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2.4 G EOMORFOLOGISKE ELEMENTER I SKREDET

2.4.1 Skrenter

A ida de Agassiz aos Estados Unidos contou com a intermediação de Charles Lyell, um importante nome da história natural do século XIX. Por meio da correspondência com John Amory Lowell, o célebre geólogo escocês articulou a chegada de Agassiz para uma série de conferências em história natural, que ficariam registradas entre as mais importantes palestras do Lowell Institute.159

Mary Horner Lyell, também conhecida como Lady Lyell, esposa do geólogo escocês, escreveu a Agassiz sobre os arranjos dessa viagem: “[…] meu marido irá escrever ao Senhor Lowell amanhã; Entre outros assuntos, ele perguntará se ainda há algum curso aberto, pois, neste caso, sente-se seguro que eles ficariam felizes em tê-lo [...] Senhor Lowell é o único diretor do Instituto e pode nominar quem lhe convém.”lv 160 A narrativa de Lady Lyell explicita não só a mediação de um naturalista na travessia de Agassiz, mas também a base do sistema de patronagem fortificado na troca de correspondência entre homens de ciência ingleses e estadunidenses.

Na carta, Lady Lyell reforçou o poder de John Lowell e das influências poderosas entre os correspondentes. Ela transmitia, igualmente, o poder do próprio casal Lyell, que garantiu a Agassiz o sucesso da intermediação. A carta do grande geólogo Charles Lyell, exerceria força suficiente na decisão de um homem de poder do outro lado do Atlântico. As negociações do casal britânico foram bem sucedidas e Agassiz desembarcou em Boston, nos Estados Unidos, pela primeira vez, em 1845.

Tão logo chegou a Boston, Agassiz redigiu uma longa carta ao lar à sua mãe, Rose Mayor. O naturalista assumiu um tom bem diferente das cartas ao lar escritas nos anos de aprendizagem na Alemanha, quando pela primeira vez, longe de casa, muito confiante, o !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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John Amory Lowell (1798-1881) foi um estadunidense, homem de negócio, patrono da ciência e filantropo. Após a morte do primo, John Lowell Jr., fundador do Lowell Institute, John Amory Lowell tornou-se o administrador da instituição. Sobre a família Lowell, ver: GREENSLET, Ferris. The Lowells and their seven worlds. Cambrigde: Mass., 1946. Sobre a recepção de Lowell a Agassiz na América, ver: LURIE. Louis Agassiz: a life in science, p. 122. O título das conferências de Agassiz foi “Lectures on the plan of the creation, especially in the animal kingdom.” Ver o capítulo XIII em: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p. 401-429. 2v.

160

Carta de Mary Horner Lyell a Louis Agassiz, London fevereiro, 28, 1845. In: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p.402. 2v. Transcrição inglesa: Elizabeth Cary Agassiz. Tradução desta autora. Mary Horner Lyell (1808-1873) foi uma concologista e geóloga britânica. Uma breve biografia de Lady Lyell está no artigo: HUNTER, Dana. Mary Horner Lyell: a monument of patience. Scientific American. April 25, 2013.

Disponível em:

<http://blogs.scientificamerican.com/rosetta-stones/mary-horner-lyell-a-monument-of-patience/>. Acesso em: 13 de novembro de 2015.

jovem entusiasmado relatou aos familiares os detalhes de seus passeios, as paisagens alemãs, seu cotidiano de estudante e sua inclinação pela história natural. Dessa vez, via-se diante de uma situação desafiadora, afinal, deixaria para trás a Europa, berço da ciência moderna ocidental, onde estabelecera solidez científica, para continuar o exercício da história natural numa nação ainda muito jovem.

Diante da exuberante natureza do Novo Mundo, Agassiz vislumbrou seu horizonte muito promissor na ciência americana. Mas suas expectativas não deveriam excluir as realizações passadas e, muito menos, abalar suas relações com os europeus, fossem elas familiares ou científicas. Mesmo na condição de naturalista renomado, seguiu para a América com muitas inseguranças. Confessou à mãe essas inquietações e escreveu um interessante relato epistolar. A partir das primeiras impressões, contrastou a vida norte-americana com os aspectos civilizatórios da “velha Europa”:

[...] não pense que eu me esqueci das vantagens da nossa antiga civilização. Longe disso. Sinto mais do que nunca o valor de um passado que nos pertence e, no qual, nós crescemos. Gerações devem passar, antes que os Estados Unidos tenham as coleções de arte e ciência que adornam nossas cidades, ou os estabelecimentos de ensino público, santuários, na verdade, consagrados pela devoção daqueles que se dedicam inteiramente ao estudo. Aqui todos trabalham para ganhar um sustento ou para fazer uma fortuna. Alguns estabelecimentos [de ensino] são antigos, ou têm raízes suficientemente profundas nos hábitos das pessoas, salvos de inovação; muito poucas instituições oferecem uma combinação de estudos tais que, no seu conjunto, satisfaçam as exigências da civilização moderna. Tudo é feito pelos esforços de indivíduos ou de corporações frequentemente guiados pelas necessidades do momento. Assim, a ciência americana não tem o alcance que é característico da instrução superior em nossa velha Europa.lvi161

Agassiz referia-se particularmente à costa leste e norte dos Estados Unidos. O naturalista percorreu as regiões de New Haven, New England, New York e New Jersey, e visitou centros educacionais nas cidades de Princeton, Philadelphia, Boston e New York.162

Nada escapou a Agassiz, sua carta narrava até mesmo considerações acerca da vida do trabalhador americano. A natureza selvagem, com suas formações rochosas, florestas de pinheiros e animais regionais, foi igualmente confrontada com a natureza europeia. Na narrativa epistolar, citou alguns homens de ciência nas minúcias de suas respectivas especialidades e contribuições científicas. A carta delineava um panorama do campo !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Carta de Louis Agassiz a mãe, Rose Mayor Agassiz, Boston, dezembro, 1846. In: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p.412. 2v.Transcrição inglesa: Elizabeth Cary Agassiz. Tradução desta autora.

162

Sobre a primeira jornada de Agassiz na América, ver capítulo 4, “The American Welcome”, da biografia de Lurie. LURIE. Louis Agassiz: a life in science, p. 122-165.

científico na América, indicando como o naturalista aproveitara sua ida aos Estados Unidos para estreitar relações com reconhecidos homens de ciência, a exemplo de Benjamin Silliman, um dos mais poderosos e influentes naquele país163:

Em New Haven, passei vários dias na casa do Professor Silliman, com quem tenho mantido correspondência durante muitos anos. A Universidade de Yale deve aos esforços do Professor uma bela coleção de minerais e extensivo aparato físico e químico. Silliman é o patriarca da ciência na América. Durante trinta anos, ele tem editado uma importante revista científica, o canal pelo qual, desde a sua fundação, pesquisas científicas europeias chegaram à América. Atualmente, seu filho é professor de química em Yale. Um de seus genros, o Sr. Shepard também leciona química na Universidade da Carolina do Sul. Outro, o Sr. Dana164, ainda muito jovem, me parece provavelmente ser o naturalista mais ilustre dos Estados Unidos. Foi membro da expedição ao redor do mundo sob o comando do capitão Wilkes e acaba de publicar um magnífico volume contendo monografias de todas as espécies de pólipos e corais, com observações curiosas sobre o seu modo de crescimento e sobre as ilhas de coral. Fiquei surpreso ao encontrar na coleção de New Haven um belo exemplar da grande salamandra fóssil de Oeningen, o <<Homo diluvii testis>> de Scheuchzer.lvii165

A avaliação da ciência do Novo Mundo não era desinteressada. Afinal, o naturalista deslumbrava o futuro, mas sem se afastar do passado. É visível que Agassiz averiguava cuidadosamente se os Estados Unidos lhe ofereceria os recursos básicos para a continuidade de uma prática na história natural de alto nível. Era o momento de indagar se na América haveria preciosas páginas do livro da natureza; quem eram os atuais leitores desse livro; e com quais ferramentas haveriam de traduzi-lo para a linguagem universal da história natural.

Notou que o país contava com canais de divulgação da ciência – “uma importante revista científica”, foi como Agassiz referiu-se ao American Journal of Science and Arts, fundado e editado por Silliman, em 1818. Observou, com atenção, os instrumentos !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Benjamin Silliman (1779-1864), era químico, naturalista e editor. Durante a primeira metade do século XIX, foi um dos mais proeminentes e influentes homens de ciência nos Estados Unidos. Ministrou química e história natural (mineralogia e geologia) em Yale. Entre as biografias de Silliman, ver: FULTON, John F.; THOMPSON, Elizabeth H. Benjamin Silliman. New York: Schuman [1947]; BROWN, Chandos Michael. Benjamin Silliman: a life in the young Republic. Princeton, New Jersey: Princeton University Press, [1989]; FISHER, George P. Life of Benjamin Silliman. New York: C. Scribner, 1866. Para uma biografia que provem trechos de diários, discursos e correspondências sobre os tempos em que atuou como professor em Yale, ver: CHITTENDEN, Russell H., History of the Sheffield Scientific School of Yale University, 1846-1922. New Haven: Yale University Press, 1928.

164

James Dwight Dana (1813-1895) era naturalista estadunidense. Quando aluno em Yale, trabalhou como assistente de Silliman, de quem se tornou genro. Na mesma universidade, exerceu o cargo de professor de história natural. Após sua participação na Expedição Wilkes, sua carreira como naturalista ganhou grande impulso. Para outros dados biográficos e indicações bibliográficas de estudos específicos sobre o naturalista, ver: STERLING, Keir B. et al. Biographical dictionary of American and Canadian naturalists and environmentalists. Westport, Conn.: Greenwood Press, 1996, p.189-191.

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Carta de Louis Agassiz a mãe Rose Mayor Agassiz, Boston, dezembro, 1846. In: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p.413-414. 2v. Transcrição inglesa: Elizabeth Cary Agassiz. Tradução desta autora.

laboratoriais e coleções mineralógicas de acervos sofisticados, destacando seus objetos raros tal o curioso e “belo exemplar da grande salamandra fóssil de Oeningen, o <<Homo diluvii testis>> de Scheuchzer”. Em 1725, o fóssil de Oeningen foi encontrado por trabalhadores em uma pedreira na cidade alemã de Öhningen. Naquela ocasião, apenas a cabeça e a longa espinha dorsal eram visíveis. O médico suíço Johann Jacob Scheuchzer166 acreditou se tratar de um esqueleto humano, precisamente, de um pecador vítima do dilúvio bíblico. Como resultado, ele chamou a descoberta Homo diluvii testis: “o homem que testemunhou o dilúvio”. Em 1802, o fóssil foi adquirido pelo Museu Teylers, em Haarlem, Holanda, onde a teoria de Scheuchzer foi colocada sob suspeita. Em 1811, Georges Cuvier recebeu permissão para dissecar o fóssil. Após o processo de dissecação, o anatomista francês descobriu as pernas dianteiras de uma salamandra gigante. Desde então, o fóssil é reconhecido como sendo de um anfíbio.167

Além de atualizados com essas e outras descobertas recentes na história natural, os Estados Unidos entraram de forma definitiva na história das viagens científicas com o sucesso da realização da Expedição de Circum-navegação do capitão Wilkes168, da qual o iminente naturalista e importante correspondente de Agassiz, James Dana havia participado. Em 1838, a U.S. Exploring Expedition ́s circumnavigation (1838-1842) ou a Expedição Wilkes desvendava os sete mares, numa jornada de circum-navegação da terra desancorada com seis navios. De responsabilidade da Marinha do país norte-americano, a exploração científica, embora tenha tido objetivos científicos, econômicos, políticos e diplomáticos, teve como principal finalidade o mapeamento de partes da Terra. Como resultado de quatro anos sob os mares, a expedição coletou para o país quarenta toneladas de espécimes vegetais, animais e minerais, organizados em coleções dos acervos do Smithsonian Institution, em Washington, especialmente no jardim botânico da capital. Essa expedição indicou que os norte-americanos já procuravam uma posição de poder no mundo. A criação de seus próprios mapas promoveu a autonomia em relação à Europa e garantiu a segurança dos navios do país.169

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Johann Jacob Scheuchzer (1672-1733) foi um médico suíço e filósofo da natureza, seguidor da teoria do neptunismo, foi também membro da Royal Society. Cf. HOCKEY, Thomas. Biographical encyclopedia of astronomers. New York: Springer, 2007. p. 1019-1020.

167

Cf. RUDWICK, Martin J.S. Bursting the limits of time: the reconstruction of geohistory in the age of revolution. Chicado: The University of Chicago Press, 2005, p. 500.

168

Charles Wilkes (1798-1877) foi um oficial naval dos Estados Unidos. Seu nome ficaria conhecido pela Expedição de Circum-navegação, que o levou ao Oceano Antártico, onde relatou regiões que ficaram conhecidas como Terra Wilkes. Cf. ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA ONLINE. Charles Wilkes.

Disponível em: <http://www.britannica.com/biography/Charles-Wilkes>. Acesso em: 5 de dezembro de 2015. 169

Sobre a expedição, ver artigos diversos da historiadora Mary Anne Junqueira: JUNQUEIRA, Mary Anne. Charles Wilkes, a U. S. Exploring Expedition e a busca dos Estados Unidos da América por um lugar no mundo (1838-1842). Tempo [online]. 2008, v.13, n.25, p.120-138. 2008.

Os esforços civilizatórios dos americanos em relação ao universo científico não pararam por aí, iam em direção ao aperfeiçoamento de suas instituições, tais como museus e universidades. Estas últimas, com mais de três séculos de tradição, são hoje referências na cultura científica Ocidental e reconhecidas no seleto grupo das tradicionais Ivy League.170

O potencial natural, o emergente quadro civilizatório e o aparato científico dos Estados Unidos foram minuciosamente considerados, apontando para a reflexão de uma decisão que, mais tarde, Agassiz faria: a de prosseguir a carreira de naturalista na República americana. Em 1847, ele garantiu sua estabilidade ao aceitar o cargo de professor de zoologia e geologia na Harvard University. Ali, exerceu a história natural até o fim de sua vida sem, no entanto, perder suas fortes ligações com os europeus, inaugurando com eles uma nova rede de correspondência científica.