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Essa história, já contada nesta tese pelas cartas ao lar, no entanto, desdobrar-se em mais um capítulo amparado em outras 73 missivas e particularmente centrado nas Américas. Dessa vez, em 1865, o Brasil está situado no centro do movimento das cartas do naturalista suíço, ao entrar definitivamente na rota das expedições científicas dos Estados Unidos. As cartas ao Brasil foram trocadas entre Agassiz e o imperador brasileiro D. Pedro II, nos anos de 1863 a 1873. Quando a nova pátria do naturalista, a República dos Estados Unidos, apenas abolira a escravidão, enfrentava uma dura guerra civil, terminando no tenso período conhecido como Reconstrução na história daquele novo país. Por sua vez, nos anos de 1860, o Brasil monárquico estava em plena crise do rompimento das relações diplomáticas com a Inglaterra. O Império brasileiro enfrentava as tensões da inevitável pressão para a libertação dos escravos.

Os dez anos de correspondência entre Agassiz e o imperador brasileiro produziram um conjunto de cartas que selou a articulação entre os dois missivistas, culminando no desembarque do naturalista no solo brasileiro em 1865. Nesse mesmo ano, o Brasil assinava o Tratado da Tríplice Aliança, junto à Argentina e ao Uruguai, envolvendo-se em um conflito armado contra a República do Paraguai. Em geral, Agassiz escreveu um número maior de cartas ao imperador do que dele recebeu. Desses dez anos de correspondência preservaram-se 52 cartas enviadas por Agassiz ao imperador e 21 cartas de D. Pedro II recebidas por Agassiz, num total de 73 cartas trocadas. D. Pedro II chegou mesmo a desculpar-se por não responder uma a uma as cartas recebidas. Durante a maior parte do período de correspondência, a Guerra do Paraguai (1865-1870) dominou suas preocupações, e D. Pedro II dizia encontrar pouco tempo para responder ao naturalista na mesma proporção em que este lhe escreveu.Em contrapartida, nunca perdeu o interesse na correspondência, respondendo ao naturalista entre os dias vinte a 25 dos meses assinalados em suas missivas, como se selecionasse a semana em que se dedicaria à prática da escrita de cartas, como se aquilo fosse um ritual monárquico.283 !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Ver parte I da tese. 283

Ao examinar as datas das cartas de D. Pedro II dirigidas a Agassiz, chama a atenção o fato de que o imperador escreveu quase todas as missivas entre os dias 20 a 25, incluindo até mesmo um 25 de dezembro.

As cartas se dividem em dois principais momentos: o antes/durante e o depois da jornada de Agassiz ao Brasil. Enviadas por Agassiz antes e durante sua viagem ao Brasil, as primeiras cartas possuem maior conteúdo científico. Segundo relata em suas missivas, a razão da viagem estava na chance de o naturalista aprofundar seus conhecimentos sobre os peixes amazônicos e testar sua teoria dos glaciais nos Andes. O argumento, a princípio, era levantar indícios contra o empirismo racional da nova teoria evolucionista da origem das espécies. Mas basta ler o restante das cartas, escritas após a jornada, para duvidar seriamente de que combater a teoria evolucionista das espécies foi mesmo o motivo principal da viagem de Agassiz ao Brasil.

A impressão é que o polêmico evolucionismo tenha sido usado como isca nas primeiras comunicações. Após regressar aos Estados Unidos e de ter conhecido pessoalmente o imperador, Agassiz escreveu suas cartas ao Brasil que praticamente abandonaram tal assunto. Os interesses sociais, políticos e econômicos entre as nações passaram a ser predominante. As missivas tratavam de ações efetivas de aproximação das duas pátrias americanas, numa narrativa que acabou por reforçar as diferenças entre os países, revelando uma nova representação do naturalista como diplomata. O Agassiz que escreveu ao imperador, não era certamente o jovem romântico das cartas ao lar, mas tampouco o mediador cultural entre a Europa e a América, - presente nas cartas científicas, - nem mesmo o centralizador pioneiro de um projeto nacional da história natural norte-americana. Suas últimas missivas são verdadeiras cartas missionárias, correspondem à fase em que Agassiz colocou a si mesmo em plena missão diplomática. Para seu maior biógrafo, Lurie, durante a Guerra Civil e nos anos pós-guerra, Agassiz estava no auge de sua fama pública e sua influência científica estendeu-se para as esferas políticas, diplomáticas e da administração educacional. Tratava-se do Agassiz patriota.284

As cartas ao Brasil, denominadas de correspondência imperial, além de obviamente missivas de Agassiz trocadas com um imperador, ganham tal denominação porque trazem com elas a inquietante questão da relação da história natural com os empreendimentos e negociações entre as nações americanas, em plena construção de identidades nacionais. São fontes na discussão do poder da ciência de associar-se às questões econômicas e políticas de ações imperialistas. O sentido imperialista nas cartas ao Brasil está representado na postura !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Após a morte de Agassiz, em 1873, representada pelo filho Alexander Agassiz e a esposa Elizabeth Cary Agassiz, a família do naturalista mantém a correspondência com o imperador até 1889. Essa correspondência da família também foi transcrita por David James. Cf. JAMES, David. O Imperador do Brasil e os seus amigos da

Nova Inglaterra. Trad. (Introdução e Prefácio) Mário José da Silva Cruz. Petrópolis: Ministério da Educação e Saúde, Museu Imperial, 1956.

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civilizadora de Agassiz como um naturalista da República dos Estados Unidos e nos próprios interesses do imperador D. Pedro II em construir um Brasil moderno. Esse é o fundo histórico das últimas cartas do naturalista que se analisa a seguir.