Em seus primeiros anos nos Estados Unidos, Agassiz morou em Boston, onde lecionou geologia e zoologia na Lawrence Scientific School em Harvard. Ali, estabeleceu a vida profissional e social, que o levou ao contato com o círculo dos intelectuais de New England, que vieram a se tornar colegas, amigos e correspondentes do naturalista. Apesar de formações diferentes, esses estadunidenses compartilhavam algo comum. A maior parte deles pertencia a uma tradicional elite intelectual de New England, formada por indivíduos educados, particularmente, em duas instituições de ensino: o Boston Latin College e o Harvard College, nas quais, alguns deles exerceram funções ou cargos administrativos. Em Boston, Agassiz conviveu frente a frente com essa audiência de letrados, artistas, políticos e !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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AGASSIZ. Contributions to natural history, p.vii-viii. Sobre Francis Calley Gray (1790-1856), nasceu em Salem (Massachusetts) homem de letras, graduou-se em Harvard, foi poeta membro da Phi Beta Kappa Society. Cf. STRANGER TO ALL US: LAWYER AND POETRY. Disponível em:
<http://myweb.wvnet.edu/~jelkins/lp-2001/gray_francis.html>. Acesso em: 15 de fevereiro de 2016. O apoio de Francis Calley Gray dado às publicações de Agassiz também é mencionado em: LURIE. Louis Agassiz: a life in science, p.197.
homens de ciência, enfim, a elite intelectual dos sábios de New England. Na biografia sobre o marido, Elizabeth Cary Agassiz mencionou alguns desses personagens:
Nas letras, havia Longfellow, Lowell e Felton, o genial sábio grego, sobre quem Longfellow mesmo escreveu, “em Ática, teu berço deveria ter sido.” Na ciência, havia Peirce, o matemático, Dr. Asa Gray, apenas instalado no Jardim Botânico e Jeffries Wyman, o anatomista comparativo, nomeado quase ao mesmo tempo com o próprio Agassiz. Com estes, poderíamos ainda acrescentar, como influente caráter científico de Harvard, Dr. Bache, o Superintendente da Coast Survey e Charles Henry Davis, o chefe do Almanaque Náutico [...] Um conjunto mais agradável de homens, ou um mais unido por relações pessoais e objetivos intelectuais, teria sido difícil de encontrar.lxxvii209
Além das ligações institucionais com a Harvard e o Boston Latin College, alguns indivíduos dessa elite intelectual reuniram-se na associação Saturday Club, formada em 1855. Seus membros se encontravam mensalmente em jantares na cidade de Boston, exatamente no último sábado do mês, para discussões especulativas sobre teologia, metafísica, realização intelectual, aspirações poéticas, ações filantrópicas e história natural. A primeira geração do Saturday Club viveu a América pós- guerras: a da Independência e a Guerra de Secessão, quando a pacificação abriu espaço para a literatura, arte e ciência no país. Os tempos de paz com maior prosperidade econômica levaram estudantes a atravessarem o oceano para se educarem na Alemanha. Lá tiveram suas referências filosóficas e científicas ampliadas para além da cultura anglo-saxã imposta nas !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p.458. 2v. Entre os nomes citados neste trecho da carta e mencionados pela primeira vez ao longo do texto, seguem na ordem de aparição, as identificações e seus respectivos dados biográficos: Henry Wadsworth Longfellow (1807-1882) era poeta, tradutor e educador estadunidense. Também escreveu romances, influenciado pelo romantismo alemão. Cf. ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA ONLINE. Henry Wadsworth Longfellow.
Disponível em: <http://www.britannica.com/biography/ Henry-Wadsworth-Longfellow>. Acesso em: 15 de fevereiro de 2016; James Russell Lowell (1819-1891) poeta, crítico, ensaísta, editor e diplomata estadunidense, influente homem de letras de seu tempo. Cf. ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA ONLINE. James Russell Lowell. Disponível em: <http://www.britannica.com/biography/James-Russell-Lowell>. Acesso em: 15 de fevereiro de 2016. Cornelius Conway Felton (1807-1862) letrado estadunidense, professor de literatura grega, foi presidente de Harvard. Nasceu no mesmo ano de Longfellow e Agassiz. Cf. EMERSON. The early years of the Saturday Club, 1855-1870. Boston, New York: Houghton Mifflin Company, 1918, p.161; Benjamin Peirce (1809-1880) foi matemático, astrônomo e professor em Harvard, onde contribuiu com os estudos de estatística, mecânica celestial, álgebra e filosofia da matemática. Cf. ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA ONLINE. Benjamin Peirce. Disponível em:<http://www.britannica.com/biography/ Benjamin-Peirce>. Acesso em: 15 de fevereiro de 2016. Asa Gray (1810-1888) naturalista botânico estadunidense. Exerceu também a medicina. Conhecido pela controvérsia com Louis Agassiz sobre a seleção natural. Realizou vasto trabalho de classificação, mas poucos trabalhos de campo. Cf. STERLING. Biographical dictionary of American and Canadian naturalists and environmentalists, p.324-325. Jeffries Wyman (1814-1874) era um naturalista anatomista estadunidense, assim como Agassiz, esteve em Harvard e dedicou-se a criação de um Museu de Anatomia Comparada. Cf. STERLING. Biographical dictionary of American and Canadian naturalists and environmentalists, p.836-837. Alexander Dallas Bache (1806-1867) médico estadunidense, ganhou reputação ao comandar uma expedição pela costa dos Estados Unidos, conhecida como American Coast Survey. Cf. ODGERS, Merle M. Alexander Dallas Bache: scientist and educator. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1947. Charles Henry Davis (1807-1877) homem de ciência estadunidense que também passou por Harvard, era oficial da marinha. Cf. ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA ONLINE. Charles Henry Davis. Disponível em:
raízes da colonização. Esses sábios, conhecidos na cultura histórica americana como “the New Englanders”, – poetas, estadistas, acadêmicos, homens de ciência, arte, leis e medicina – viveram um despertar de espírito intelectual, uma nova consciência sobre a relação com as instituições políticas, religiosas, educacionais e sociais.210
Agassiz tornou-se não somente um membro notável do Saturday Club, mas também um dos mentores mais importantes. Sua participação foi fonte de renovação do pensamento europeu. Daquele grupo saíram alguns de seus maiores patronos da ciência e melhores amigos. Foi nessa condição que o filósofo e poeta transcendentalista, Ralph Waldo Emerson, também membro do Saturday, tornou-se um dos correspondentes de Agassiz.
Sobre Emerson, sabe-se que não era exatamente um naturalista, no entanto, a natureza tinha um lugar especial em seu pensamento filosófico. Foi autor de Nature, um ensaio que forneceu bases ao transcendentalismo. O movimento filosófico e social idealista do transcendentalismo desenvolveu-se em New England, por volta de 1836, em reação ao racionalismo. Com influências no romantismo, no platonismo e na filosofia kantiana, os transcendentalistas ensinavam que a divindade permeia toda a natureza e a humanidade. Em Nature, no capítulo 4 – Language, filosofou sobre formas de linguagem, entre elas a história natural211:
Palavras são signos de fenômenos naturais. O objetivo da história natural é nos ajudar na história sobrenatural. O objetivo da criação exterior é nos dar uma linguagem para os seres e transformações da criação interior. Cada palavra usada para expressar um fato moral ou intelectual, se rastreada em sua raiz, encontra-se emprestada de alguma aparência material.lxxviii212 Emerson possuía uma profunda ligação com a natureza, sendo que suas referências intelectuais o deixavam em sintonia com o naturalista Agassiz, jovem de formação romântica, sustentador de uma teoria da criação. Elizabeth Cary Agassiz descreveu a relação do marido com o filósofo-poeta nesses termos:
[...] os homens literários e pesquisadores de Cambridge e Boston foram estreitamente unidos; e se Emerson, em sua casa de campo em Concord, estava um pouco mais retirado, sua influência foi poderosa na vida intelectual de toda a comunidade, o conhecimento prontamente nutriu-se da amizade entre ele e Agassiz. O círculo era de tal forma agradável e cultivado, que Agassiz foi recebido nas duas cidades, como se estivesse em !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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Sobre a história do Saturday Club, seus membros e a participação de Agassiz ver: EMERSON, Edward Waldo. The early years of the Saturday Club, 1855-1870. Boston, New York: Houghton Mifflin Company, 1918. 211
Para uma biografia de Emerson tem-se: SNIDER, Denton Jaques. A biography of Ralph Waldo Emerson, set forth as his life essay. Saint Louis: William Harvey Miner Co., 1921. Um recente trabalho sobre o movimento transcendentalista é: PACKER, Barbara L. The transcendentalists. Athens, Georgia: The University of Georgia Press, 2007.
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sua própria casa, e onde as amizades feitas gradualmente transformaram o exílio em vida familiar e de laços.lxxix213
O próprio Emerson ao mencionar em cartas a sua relação com Agassiz, tratava-a de forma elogiosa, tinha o naturalista em alta consideração. Na carta de treze de outubro de 1857, escreveu a poetisa Caroline Sturgis Tappan, contando-lhe a novidade do clube, sobre Agassiz e os jantares mensais:
Nosso clube [Saturday] é uma inovação agradável [...] Agassiz, Peirce, Lowell, Longfellow, Dana, Whipple, Dwight, Hoar, Motley, Holmes e um jantar uma vez por mês; Agassiz é meu dirigente [...], - Eu estive o encontrando, com muito bons propósitos, durante o ano passado.lxxx214 Em outra carta, Emerson novamente descreveu com entusiasmo o clube, emendando o convite para a participação do historiador George Bancroft: “Hoje, nosso "Saturday Club", em Boston, envia-lhe, por mim, o seu convite para o jantar de Shakespeare. Sinta-se à vontade, e venha! São homens bons, seus conhecidos e desejam ansiosamente a sua presença. O Clube conta com cerca de vinte.”lxxxi215
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AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p. 459. 2v. Emerson vivia em Concord, no estado de New Hampshire, o que não o impediu de unir-se aos colegas de New England, em Boston, no Saturday Club. 214
Carta de Ralph Waldo Emerson a Caroline Sturgis Tappan, Concord, 13 de outubro de 1857. In: MYERSON, Joel (Ed.). The selected letters of Ralph Waldo Emerson. New York: Columbia University Press, 1997, p.395. Transcrição inglesa: Joel Myerson. Tradução desta autora. Sobre a norte-americana Caroline Sturgis Tappan (1818-1888) sabe-se que foi uma poeta transcendentalista. Cf. WOMEN in world history: a biographical encyclopedia. Caroline Sturgis Tappan. Disponível em:
<http://www.encyclopedia.com/article-1G2-2591309064/tappan-caroline-sturgis-18191888.html>. Acesso: 16 de fevereiro 2016. Além de Agassiz, Peirce, Lowell, Longfellow e Dana, os demais membros do clube citados na carta são respectivamente: Edwin Percy Whipple (1819-1886) nascido em Gloucester, Massachusetts. Foi crítico e ensaísta estadunidense. Também trabalhou em bancos como homem de negócios, mas representou o Saturday Club, como homem de letras. Cf. EMERSON. The early years of the Saturday Club, 1855-1870, p.117-123; John Sullivan Dwight (1813-1893), nascido em Boston, foi ministro unitarista, participou do movimento transcendentalista. Conhecido pela afeição pela música, sendo crítico do tema e organizador de associações musicais, que divulgavam a arte pelo país norte-americano. Foi um dos membros originais do Saturday Club, o qual representava por meio da música. Cf. EMERSON. The early years of the Saturday Club, 1855-1870, p.46- 52; Ebenezer Rockwood Hoar (1816-1895), conhecido como “Judge Hoar” no Saturday Club, foi um influente político, advogado e juiz estadunidense, tendo ocupado cargos de poder no congresso e na justiça do país. Cf. EMERSON. The early years of the Saturday Club, 1855-1870, p.63-68; John Lothrop Motley (1814-1877), escritor e historiador estadunidense, destacou-se pela obra The Rise of the Dutch Republic, publicada em 1855. Atuou como diplomata, servindo os Estados Unidos em diferentes países europeus e interferindo nos rumos da Guerra Civil Americana. Cf. EMERSON. The early years of the Saturday Club, 1855-1870, p.92-95 e Oliver Wendell Holmes (1809-1894) de Cambridge, Massachusetts, que educou-se em Harvard na Escola de Medicina, onde mais tarde exerceu a carreira de professor de anatomia e fisiologia. Foi médico, escritor, professor e reformador. Autor da série de ensaios The autocrat of the Breakfast-Table (1858). Cf. EMERSON. The early years of the Saturday Club, 1855-1870, p.144-159.
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Carta de Ralph Waldo Emerson a George Bancroft, Concord, 6 de abril, 1864. MYERSON. The selected letters of Ralph Waldo Emerson, p.416. Transcrição inglesa: Joel Myerson. Tradução desta autora. Em relação a George Bancroft (1800-1891), sabe-se que foi historiador estadunidense, famoso por escrever dez volumes da história dos Estados Unidos, History of the United States, from the Discovery of the American Continent (1864). Os volumes fizeram-no ser conhecido como o pai da história americana. Atuou na política, foi diplomata e defensor da educação secundária no país. Entre seus feitos, colaborou com o estabelecimento da United States Naval Academy, em Annapolis. Cf. ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA ONLINE. George Bancroft American historian. Disponível em:<http://www.britannica.com/biography/George-Bancroft-American-historian>. Acesso em: 15 de fevereiro de 2016.
Infelizmente, poucas missivas da correspondência entre Agassiz e Emerson foram preservadas.216 Das cartas encontradas, as primeiras foram trocadas em dezembro de 1864, somente dezoito anos após a chegada do suíço em terras americanas. É certo que ambos se conheceram bem antes disso e do discurso de Emerson, que teria motivado, particularmente, a troca das cartas da década de 1860. Elas refletem uma relação bem menos amistosa do que sugerem as representações descritas por Elizabeth Agassiz e pelo próprio Emerson.
Em doze de dezembro de 1864, Agassiz questionou o poeta transcendentalista e companheiro do Saturday Club sobre suas declarações desfavoráveis aos empreendimentos que o naturalista vinha realizando e sobre o espaço que ocupava junto à disciplina da história natural na Harvard University:
Meu querido Emerson, - Se a primeira conferência de seu curso sobre as universidades foi corretamente informada a mim, estou a ponto de me desentender com você, por ter perdido uma excelente oportunidade para me ajudar e avançar nos verdadeiros interesses da instituição. Você disse que a história natural está ganhando um tremendo espaço, ascendendo entre nós, que está fora de proporção em relação aos outros departamentos, sugerindo que colocar as rédeas sobre o professor entusiasmado e responsável por isso não seria de todo impróprio.lxxxii217
A carta mostra não só a tensão entre os correspondentes, como indica a própria atmosfera competitiva do mundo científico acadêmico que o naturalista encontrava nos Estados Unidos – não tão diferente da cena científica parisiense – e campo propício às intrigas:
Você não vê que a maneira de trazer um desenvolvimento bem proporcionado de todos os recursos da Universidade não é para engradecer o departamento de história natural, mas para estimular todos os outros? Trata- se da escola zoológica crescer rapidamente, ou dos outros [departamentos] não crescerem rápido o suficiente? Isso soa injusto e talvez um pouco arrogante; mas é você e não eu, que insistiu na comparação. Parece-me que você não teve um remédio melhor para esta falta de equilíbrio. [...] por todos os meios ao meu alcance, o crescimento do Museu e os meios de educação relacionados a ele, estou longe de ter um desejo egoísta de ver o meu próprio departamento imperar sobre os outros. Eu desejo que cada um dos meus colegas torne difícil para mim mantê-lo, e existem alguns entre eles, estou feliz em dizer, que estão prontos para apostar uma corrida comigo.lxxxiii218 !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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Referindo-se ao arquivo epistolar de Agassiz em Harvard, na Houghton Library, usado nesta tese e também a uma série de cartas de Emerson reunidas e publicadas em: MYERSON. The selected letters of Ralph Waldo Emerson.
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Carta de Louis Agassiz a Ralph Waldo Emerson, Cambrigde, 12 de dezembro, 1864. In: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p. 619. 2v.Transcrição inglesa: Elizabeth Cary Agassiz. Tradução desta autora.
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Carta de Louis Agassiz a Ralph Waldo Emerson, Cambrigde, 12 de dezembro, 1864.In: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p. 619-620. 2v. Transcrição inglesa: Elizabeth Cary Agassiz. Tradução desta autora.!!
A missiva aponta o desconforto e a decepção de Agassiz ao questionar a lealdade do filósofo. Também descreve um defensor agressivo do espaço da história natural em Harvard, simbolizado pelo Museu de Zoologia. Na passagem final, esclareceu a Emerson como soube das “piores linhas de seu discurso”, aquelas que referiam-se negativamente a ele:
Se, no último domingo, o funeral do Professor Silliman não obrigasse minha ida à New Haven, estaria presente em sua palestra. Depois de tê-la perdido, devo ter ouvido esta passagem repetida de forma imprecisa. Se assim for, você deve me perdoar, e acredite em mim sempre, independente do que você disse ou deixou de dizer.lxxxiv219
A resposta de Emerson foi rápida. No dia seguinte, da cidade de Concord, onde vivia, enviou uma carta de conciliação, para desfazer qualquer dúvida de Agassiz sobre a fidelidade do filósofo e seu apoio quanto a história natural:
Querido Agassiz, rogo para que você não tenha medo de que eu tenha ou possa dizer algo hostil sobre você ou sobre o Museu, para ambos cujas bênçãos, – a causa e o efeito, – eu diariamente dou graças ao Céus. Que os dois cresçam e multipliquem por eras!lxxxv 220
Ao longo da carta, o filósofo construiu sua defesa com uma argumentação que endossava seu apoio à história natural. Primeiro, levantou o fator histórico e da tradição do ensino americano, lamentando o pequeno espaço dado anteriormente à disciplina nas instituições de ensino, se comparado aos ensinos matemáticos, esses tradicionalmente mais valorizados. Por último, Emerson tornou seu argumento pessoal ao relatar sua experiência desagradável, quando estudante em Harvard:
Desenterrei alguns dos rancores remotos, hoje devo a faculdade pelos 45 anos de [formação e atuação], [mas também] pelo desperdício cruel de dois anos dos tempos em que lá foram gastos na matemática, sem qualquer iniciativa de adaptar, seja por tutores hábeis ou por aulas particulares, tais tarefas à capacidade dos alunos lentos. Ainda me lembro do sofrimento inútil, e meu sério recurso ao meu tutor por ajuda, a qual ele não sabia como dar. E hoje eu vejo a mesma imposição indiscriminada da matemática em todos os alunos, durante dois anos [...].lxxxvi221
O trauma estudantil de Emerson com a ciência dos números e das regularidades ironicamente serviu para trazer a questão sobre um sistema acadêmico justamente estagnado em seus padrões curriculares. Passaram-se 45 anos, lembrou o filósofo, e o lugar da matemática permaneceu inabalável naquele sistema educacional. Essa polêmica curricular !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
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Carta de Louis Agassiz a Ralph Waldo Emerson, Cambrigde, 12 de dezembro, 1864. In: AGASSIZ, E. Louis Agassiz: his life and correspondence, p. 620. 2v.Transcrição inglesa: Elizabeth Cary Agassiz. Tradução desta autora.
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Carta de Ralph Waldo Emerson a Louis Agassiz, Concord, 13 de dezembro de 1864. In: MYERSON. The selected letters of Ralph Waldo Emerson, p.420. 2v. Transcrição inglesa: Joel Myerson. Tradução desta autora. 221
Carta de Ralph Waldo Emerson a Louis Agassiz, Concord, 13 de dezembro de 1864. In: MYERSON. The selected letters of Ralph Waldo Emerson, p.420. Transcrição inglesa: Joel Myerson. Tradução desta autora.
atingiu diretamente Agassiz, que lecionava em Harvard duas disciplinas de história natural desde 1848. Em 1864, data da troca dessas missivas, o naturalista estava empenhado em promover o seu Museu de Zoologia Comparada. Pressionado, Agassiz tinha motivos e responsabilidades suficientes para ser uma liderança nas mudanças curriculares que o favorecessem e, por consequência, nos estudos da natureza, tão desejáveis segundo as considerações de Emerson, na carta-defesa:
É natural e louvável em cada professor expandir seu departamento e procurar torná-lo o número um no mundo, se ele puder. Mas, é claro, essa tendência deve ser corrigida, garantindo na Constituição da Faculdade, um poder na direção, (seja singular ou plural), de coordenar todas as partes. De outro modo, departamentos importantes serão sobrepostos, como está acontecendo com a História Natural em Oxford e em Harvard até este momento. Se ocorrer da História Natural obter no futuro o predomínio que a Matemática tem aqui ou o Grego em Oxford, não me entristecerá, pois somos todos curiosos da natureza, mas não da Álgebra. Mas a necessidade de controle sobre os instrutores na direção da faculdade é indispensável, tenho certeza que você concordará comigo, – Você verá que minha alusão à História Natural é apenas incidental em relação a declaração sobre minha queixa.lxxxvii
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A defesa em favor de um espaço razoável à história natural era acompanhada de ressalvas. Emerson continuou a carta dizendo que endossava Agassiz e sua história natural, mas era preciso fazê-lo com diplomacia e dentro das regras do jogo, por meio do diálogo com os educadores dirigentes de Harvard. No final, o filósofo desabafou, acredito que em uma mescla de alívio e constrangimento: “Eu não me lembro se já dei anteriormente uma explicação sobre meu discurso”.lxxxviii223
Se de fato Agassiz e Emerson eram amigos, a carta do naturalista pedindo explicações