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As relações epistolares promoveram a circulação de obras científicas entre os países da Europa e os Estados Unidos, além de facilitar o trânsito de profissionais de história natural entre os países.

As relações que Agassiz manteve com os americanos tiveram um peso muito grande. Na América, o naturalista participou de inúmeras viagens científicas e trabalhos de campo, engajou-se em clubes e sociedades científicas, daí estabelecendo uma rede de correspondência no próprio país para viabilizar seus novos projetos. Suas cartas mostram que ele soube se articular fora e dentro dos Estados Unidos, como será esclarecido adiante.

12. Os correspondentes do Novo Mundo e um mundo de saberes

Enquanto selava as relações científicas com os naturalistas franceses na Europa, Agassiz construía novas e fortes alianças na América. Tarefa facilitada pela sua popularidade no mundo científico, levando-o aos primeiros contatos e correspondentes, que logo lhe escreveram cartas de boas-vindas. O naturalista e conceituado professor de Yale, James Dwight Dana testemunhou a apreciação da comunidade científica estadunidense sobre a primeira visita de Agassiz à nação, dirigindo-se a ele em carta: “Posso dizer que todos nós nos apaixonamos por você, e será um prazer quando estiver novamente conosco. – Estou especialmente em dívida com você, pelo seu apoio amável com o [estudo do] fóssil, e nada seria mais prazeroso do que recompensá-lo com todo o meu conhecimento sobre os corais.”lxxiv205

Dana deu sinais claros de que a relação científica por meio da correspondência entre os dois naturalistas estava prestes a prosperar. Já no primeiro contato com o naturalista americano, Agassiz mostrou-se generoso ao assisti-lo na avaliação de um material fóssil. Dana, disposto a retribuir o gesto, ofereceu ao experiente colega estrangeiro todo o seu conhecimento sobre os corais. Confirmando o hábito de seus primeiros contatos e das demais relações epistolares entre ele e seus correspondentes, Agassiz plantou sua semente no país. Deixou sua marca ao exibir as grandes habilidades e saberes científicos cativando a todos, abrindo caminho para suas realizações científicas e garantindo potenciais aliados.

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Carta de James Dwight Dana a Louis Agassiz, New Haven, 1 de julho de 1847. Louis Agassiz Correspondence and Other Papers (MS Am 1419). Houghton Library, Harvard University. Page (seq.1021). Disponível em: <http://nrs.harvard.edu/urn-3:FHCL.HOUGH:2643633?n=1021>. Acesso em: 20 de maio de 2016. Transcrição e tradução desta autora.

Se no círculo de Paris a correspondência de Agassiz foi realizada quase exclusivamente com naturalistas da capital francesa vinculados ao Muséum, sua rede de correspondentes nos Estados Unidos mostrou-se bem mais ampla. Já estabelecido, o suíço não parou de se corresponder com diferentes estadunidenses, oriundos de estados diversos e das mais variadas ocupações. O mapa ilustra a circulação da correspondência, destacando a mobilização de indivíduos nos vários estados e condados norte-americanos, importantes capitais e áreas costeiras ou de grandes lagos e rios (Mapa 1): 206

Mapa 1: Circulação das cartas de Agassiz nos Estados Unidos (1846-1873)

Além da diversidade geográfica da origem das cartas, elas eram assinadas por correspondentes de diversas ocupações. Na América, Agassiz correspondeu-se com artistas, poetas, religiosos, políticos, médicos, viajantes, homens de negócios, filantropos, historiadores, diplomatas, soldados, educadores, letrados, clérigos, atores, matemáticos e mulheres – esposas de homens de ciência ou alunas do naturalista escreveram ao suíço ou !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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Das cartas enviadas a Agassiz dentro do território dos Estados Unidos somam-se quase quarenta diferentes localidades, situadas em pelo menos vinte estados: Albany (New York), Annapolis (Maryland), Bangor (Maine), Boston (Massachusetts), Brookline (Massachusetts), Caldwell (New Jersey), Cambridge (Massachusetts), Carlisle (Pennsylvania), Charleston (South Carolina), Charlotte (North Carolina), Clifton Springs (New York), Columbus (Ohio), Concord (New Hampshire), Devens (Massachusetts), East Rockport (Ohio), Easton (Pennsylvania), Edgartown (Massachusetts), Evansville (Indiana), Philadelphia (Pennsylvania), Fort Sanders (Tennessee), Fort Shaw (Montana), Jamaica Plain (Massachusetts), Lebanon (Pennsylvania), Marietta (Georgia), Memphis (Tennessee), Natchez (Mississippi), New Bern (North Carolina), New Haven (Connecticut), New Orleans (Louisiana), New York (New York), Pittsfield (Massachusetts), Portsmouth (New Hampshire), Princeton (New Jersey), Rochester (New York), Schenectady (New York), St. Louis (Missouri), Waquoit Village (Massachusetts), Washington D.C. (District of Columbia), Webb Hill (Utah). Dados referentes aos registros em: Louis Agassiz Correspondence and Other Papers (MS Am 1419). Houghton Library, Harvard University.

receberam dele alguma missiva. Quanto aos naturalistas, também houve uma grande diversidade a respeito dos objetos da história natural, os correspondentes variavam principalmente dos geólogos aos malacologistas, zoólogos e mineralogistas. A experiência epistolar de Agassiz nos Estados Unidos evidencia ainda mais o caráter diversificado de uma rede de correspondência científica e seu potencial de expandir fronteiras espaciais, intelectuais, sociais e profissionais, formando uma variada comunidade.

O número de naturalistas superava a soma de todos os demais correspondentes, seguida de letrados e outros homens de ciência. No “Novo Mundo”, a rede de correspondência de Agassiz cresceu tanto em número quanto na diversidade dos campos de conhecimento que seus correspondentes dominavam ou na influência que exerciam nas comunidades de saberes no país. Dois fatores são fundamentais para esclarecer o perfil dos correspondentes de Agassiz e o alcance de sua rede de correspondência no mapa da América. Primeiro, sua posição profissional e social em Harvard, que expandiu seu círculo de amizades influentes; e depois, seu projeto gigantesco sobre a história natural dos Estados Unidos, intitulado Contributions to Natural History of the United States of America, que completaria quatro volumes e um museu com coleções de espécimes do país e do exterior. No prefácio do primeiro volume, Essay on classification, Agassiz agradeceu o esforço coletivo de seus colaboradores espalhados por todo o país:

Talvez não possa expressar melhor a minha profunda percepção sobre a generosidade, com a qual meus trabalhos na América têm sido apoiados, do que por uma simples narrativa da maneira como eu coletei os materiais para as seções das quais este volume é o primeiro dentro do crescimento e progresso do projeto de sua publicação. Desde minha chegada neste país, onze anos atrás, eu não perdi a chance de fazer coleções, onde quer que minhas excursões de palestras me levavam; e, por meus esforços, e pela ajuda amigáveis de pessoas por todo os Estados Unidos, que mostraram desde o início um caloroso interesse em minhas atividades científicas [...].lxxv

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Ainda no prefácio, ao descrever a “simples narrativa da maneira” como coletou seus materiais e publicou a obra, Agassiz reconheceu particularmente o empenho do amigo Francis Calley Gray, destacando, entre outras coisas, o uso das cartas como fundamental para o sucesso do empreendimento:

Há dois anos, desde que em conversa com o Senhor Francis C. Gray de Boston – não mais vivo para ver o resultado de seu desinteressado e generoso esforço em nome da ciência, – mencionei as numerosas preparações feitas para ilustrar a Natural History of North America e meu medo de que o alto custo de tais trabalhos impedisse a publicação daquele !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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AGASSIZ, Louis. Contributions to natural history of the United States of America. Boston: Little, Brown and Company; London: Trübner & Co, 1857, p.vii. 1v.

material coletado. Ele entrou imediatamente na questão com uma energia e esperança, das mais inspiradoras: despendeu tempo em ler meus manuscritos; e tendo se convencido da viabilidade de sua publicação, liderou uma subscrição [...], despertando a atenção de seus amigos e conhecidos, por meio de sua própria subscrição liberal, por cartas, por artigos em periódicos, e por todos os meios pelos quais a calorosa amizade e o mais genuíno interesse pela ciência pode despertar.lxxvi208 [grifos desta autora].

Além do reconhecimento a Francis Gray, a declaração de Agassiz aponta a importância da patronagem na ciência. Como patrono, o rico industrial liderou a subscrição que reuniu os recursos financeiros da dispendiosa publicação. Gray imprimiu um prospecto e uma circular privada, descrevendo a proposta de Agassiz e pedindo assinaturas antecipadas, garantindo, no futuro, a obra publicada àqueles que pagassem as subscrições. O patrono faleceu sem vê-la pronta, mas abrira as portas e facilitara imensamente o caminho científico de Agassiz. Foi assim durante toda a estada do naturalista nos Estados Unidos: beneficiou-se da influência dos amigos de New England e, em razão do gigantesco projeto Contributions, multiplicou suas relações de amizades e conhecidos por todo o país, o que significou mais aliados, defensores e colaboradores na história natural. A seguir, esses dois fatores serão explorados, considerando o desdobramento da circulação de cartas e dos relatos intersubjetivos oriundos da rede de correspondência de Agassiz no Novo Mundo.