferentes. Diário de Campo Escola Alfa – Aula de Biologia, 2º B, 2/09/2014.

Nos intervalos entre as aulas, período de troca de professor, foi possível observar como diversos alunos se ocuparam em atividades escolares de alguma natureza. Observaram- se alunos fazendo apostilas de cursos técnicos como segurança do trabalho e auxiliar de enfermagem, alunos lendo livros de literatura juvenil e adulta como Ligia Fagundes Telles e Luiz Pondé, fazendo exercícios do curso de inglês, entre outros. Alguns jovens, por sua vez, se ocuparam em atividades diversas como jogar carta e conversar. Isso se vê no registro do diário de campo:

Entro na aula no 2º C junto ao professor de filosofia. O ambiente na sala é tranquilo: vários alunos lendo livros, outros escrevendo no caderno. Havia um tabuleiro de xadrez na primeira carteira. Diário de Campo da Escola Alfa, 30/07/2014.

Em outro momento, também se registrou:

Entro no 2º C com a professora de português. Entramos na sala e há silêncio. Diversos alunos se ocupam em ler ou fazer exercícios no caderno. A professora recapitula o que foi feito nas aulas anteriores, linguagem verbal e não verbal. Diário de Campo da Escola Alfa, 26/08/2014.

Em outras salas do segundo ano, o grupo parecia mais disperso, como se vê nos seguintes trechos:

Entro na sala do 2º B com a professora de biologia. Ela recolhe algumas atividades. Alguns alunos jogam cartas, outros mexem no celular e outros conversam. Diário de Campo, Escola Alfa, 4/08/2014.

Em outra data, também se vê que:

Entro na sala do 2º A com a professora de química. Há certa dispersão na sala, com alunos conversando animadamente e fora de seus lugares. Alguns mexem no celular. A professora faz a chamada e então a turma se acalma. Diário de Campo, Escola Alfa, 18/08/2014.

Parece, assim, que a adesão dos alunos à proposta da escola é significativa, mas varia conforme o professor e a turma. Observou-se, no entanto que muitos alunos recorrem à cópia dos colegas para obtenção de notas, como descrito:

Entro no 2º A na sala de Física e o professor inicia a aula falando de seu desapontamento com o resultado das provas, pois muitos copiaram uns dos outros a resposta e usaram o celular para responder algumas questões. Diário de Campo, Escola Alfa, aula de física, 15/08/2014.

A professora então se aproxima de dois alunos e diz que anulará ambas as atividades que foram entregues, pois um copiou do outro, ao que um deles retruca “não professora, ele só me explicou”. A professora diz então que ambas as atividades estão iguais, mas os alunos continuam argumentando. Diário de Campo, Escola Alfa, aula de biologia, 2º B, 2/09/2014.

Não foi presenciado ou relatado, contudo, nenhuma atitude considerada violenta por parte dos discentes em relação aos professores. Na última semana, por sua vez, um grupo de formandos do terceiro ano combinou de promover atos de indisciplina dentro do espaço escolar, conforme relatado no diário de campo:

Chego à escola à noite para realizar as entrevistas e há uma conversa intensa na sala dos professores. É a última semana de aula do ensino médio e os alunos do período da manhã haviam feito uma grande bagunça na escola no dia anterior, jogando água e farinha pelos corredores e escorregando sobre a mistura. Na sexta feira, último dia de aula, a escola pediu a todos os alunos abrirem a mochila e mostrarem o conteúdo a um funcionário, pois havia circulado por uma rede social o plano de soltar bombas na escola como havia sido feito em outra escola estadual do centro. A “revista” às mochilas foi filmada e nenhum funcionário tocou no material dos alunos, apenas pediu para ver. Um grupo de alunos do terceiro ano ficou do lado de fora e alguns ligaram para os pais se dizendo impedidos de entrar na escola por não quererem ser coagidos a ser revistados. Alguns pais chegaram e chamaram a polícia e o jornal local. Algumas bombas foram jogadas da rua e estouraram do lado de dentro da escola. Alguns alunos postaram nas redes sociais críticas à escola, por não escutar os alunos e pelo fato de a diretora nunca estar presente para conversar com eles. Outros alunos e seus pais, no entanto, se posicionaram a favor da escola, por ter evitado atos de vandalismo. Diário de Campo, Escola Alfa, sala dos professores, 1/12/2014.

Em relação a este evento, foi, inclusive, publicado um pequeno artigo em jornal local com depoimentos dos pais que se sentiram prejudicados. A principal queixa era o fato de a diretora não ter aberto diálogo com os jovens e não ter promovido ações para a juventude, como festas, por exemplo. Isso pode refletir a avaliação bastante negativa que os estudantes da escola Alfa atribuíram a escuta e ao apoio aos estudantes por parte da escola.